Q Magazine - Outubro 2017
Entrevista com a banda para a edição na qual Brandon é capa!
Entrevista longa, Ăntima e profunda com a banda, principalmente com Brandon. O vocalista fala sobre o perĂodo mais difĂcil de sua vida, tendo que lidar com a paternidade, a doença de sua esposa e a cobrança para um novo ĂĄlbum. A entrevista tambĂ©m nos traz mais informaçÔes sobre o afastamento do Dave, que assim como o Mark, nĂŁo participarĂĄ da turnĂȘ do Wonderful Wonderful.Â
âPara aqueles que quiserem saber e que apreciam tais coisas, Brandon Flowers fica bem de cueca. Ela Ă© azul escuro, confortĂĄvel, e Flowers tem bastante a confortar.  Ele nĂŁo Ă© tĂŁo imodesto normalmente, mas nĂŁo hĂĄ nenhum outro lugar para trocar de calças no camarim do Portakabin, e todos os presentes, incluindo sua irmĂŁ, podem checar rapidamente o buquĂȘ de algodĂŁo de Flowers.
De toda forma, ele estĂĄ muito feliz para se importar. O The Killers acabou de tocar um curto show na Strip de Las Vegas, fora do Caesars Palace, o icĂŽnico hotel-cassino onde a mĂŁe do baterista Ronnie Vannucci trabalhou como garçonete por 40 anos, e onde o Flowers de 18 anos serviu mesas no Spargoâs Italian. Foi aqui, no Caesars, que Morrissey apareceu uma vez no Spargoâs para uma xĂcara de chĂĄ e uma pizza de cogumelos, e onde Flowers, o maior apĂłstolo do Smiths do hemisfĂ©rio norte, guardou o Santo Graal onde seu Ădolo bebeu. âA XĂcaraâ ainda Ă© uma de suas mais estimadas posses.
Mas hoje, é Flowers que é o santo pop venerado, tocando para alguns mil fãs e quantos mais conseguiram ver nas sacadas dos hotéis em volta, enquanto televisionados para mais de 2.5 milhÔes de telespectadores do Jimmy Kimmel Live! Da ABC.
O The Killers estĂĄ aqui para promover o iminente quinto ĂĄlbum, o blockbuster Wonderful Wonderful, abrindo com sua dançante e satĂrica a la Bowie, The Man. A locação inspira um visivelmente animado Flowers em um buraco nostĂĄlgico, que logo divide histĂłrias com o pĂșblico sobre as origens da banda. Sobre o pequeno apartamento âlogo atrĂĄs desses cassinos na Koval Laneâ onde o guitarrista Dave Keuning vivia, tĂŁo pobre que tinha que subsistir de arroz branco e miojo com ketchup. E como, em uma era prĂ©-celular, Flowers deixava ideias para mĂșsicas na secretĂĄria eletrĂŽnica de Keuning entre os turnos como ajudante no Gold Coast ali perto, entre elas algo meio Lou Reed â âyou gotta help me out, yeeeeeeah, yeeeeahâ - o brilho de All These Things That Iâve Done, do multi-milionĂĄrio disco de estreia Hot Fuss, de 2004. Depois, eles tocam a mĂșsica e durante todos os seus cinco minutos e 49 segundos, parece a maior e mais brilhante coisa na paisagem neon da Strip.
E Ă© por isso que, na apertada Portakabin, de calças trocadas, Flowers estĂĄ todo animado. âEsse sentimento que vocĂȘ tem no palcoâ, ele diz com seu sorriso de Tom Cruise, âĂ© como estar ligado no universo.â Keuning, tambĂ©m, estĂĄ sentado e estranhamente sereno, apesar de ser mais difĂcil de decifrar onde sua cabeça estĂĄ orbitando. Porque cinco horas antes, ele chamou a Q de lado e jogou a bomba de que essa poderia ser um de seus Ășltimos shows com o The Killers.
O baixista Mark Stoermer jå anunciou que ele não faria mais shows com a banda, trocando a estrada pelo refeitório, jå que começaria um bacharelado em história da arte na Universidade de Nova York em Setembro. Stoermer iria tocar hoje a noite, incluindo Vegas, mas pediu licença devido a uma dor nas costas recorrente.
