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Heretics | Para 02
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Quanto mais aqui, de fato. A concordância da princesa, por mais desejável e compreensível que fosse — ela ainda era protestante, afinal, não importava o apreço que tivesse por aqueles a seu redor; ainda conhecia a profunda aversão que a maioria expressava à primeira oportunidade e o peso de carregar um segredo tão inofensivo —, veio como uma surpresa. Os cantos de seus lábios se contraíram, indecisos entre o tênue alívio por suas palavras não haverem sido tomadas como ofensa e um amargo humor pela situação de ambos. Ao menos já não estavam mais sós ali. Seus olhos se encontraram, formas pouco distintas à luz débil, mas, por um breve instante, James teve a sensação de que ela podia facilmente ver através dele.
A sensação logo amainou, porém. — Adelaide — repetiu, a sombra de um sorriso rascunhada em seu rosto enquanto experimentava o nome pela primeira vez sem o acompanhamento de um título formal. Era um nome belo, com uma cadência agradável. Parecia servir à sua dona como um manto feito sob medida. — Adelaide, então — uma vez mais, como se para se acostumar ao vocativo. Subestimara as distâncias que poder usá-lo seria capaz de diminuir. Quantas coisas os detalhes certos, por menores que fossem, podiam mudar. A falta de um título deixava em si a impressão de que falava com alguém em igual patamar, sem uma hierarquia a alijá-los. Uma impressão errônea, ele sabia, mas ainda reconfortante a seu lado mais irracional.
Que ela já era familiarizada com lorde Ewing não lhe vinha como grande surpresa. Lembrava-se de menções sobre a mulher — ou, antes, meramente garota — em suas conversas com ele, embora o homem dificilmente ousasse se aprofundar naquilo que não sabia com certeza. A admiração por parte do tio dela, por sua vez, era informação nova. James tinha uma suposição tentativa quanto à qual tio ela se referia; suposição que permaneceu guardada em sua mente, mas foi logo confirmada. Um pequeno sorriso divertido, um assentir silente. Agora, lembrava-se dos comentários de Philip em protesto a seu exílio. Um homem tão bom! Uma mente jovem e aguçada! Sempre teve tanto potencial! Naeworth perde um de seus melhores representantes e isso sequer me surpreende! Se haviam tido mais do que interações breves, então o guarda era ignorante do mesmo, mas o apreço parecia ser mútuo.
— Realmente os tenho — confirmou em resposta à observação alheia. — Devo muito a eles. Nunca me trataram como menos do que um filho — não mencionou o quanto tal tratamento significava para si; o quanto, por tantas vezes em sua infância, parecia ser tudo o que possuía para lhe servir de âncora. Também se esquivou, meramente por não ser seu lugar fazê-lo, de mencionar sua ciência de que aquele acolhimento na família dos Ewing tinha algo de deliberado: era um garoto sem pais que merecessem assim ser chamados e eles, um casal sem filhos próprios nem chances de tê-los num futuro. No entanto, nunca ousaria acusar aquele arranjo de interesseiro nem duvidava que, caso lady Catherine houvesse engravidado alguma vez, eles ainda lhe acolheriam, daquela vez com um irmão ou irmã. — E ela é — tornou a concordar. — Uma das mulheres mais fortes que já conheci — então, um acréscimo impulsivo, mas firme em uma certeza de origem desconhecida até para si: — Creio que ela também gostaria de conhecê-la. Sempre teve lembranças doces de sua mãe, ao menos — um encolher de ombros. Também se lembrava vagamente dos comentários da mulher havia anos atrás, comentários os quais James duvidava que ela soubesse que ele estava ouvindo. Pobre garota, teria uma mãe e uma rainha tão boa… — Talvez um dia. Por que não? — ofereceu, lábios erguidos em simpatia.
Então, de fato fora o duque Adrien o responsável a introduzi-la ao protestantismo. Sim, dificilmente haveria outro da religião naquela corte. A irônica menção da falecida Anne-Claire logo quando sua memória havia acabado de lhe ocorrer pareceu descer novamente a espessa cortina de tensão ao redor deles; um breve momento de silêncio que, para sua sorte, logo foi rompido. Apesar do peso recém-reencontrado, permaneceu a ouvi-la com atenção. Quiçá tivessem ainda mais em comum do que supusera no início, percebeu pesaroso. Um pai distante, pelo que concluía das hesitantes palavras dela e por suas próprias impressões do rei, embora elas estivessem embebidas de seus próprios preconceitos conseguintes da amizade dele com seu próprio patriarca. De qualquer forma, ela também tivera um tio para cumprir o papel do mesmo. Por um fugaz momento, perguntou-se o quanto Philip de fato sabia sobre Adrien, o quanto mais admitiria em voz alta. Se havia suspeitado algo. Podia ouvir na voz de Adelaide seu carinho pelo homem e, por sua descrição — pelo encontrado nos detalhes —, podia também entender sua causa. Sem dúvida também havia de ser um homem entre muitos.
Não deixara de notar como o olhar de Adelaide parecia perdido em um horizonte ainda mais distante do material; quiçá se intrometera em um assunto demasiado delicado. Assim, quando ela voltou a mirá-lo, viu-se tenso. Conhecia a história do duque, é claro, mas em linhas gerais. Nunca imaginara ouvi-la de alguém com um laço tão profundo com o mesmo. Sob a prata do luar, pensou ver lágrimas a brilharem em seus olhos. Já não sabia como agir, o que dizer, se lhe cabia dizer algo. Oferecer um pedido de desculpas, talvez. Insistir que ela não havia de lhe oferecer mais explicações. Novamente, foi para sua sorte que ela se adiantou em continuar o diálogo.
Suas próprias íris oscilaram para o chão antes de retornar a ela devido à insistência pessoal. Desejou que pudesse fazer algo. Encontrar um intermédio entre as cartas, por arriscado que fosse. Contudo, ele também estava preso ali, com limitada liberdade de ir e vir. Havia limites os quais seriam pouco sábios de ultrapassar. Era muito mais descartável do que Adelaide, afinal. Ao menos era o mais lógico que assim fosse. Um novo assentir. Um nó em sua garganta, palavras que lhe fugiam. Não conseguia evitar que sentisse compaixão, não quando compreendia os sentimentos por ela expressos. Ao mesmo tempo, não era tão familiar com apreço dissimulado, apenas cortesias com a mesma caracterização. A maioria não tinha por que se conter em mostrar desprezo a um bastardo — não até onde não esbarrassem na honra e no orgulho do duque. Em sua mente, as palavras do mesmo em uma memória muito mais fresca: uma mulher no trono! Pode imaginar o desastre que seria? Já deveria haver se casado com um cavalheiro de Naeworth. Em quem mais poderíamos confiar? Quando o entreouvira, sabia que as frases não deveriam estar tão separadas. Queria alguém de sua confiança no trono. Se dessem demasiado poder a uma mulher, ela se tornaria muito indômita, afirmava. Indagava-se se Adelaide já escutara rumores dos mesmos comentários. Se suspeitava tanto quanto ele do quão longe certos homens estavam dispostos a ir para garantir a ordem em que tanto criam. No entanto, nenhuma daquelas observações cabia ali. O que sequer seria adequado?
Engoliu em seco. — Imagino como se sente — arriscou. — Desde que minhas irmãs se casaram…. apartar-se de lorde Ewing sempre significou estar atrapado e só. Nunca tive muita escolha — um riso silencioso, sem humor, dedicado a si próprio. — E talvez seja apenas o mal da alta classe, o fingimento crônico — considerou. Quase todos pareciam iguais. Ele próprio era frequentemente forçado a aderir ao mesmo comportamento. — Desafortunadamente… desconheço a solução para esse problema — uma admissão hesitante, olhos outra vez titubeando para o chão. — Mas pretendo cumprir meu voto de lealdade para com Vossa Alteza, se isso faz algo para aliviar seu desespero — ofereceu, tentativo, tornando a encará-la. A frase parecia errônea, deslocada. Contudo, o que mais havia a dizer? Que ambos já não estariam sozinhos, como se pudesse ousar ter similar intimidade com ela? Sua proximidade, apenas o tempo haveria de decidir. Por um breve momento, desejou que, de fato, pudessem florescer como real companhia um para o outro. Amigos, em vez de ser o mar entre o outro e novas pessoas em sua vida. Aquela noite parecia almejar por encaminhá-los a tanto. Ainda assim… — Philip… lorde Ewing também o apreciava muito — acrescentou em um ímpeto. — E também é um homem difícil de se impressionar — o silêncio retornou. — Gostaria de ter mais a lhe oferecer. Sinto muito — um suspiro contido. — Só tenho minha presença, se serve de algo — um sorriso que ensaiava ser divertido. — Mas a tenho em minha consideração. Nunca foi outra coisa que gentil comigo, embora compreenda que um cão de guarda não seja a companhia mais desejável. E já passou por muito sem merecê-lo — concluiu, pensativo.
A euforia da descoberta ainda a preenchia, recusando-se a se dissipar. Coincidência trágica, talvez, mas ainda assim bem-vinda. A revelação aliviara boa parte do peso que carregava sobre os ombros desde a partida de tio Adrien, peso que só fizera aumentar com a chegada de James. Se o destino tivesse uma face, imaginou, estaria lhe sorrindo com ironia; mal conseguia tirar os olhos dele, agora, ansiosa por quaisquer movimentos, quaisquer respostas. Observou conforme a expressão no rosto do guarda se alterava, alheia ao discreto sorriso que nascia em seus próprios lábios. Pela primeira vez desde que o conhecera, sentiu-se, ainda que por aquele único momento, como se fosse capaz de enxergá-lo completamente – talvez apenas uma ilusão desejosa, mas agora tangível, possibilitada pelo segredo que compartilhavam. Por ora, a probabilidade era o suficiente para contentá-la.
O momento passou, mas o sorriso em seu rosto permaneceu, ganhando algum destaque quando ele pronunciou seu nome pela primeira vez, como se o experimentasse. Lembrou-se de sua primeira conversa a sós no jardim, pouco depois de terem sido apresentados um ao outro pela primeira vez e cerrados em sua prisão mútua; naquela ocasião, haviam estado incertos e distantes, e o nome dele mais de uma vez ficara preso em sua garganta, tão desacostumada estava à falta de um título. Eram situações muito distintas e, no entanto, tão semelhantes em sua essência! Sentia-se, afinal, como se o conhecesse ainda outra vez, sob uma nova luz. Os ventos do outono, constatou, haviam trazido diversas mudanças consigo.
Ouvir James lhe falar sobre os Ewing muito se assemelhava a ouvir um filho orgulhoso discursar sobre seus pais e, intimamente, perguntou-se se não seria aquele o caso. Reconhecia na voz dele os mesmos traços que percebia na sua própria quando falava de tio Adrien, o homem que tomara o lugar do rei como seu pai; e ali encontrava mais uma semelhança entre ambos, outra tragédia a aproximá-los da realidade um do outro. Mais do que ninguém, compreendia a gratidão por ter alguém que a acolhesse, que a tratasse como filha... E compreendia também a angústia trazida pela necessidade de ter alguém que o fizesse, em primeiro lugar.
“Tem muito orgulho deles,” observou, externando o pensamento que ocorrera a ela alguns momentos antes. Conseguia visualizá-los em sua mente, a única ideia de família que o rapaz conhecera verdadeiramente; ou ao menos imaginava que fosse assim. O mundo era tão gentil com bastardos quanto o era com mulheres. As palavras lhe vieram naturalmente, um elogio sincero. “E estou certa de que se orgulham igualmente de você.” Não os conhecia bem, é claro, mas não duvidava de que tinham grande apreço por James, especialmente tendo-o conhecido por toda a sua vida. Ela própria, em sua posição improvável, via-se cada vez mais confortável em sua presença. Como seria diferente com os Ewing? Foi desviada do questionamento, porém, pela afirmação do guarda sobre lady Catherine.