Keuning, similarmente, estå saindo da estrada para ficar em casa com seu filho em San Diego. O que tudo isso quer dizer para o futuro do The Killers, ninguém sabe dizer. Mas o momento, com certeza, parece estranho: assim que eles estão prestes a lançar o ålbum mais intenso emocionalmente da carreira, no qual o vocalista e compositor chefe carrega muito mais que suas cuecas.
âCoisas que eu guardei, protegi e tentei manter privado por anos,â diz Flowers para a Q. âSenti que finalmente era hora de cantar sobre elas. De dividir com o mundo o que estava acontecendo em minha vida.â
O apartamento na Koval Lane de Dave nĂŁo estĂĄ mais lĂĄ. Nem a locação original do brechĂł Buffalo Exchange onde Flowers e Keuning compraram roupas para o primeiro show do The Killers. Ali, entre os trilhos antigos, eles encontraram a fĂŁ de Joy division de 20 anos Tana Mundkowsky, que deu a Flowers o seu telefone. âOh, eu nunca fui do tipo de dar meu telefone a alguĂ©m,â ele lembra. âE pelo que eu sei, ela jura que tambĂ©m nĂŁo era assim. Mas ela teve coragem naquele dia.â E assim, Flowers e Mundkowsky se casaram em 2005 e tiveram trĂȘs filhos: Ammon (10), Gunnar (8) e Henry (6).
O CafĂ© Espresso Roma onde Flowers e Keuning tocaram aquele primeiro show em fevereiro de 2002 tambĂ©m sumiu. Eles tocaram trĂȘs mĂșsicas como uma dupla acĂșstica em uma noite de microfone aberto, incluindo um cover de Side, do Travis, mas as memĂłrias discordam quando se trata das duas originais. Flowers tem certeza de que foi o hino consagrado Mr Brightside, a primeira mĂșsica que ele e Keuning escreveram juntos, e o futuro B-side Under the Gun. Keuning acha que foi uma âmĂșsica sobre ter sido chutadoâ, Replaceable e outra chamada Newsman. Ambos concordam que foi o momento mais nervoso de todas suas vidas. Â
âNunca tive tanto medo,â diz Flowers, relembrando na tarde antes do show no Caesars, no espaço de ensaio algumas quadras a oeste da Strip. âO tempo todo eu estava procurando um lugar para vomitar no chĂŁo, jĂĄ que eu nĂŁo queria acertar ninguĂ©m. Ainda lembro de olhar para baixo pensando âse acontecer, entĂŁo eu vou para a esquerdaâ. Depois disso, comecei a beber antes de tocarmos.â
Para os 60000 fĂŁs presentes no show de julho no Hyde Park, prĂncipe Harry incluso, a imagem de Flowers como um acabado vomitando Ă© absurda perto do mestre showman que voa no palco entre chuva de confete fĂșcsia e uma jaqueta rosa de couro cantando âIâve got news for you baby, youâre looking at the man.â Ao vivo, Flowers Ă© um garoto popular, contando com o estudo intenso de herĂłis como Elvis, Bowie, Bono, Springsteen, Neil Tennant, Dave Gahan e, seu santo bebedor de chĂĄs, Morrissey. Ele Ă© um monstro Frankenstein de todos, e ao mesmo tempo, musicalmente, unicamente seu prĂłprio monstro, um com a estrutura Ăłssea de um galĂŁ dos anos 40 de Hollywood, o tipo de bobo bonito que faz mulheres (e homens) tropeçarem nos mĂłveis quando ele entra na sala. No visual, voz e postura, Brandon Flowers Ă© o popstar mais fabuloso que vocĂȘ encontrarĂĄ no planeta Terra em 2017. SĂł nĂŁo veio naturalmente.
âBrandon era um frontman relutanteâ, diz Vannucci, dono da garagem que servia de sala de ensaios para o The Killers. âEle era muito inquieto sobre tudo. Ele costumava gritar no microfone de nervoso. Sempre tinha algo que ele nĂŁo conseguia falar. Foi algo cultivado e melhorado.â
âDemorou bastante,â Flowers conclui. âPorque eu tinha tanta reverĂȘncia por cantores. Eu idolatrava o Morrissey. Eu sei que todos dizem isso, mas eu realmente, realmente idolatrava. EntĂŁo eu sentia âque direito eu tenho de pegar um microfone?â Se vocĂȘ jĂĄ viu (show de 1991) Morrissey live in Dallas, porque vocĂȘ tentaria estar em um palco? VocĂȘ nunca vai estar tĂŁo bem, vocĂȘ nunca terĂĄ essa admiração de um monte de gente. EntĂŁo levou muito tempo para que eu pudesse superar coisas desse tipo. AtĂ© hoje, nĂłs vimos Depeche Mode em Bilbao, na Espanha, e vi as coisas que eles fazem e sai de lĂĄ com o rabo entre as pernas.â
VocĂȘ nĂŁo tem esse tipo de humildade de gente que encheu o estĂĄdio de Wembley, como o The Killers fez em 2013. Mas o ego de Flowers sempre se beneficiou da grande estrutura de um fĂŁ enlouquecido. Â Uma pista para sua personalidade estĂĄ no quadro de Elvis que fica em sua casa. NĂŁo o Elvis dos anos 50, ou o favorito de Flowers, o Retorno de Elvis de 1968, mas Elvis como um menino loiro de quatro anos. âEu amo fotos de pessoas antes da fama,â diz. âDe quando eles eram jovens e inocentes. NĂŁo sei por quĂȘ.â
Mesmo com 36 anos, tem algo estranhamente inocente sobre Flowers: nĂŁo do tipo Peter Pan ou Forrest Gump, mas algo desprovido de cinismo. Como O Rei, ele Ă© muito educado, e, apesar de nĂŁo ter falta de confiança, na conversa, o fantasma daquela timidez de palco que ele dominou ainda aparece. Ele tambĂ©m tem o hĂĄbito de pontuar suas frases com um riso nervoso, um alto âheheheâ com hĂ©lio, como uma solteirona velha testando um banho frio.  Qualquer um que nĂŁo sacou que The Man Ă© a cutucada de Flowers no macho alfa, nĂŁo o babaca que pode parecer de primeira, realmente precisa ouvir O Riso.
Brandon Richard Flowers nasceu no excesso de Vegas no dia 21 de junho de 1981, enquanto a America dançava com os tons de Kim Carnes em Betty Davis Eyes. Herdando o gosto anglofĂlico alternativo de seu irmĂŁo Shane, 12 anos mais velho, ele insiste que nunca foi o garoto clichĂȘ indie. âEu queria ser bom nos esportes. Eu queria ouvir The Smiths E ser o quarterback do time.â
E vocĂȘ foi?
âNĂŁo! (A Risada) E nunca nem joguei futebol. Mas eu tinha em mim que eu queria ser BM nessas coisas. Talvez tenha algo a ver com querer agradar meu pai.â
As memĂłrias mais queridas de seu pai, Terry, um vendedor que se converteu ao mormonismo quando Brandon tinha seis anos, sĂŁo aquelas onde eles assistiam ao programa semanal de boxe.  âForam uns dos melhores momentos da minha vida. Sentar e me relacionar com meu pai, ficando acordado atĂ© mais tarde esperando os pesos-pesados no final. Qualquer coisa que ele gostava, eu queria participar.â
Ele tinha oito anos quando ele e seu pai assistiram a chocante derrota de Mike Tyson para Buster Douglas em 1990 no pay-per-view na casa de um amigo do outro lado da rua. A memĂłria do invencĂvel Tyson caindo na lona assombrou Flowers desde entĂŁo, tanto que ele decidiu âcavar e explorarâ na nova musica do The Killers, Tyson VS Douglas. No seu lamento por um lutador caĂdo com alguns comentĂĄrios de ringue, eu digo a ele que nĂŁo Ă© muito diferente do single de 1995 de Morrissey, Boxers. Sempre o apĂłstolo, ele impulsivamente cai na letra de abertura, copiando-o â(canta) Losing in front of your home crowd... (A Risada). Ă, acho que sim. Mas a mĂșsica na verdade Ă© sobre mim e minha famĂlia, e como eu sou notado pelos meus filhos. NĂŁo quero que eles me vejam cair como Tyson.â
Hoje, Flowers estĂĄ com mĂșsculos intimidadores devido a um regime de exercĂcios diĂĄrios: como Robbie Williams, ele acredita que ninguĂ©m gosta de um popstar gordo. Mas quando criança, ele sofreu para se defender, como descobriu depois que sua famĂlia se mudou para Nephi, Utah, quando ele tinha nove anos. âEu apanhai algumas vezes de uns garotos do campo,â ele ri. âEles sĂŁo mais fortes que os garotos da cidade. Quer dizer, vocĂȘ deveria ver as mĂŁos deles. Essas crianças cresceram em fazendas, ajudando seus pais, pegando em cordas e mexendo com animais. EntĂŁo eu fiquei a mercĂȘ deles algumas vezes. Apenas por ser diferente. Aprendi que ou eu ficava longe, ou eu teria que aprender a me defender. (A Risada). EntĂŁo eu sĂł fiquei longe.â
Flowers voltou Ă Vegas para terminar o colĂ©gio, vivendo com sua tia em frente ao cassino Samâs Town, que coroou o segundo ĂĄlbum do The Killers. Depois de um alarme falso com dois estudantes de cinema em um trio synth-pop, Blush Response,  entĂŁo batizado pelo fogo vivo do Oasis no Hard Rock Hotel em maio de 2001, ele finalmente encontrou seu destino nos classificados do jornal.