Sob a luz pálida do luar, não soube se ele podia notá-lo, mas encarou-o com os olhos brilhantes e arregalados de uma criança curiosa. “Ela conheceu minha mãe?” indagou, impulsiva e sedenta. O calor da vergonha lhe subiu às bochechas, mas Adelaide o ignorou. Não vinha como grande surpresa que Catherine e Anne-Claire se houvessem conhecido, visto que a jovem rainha passara a maior parte de seus anos em Naeworth, mas a perspectiva de novas informações sobre sua mãe a fazia eufórica. Ademais, passava a se acostumar com o fato de que entregava mais de si a James do que o estritamente aconselhável. Costumava ser discreta em relação ao que sentia, mas não quando se tratava dele; estarem a sós, na maioria das vezes, significava que se sentiria livre o suficiente para compartilhar detalhes que usualmente guardaria para si mesma. “Um dia,” concordou, por fim, um novo sorriso surgindo em seu rosto. Devia ser uma mulher inspiradora, e estas eram influências que Adelaide buscava incessantemente.
O silêncio que se seguiu foi breve, mas suficiente para que as memórias invadissem seus pensamentos. Lembranças de seu tio sempre vinham seguidas por um doloroso aperto no coração. As chances de vê-lo de novo eram escassas, nulas, para os menos otimistas, mas existiam poucas coisas que não estivesse disposta a sacrificar para tê-lo ao seu lado uma vez mais. Perder a Adrien fora como perder a um pai, o único que jamais conhecera.
Seus lábios se mantiveram erguidos, mas seu sorriso tomara outras proporções. Já não havia traço algum de humor em sua expressão, apenas o desconsolo com o qual haviam sido substituídos. Mais uma vez as semelhanças entre os dois se faziam notar, ainda outra ironia triste. Perguntou a si mesma se não seria esta a razão pela qual se sentia tão inclinada a revelar a James todos os seus segredos: eram parecidos, tanto quanto podiam ser. Decerto mais do que haviam imaginado a princípio. Há quanto tempo não conversava com alguém capaz de compreendê-la verdadeiramente? Mas ele entenderia.
As palavras dele soaram como uma confirmação para aquela hipótese. Imagino como se sente. Adelaide estava certa de que sim, embora tivesse consciência de que a ideia pareceria absurda para qualquer outro. Como um bastardo poderia entender as batalhas de uma princesa, e vice-versa? Um questionamento válido, mas, como as circunstâncias haviam se prontificado em mostrar, improvável não significava impossível.
Diante de nova e pertinente constatação da parte de James, contraiu os lábios discretamente. Estava certo; duvidava de que ela própria conseguiria colocar o sentimento em palavras de forma tão eloquente, mas concordava com todo o seu ser. O mal da alta sociedade. E não o era? Não eram suas próprias condições prova o suficiente disso? Manter as aparências era, na maioria das vezes, essencial para sua sobrevivência em um local como aquele. Não o haviam feito, mesmo um com o outro, nas semanas anteriores?
“Não...” Adelaide cerrou os olhos brevemente, acompanhando o murmúrio com um leve balançar da cabeça. “Talvez não haja uma solução,” observou, em concordância com o que ele dissera. A afirmação seguinte trouxe à tona lembranças de seu primeiro encontro, e de como ela se havia questionado, então, qual era a natureza daquele juramento. Naquele momento, não questionou. Em direta oposição ao que fizera meses antes, quando estivera completamente tomada por inseguranças e incertezas, não desviou o olhar. Em vez disso, manteve os olhos fixos nos dele, como forma, quiçá, de assegurar a ambos. “Mas já não estamos sós.” Soou como uma promessa, e o era. Toda a sua situação mudara drasticamente; a partir dali, tudo seria diferente. Com o tempo, poderiam se tornar amigos, um porto seguro ao qual recorrer em tempos de necessidade. Esperava que fosse assim. Ter alguém com quem compartilhar segredo tão profundo tornaria sua vida mil vezes mais fácil e, esperançosamente, também a dele. Gostaria de se aproximar e tocá-lo, como se selassem um acordo, mas ainda era demasiado cedo para tal. Não seria adequado e, portanto, deteve o movimento.
“Bem, tio Adrien ficaria feliz em saber. O tinha em grande estima,” declarou. Não pôde deixar de imaginá-los juntos, imersos em conversas profundas e assuntos nos quais outros assim denominados sábios eram completamente ignorantes. Restava-lhe apenas especular, mas não duvidava de que as conversas entre eles, longas ou não, houvessem sido de caráter excepcionalmente intelectual.
Lançou a James um olhar significativo, como se analisasse sua expressão. Em resposta ao gesto dele, permitiu-se sorrir também, embora não soubesse dizer exatamente o que o movimento significava para si. “Asseguro-o de que sua presença é o bastante,” aquiesceu, certo brilho de diversão se refletindo em seu olhar. Então, assumiu uma expressão apreensiva. “Também não tenho muito a oferecer além de minha companhia, e temo que não seja muito. Imagino que preferiria expandir seus horizontes,” franziu o cenho, novamente remetendo à sua primeira interação nos jardins, quando se perguntara sobre as reais motivações e desejos do guarda. “Mas farei o meu melhor. Gentileza e consideração são boas formas de se construir uma relação amigável, e penso que realmente precisamos disso, aqui,” afirmou, convicta.
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Seus lábios se contorceram em um sorriso pouco humoroso, pintalgado de amargor. — Temo que tem demasiada razão — concordou em um murmúrio o qual soava cansado, um cansaço que se acumulava em si havia anos. Era um fardo pesado a carregar para aqueles que observavam sua mesma verdade, afinal — atacados de todos os lados, de todas as maneiras. Muitas vezes, sós, ou com esparsa companhia. Quiçá aqueles de origem humilde conhecessem um círculo maior com que se aliar, mas, por outro lado, estavam infinitamente mais vulneráveis do que aqueles com acesso a treinamento em armas desde seus primeiros passos como ele próprio. Quiçá também fossem muito mais numerosos do que ousava supor, mas não possuía muitas formas de averiguar tal fato como gostaria sem colocar em risco a si mesmo e a outros. Contudo, era um preço que James aceitara pagar havia muito, já que renunciar a suas crenças e obstinações não era uma opção por si aceita.
Dedicou um último olhar à princesa no batente de sua porta, um sentimento indescritível em seu peito, como se a visse sob uma nova luz. Então, foi em busca das chaves de seu quarto como última necessidade antes de poder acompanhá-la. Sua bíblia ainda a descansar sobre sua mesa saltou a seus olhos como uma lembrança retardada arrebatando-lhe de sobressalto. Retornou-a a sua gaveta rapidamente e a trancou lá dentro em um gesto apressado, quase urgente. Sob uma análise objetiva, não havia por que alguém entraria em seus aposentos àquela hora, enquanto estivesse fora, se qualquer um se desse conta de sua ausência. No entanto, menos motivos havia para que deixasse espaço para casualidades do destino. Aprendera a suspeitar de cada sombra nas paredes de um castelo, consequência de tudo que já ouvira, do que já vira e vivera. Não costumava ser tão descuidado, repreendeu a si mesmo enquanto ajeitava sua postura e enfim se redirecionava à porta. Ao que parecia, a revelação de Adelaide ainda o tinha de todo desorientado, mais do que supusera inicialmente. Bem, e que mais poderia esperar de uma situação tão insólita?
Ofereceu a ela um singelo sorriso e assentiu, passando, então, a seguir seus passos. Caminhava logo atrás dela, como de costume. E, como de costume, o silêncio os acompanhava, os perseguia, pesava sobre eles como uma espessa névoa. Daquela vez, porém, parecia diferente. Subitamente, a névoa parecia haver se dispersado mesmo que tenuemente e o silêncio, feito-se mais leve, mais tolerável e fácil de carregar. Um silêncio amigo. Tão pouco havia mudado. Tão pouco havia sido revelado. Ainda assim, sentia-se mais próximo da princesa do que jamais antes concebera como possível. Assim era a relação entre aqueles que dividiam um segredo, diziam. Entre aqueles que dividiam um pecado, julgariam alguns. Tinham o poder de destruir um ao outro, o agudo conhecimento de como fazê-lo em instantes, mas, James cria, não o fariam, tanto porque tal ato arremessaria seu mesmo malfeitor ao fogo junto do outro quanto porque aquilo os unia de alguma maneira, em algum nível, em laços de cumplicidade. Outros poderiam tentar arrancar tudo da princesa com aquela informação, percebeu; poderiam fazê-lo como haviam feito com seu tio ou mesmo jogá-la à morte. Uma ameaça sempre tangível. Naquele instante, percebeu também que faria tudo que pudesse para impedi-lo se um dia visse tão somente a sombra de similar ameaça sobre ela. De repente, seu cargo parecia muito menos pesado. Conhecia a si mesmo o suficiente para saber que sempre daria tudo de si para defender aquilo em que acreditava, dever imposto por terceiros ou não.
Como era seu hábito, seus olhos volta e meia passeavam pelas paredes enquanto seguia seu caminho. Ainda mais que ele houvesse se tornado mais suportável, James ainda ardia por romper o silêncio, sobretudo naquela noite, depois das descobertas tão recentes. Uma miríade de perguntas persistia em rondar por sua mente, tomando mais forma e substância a cada passo, mas ele as manteve presas em sua garganta, esperando por algo que não sabia nomear.
Logo, ar gélido a inundar o local, fazendo um arrepio correr por sua espinha. Cruzou os braços — em um pensamento tardio, talvez devesse haver se agasalhado melhor, porém não lidava com nada que não fosse capaz de suportar. Seus olhos captaram as portas que levavam ao jardim já abertas, desenhando um pequeno sulco em seu cenho. Mantinham-nas abertas costumeiramente? Parecia-lhe incomum no mínimo. Um favor a Adelaide, talvez? Por suas interações e passeios, adivinhava que ela tinha grande apreço por aquele espaço, algo que podia compreender.
Outro questionamento que renunciou. Mais alguns passos e logo o céu estrelado da noite cobria suas cabeças, envolvendo-os em um frio mais cortante. Em um gesto inconsciente, aproximou-se da princesa até que estivesse quase a seu lado, como se alguma parte de si buscasse por calor humano. Só depois se deu conta da proximidade a qual quiçá fosse estranhada por ela. Era demasiado tarde para revogá-la, contudo.
Pouco teve tempo de pensar em fazê-lo também. Uma voz feminina se fez ouvir, soando-lhe tão baixa que, houvesse algum outro barulho para atrapalhá-los, James a haveria perdido. Seus olhos flutuaram até ela, tão atentos como sempre, quase inabaláveis. Tornou a assentir, um sorriso amigo nascendo em seus lábios, como se eles se movessem por conta própria. — Não há pelo que se desculpar — assegurou-a, ainda algo confuso pelo pedido. — Compartilho o sentimento. Nunca pensei que encontraria novamente alguém com quem pudesse sequer mencionar o assunto objetivamente, quanto mais uma companheira de fé… e quanto mais aqui — a última afirmação saiu em um sussurro hesitante. Apesar de tudo, Adelaide não era sua amiga; não se arriscaria a soar desdenhoso ou desgostante dos nobres que a cercavam logo ante ela, não importava o quanto quisesse acreditar que ela compreendesse os problemas que tinha com a mentalidade da maioria. — Ainda assim… você… perdão, Vossa Alteza… — apesar do erro, ainda deixou escapar um riso que dançava entre a diversão e a descrença. — Bem debaixo do meu nariz.