Dave Keuning, quase cinco anos mais velho que Flowers, tinha se mudado de Iowa na esperança de começar uma banda, jĂĄ que era mais barato viver em Las Vegas do que Nova York ou Los Angeles. Ele estava quase desistindo e indo embora quando Flowers respondeu ao seu anĂșncio de precisa-se de mĂșsicos. âNĂłs começamos imediatamente,â diz Keuning. âEntĂŁo eu dei uma fita a ele com algumas mĂșsicas. No ensaio seguinte ele veio com as letras. Uma delas era Mr. Brightside. Eu fiquei tipo âWow! Isso Ă© divertido. Isso Ă© bom.ââ
âBrandon e Dave estavam tĂŁo malucos com isso quanto eu,â diz Vannucci. âEra uma atitude compartilhada. NĂłs tocamos em alguns bares, nĂłs nos arrumĂĄvamos e tocĂĄvamos como se estivĂ©ssemos em Knebworth. Todos nos animĂĄvamos. EntĂŁo veio o Mark no baixo e foi ai que realmente começamos a acontecer.â
Nenhum deles poderia ter previsto o sucesso rĂĄpido que o The Killers conseguiu com o lançamento de Hot Fuss em 2004. âA viagem de fogueteâ como chama Vannucci.  âFoi tĂŁo rĂĄpido,â diz o baterista. âEu amo que tenha acontecido, mas acho que nĂŁo estĂĄvamos preparados para aquilo, e, como banda, nĂŁo nos conhecĂamos muito. NĂłs nos conhecemos, ficamos um ano fazendo mĂșsicas e entĂŁo de repente vocĂȘ estĂĄ amarrado nesse foguete com outros trĂȘs caras e precisa aprender um sobre o outro rĂĄpido. Ă pavoroso. Ă fudido. Eu acho que ainda estamos nos recuperando um pouco disso.â
Flowers administrou como tinha administrado seu medo de palco no primeiro show no cafĂ©. Com bebida. âNos primeiros dias era sĂł Coors Light. (A Risada) Foi aĂ que eu comecei. Mas evoluiu depois. Caramba...â
Uma de suas primeiras lembranças de infùncia é estar no carro de sua mãe, dirigindo pra cima e pra baixo em estacionamentos de cassino. Com a noção de adulto, ele percebe que eles estavam procurando por seu pai. Apesar de sóbrio desde sua conversão, Terry Flowers era um alcoólatra, assim como seu pai e o pai de seu pai. Pergunto a Flowers se, como filho dessa linhagem alcoólatra, ele tinha medo de a história se repetir. Sua resposta é inesperada.
âNĂŁo,â ele diz calmamente. âAcho que usei como uma permissĂŁo. Ao invĂ©s de ter medo, meio que tornei uma justificativa. Que Ă© o motivo de eu temer pelos meus filhos.â Â
O assunto hedonĂstico de Flowers, como ele especifica como ânos primeiros ĂĄlbunsâ â ainda o deixa muito desconfortĂĄvel. A Risada se torna trĂȘmula atĂ© que ele subconscientemente coloca uma mĂŁo na boca, como se fosse um meio de fazer ela se fechar.
Provavelmente vocĂȘ precisou de muitas Coors Lights?
âProvavelmente. E entĂŁo quando fizemos o Samâs Town era diferente.â
Drogas?
(A Risada remix)
VocĂȘ nĂŁo gosta de falar sobre isso, gosta?
âEu nunca falei sobre isso... (sorriso em pĂąnico). Eu sĂł nunca... (olhos de filhotinho cheios de culpa) Eu... Eu nĂŁo gosto de falar sobre isso.â
VocĂȘ acha que estava tentando ser alguĂ©m que vocĂȘ nĂŁo era?
âEu senti que precisava fazer, sim,â ele diz, relaxando um pouco. âPara ser visto como relevante, sabe? Na mesma Ă©poca vocĂȘ tinha The Libertines e The Strokes, e o modo como eles eram, entĂŁo se vocĂȘ nĂŁo fosse pra essa ĂĄrea Ă© como se vocĂȘ nĂŁo fosse ârealâ. Era idolatrado. NĂŁo existe palavra melhor. Apesar de sabermos pra onde leva e quantos problemas tem, AINDA fazemos. AINDA Ă© feito. EntĂŁo eu dei uma chance e percebi que nĂŁo era bom nisso. NĂŁo era para mim.â
Flowers estĂĄ limpo e sĂłbrio desde que se tornou pai, 10 anos atrĂĄs. Para todos, ele e sua esposa Tana tem a famĂlia perfeita, vivendo felizes para sempre com seus trĂȘs meninos em uma casa mansĂŁo de estilo colonial espanhola de 4 milhĂ”es de dĂłlares, com sua piscina no quintal, escada belga e o grande piano presente de seu amigo Elton John. Mas pelos Ășltimos cinco anos, enquanto Flowers gravava e fazia shows, ele mantinha uma cara de coragem ao lidar com um pesadelo em casa.
âTem sido... louco,â ele diz, procurando pelo adjetivo correto. âTem sido horrĂvel.â
Em 2013, a esposa de Flowers, Tana, deu uma entrevista ao site Mormon Women, onde ela fez alusĂŁo a um passado com uma famĂlia abusiva e seus problemas com ansiedade e depressĂŁo. âĂ um problema mĂ©dico e eu tenho os sintomas,â ela admitiu. Flowers diz que sempre suspeitou que houvesse âalgo escondidoâ em sua esposa. âMas nĂŁo se manifestou completamente atĂ© ela ter uns 30 anos.â Tana foi entĂŁo diagnosticada com uma forma extrema de Transtorno de Estresse PĂłs Traumatico, conhecido como TEPT Complexo.  âO que separa o TEPT complexo da outra forma Ă© que envolve muitos eventos traumĂĄticos, â ele explica. âNĂŁo Ă© sĂł uma coisa que desencadeia. SĂŁo tantas coisas que aconteceram com ela. Eu nĂŁo entendia antes. E nĂŁo terĂamos conseguido de nenhum outro jeito se ela nĂŁo tivesse procurado ajuda.â
A condição de Tana finalmente se tornou crĂtica em Agosto de 2015, mĂȘs em que Flowers estava na turnĂȘ de seu segundo ĂĄlbum solo, The Desired Effect, quando ele cancelou as Ășltimas seis datas americanas de repente. A explicação oficial na Ă©poca foi âdevido a circunstancias inesperadas.â
âEu cancelei aquela turnĂȘ,â ele agora revela, âporque ela chegou em um ponto â isso Ă© muito difĂcil de falar â mas ela estava tendo pensamentos suicidas. Estava tĂŁo complicado assim.â
Ao lidar com a seriedade do estado mental de sua esposa, simultaneamente criando trĂȘs crianças pequenas, sua criatividade ficou, Ă© compreensĂvel, fora de combate.  âEu estava batalhando muito,â ele diz sobre suas primeiras tentativas  de começar a trabalhar no prĂłximo disco do The Killers em Outubro de 2015. âFazia trĂȘs anos desde o Battle Born. Eu sabia que estava na hora de escrever outro disco, mas quando eu sentava para ver o que acontecia, nada vinha. Eu comecei a duvidar de mim mesmo.â
Ele ainda se forçou a fazer o ritual de sentar no piano de Sir Elton todo dia. âEu nunca desisti, mas elas eram mĂșsicas horrĂveis,â ele diz, virando os olhos. âE muitas delas. Tinham noites que eu  as ouvia e me sentia derrotado.â
Eu pergunto se, como um homem religioso, ele alguma vez se voltou a Deus para aliviar suas dores?