Meneou a cabeça como quem quisesse aliviá-la de suas preocupações quanto à curiosidade. Ali. Ali estava a deixa que tanto buscava para suas próprias indagações, afinal. Não podia negá-la. — Não se engana. Westhelm é fervorosamente tradicional, tal como supõe, e o duque e sua família não são os mais receptivos a diferenças — um pequeno suspiro com uma leve frustração. Para uma família que, dizia-se, havia anos antes impulsionado o progresso de Naeworth, agora os Fairmount pareciam tragicamente congelados em tempos passados. — Mas suponho que deve ser familiar com lorde Ewing, esposo da irmã de meu pai, não? Pois bem, em muitos aspectos, ele me criou. Foi meu tutor e aquele que me introduziu à crença, a todos os ensinamentos de Lutero, à sua revisão da Bíblia — explicou. Referia-se a Philip como seu tutor, mas, a bem da verdade, era mais seu pai do que Gregory jamais seria. — É um homem da lei, do comércio, tão viajado quanto a maioria pode apenas sonhar. Não me surpreende que tenha entrado em contato com essa fé. E os rumores existem, é claro, mas o duque é demasiado dependente de suas habilidades. Não seria sábio desfazer-se da mente que garante tanta prosperidade ao ducado nem creio que meu pai tem a disposição e a paciência para tanto — muito deveria estar claro em sua voz. Sua admiração pelo mentor. Seu desprezo por aquele que era sangue de seu sangue. — Quanto a Catherine… — um pequeno suspiro. — Deus sabe. Ela é um mistério em si mesma… uma mulher verdadeiramente formidável — uma mãe. — Ademais, ninguém pode retirá-la dos círculos e das ruas que decide frequentar. Deduziria que segredos foi o que lhe angariou a sua juventude.
Findada sua explicação, fitou Adelaide com hesitação, sua própria dúvida pendente no ar, incerta quanto a se fazer ouvir ou não. Sua língua pareceu proceder a decisão de sua mente: — O duque Adrien, não? — a suposição que parecia assombrá-lo havia tanto. Novamente, demasiado tarde para revogar sua ação já começada. — Quero dizer… se pode perdoar minha curiosidade… foi ele quem a orientou quanto a nossa fé, não? Ouvi a história de seu exílio e só pude pensar que… bem… — encolheu os ombros.
Com o vento frio a soprar-lhe os cachos para longe do rosto e os olhos estreitos no intuito de proteger-se, não era difícil concluir o motivo pelo qual os jardins permaneciam quase completamente desertos durante o inverno e as semanas que o precediam. Todos os vestígios que a primavera deixara para trás haviam desaparecido muito antes, levando com eles toda a exuberância que o lugar carregava naquele período. As folhas secas, marrons e amareladas, encobriam o chão, farfalhando sob seus pés quando caminhava, e as próprias árvores já não pareciam mais tão imponentes sem suas copas de folhas verdes. Mesmo o lago no centro do jardim logo estaria congelado, quando estivesse frio demais para que qualquer um desejasse sair de suas camas; ainda assim, o local não deixava de ser belo aos olhos de Adelaide, um refúgio dos olhos e ouvidos dos cortesões curiosos.
Mesmo sob a grossa capa, estremeceu diante de mais uma rajada de vento cortante. O que havia com aquele castelo, pelos céus? Comparada à do quarto de James, a temperatura dos jardins era terrivelmente gélida. Eram tempos em que apenas muitas camadas de roupas eram capazes de protegê-la completamente das baixas temperaturas, e não se vestira adequadamente para suportar o frio – em realidade, pensou, lembrando-se do fato de que tudo o que havia por baixo da capa era seu traje de dormir, não estava adequadamente vestida de forma alguma. A proximidade de James, portanto, embora inesperada e incomum, foi bem-vinda, fornecendo-lhe algum do calor que os poucos minutos do lado de fora das portas já haviam roubado de si.
A constatação de James, ainda que trouxesse à tona algo tão pouco agradável quanto a necessidade que tinham de manter sua verdade em segredo, fez com que um sorriso se formasse nos lábios de Adelaide. “Quanto mais aqui, de fato,” concordou. Quem em sã consciência teria imaginado encontrar um seguidor da fé protestante dentro do palácio de Rivergate, a capital de um país como Naeworth? Poucos sequer considerariam a possibilidade, e aqueles que ousavam suspeitar não tinham boas intenções ao procurá-los. Ainda assim, fosse por coincidência ou não, ela e James se haviam encontrado. “A propósito…,” acrescentou, fixando seus olhos nos dele, “enquanto estamos sozinhos, apenas Adelaide está bem. As formalidades são dispensáveis,” assegurou-o, genuína; nunca dera muita importância a elas, de qualquer forma, e decerto não seriam necessárias em particular.
Ouviu-o com atenção enquanto falava, sua natural curiosidade mais uma vez se fazendo notar. Havia sido lorde Ewing, então, aquele que apresentara James a Lutero e ao protestantismo. Não podia dizer que sabia de muitas coisas sobre o lorde, mas já o vira algumas vezes antes, embora fizesse já algum tempo. “Sei de quem se trata,” afirmou, portanto, com um leve aceno de cabeça. “Meu tio o admirava. Dizia que era um homem capaz e inteligente como poucos,” e a lembrança fez com que abrisse ainda outro sorriso, “e é preciso muito para impressionar tio Adrien,” concluiu. Nunca duvidara da palavra de seu tio, mas, ouvindo o modo como James o descrevia, sentia-se ainda mais impelida a crer que lorde Ewing era realmente extraordinário, um homem entre muitos. Por outro lado, a forma como o guarda se referia ao duque de Westhelm apenas somava a uma antipatia já existente no coração de Adelaide, a sensação de que não gostaria de ter de conhecê-lo de fato, embora já houvessem se encontrado. Se lorde Ewing era admirado por tio Adrien, então o duque de Westhelm tinha o favor do duque de Allerton, seu tio Declan – ainda que duvidasse de que o tio hesitaria em lhe jogar aos lobos se isto lhe oferecesse alguma vantagem. Os amigos do duque não eram verdadeiramente amigos. “Parece tê-los em grande consideração,” observou, quanto ao comentário sobre lady Catherine. “E ela me parece alguém a quem eu gostaria de conhecer,” adicionou, os olhos brilhando. “Deve ser uma mulher forte.”
Então foi a vez de James sanar suas dúvidas, e Adelaide abriu um sorriso cálido que se refletiu em seu olhar. “Tio Adrien, sim,” confirmou, o olhar longínquo, lembrando-se dos tempos que passara com o homem em questão naquele mesmo jardim, em noites tão frias quanto aquelas. “Depois que mamãe morreu…,” interrompeu-se brevemente, questionando o uso do termo afetuoso e o quanto não pareceria uma criança, mas deixou-o de lado, optando por prosseguir. “Bem, meu pai era jovem e acabara de ser coroado rei. Precisava provar para o povo que era digno do cargo,” disse, em tom que muito se assemelhava a uma justificativa. Não teve coragem o suficiente para pronunciar o que realmente havia acontecido então, o real motivo pelo qual seu pai nunca tentara real aproximação: a desolação que a morte da esposa trouxera, e a mágoa porque, Adelaide sabia, acreditava que Anne-Claire morrera por nada. Que bem faria uma mulher na linha de sucessão ao trono? “Tio Adrien me criou. Foi meu mentor e me ensinou muitas coisas… Tudo o que eu sei, na realidade,” suspirou, inconscientemente esfregando os próprios braços para se livrar do arrepio em sua espinha. “E era protestante, é claro. Nunca me disse quem o levou a esse caminho, e não duvido que tenha descoberto por si mesmo,” franziu as sobrancelhas. Era um homem estudioso, e não ignoraria a oportunidade de adquirir novos conhecimentos, especialmente quando a única razão para fazê-lo era agradar a uma Igreja decadente e aproveitadora. “Temia por nós, por mim especialmente, pois dizia que eu tinha mais a perder… mas nunca deixou de me ensinar, e permitiu que eu fizesse minhas próprias escolhas,” explicou, ainda com o olhar distante. “E eu fiz. Segui o caminho dele,” por fim voltou a fitar James, os olhos tristes. “Mas ele se descuidou, e quando meu pai descobriu… Bem, não havia muito a ser feito. Despojaram-lhe dos títulos e o exilaram permanentemente. Sequer tive a chance de me despedir,” contou, e, embora sentisse os olhos marejados, recusou-se a deixar as lágrimas caírem. Em vez disso, parou de falar por alguns momentos, continuando apenas quando soube que não haveria mais risco de chorar. “Ele está na Inglaterra agora. É parte da corte de Elizabeth.” Inspirou profundamente, buscando encontrar as palavras certas. “Me escreve de tempos em tempos, mas o risco é grande demais, e eu tampouco posso deixar o palácio tantas vezes sem levantar suspeitas,” comprimiu os lábios, frustrada. “Sinto a falta dele todos os dias,” confessou, amargurada. “Depois que minha avó morreu e tio Adrien se foi, este lugar se tornou…,” balançou a cabeça, incapaz de explicar. “Não sei. Sinto-me presa e desesperada, e sozinha o tempo todo. Fingem se importar comigo diante de um público, para ganhar favores do rei, e então simplesmente desaparecem,” mais um suspiro escapou por entre seus lábios, de raiva daquela vez. Ocorreu-lhe que não era a primeira vez que despejava suas palavras sobre ele em desabafos inadvertidos, mas sua angústia, naquele momento em especial, impediu que se desculpasse como sempre fazia.
Heretics | Para 02
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Costumava crer que conhecia o arrastar do tempo. A desdenhosa eternidade que se entremeava em um dia, a distância intransponível entre respirações enquanto esperava por notícias que confirmassem ou não um desastre anunciado. Enquanto esperava o fim do caminho entre o lombo de seu cavalo e o chão em uma queda. Enquanto sustentava o silêncio sufocante da presença de estranhos, como fora em seu primeiro dia naquela corte e por vezes ainda era. Nada daquilo, porém, parecia comparar-se ao delongar de cada instante quando sentia uma corda em seu pescoço. Ou seria uma foice? Quanto tempo levaria até que descobrisse?
Imerso em seu torpor, ouviu o estrondo da porta sendo abruptamente fechada antes que conseguisse interpretar a sequência de imagens que decorriam ante si. Por quê? O que Adelaide pretendia fazer? Vira a capa, não vira? Percebera. Ao mesmo tempo, ocultara a ambos com seu gesto quando poderia haver gritado condenações ou demandado por explicações sem dar-lhes nenhuma privacidade. Uma faísca tímida de esperança ousou despontar em seu peito. Talvez, só talvez, ela não pretendesse condená-lo. Talvez fosse mais misericordiosa do que muitos de sua classe, ou simplesmente uma mulher de pouca fé, tal como pregavam os rumores — os quais, pela primeira vez, James encontrou-se desejando ativamente que fossem verdade. Se chegasse à noite seguinte ainda livre, mesmo que repreendido por palavras de sua senhora, deveria-lhe eterna gratitude
No entanto, nem em seus sonhos mais disparatados haveria esperado pelo que de fato se seguiu. Seus olhos oscilaram entre o livro sobre a mesa e a mulher à sua frente, como se pudesse assim confirmar que era a ele que se referia. Seus lábios partiram-se em uma fenda atônita. Havia ouvido corretamente? Estava delirando? Mesmo enquanto ouvia suas explicações altas e claras, era difícil absorver que aquilo era verdade e não fruto de alguma espécie de alucinação. A princesa era protestante, então. A princesa era protestante. E por orientação de um membro da família, ainda que, em seu caso, com laços reais de sangue. Céus… realmente tinham mais em comum do que qualquer um poderia haver previsto antes. Seria o tio Adrien, duque exilado por sua heresia? Ou ainda alguém mais? Não parecia provável.
Um sorriso de pouco humor se delineou em seus lábios quando ela fez menção aos mesmos rumores que, havia poucos instantes, seu desespero fazia-o desejar que se materializassem. Agora, via-os de outra forma, demasiado conhecida por si também. A condenação quiçá mais leniente sofrida por aqueles que não acatavam aos dogmas de uma igreja corrompida e decadente. Ainda assim, detestavelmente errônea. — Bem sei sobre a verdade de seu apreço. De nosso apreço — afirmou, quase um consolo. Quiçá fossem eles o de maior apreço, arriscando tudo que possuíam em nome de Sua verdade. Um pequeno sorriso hesitantemente surgiu em seu rosto, abrindo caminho pela tensão que se alongava em si. — Nunca senti tanto alívio em toda minha vida — confessou, como se as palavras escapassem de sua boca.
Provavelmente pela maneira com que aquele sentimento inundava-o, mais uma vez com a densidade de um sonho — custoso de acreditar, demasiado surreal, mas belo —, James pouco conseguiu ressentir a entrada abrupta da princesa, mesmo quando ela foi lembrada. Tampouco incomodou-o seu incomum pedido. Com o inverno a aproximar-se, as noites tornavam-se cada vez mais frias fora das paredes do castelo, mas aquilo nunca lhe apresentara grande incômodo. Além de quê, conseguira simplesmente deixar Adelaide afastar-se depois da revelação feita havia tão pouco? Não, nunca antes sentira-se tão impelido a conversar com ela, embora o que diria, o que perguntaria, fugiam-lhe à mente. Apenas sabia sentir, agora, uma cumplicidade insólita, quiçá mesmo irracional… não obstante, presente. Meneou a cabeça.
— Não se desculpe. Também não tomei as devidas precauções; qualquer um poderia ter entrado à hora que bem entendesse — assegurou-a, mera formalidade que agora beirava o instinto para si. A sentença que se seguiu, porém, carregava maior honestidade: — E seria um prazer acompanhá-la.
Ao perguntar-se como deveria proceder, pareceu dar-se conta do estado em que estava, pouco apropriado mesmo para aquela repentina prosa. Não tendia a similar embaraço a ser visto com o torso desnudo, nem via motivos para pudor tão infundado, mas, novamente, sua interlocutora dava unicidade à situação. Devia-lhe, e à sua honra, sempre o maior respeito. Bem, não havia muito que podia fazer para reverter o que já se passara, havia? — Apenas… permita-me, por favor — murmurou antes de recuperar a camisa de linho que deixara sobre o espaldar de sua cadeira. Em seguida, buscou rapidamente por um casaco que bastasse para garantir-lhe mínima proteção contra o frio, colocando-o conforme tornava a se aproximar da princesa. Agora, o sentimento de adequação parecia restaurado. Inclinou sua cabeça em direção à porta. — Como desejar.
Observou-o com olhos atentos, acompanhando com eles as reações de James. Por um momento, o medo percorreu sua espinha como um calafrio. O que aconteceria a ela se estivesse enganada? Confessara a ele aquilo que poderia levar qualquer um à desgraça, especialmente ali, com as paredes do palácio parecendo se fechar ao seu redor a cada instante que se passava. Seu coração saltou uma batida.
Reuniu todas as forças que possuía para não suspirar audivelmente, aliviada, diante da declaração de James. Estivera certa, então, e suas palavras não a haviam condenado. Em questão de segundos, e que fosse somente por um momento, talvez, saber que passaria todos os momentos de seu dia ao redor do guarda deixara de se parecer com uma punição. Precisaria de tanto tempo com ele quanto fosse necessário. Havia muitas perguntas a ser respondidas, muito a ser dito. Adelaide não mencionara sua fé a pessoa alguma em quase sete anos.
“Poucas coisas são mais verdadeiras, de fato,” concordou, “embora poucos o reconheçam,” acrescentou, com um suspiro triste. E, mesmo se houvesse aqueles que os apoiassem, quem ousaria expressá-lo publicamente? Em Naeworth, sob o regime em que viviam, fazê-lo seria ditar a própria sentença de morte. Se quisessem preservar suas cabeças, a discrição em sua observância era indispensável.
Em resposta inconsciente ao gesto dele, também ela ergueu os cantos de seus lábios em um sorriso discreto, embora ainda assim perceptível. Compreendia o alívio de James, não somente porque sabia das consequências que se implicariam à situação se qualquer outro além dela o houvesse encontrado com a bíblia em mãos, mas porque partilhava dele. Todas as circunstâncias a que seu pai a submetera haviam deixado de ser um fardo tão pesado no momento em que surpreendera James ali. Ainda era preciso ser cuidadosa, sempre seria, mas poderia deixar de esconder a verdadeira Adelaide sob a máscara que procurara usar desde o dia em que o conhecera, semanas antes; a revelação fazia com que se sentisse livre pela primeira vez em um longo tempo.
A concordância dele com seu pedido trouxe nova onda de alívio. Parte de si havia se preparado para uma recusa – não seria de se admirar, afinal; era muito tarde, e conforme o outono chegava ao seu fim, as agradáveis brisas frescas tornavam-se ventos cortantes e difíceis de suportar. Ainda assim, James aceitara acompanhá-la, e, sufocada como havia se sentido durante toda aquela noite entre as paredes de pedra do palácio, tudo o que pôde sentir foi imensa gratidão.
As palavras seguintes do guarda a recordaram de sua situação, momentaneamente esquecida diante do êxtase da descoberta. Trazida de volta à realidade, mais uma vez teve sua atenção capturada por ele e seu tronco ainda à mostra. Embora não se sentisse constrangida propriamente por vê-lo, amaldiçoou a si mesma ao ver que ainda o fitava com atenção pouco adequada enquanto se vestia. Com o rosto vermelho pela própria indiscrição, desviou os olhos, com algum custo que não compreendia. Céus, agia como se nunca houvesse visto um homem em sua vida! (Em algum lugar de sua mente, uma voz pouco prestativa lhe relembrou de que os vira em circunstâncias muito diferentes, e nenhum deles era tão bem-apessoado.)
Procurou se desfazer de seus pensamentos pouco oportunos quando voltou-se novamente para ele, um breve sorriso de agradecimento nos lábios, e então se encaminhou até a porta, esperando até que ele a alcançasse para seguir seu caminho.
Embora houvesse muito a ser dito – e Adelaide ansiasse por dizê-lo –, manteve-se em silêncio durante a maior parte do tempo. Lembrava-se do conselho que tio Adrien sempre insistira em dar, mesmo quando ela já o havia decorado: as paredes têm ouvidos. Dificilmente haveria alguém ali àquelas horas, mas, por mais ínfimas que fossem as possibilidades, eram existentes, e os riscos eram maiores do que sua curiosidade. Por um instante, permitiu-se divagar na ironia de tudo aquilo; vivera no palácio de Rivergate desde o seu nascimento, e aquele deveria ser seu lar. Não obstante, entre suas paredes, sentia-se ameaçada todo o tempo.
O jardim se fez sentir antes de ver. Estava frio – o vento a atingiu assim que atravessaram o corredor, e ela puxou a capa para mais junto de si, buscando se proteger. Um dia, havia sido comum que aquelas portas permanecessem trancadas durante as noites, mas Adelaide não chegara a vê-lo; mantê-las sempre abertas fora um pedido de sua mãe, saudosa da casa em que vivera por tão pouco tempo na França.
Mas não deixou que seus pensamentos vagassem até a mãe e a família que nunca conhecera ou conheceria – até onde sabia, seus avós franceses não haviam vivido muito mais depois da morte da filha, e o restante de seus familiares nunca procurara saber dela a não ser pela glória e prestígio que a ligação a uma futura rainha trazia a eles. Não permitiria que aquilo arruinasse a breve felicidade que encontrara em sua descoberta, que não era mais a única ali dentro a observar a fé protestante, que ela e James tinham mais em comum do que jamais poderia ter imaginado.
Atravessou as portas e inspirou o ar gélido da noite, sentindo-se mais livre do que se sentira em muito tempo, e então finalmente voltou-se para o guarda. “Me sinto como se estivesse flutuando,” confessou, em tom de voz baixo, como se fosse uma criança admitindo que fizera algo de errado. “Nunca pensei que... Bem, de tantas coisas em que poderíamos ter semelhanças... Isto,” murmurou, afoita. “Mal sei o que dizer. Me perco nas minhas palavras. Me desculpe,” acrescentou, rapidamente, notando que sua excitação provavelmente não a fazia parecer muito digna. “Mas... Faz muito tempo desde que pude conversar com alguém,” admitiu. “O risco é grande demais... Embora, é claro, você saiba disso,” observou. Todos aqueles que precisavam esconder sua verdadeira fé devido à perseguição sabiam bem dos riscos.
Lembrou-se então de uma das primeiras questões que haviam ocorrido a ela quando adentrara o quarto dele tão repentinamente, flagrando-o com a bíblia que, fosse ela qualquer outro, selaria um destino trágico – uma das razões pelas quais temera ter se precipitado em suas conclusões ao confessar a verdade a James. “Perdoe-me, mas não posso evitar minha curiosidade,” começou, umedecendo os lábios. “Quando... Não, como... Como passou a observar nossa fé?” indagou, fixando os olhos nos dele. “Imagino que... Cresceu no ducado de Westhelm, não é? Tudo o que ouço dizer sobre ele é que é um dos mais tradicionais de Naeworth, e o tradicional para este reino significa católico,” conteve o impulso de revirar os olhos. “O fato de que não seguiu o mesmo caminho... Bem, minha felicidade em saber é imensa,” afirmou, sinceramente, “mas diria que é... Mais do que surpreendente.”
Heretics | Para 02
Não era de seu feitio baixar sua guarda de tal maneira. Não, parte sua sempre reconhecia a espreita de uma ameaça, ainda que sutil e distante; ainda que um mero fiapo nas sombras que se sentavam do lado de fora da porta. A corte era um ninho de víboras, afinal; víboras não descansavam, mesmo quando muitos defenderiam o contrário. Estavam longe, demasiado ocupadas com outros assuntos. Quiçá fosse algo de paranoia, mas James não julgava sábio entregar-se a uma sensação de segurança que podia, a qualquer instante, desmoronar. Não obstante, ainda cedia ao conforto solitário da noite para deixar sua heresia exposta sobre sua mesa, correr riscos por seu espírito, por sua filosofia e por sua verdade.
Cedia ao conforto solitário da noite daquela noite — para ler uma passagem de sua bíblia, despida da capa falsa que a encobria. Não o fazia desde sua chegada à fortaleza de Rivergate, a qual já marcava semanas, e alguns dias mais, sendo coagido a se ater às preces de sua mente. Não era por falta de fé ou negligência, mas pelo idioma em que ela se encontrava: estava em francês, e não no latim assiduamente preservado pela Igreja Católica. Em realidade, o mero fato de que fazia sua leitura sozinho, entregue a seus próprios pensamentos, e não com um clérigo para orientá-lo — o fato que sempre o fazia daquela forma —, já servia de indicativo de sua verdadeira fé, observada sempre em segredo, como não poderia deixar de ser. Em um dos reinos mais fervorosamente católicos que ainda restava na Europa, era protestante.
A bíblia, como todas as obras de herança luterana que o guarda possuía, era presente de lorde Ewing, peça essencial de seu encontro com Deus. Fora ele que lhe introduzira realmente à crença, sob uma perspectiva livre dos preceitos e preconceitos católicos que encharcavam o discurso da maioria das pessoas; conversa conseguinte de uma afirmação felizmente infeliz que James colocara: “então a Igreja corrompe os ensinamentos do Senhor”. Aquilo se dera havia tempos, quando ele tinha não mais do que 16 anos mal-completados, mas, mesmo assim, a memória do olhar de seu mentor reverberava com clareza em sua mente todas as vezes que retomava sua leitura. Um olhar de presságio, de demasiado peso para ser dito e, ao mesmo tempo, de demasiado peso para não sê-lo.
Não seria similar presságio que se havia feito sentir no guarda naquele momento. Tão imerso estava em sua passagem que sequer deu grande nota ao longínquo som da porta de seu quarto se abrindo. A percepção só o alcançou instantes depois, com uma lufada de ar frio.