âEu acho que Ă© estranho pedir para isso quando eu deveria estar rezando por minha famĂlia e sua segurança, e coisas assim. Mas eu sinto que cheguei no ponto que era tipo (olha pra cima) âAh, vai, me manda alguma coisa!â (A Risada) Mas Ă© raro eu fazer isso.â
Por sorte, Flowers nĂŁo precisava de Deus jĂĄ que ele tinha a segunda melhor opção: Bono. Era dia dos pais em 2016 quando ele visitou o vocalista do U2 em sua casa em Malibu. âFui como um peregrino,â ele brinca. âDisse a ele que eu estava travado e perguntei se, com tantas boas mĂșsicas por ai, eu teria algo a oferecer. E em um momento eu perguntei âtodas as mĂșsicas jĂĄ foram escritas? (Have all the songs been written?)â e ele disse, âesse Ă© um Ăłtimo tĂtulo.â EntĂŁo eu usei.â
Have All The Good Songs Been Written? Começou como uma catarse, mexendo com sua dor e dĂșvidas e transformando-as em mĂșsica e letras. âEu percebi que sentar e escrever uma histĂłria nĂŁo era o que eu deveria fazer naquele momentoâ, diz. âEu sabia que nesse ĂĄlbum eu finalmente teria que olhar para mim mesmo, quem eu era, e tudo que estava acontecendo na minha vida. EntĂŁo em muitas das mĂșsicas eu estou cantando sobre minha esposa.â
Flowers diz que foi apenas escrevendo sobre a situação da Tana que ele pode compreender completamente a complexa natureza da doença mental. âMe ajudou a entender o que ela estava passando porque eu podia colocar em palavras, colocar minha cabeça naquilo e realmente navegar. Muitos relacionamentos acabam quando essas coisas acontecem. Como um compositor, eu tive que dissecĂĄ-las.â
VocĂȘ deve ter precisado perguntar a permissĂŁo dela para cantar sobre e falar sobre isso em pĂșblico.
âEu pedi, e nunca precisei fazer isso antes. Ela estava relutante no começo. Mas entĂŁo algumas mĂșsicas se tornaram tĂŁo bonitas que se tornaram coisas especiais para nĂłs. Eu sentado passando as letras com ela, e tocando mĂșsicas para ela no piano. Acabou nos aproximando. Parece muito poderoso agora. Ela abraçou totalmente.â
A primeira mĂșsica que ele escreveu para Tana foi Some Kind of Love, baseada na melodia de An Ending (Ascent), de Brian Eno. âMeu bloqueio estava tĂŁo ruim assim,â ele ri. âEu estava tentando tanto escrever que acabei escrevendo uma letra para mĂșsica do Brian Eno.â A gravação final ficou ainda mais tocante com um coro de seus filhos adoravelmente cantando âCanât do this without  you/We need you at home (NĂŁo podemos fazer isso sem vocĂȘ/Precisamos de vocĂȘ em casa)â.