Atingiu-o como um abrupto golpe, porém, arrancando-lhe reação enérgica e alarmada. Fechou a bíblia rapidamente, mas o ato impensado só fez com que a capa, titulada em língua viva, ficasse visível. Ao percebê-lo, deitou o livro do lado oposto, em uma tentativa de encobri-la. No entanto, seu coração não descansou em seu peito. Era uma reação demasiado brusca, demasiado suspeita. Quem quer que fosse que chegava em seu quarto de tal maneira — àquela hora, ora essa! — havia de ter percebido. Céus…
Quando se voltou para sua visita, podia sentir a corda a roçar seu pescoço. A sensação apenas se intensificou ao notar quem estava ali. A princesa Adelaide. Sentiu sua boca secar. Provavelmente, ali havia marcado a data de sua execução.
Ainda assim, ergueu-se com feições tão neutras quanto conseguia, demonstrando apenas a surpresa que poderia ser entendida como consequência da inesperada companhia. Não arruinaria a si mesmo ainda mais.
— Vossa Alteza — cumprimentou-a com uma reverência antes de se aproximar com passos forçosamente contidos, centrado em manter regulada sua respiração. Sequer lembrou-se de colocar uma camisa ou cobertura similar para seu tronco desnudo. — Sinto muito por meu desconcerto; não esperava-a a essa hora. Está bem? Precisa de minha ajuda? — um perigo melhor em que pensar: ameaças à princesa. Por que outro motivo estaria ali tão tarde da noite? A perspectiva, porém, em nada ajudava-o a se acalmar.
Inspirou profundamente, buscando a calmaria de um sono que se recusava a encontrá-la. Não saberia dizer quanto tempo se passara desde que dera seu dia por finalizado e rumara a seus aposentos para descansar; com todas as tarefas que tivera de cumprir e acontecimentos na corte, não teria imaginado que encontraria grandes dificuldades para dormir. Entretanto, estava ali, olhos bem abertos, há tanto tempo que se haviam acostumado à escuridão; sob a luz pálida da lua, era capaz de distinguir o vulto da maioria dos objetos a seu redor.
Não pela primeira vez, revirou-se em sua cama, inquieta. O ar ali dentro parecia mais carregado do que o habitual, e Adelaide lançou um longo olhar na direção da janela cerrada. Segundo suas damas de companhia, o outono de Naeworth era demasiado frio para permitir que a mantivesse aberta, mas a falta da brisa fresca a fazia sentir sufocada.
Cerrou os olhos por um breve momento, um suspiro derrotado deixando seus lábios. Necessitava estar sob o ar livre, a despeito da noite avançada; imaginava que somente assim poderia se acalmar o suficiente para dormir. Desvencilhou-se de seus cobertores, saindo apressadamente do conforto do colchão de penas, o fato de que nada além de seu traje de dormir a cobria vendo-se como um mero detalhe. Alcançou sua capa e envolveu seu corpo com ela; mais não era necessário. Não haveria transeuntes desavisados rondando os corredores.
Não seria a primeira vez que buscava refúgio de seus tormentos noturnos no jardim, e os guardas há muito se haviam acostumado a tal hábito. Dadas as mais recentes medidas de seu pai para garantir sua segurança, entretanto, não poderia fazê-lo quando bem entendesse, ao menos enquanto estivesse desacompanhada. Por tal razão, rumou na direção oposta à dos jardins, aquela que sabia ser o caminho que levava aos aposentos de James. Esperava que não estivesse adormecido — se sentia culpada o suficiente por ser a razão pela qual precisava estar ali, não gostaria de incomodá-lo ainda mais.
A distância a se percorrer era curta; havia de sê-lo, afinal. Era preciso que James estivesse próximo, ao menos o suficiente para ser capaz de atender com rapidez a qualquer necessidade que a princesa pudesse ter. Não se havia feito de grande utilidade até então, mas, naquela noite, se provava conveniente.
Ávida como estava para deixar o interior do palácio, princípios básicos de polidez e etiqueta pareciam ter simplesmente se desvanecido. Não passou pela mente de Adelaide que o guarda pudesse estar cuidando de assuntos pessoais — senão mesmo acompanhado; limitou-se a meramente empurrar sua porta, adentrando o quarto em um rompante.
A cena que a recebeu, no entanto, a fez estancar no mesmo lugar. Por um momento simplesmente permaneceu ali, parada, observando-o imerso em sua leitura; tampouco parecia tê-la notado ali. Claramente estava em um momento muito pessoal, concluiu, notando repentinamente que tinha o torso nu; forçou-se a desviar o olhar, então, incapaz de fazê-lo, voltou-se mais uma vez para ele. Sua distração não durou muito tempo, e pareceu extremamente descomposto ao vê-la. Só então fez-se notar o livro em suas mãos, quando em um ímpeto ele o fechou. Arregalou os olhos, alarmada. Não. Não pode ser. Poderia? Teriam seus olhos a enganado quanto ao título — em francês — que havia lido?
Esquecendo-se de seu anseio por ar fresco, fechou a porta atrás de si em um impulso. Não lhe importava que estivessem sozinhos, que ele sequer vestisse uma camisa e seu vestido de dormir estivesse coberto apenas pela grossa capa; se estivesse certa a respeito do livro, não poderia arriscar que eventuais curiosos arriscassem um olhar e o encontrassem ali, em posse de James. Seria uma sentença de morte.
Por um momento ignorou sua pergunta — parecia um tanto descomposto, e ela imaginava o porquê. Não reagiria de forma diferente em seu lugar. A heresia levara seu tio, príncipe do sangue, filho legítimo do rei e rainha, a perder todas as suas terras, títulos e riquezas. O que não custaria a um mero guarda real que não possuía sequer um nome? Seus olhos se desviaram para o livro, deixado sobre a cama. As letras que compunham o título já não estavam visíveis.
Quando voltou a olhar para ele, estava mais próximo de si, a expressão já neutra. Percebeu que deveria dizer algo, que fosse para tranquilizá-lo; apesar da fachada de calmaria, bem sabia como deveria se sentir. Fixou os olhos nos dele, e também ela deu um passo a frente, diminuindo a distância entre ambos apenas para que tivesse certeza de que a ouviria quando sussurrou, no tom de voz mais baixo quanto era possível:
“Também a tenho.” Uma bíblia protestante, as palavras implícitas pareceram pairar no ar acima deles. “Foi presente de meu tio antes de partir. Ele costumava lê-la para mim quando estávamos sozinhos, e quando se foi... Bem. Esperou que eu seguisse meu próprio caminho na fé. E o fiz,” acrescentou, mais uma vez desviando o olhar para a bíblia sobre a cama. Se estivesse errada... Mas não poderia estar. “Conhece os boatos, sobre minha falta de apreço por Deus. Não são verdadeiros, mas ainda assim... Bem, sou uma herege aos olhos de todos. Aparentemente não estou sozinha.”
Por fim, inspirou o ar quente do recinto — outonos frios, haviam lhe dito; se aplicaria apenas aos aposentos reais? —, dando um passo para trás. Talvez houvesse se precipitado em sua confissão, mas não se sentia preocupada no momento. Sentia-se, na realidade, como se um terrível peso tivesse sido retirado de suas costas; não era a única protestante na corte e, céus!, poderia finalmente parar com o seu teatro, fingindo-se de católica devota sempre que se encontrava na presença de James.
“Sinto muito pela minha falta de modos, a propósito. Deveria ter-lhe avisado antes de entrar,” acrescentou, olhos nos dele mais uma vez. “Me sinto bem, planejava apenas pedir a você que me acompanhasse em uma caminhada pelos jardins. Ansiava por um pouco de ar fresco... Se for possível.”
Hostages — para 01
lionheartedhound:
Um assentir solene, o qual buscava transmitir gratidão, foi toda a resposta que lhe deu. Assim, definia-se um fim claro para suas interações naquele dia, fadadas a durar apenas até alcançarem os aposentos da princesa. Por outro lado, aquilo ainda poderia tomar tempo significativo. Como não poderia deixar de ser para qualquer construção que se prezasse naqueles dias, quanto mais a fortaleza real, o castelo de Rivergate era extenso e suntuoso. Levaria certo tempo até que James enfim se familiarizasse com com seus corredores e com suas curvas, até que conseguisse locomover-se nele sem grandes confusões. De qualquer forma, na maior parte do tempo, teria Adelaide para guiá-lo.
A ela seguiu quando ela se colocou em marcha, cuidando para quedar-se para trás por alguns poucos passos. Aspirou profundamente o ar gélido da noite, como se aspirasse também seus últimos instantes de qualquer liberdade que algum dia pudera dizer que possuía. Os últimos instantes em que seus novos deveres enquanto cão de guarda não se haviam cristalizado, mas ainda pareciam como um sonho, algo pouco tangível. Quiçá fosse aquela ideia que o fizesse hesitar em dormir, como se, ao atrasar seu sono, pudesse atrasar a chegada do dia seguinte. Tolice, ele sabia. Tolice e inutilidade.
Eventualmente, a noite foi encoberta por pedras habilmente talhadas e a luminosidade das estrelas foi substituída pela de tochas. Não obstante, com a maneira com que as janelas do castelo filtravam a luz externa, seus interiores continuavam dotados de uma claridade singular àquela hora. James permitiu que seus olhos mais uma vez rondassem o local, mas eles nada pareciam ver, por mais que muito mirassem. Talvez a menor iluminação ainda se fizesse sentir, ou talvez sua mente estivesse demasiado dispersa para tanto, abalada pelos questionamentos e pela cada vez mais tangível iminência de seu destino — como se sua estadia ali não bastasse para tanto. Talvez, ainda, devesse deixar de perder-se em ponderamentos que a nada lhe levariam. Contudo, fazê-lo parecia intrínseco a seu ser, como se vivesse em um jogo de xadrez que tornava imperativo analisar e compreender cada peça, cada quadro, cada posição, para que pudesse realizar seu próximo movimento. Cautela? Não estava de todo certo que podia atribuir tal característica a isso. Espírito — ou mera postura — de um guerreiro? Se tomasse para si os mandamentos de Sun Tzu, quiçá. Poderia aspirar a ser Aquiles, mas supunha que uma parte sua sempre se aproximaria mais de Ulisses.
O abrupto cessar de passos de Adelaide arrancou-o de seus pensamentos, fazendo-o parar pouquíssimo antes de esbarrar contra ela. A pergunta que rompeu o silêncio confundiu-o de início. Desviou o olhar para o ponto onde percebera que a ruiva tinha o seu e logo compreensão atingiu-o. Anne-Claire, a falecida rainha. Já havia contemplado seus retratos mais cedo, mas só agora comparava-a com a princesa. Seus olhos oscilaram dela à figura na parede e de volta a ela, fazendo-o assentir uma vez mais. Sim, compreendia o que dizia. Havia, de fato, uma similaridade particular entre ambas; difícil de decifrar, mas inegável. O brilho de olhos azuis, a beleza jovial e algo mais que ele não conseguia adjetivar, mas que estava lá. Quaisquer tentativas, no entanto, dispersaram-se quando Adelaide tornou a falar, substituídas por uma sensação de deslocamento. Podia ouvir, ver, a fragilidade do assunto que ela abordava. Decerto, muito seria diferente se a rainha ainda vivesse, mas pouco podia opinar sobre as complicações que teriam surgido ou desfeito-se. Ainda assim, culpada?
O mesmo que cruzava sua mente foi logo verbalizado pela ruiva. Conhecia bem a história, as causas da morte da rainha. Muitos já haviam criticado a pressa com que haviam tentado por um herdeiro, questionando o risco que haviam corrido, com consequências que se haviam feito ver da pior maneira possível. Não obstante, fora um risco tomado por ela e seu marido, o rei. Adelaide pouco controle tivera sobre aquela situação; de seu lugar, algo que estava claro. No entanto, o que sabia do sentimento de desejar a oportunidade de conhecer sua mãe, da crença de que conhecê-la poderia ter sido motivo de maior alegria? Não, apesar de tudo, nunca vira a sua daquela forma. Como uma mulher boa, com quem valeria a pena possuir qualquer contato. Que bem havia de vir de conhecer uma prostituta? Preferia acreditar que a resposta era “nenhum”. Não queria saber das nuances, era do que tentava se convencer, como se para poupar-se das dores de perguntas para as quais nunca teria respostas.