âAh, Ă© pesado,â ele concorda. âĂ triste. Eu os levava para a escola e os ensinava essa parte e cantĂĄvamos em todas as idas, para economizar tempo no estĂșdio. Eles logo pegaram. Foi legal, mas tambĂ©m foi difĂcil. As crianças nĂŁo entendiam muito bem o porquĂȘ de eles estarem cantando aquilo. Mas Ă© bem sentimental.â
Tana tambĂ©m Ă© a âmotherless child (criança sem mĂŁe)â de Wonderful Wonderful, a mĂșsica tĂtulo dramĂĄtica. âA mĂŁe dela praticamente a abandonou,â ele explica. âentĂŁo esse Ă© o primeiro trauma de sua vida.â Outra mĂșsica, Rut, era tĂŁo transparente como uma letra de dor e salvação que Flowers teve que fazer o incomum de explicar para o resto da banda. âO que Ă© algo que nunca faço. A Ășnica vez que aconteceu foi com Human (e seu problema gramĂĄtico em Are we human/Or are we dancer?). Antes dessa mĂșsica ser controversa para o mundo, foi controversa para Ronnie e Mark. EntĂŁo com Rut eu tive que explicar porque essa mĂșsica significava tanto para mim. Porque nĂŁo somos sempre tĂŁo comunicativos assim. (A Risada)Foi um processo estranho.â
O quĂŁo estranho sĂł se tornou claro quando, no dia seguinte, a Q falou com Keuning durante o photoshoot na cobertura do Caesars; 35 mil dĂłlares por noite com mĂłveis japoneses, pĂĄtio com jardim zen e uma mesa de sinuca roxa comprada pelos gostos de Justin Bieber e JLo. Questionado sobre a produção de Wonderful Wonderful, o guitarrista nĂŁo exatamente se empolgou. âĂ o que Ă©,â ele diz, sem se comprometer muito, explicando que, por algum motivo, ele nĂŁo esteve muito envolvido no fim das gravaçÔes, âque Ă© quando a maior parte das coisas sĂŁo feitas.â Â
Ele adiciona que sua mĂșsica favorita Ă© Run For Cover, âporque tem 9 anos.â Pergunto sobre muito do CD ser sobre a esposa de Flowers e como ele reagiu quando Flowers explicou a letra de Rut para a banda. Stoermer havia confirmado mais cedo que, de fato, Flowers fez isso. Mas Dave parece genuinamente confuso pela pergunta.
âQuais mĂșsicas sĂŁo sobre a esposa do Brandon? Eu nĂŁo sabia disso.â
A conversa de repente fica muito embaraçosa. Ă quando pergunto sobre a decisĂŁo de Stoermer nĂŁo participar da turnĂȘ que o gato de Keuning sai da cartola. âEu nĂŁo deveria dizer nada,â ele diz, cautelosamente, âmas eu tambĂ©m nĂŁo vou.â Ele adiciona que deverĂĄ ter um anĂșncio oficial atĂ© a hora que essa edição da Q seja lançada. O catalisador, segundo ele, Ă© a prevista âagenda doida de turnĂȘâ e sua falta de disposição de ficar longe de casa. Como Stoermer, ele espera, em teoria, continuar gravando com o The Killers. âTudo que sei Ă© que eu nĂŁo vou na turnĂȘ,â ele diz. âHonestamente nĂŁo sei o que acontecerĂĄ depois.â
Uma semana depois, Keuning envia um email para a Q, ampliando seus motivos. Ele começa dizendo que ele tambĂ©m achou o show de Vegas muito emotivo: ele ainda tem a antiga secretĂĄria eletrĂŽnica que Flowers mencionou, no fundo de seu armĂĄrio. Ele afirma que ele e Flowers âainda sĂŁo prĂłximos... como irmĂŁosâ, apesar de adicionar que âĂ© justo dizer que nem sempre estamos na mesma pĂĄgina, e que temos vidas diferentes com compromissos diferentes.â
De toda forma, a esperança é que Keuning e Stoermer participem de alguns shows selecionados no futuro.
âEu amo a mĂșsica, e os fĂŁs,â ele conclui. âNĂŁo foi uma decisĂŁo fĂĄcil. Disso tenho certeza.â
LĂĄ atrĂĄs em 2010, um Flowers de 29 anos, pai de dois filhos, contou para a Q que sofria de um medo deâ estar perdendo muito da minha famĂliaâ. Esse medo sĂł cresceu. âEu ainda me sinto culpado quando estou longe,â ele diz, ecoando com o que parece exatamente o mesmo problema de Keuning. âMinha mulher e filhos sĂŁo o centro do meu universo. EntĂŁo, quando estou em casa, sou totalmente devoto a eles.â
SĂŁo sete anos desde que Flowers perdeu sua mĂŁe, Jean, para um cĂąncer no cĂ©rebro, com apenas 64 anos. Seu pai, Terry, estĂĄ Ăłtimo, e completa 73 em setembro. Ultimamente, Flowers tem começado a aceitar que alguns de nĂłs nos tornamos o que tememos com o tempo. âVocĂȘ pode tentar o quanto quiser, mas me vejo fazendo coisas, e coisas saindo da minha boca e Ă© como se meu pai tivesse acabado de entrar,â ele ri. âTem coisas gramaticamente erradas que ele fala que eu falo. Eu falo mesmo sabendo que Ă© errado. Tipo, ele diz âvocĂȘ nĂŁo vai a lugar nenhunsâ. Ele joga um âsâali. Eu percebi que tenho feito isso de vez em quando.â
Flowers raramente vĂȘ TV mas, quando o tempo permite, maratona algumas sĂ©ries. âBetter Call Saulâ, ele conta, âĂ© quase tĂŁo bom quanto Breaking Bad.â Ele nĂŁo sabe muito na cozinha, mas estĂĄ tentando aprender a lendĂĄria receita de espaguete de seu pai (sĂł o molho â a ideia de fazer o macarrĂŁo fresco Ă© recebida com um tapa na coxa âDe jeito nenhum!â). Mas mesmo nos dias livres ele nunca para totalmente de trabalhar. O estĂșdio do The Killers, Battle Born, Ă© apenas 6 minutos distante de sua casa. âĂ raro ter um dia que nĂŁo vou para lĂĄ.â
Mas tudo isso irĂĄ mudar. Flowers estĂĄ saindo de Las Vegas. NĂŁo porque ele quer, mas porque, pelo amor por sua esposa, ele precisa.