Meneou a cabeça ante o pedido de perdão de Adelaide. Por um instante, parecia tão frágil… havia algo de desagradável em vê-la daquela forma, algo que não parecia certo, que mesmo preocupava-o. Por um momento, ressoou de forma aguda em sua mente como ela era tão vítima das ações e das decisões de outros como ele. De fato, tinha sobre si um fardo muito maior, por circunstâncias fora de seu controle. Mesmo assim, o que poderia dizer para consolá-la?
— Não creio que tenha tomado meu tempo, Alteza. Ele não pertence a ninguém mais — assegurou-a, por um instante o ressentimento por aquele fato, esquecido. Novamente, viu-se impulsionado a tocá-la, apenas em busca de oferecer-lhe reconforto da maneira mais simples que conhecia, mas se deteve.— Nem creio que seja culpada por algo. Nem mesmo seu nascimento foi de sua escolha. Além de quê, mesmo um herdeiro homem não garantiria paz e estabilidade. Dadas certas circunstâncias, alguns ainda poderiam apoiá-la, ou a algum outro da linhagem real que viesse depois, e sobre isso também não teria total escolha — refletiu. Não havia garantia que qualquer herdeiro nascido depois de Adelaide seria um bom rei e, ainda que fosse, alguns súditos ainda poderiam defender que seus interesses estariam mais bem-contemplados por outro alguém. Opositores dos franceses, talvez. Aqueles desejosos de um fantoche mais manipulável e que o buscariam onde quer que fosse. — De maneira ou outra, a vontade de Deus é sempre misteriosa para nós, não? Ainda assim, decerto há um motivo para suas ações — interrompeu seus pensamentos. De nada valia perder-se em e ses. — Está se sentindo bem, minha senhora? Talvez se sinta melhor com algum descanso.
Por mais alguns instantes manteve os olhos no retrato de sua mãe, incapaz de desviá-los, mais uma vez buscando incansavelmente por quaisquer semelhanças, que o fossem mínimos detalhes que pudessem tê-la escapado antes. Perguntou-se quão fiel o artista teria sido à verdadeira imagem da rainha; a julgar pelos outros quadros distribuídos pelo palácio – de seu pai, seus avós, mesmo da própria Adelaide –, a pintura pouco teria destoado da realidade. Não pôde evitar o questionamento, embora o mantivesse apenas para si mesma, pois já expusera o bastante de suas angústias para James e não era seu dever ouvi-la se lamentando, tampouco fazendo perguntas para as quais jamais teria resposta: como se pareceria Anne-Claire, se ainda vivesse? Vinte e três anos depois, conservaria a mesma beleza e altivez que parecia ser tão natural a ela?
Então pôs-se a observar James enquanto lhe falava, pois sentia-se cansada de lamentar por seus infortúnios e nada mais fazia a não ser isto quando admirava o quadro de sua mãe. Além disso, o momento lhe oferecia excusa para que pudesse olhá-lo nos olhos sem causar desconforto – já haviam tido o suficiente de tal por uma vida inteira, quanto mais em apenas uma noite.
Lhe sorriu diante de suas palavras de segurança. Era gentil de sua parte dizê-las quando poderia simplesmente manter sua distância e dar-lhe respostas monossilábicas apenas para não deixar a princesa conversando com as paredes, gesto que decerto não seria bem visto; mas, supôs, não devia ter esperado menos. Estava diante do homem que suportara longo interrogatório, pois não havia outra forma de se referir ao que ocorrera nos jardins apenas minutos antes, sem se esquivar, embora não fosse expressamente obrigado a fazê-lo. Adelaide conteve um suspiro. Mal o conhecera, e ainda assim lhe parecia tão leal. Perguntou-se qual era a causa pela qual lutaria, caso não precisasse estar ali, e, não pela primeira vez, sentiu o peso da culpa no estômago por ser a razão pelo qual James havia sido convocado à corte.
“Imagino que tenha razão,” observou, inspirando profundamente. Já deixara de encarar a James, fitando, em vez dele, o céu noturno estrelado, visível através de uma das janelas. “Políticas, conflitos e traições. É o que se precisa suportar quando se nasce para ser rei. Ou rainha,” acrescentou, lançando um último olhar ao retrato de sua mãe antes de, de maneira quase inconsciente, seguir caminho. “Me parece que ter a paz garantida é um futuro que só existe em nossos sonhos,” murmurou, em tom mais baixo do que o natural, mas alto o suficiente para que James a pudesse ouvir.
Atravessaram mais alguns corredores antes que ela erguesse a voz outra vez. Estivera pensando na escolha de palavra de James: a vontade de Deus. Bem, era quase certo que não compartilhavam a mesma fé; não se podia deixar esquecer – e temia, pois o fazia com cada vez mais frequência na última hora que havia passado – o seu local de origem, por mais que sua companhia fosse tão agradável quanto possível nas circunstâncias. James nascera no ducado de Westhelm, domínio da mais poderosa casa de fé católica de Naeworth após os ramos da própria família real. Não poderia estar certa, mas o palpite mais seguro era de que fosse católico fervoroso. Deslizes quanto àquele sentido seriam os mais perigosos de todos, e por isto precisava lutar para evitá-los.
“Estou certa de que sim. Nosso Deus nunca comete erros,” concordou, com um aceno de cabeça. Se deveria atuar como católica que não era, então deveria começar logo. Ao menos não havia nada comprometedor no que dissera – para sua segurança ou para a sua fé. “E agradeço por sua preocupação, James. Tenho certeza de que uma noite bem dormida me fará bem,” sorriu-lhe novamente. Era verdade, embora duvidasse de que pudesse dormir bem àquela noite, após tantas mudanças e quando havia tanto no que se pensar. “Veja, estamos aqui,” expirou, aliviada. Suas despedidas ali marcariam o fim de uma longa noite, e Adelaide ansiava pelo conforto de sua cama. Guardas distintos estariam à sua porta, e também James poderia descansar, ou ao menos a princesa assim esperava. “Nos veremos de manhã, então o apresentarei o palácio e a quem precise conhecer. Tenha uma boa noite,” desejou, com um breve meneio respeitoso de cabeça, então atravessou a porta e rumou para o interior de seus aposentos.
Hostages — para 01
lionheartedhound:
A voz da princesa demorou a se fazer ouvir novamente, fato facilmente perceptível em meio ao silêncio que passara a reger o jardim. Era outro vazio, se distinto, por momentâneo, mas o qual o deixava ainda mais desorientado em uma situação de estranheza já intrínseca, inescapável. Entretanto, ela logo tornou a respondê-lo, oferecendo seu próprio aval sobre o tema abordado. Então, não, não sabia exatamente quem poderia desejar sua cabeça como espólio de guerra. Ou estaria mentindo, ocultando-lhe algo? Sequer confiaria nele? Em tese, não havia motivo para não fazê-lo— os lábios de James lhe haviam jurado lealdade, afinal, e seu dever mais básico ali era mantê-la em segurança; o que teria a temer? Todavia, ele bem sabia o quão vagos votos podiam ser, e Adelaide sem dúvida o sabia também, o vira com os próprios olhos; ela não tinha conhecimento de suas reais intenções, de seus reais pensamentos quanto a sua nova situação. Todo asseguramento que recebera vinha de um homem que, praticamente desde seu nascimento, se empenhara em tentativas de garantir que o trono não ficasse em suas mãos ao final (ao menos uma ameaça já bem familiar). Poderia julgá-la por qualquer desconfiança? Decerto, não, mas a existência dela como empecilho para sua comunicação dificultava e muito que ele cumprisse seu trabalho. Haveria de conquistá-la. Como raios poderia fazê-lo? Não teria escolha que não tentar. Tempo, no entanto, era quase certo.
“Posso apresentá-los, se assim desejar”. Em um gesto instintivo, os olhos de James foram ao encontro dos dela, suas sobrancelhas formando um tênue arco em surpresa. Sua mente logo deu-se a refletir sobre a proposta, mas a lembrança de que não tinha a escolha de negá-la não tardaram a atingi-lo — uma princesa, falava com uma princesa; seus “pedidos” não eram, em realidade, pedidos. — Seria de grande ajuda, Vossa Alteza, se fazê-lo não lhe apresentar algum incômodo ou distraí-la de seus deveres — concordou. Sem dúvida, salvaria-lhe tempo, já que o livraria da necessidade dos escassos instantes que teria sozinho para se comunicar propriamente com qualquer outro alguém daquela corte. Na maioria do tempo, ele supunha, haveria de se portar como uma sombra, um fantasma pairando sobre as interações da princesa, ao mesmo tempo ignorável e ameaçador o bastante para que ninguém se sentisse afastado dela, mas nem como se tivesse a liberdade de atacar-lhe de qualquer maneira. Já que teria de estar sempre ao seu lado, de uma forma ou de outra, muito facilitaria que ela se dispusesse a servir de ponte e guia naquele início.
Por algum motivo, a menção à ideia de retornarem ao interior do castelo trouxe-lhe um incômodo ainda mais profundo. Era o momento no qual, até então, conseguira escapar de pensar. Quiçá fosse o temor de ter de mais uma vez encarar seus familiares, embora, depois de tanto tempo, aquilo lhe parecesse improvável. Adelaide estava certa; era tarde, haviam sido deixados sozinhos. Não podiam se delongar demasiadamente ali. Ou quiçá fossem as incertezas; por onde buscar? Como proceder? Por mais que não tivesse grande afeto por elas, porém, podia encará-las sozinho.
— Não tem por que se dar ao trabalho de tanto, Alteza — afirmou. — Tenho certeza de que alguém poderá informar-lhe quanto a meus aposentos. Posso simplesmente escoltá-la até os seus para que descanse.
Lançou um breve olhar na direção dos imponentes portões que davam entrada para o jardim, cerrando momentaneamente os olhos ao se realizar de que logo precisaria atravessá-los mais uma vez em seu caminho de volta ao interior do palácio. Pela primeira vez, alguma calmaria se instalara em si; a sensação de estar sozinha a tranquilizava, embora mesclada à insegurança que a presença de James ainda lhe trazia. O quão irônico era, se perguntou, sentir-se insegura perante o homem que havia jurado protegê-la? Não duvidava das palavras dele; não representava um perigo real, concreto, ao menos não diretamente – e até onde ela sabia. Mas o pensamento de que teria, a partir de então, de cuidar de cada um de seus movimentos, para que não fossem encarados como suspeitos e ele não se sentisse na obrigação de informar ao rei... Céus. Seria capaz de fazê-lo? E, se desse um passo em falso, quais seriam as consequências? Eram estas as dúvidas que a impediam de se sentir protegida ao lado do guarda, por mais que, se somente por suposto, aquele fosse o objetivo pelo qual ele estava ali. Retornar ao palácio, sob a constante vigilância, não apenas dele, mas de mil outros olhos atentos, roubaria de si os poucos momentos de paz que haviam restado em sua vida.