âA cidade toda Ă© marcada para ela,â ele explica. âEu tenho ruas e ĂĄreas que me fazem sentir nostĂĄlgico. Mas para ela, pode lembrar de algo diferente que sirva de gatilho. EntĂŁo estou deixando minha cidade porque serĂĄ melhor para ela.â
O novo lar serĂĄ em Utah, capital americana do Mormon, onde Flowers passou o fim de sua infĂąncia. âĂ agridoce,â ele diz. âMas tambĂ©m tenho Ăłtimas memĂłrias de ser uma criança em Utah.  Tem um pouco mais de liberdade lĂĄ, entĂŁo estou animado. Estou ansioso para brincar na neve com as crianças, e trazer pra casa nossa primeira ĂĄrvore de natal.â
EntĂŁo vocĂȘ realmente irĂĄ confiar âA XĂcaraâ aos caras da mudança?
âFicarĂĄ tudo bem. (A Risada) EstĂĄ em uma caixinha estranha. ChegarĂĄ segura em Utah.â
Quando Flowers começou a mexer nas coisas para a mudança, ele encontrou sua coleção de memĂłrias de quando ele e Tana namoravam. Ela, tambĂ©m, encontrou sua prĂłpria caixinha. Na de Flowers, ele ainda tem o pedaço rasgado de papel com o telefone dela, que ela deu hĂĄ quase 16 anos na Buffalo Exchange. Na de Tana, ela encontrou a folha original de onde rasgou o pedaço. âĂ muito legal,â Flowers sorri. âPorque vocĂȘ pode juntar os pedaços. E eles se encaixam perfeitamente.â
Refletindo sobre a recuperação de sua esposa e a sobrevivĂȘncia do matrimĂŽnio, Flowers atribui a resiliĂȘncia a uma fĂ© compartilhada. Como cristĂŁo e mĂłrmon, claramente significa do modo religioso. âUma de minhas citaçÔes favoritas Ă© de Johnny Cash,â ele completa, âsobre como âSer cristĂŁo nĂŁo Ă© para maricas. Ă preciso um homem forte para viver por Jesus. Ă muito mais difĂcil do que viver pelo diabo.â Heh!â
Mesmo assim, uma forma diferente de fĂ©, quase um otimismo cego, parece evidente no comprometimento de Flowers com sua banda: qualquer coisa, ou quem, que compor seu ainda incerto futuro. âMinha indentidade Ă© ser o vocalista do The Killers,â ele admite, orgulhosamente. âĂ quem eu sou.â
O coração e ambição de Wonderful Wonderful nĂŁo soa como O Fim. Mas aqueles que temem que pode ser, talvez se confortem com a filosofia de Vegas de Flowers.  âCrescendo em Vegas, era comum ver lugares que conhecĂamos e amĂĄvamos simplesmente serem destruĂdos,â ele diz. âE entĂŁo construĂam algo maior e melhor no lugar. Acho que Ă© totalmente parte do nosso DNA como banda.â
Algo maior e melhor. Como diz o pai de Brandon, o The Killers nĂŁo vai a lugar nenhuns. â Â
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