Mas permanecer ali, por mais que lhe trouxesse instantes de conforto e serenidade dos quais sentiria falta no futuro, seria dificilmente uma opção – e não apenas porque não poderia se deitar e dormir em meio às flores e arbustos. Adelaide conhecia a corte de Rivergate bem o suficiente para saber que os boatos surgiam rapidamente e corriam com rapidez ainda maior; o tempo transcorrido desde que o último nobre os havia deixado, a ela e a James, até que retornassem ao castelo, não passaria despercebido. Se quisesse proteger a sua própria reputação, imaginou, faria bem em se apressar em voltar. Céus, não pôde deixar de pensar. Lhe parecia que toda a sua liberdade havia sido tomada de si. E não seria esta a razão pela qual o rei tanto insistira em ter alguém a observando todo o tempo? Ao menos até que estivesse casada e longe dali, e portanto não representasse um risco a Naeworth ou à nova linha de sucessão. O mero pensamento a frustrava imensamente; o havia feito desde que ela se dera conta de tal fato pela primeira vez. O trono era seu por direito e, ainda assim, nunca pertenceria a ela, apenas porque não nascera o homem que o reino desejara.
Não era momento, porém, para demonstrar sua insatisfação. Poderia ruminar sobre sua falta de sorte mais tarde, quando estivesse finalmente segura e sozinha em seus aposentos; se é que algo assim lhe seria permitido. Decerto, pensava, não permitiriam que os compartilhasse com um homem? Mas convivera com seu pai e tio Declan por toda a sua vida, e os conhecia bastante bem para saber que eram igualmente imprevisíveis. Ainda prezariam pela sua imagem? Talvez sua intenção não fosse vê-la casada, mas apenas arruinada o suficiente para que pudessem mandá-la para longe. Estaria o rei desesperado o suficiente para ousar com um movimento que pudesse trazer desonra a sua própria filha e, portanto, também a seu país? Preferia acreditar que não – mesmo a ambição de sua família tinha seus limites. Ainda assim...
Inspirou profundamente, voltando a fixar seus olhos em James. Estava sob a impressão de que ele dissera algo, mas não conseguia estar certa de quê; naquela noite, parecia estar propensa a se distrair com os próprios pensamentos. Ele, no entanto, logo voltou a falar. Adelaide cuidou para se atentar às palavras daquela vez, comprimindo os lábios diante da resposta dele. Gostaria de acompanhá-lo, que o fosse apenas como retribuição da cortesia que ele fizera a ela ao responder todas as suas perguntas, mas entendia os possíveis motivos por trás da recusa; também ele deveria ansiar por algum tempo sozinho. Sempre falhava em se lembrar que a paz de James também lhe havia sido roubada com o cargo designado. Perguntou-se o que seria mais difícil; ser a observada ou o observador, que deveria se manter sempre alerta, mesmo que não o desejasse?
“Compreendo. Como preferir, James,” replicou, por fim. Não era uma pessoa de poucas palavras; o fato de que tivera tão pouco a dizer aquela noite – ao menos para seus padrões – de alguma forma a assustava. E teria de se acostumar à ausência de um título; há horas vinha se referindo a ele apenas por seu nome e, no entanto, o hábito continuava a lhe parecer estranho, se não de fato impróprio. Entreabriu os lábios para lhe dizer mais alguma coisa, mas não havia mais nada a ser dito, ao menos não por enquanto; voltou a fechá-los, e encarou mais uma vez a entrada do jardim, suspirando longamente. “Vamos, então,” assentiu uma vez, para nada em especial, e esperou que ele a seguisse enquanto se dirigia aos portões.
O caminho de volta ao palácio e enquanto seguiam pelos corredores foi, em sua maior parte, silencioso. Novamente Adelaide se viu perdida em meio a suas considerações e reminiscências sobre o que ocorrera no dia; tudo ainda lhe parecia muito irreal, como se estivesse vivendo em um sonho. A conversa que acabara de ter com James nos jardins era o que mais retornava à sua mente. Ao menos conviveria com alguém que lhe despertava interesse; não poderia negar que considerava o guarda intrigante, para dizer o mínimo. E, em poucas horas, criara certo apreço por admirá-lo, também, embora com a maior discrição que fosse possível – era um homem bonito, ainda que Adelaide não estivesse certa de que seria apropriado dizer algo assim em voz alta sequer a uma de suas damas de companhia, que dirá ao próprio James.
Ao dobrar um corredor, no entanto, um elemento em seu campo de visão a arrancou de seu torpor, fazendo-a estancar no mesmo lugar, os olhos azuis como o céu da manhã fixos em algo que bem poderia ser o seu reflexo. Vira o retrato de sua mãe muitas vezes – e vira muitos deles, também, majestosos e dignos como se esperaria da arte que representava uma rainha. Deixara de admirá-los por muito tempo há alguns anos; lhe traziam dúvidas à mente, e entre todas elas, destacava-se o e se. Se Anne-Claire tivesse sobrevivido ao seu nascimento, o que seria dela, Adelaide? Também sua mãe estaria decepcionada com o fato de ser uma mulher? Pouco provável, pelo que diziam as histórias. Fora uma rainha jovem e reinara por pouco tempo, mas sua determinação era encantadora, contagiante. Jamais permitia que debochassem ou pensassem pouco dela; dificilmente deixaria que o fizessem com sua filha. Agora, no entanto, parecia simplesmente certo parar para admirá-la.
“Acha que somos parecidas?” questionou, em um impulso, voltando os olhos apenas brevemente na direção de James. “Bem, ela era mais jovem, é claro, quando... oh. Você conhece a história, imagino,” mordeu o canto dos lábios, incerta. Por que insistia em continuar falando? Céus! E ainda assim, algo parecia lhe impelir a continuar. “E me disseram muitas vezes que os traços dos Redwater prevaleceram em mim... O que é algo bom, porque sou sua única herdeira,” prosseguiu, olhando, não para James, mas sim para o retrato na parede. “Mas há algo nela... Uma aura, talvez, eu não saberia dizer... Que consigo ver em mim mesma também,” Adelaide respirou fundo, cerrando os olhos por um instante. “Entende o que eu digo?” voltou a perguntar, em um suspiro triste. “Gostaria de tê-la conhecido,” confessou, por fim. “Me sinto culpada, às vezes... Porque ela não está mais aqui. Deus bem sabe que eu moveria montanhas para tê-la comigo. Nada seria tão complicado se ela ainda vivesse. Nossas vidas teriam rumos muito diferentes, James, se, bem, se ela tivesse suportado,” lançou um olhar significativo na direção do homem, esperando que ele compreendesse. Não sabia o motivo pelo qual continuava a lhe dizer tantas coisas – coisas que guardava para si própria há muitos anos –, mas sentia-se como se fosse incapaz de parar. “E sei que não está certo. Não é minha culpa, ouvi muitas vezes. Ela não tinha mais de quinze anos; era jovem demais, todos dizem. E tinha saúde frágil. Mas não posso deixar de me sentir responsável. Ela morreu para gerar um herdeiro, e poucos sequer me veem assim hoje. E meu pai a amava tanto que se recusou a se casar novamente e trair sua memória, mesmo que isso trouxesse consequências... e agora por minha causa o país está dividido. É frustrante e triste, e gostaria que ela estivesse aqui, porque me consolaria quando me sentisse assim e teria evitado todos os problemas pelos quais somos forçados a passar,” completou, por fim. Então finalmente pareceu se realizar do que fazia; piscando uma vez, voltou-se lentamente na direção dele, pensando no que diria a seguir e como se explicaria. Tola. Não lhe disse para não expor seu coração?, uma voz lhe perguntou no fundo de sua mente. Mas era tarde demais e o que havia sido dito já passara, e seria difícil remediá-lo. Procuraria não pensar no deslize a fundo e cuidar para que não acontecesse mais uma vez; não havia mais nada que pudesse ser feito. “Sinto muito por tomar seu tempo com este discurso. Não deveria... Bem, acho que dormi pouco a noite passada, talvez tenha exagerado no vinho; estou me sentindo um pouco confusa. Peço que me desculpe se o causei algum tipo de desconforto.”
Hostages — para 01
lionheartedhound:
Sentiu sua mandíbula tensionar-se em uma reação imediata à pergunta da princesa, como se lhe fosse colocada uma acusação por algum grave crime e não uma questão inocente, sem dúvida impulsionada por mera curiosidade. No entanto, não era por sentir-se ofendido que a tensão agora o tomava. Eram as memórias — não de sua mãe, mas do vazio que ela representava em sua mente. De todas as indagações que o acompanhavam desde que desenvolvera a capacidade de pensar por si próprio e fazê-las. Dos sentimentos os quais insistiam a travar em seu peito uma batalha fadada a nunca obter desfecho, por mais que ele se esforçasse em dissipar os esforços inúteis de cada um dos lados. Não tinha qualquer utilidade ponderar sobre possibilidades irrealizadas, as quais nada mudariam em sua vida. E mesmo assim…
Seu desconforto deveria se ter feito notar, percebeu, a julgar pelo pedido de desculpas a ele oferecido. James meneou a cabeça rapidamente, na tentativa de se fazer tranquilizador.
— Não se preocupe, minha senhora; não vejo qualquer falta de cortesia. Como disse, está livre para perguntar o que queira — assegurou-a em um tom inexpressivo antes de sua mente retornar à questão pendente, arrancando-lhe um suspiro. — Não, não a conheci. Não por tempo o bastante para me lembrar de seu rosto ou do som de sua voz — confessou. De sua mãe, só possuía um nome e outras escassas informações, dadas a si por lorde Ewing: Anneliese, uma mulher jovem, aos moldes franceses. Segundo ele, a moça mais bela que já vira naquele ducado. James não deveria ter sequer um ano quando ela abandonara o ducado e também a ele, deixando-o, em definitivo, aos cuidados do duque — ato pelo qual ele nunca a perdoara. Uma desconhecida, um nome sem rosto, mas já sob seu ressentimento. Ao mesmo tempo, não conseguia deixar de se perguntar quantos dos atos dela haviam sido sua escolha e quantos, imposição daquele que a engravidara. Se a conhecesse, se a houvesse tido em sua vida por mais tempo, teria uma mãe? Por Deus… fariam pais, ou pessoas com quem dividisse tanto afeto quanto laços de sangue, tanta falta em sua vida a ponto de levá-lo a ponderar qual seria sua relação com uma meretriz? Eram partes de si que James não compreendia. Considerava que crescera bem, apesar de tudo — apesar dos vazios. Já não deveria perder tempo com aquelas conjecturas.
Por um instante, ponderou sobre a mãe de Adelaide, por sua vez. Não tardou a se lembrar da resposta que obteria. Não deveria ter mais do que quatro anos quando recebera a notícia da morte da rainha Anne-Claire, deixando um dos tronos vagos, e crescera com o duque a afirmar e a reafirmar sua opinião de que o rei tinha de se casar novamente, de que ele tinha de garantir um herdeiro. Então, sua senhora crescera tal como ele, embora talvez tivesse retratos para pintar em sua imaginação o semblante da mãe, diferentemente de si. De uma maneira ou de outra, parecia que tinham mais em comum do que considerara antes. Não sabia que juízo atribuir à percepção.
Assentiu quietamente com a explicação dada pela princesa. Sim, como bem supusera. Não vinha como grande surpresa, vinha? A disposição de alguns a tentar arrancá-la do trono. Jurara lealdade a uma futura rainha, James percebeu. Protegê-la significava também proteger seu título, seu direito. Não podia julgar que tipo de governante ela faria. Embora muitos rumores estivessem espalhados pelo reino — dona de má fé, fraca, de planos para “devolver” Naeworth à Inglaterra, impura —, não sabia quantos tinham fundamento e quantos eram apenas tentativas de desacreditá-la. Todavia, forte ou fraca, boa ou ruim, haveria de apoiá-la e garantir que ela continuasse viva. Haveria de aprender o nome de todos os seus opositores e manter um olho atento a eles, até que houvesse tomado ciência dos limites dos escrúpulos de cada um.
Pensou em seu pai. Até onde ele iria? Havia convivido com o duque por uma vida inteira, mas ainda não conseguia prever suas ações com tanta facilidade quanto gostaria. Ele era um homem de negócios, e James sabia que os limites de sua ambição, ao menos, eram inexistentes. Negociaria com o próprio Diabo se acreditasse poder arrancar de tanto alguma vantagem para si, mesmo que se declarasse um fervoroso católico. O que poderia ser dito de seus escrúpulos, então? Ao mesmo tempo, não era nenhum tolo. Só apoiaria o lado que acreditasse ter chances de vencer — mas reconhecendo seu apoio. Arriscaria-se a planejar a morte da princesa? Quem gostaria de ver em seu lugar? Um fantoche seu, sem dúvida, seria seu grande sonho.
— Compreendo — murmurou em tom ponderativo, apenas então percebendo que deixara Adelaide ao silêncio por um tempo desconhecido enquanto se perdia em suas reflexões. — Não sei se poderia ir tão longe quanto a pedir-lhe por nomes, mas não hesite em dá-los na hora certa, caso se sinta particularmente ameaçada. Tentarei manter meus olhos aguçados para que Vossa Alteza não tenha de se perturbar com essas questões, mas temo ainda conhecer demasiado pouco da maioria dos que a cercam — admitiu. E teria jeito de Adelaide ser salvaguardada de perturbações e desassossegos? Quanto ela, por sua vez, sabia? Ou estaria desavisada, deixada a caminhar entre cortesões sem saber quais eram amigos ou inimigos? Soava-lhe como uma vida sufocante, a qual tornaria tudo mais difícil para ambos.
“Por ora, isso é tudo.” James tornou a assentir, dividido entre o alívio de não ter de se delongar em informações sobre si próprio e a tensão. E então, cairiam no silêncio? Seria nele que passariam a maior parte de seu tempo juntos? Provável. Talvez enfim fosse dispensado, se sequer pudesse sê-lo. Novamente, lembrava-se dos motivos por trás de seu desgosto por incertezas.
Umedeceu os lábios, contentando-se apenas em anuir diante das palavras de James – havia pouco mais que pudesse fazer, de qualquer forma; poderia oferecer suas condolências, imaginava, mas de que lhe serviriam? Temia que ele enxergasse tal reação da mesma forma que a própria Adelaide a via sempre que lhe era oferecida – uma demonstração insincera de piedade, senão de absoluto deboche. Eu sinto muito eram, na maioria das vezes, palavras vazias; ela não correria o risco de ofendê-lo por tão pouco.
Ainda assim, talvez fosse um engano comparar sua situação àquela de James. A rainha falecera, de fato, muito cedo, mas dificilmente poderia-se dizer que a deixara completamente sozinha no mundo – Adelaide sempre tivera alguém com quem partilhar seus temores e a quem confidenciar seus segredos e, apesar de jamais ter conhecido o amor materno, o conhecera de muitas outras formas. James, por outro lado – bem, considerando a reputação do duque de Westhelm e do tratamento usualmente dirigido a bastardos, Adelaide tinha motivos para crer que, com ele, não fora da mesma maneira.
Estremeceu com o pensamento. Muitas vezes, em situações delicadas como aquela em que se encontrava, esquecia-se de sua verdadeira posição. Era uma princesa, afinal, e a herdeira do trono – ainda o era, até que o contrário fosse decretado. Poucos nasciam sob o signo de tal sorte; e, embora sua vida não fosse o paraíso que muitos imaginavam, certamente sequer se aproximava do inferno em que viviam alguns de seus conterrâneos.
Eventualmente, o som da voz de James a arrancou do torpor de seus pensamentos, atraindo-a de volta para a realidade. Não sabia quanto tempo se passara desde que ele falara pela última vez; imaginou que também ele se perdera em reflexões. E novamente, ainda que por um breve momento, se limitou a assentir em resposta – como esclarecer, afinal, que aqueles que a ameaçavam eram absolutamente inatingíveis?
Convencida de que o guarda não fora incluído nos planos de seu pai – ou ao menos não inteiramente –, e porque ele parecia ter real intenção de protegê-la, pôs-se a se questionar sobre quais seriam as opiniões dele a respeito de sua iminente ascensão ao trono. Conheceria os boatos que percorriam as ruas dos vilarejos e mesmo os aposentos privados de certos nobres? Se os conhecesse, acreditaria? Bem, não podia negar que alguns deles se aproximavam da verdade; já outros não passavam de cruéis rumores que intencionavam desrespeitá-la e ofendiam até mesmo ao homem que pretendia destroná-la. Seria James um daqueles que a condenavam, fadado pela má sorte a proteger alguém a quem desprezava? Por outro lado, seria um dos que juravam defender seu direito de nascença até a morte? Ou, ainda, seria simplesmente indiferente, um peão dos nobres em um jogo que não visava beneficiar a ninguém além deles próprios, um soldado abandonado em um campo de uma batalha que não queria lutar?
Não havia respostas para aquelas perguntas, e a dúvida a inquietou.
“Temo não ser capaz de oferecer descrições detalhadas de meus perseguidores,” inspirou, procurando se manter calma. “Não passam de rostos sem nome para mim,” prosseguiu. As indagações continuavam a rondar sua mente – se a detestasse desde antes, o que seria dela, o que seria de ambos? Não parecia um cenário improvável; afinal, ele crescera sob tutela do duque. “Mas prometo mantê-lo informado... James,” acrescentou, a informalidade trazida pela falta de um título estranhamente áspera em sua língua.
A brisa fria atingiu o seu rosto, e Adelaide se perguntou o que deveria fazer a seguir. Não satisfizera todas as suas dúvidas, mas temia não poder expressá-las, não ainda; já o interrogara o suficiente – não pretendia causar-lhe mais desconforto. Haveria tempo de sobra para que desvendassem os mistérios um do outro.
Lhe ocorreu, somente então, que James deveria se sentir particularmente deslocado ali. Nunca estivera no ducado de Westhelm, porém muitas vezes ouvira murmúrios sobre a fortaleza da casa Fairmount – e, embora certamente fosse rico, os nobres ali presentes e costumes locais se diferiam em muitos aspectos daqueles na corte da capital.
“E posso apresentá-los, se assim desejar,” voltou a falar, buscando os olhos dele com os seus, esperançosa de que ele visse tal iniciativa como um gesto de boa-vontade da parte dela e não mais uma tentativa de arrancar seus segredos de si e lhe fazer perguntas indiscretas. “Mostrar-lhe a corte, lhe falar sobre os nobres. Podemos caminhar juntos pela manhã,” sugeriu, desviando os olhos para o céu estrelado acima.
Não se ouvia mais o farfalhar das folhas sob os pés dos convidados ou o som das caudas dos longos vestidos das damas arrastando-se pelo chão, e Adelaide se sobressaltou ao perceber que haviam sido deixados sozinhos.
“Talvez devêssemos entrar,” murmurou, incerta; sentia-se como se a observassem furtivamente de todos os cantos que na escuridão eram invisíveis aos olhos dos desatentos. “Deve ser muito tarde,” observou, e sua voz não soou tão firme como teria gostado, “e sequer descobrimos os aposentos onde dormirá esta noite,” adicionou, comprimindo os lábios. Poderia deixar que ele o fizesse sozinho, mas aquela era uma dúvida que a perseguia desde o início da noite – e, de alguma forma, como a indireta responsável pela presença dele ali, sentia-se na obrigação de acompanhá-lo naquela pequena jornada, tanto quanto agora era a dele escoltá-la.
Hostages — para 01
lionheartedhound:
O silêncio que se interpunha entre eles era espesso como a neblina que descia de uma montanha no inverno, neblina a qual James anelava por se dissipar, mas sem ousar fazê-lo. Uma vez mais, viu-se a evitar as íris que pesavam sobre ele, porém sem escapá-las por inteiro — um tornar abrupto de cabeça apenas tornaria seu desconforto explícito, o que provavelmente apressaria a princesa em suas ações. Compreendia sua necessidade de analisá-lo, pois compartia dela, de forma que, mesmo se estivesse ante uma nobre de pequena posição ou mesmo uma mera serva, e não de uma futura rainha, não poderia se queixar. No entanto, qual ponto haveria de encarar enquanto isso? Qualquer mirada mais abaixo poderia ser mal-interpretada como desrespeitosa e, ele supunha, com alguma razão. Duvidava que Adelaide fosse alheia a seus próprios charmes, afinal. Muitos já deveriam ter feito questão de lembrá-la de tal ao longo de sua vida.
Acabou por contemplar algumas de suas mechas ruivas, sem realmente absorver a imagem diante de seus olhos. Para seu alívio, assim como para sua silente gratidão, não teve de esperar por muito mais tempo. Todo o seu foco retornou à princesa, resoluto. Ansiava por suas perguntas, sobretudo pelas respostas que carregariam às que ele próprio tinha.
Nada. Nada lhe fora dito. Muito menos do que ele deduzira. Agora, teria de revelar-lhe os fatos por si mesmo. Quiçá fosse esperado, que seu pai não tivesse a varonilidade de se submeter à vergonha de tanto. Bem, que fosse. Ele, por sua vez, nada esconderia. Pela inclinação da corte a facilitar o alastrar de burburinhos como madeira para um incêndio, diria que a informação logo chegaria aos ouvidos dela de qualquer forma, mais cedo ou mais tarde — ainda mais com os rostos que identificara naquele evento. Muitos ali estavam mais do que cientes de quem ele era e não fariam qualquer esforço para velar seus mexericos; apontariam dedos até que qualquer pessoa alheia à situação fosse noticiada. Se seus irmãos não o faziam, era por puro respeito à honra da mãe deles, já suficientemente maculada. Não, se a princesa estava fadada a descobrir, James preferia que fosse a partir de sua boca e da de ninguém mais.
— Pois bem, minha senhora, não sei se tenho muito a oferecer — iniciou. — Meu nome é simplesmente James Edgar. Meu pai, como sabe, é o duque Gregory de Fairmount. Minha mãe, porém, é uma cortesã — pausou pelo instante de uma batida de coração, apenas para averiguar se podia depreender qualquer emoção no rosto alvo. Ficaria surpresa em saber das lascividades de seu pai? O duque tinha sua fama por, tragicamente — e, sem dúvida, para o profundo descontentamento de sua esposa —, ter tomado para si o dever bíblico de procriar e povoar a Terra. Contudo, não sabia se tal fato seria permitido ao conhecimento de uma dama de tão alto porte, ou habilmente oculto por ser demasiado obsceno. — Imagino o que deve estar pensando. Um bastardo foi encarregado de protegê-la — outra coisa que o deixava perplexo. Quanta desonra não deveria ser, para uma princesa, o destino de ser acompanhada por um homem sem sequer um nome? Para todos os efeitos, ele não passava de um qualquer . Criado como um nobre, em casa nobre, sim, mas ainda um qualquer. Tomaria aquilo como um insulto? — Sinto muito por tanto. Fora minhas armas, nada tenho que não minha mente e minha honra, mas estas estão todas completamente a seu serviço, disso não há que duvidar — ergueu tenuemente os cantos dos lábios na intenção de um sorriso e reclinou a cabeça, na tentativa de oferecer um respeito apologético o qual não sabia como demonstrar.
“Acredito que minha segurança esteja em jogo”. Os olhos de James cintilaram em uma curiosidade permeada por consternação. Mentiria se negasse um anelo por alguma comoção, pelo pulsar forte do sangue em suas veias por um bom motivo, mas uma ameaça à vida da única herdeira do trono de um reino tão pequeno não se enquadraria na definição; não seria algo sensato a se desejar. Uma série de possibilidades cruzaram-lhe a mente, embaralhadas, em um ponderar breve e sem bases firmes. Fanáticos religiosos? Alguém que detestasse a ideia dela no trono a tal ponto? Alguém que desejasse este para si? Mais do que uma das opções, objetivos espalhados por diversos sujeitos? Vivia demasiado distante da corte para saber. Um agudo lembrete de que as pessoas com que passaria a conviver não lhe passavam de imensas incógnitas.
— Poderia me dizer qual ameaça, Vossa Alteza? — pediu com olhos estreitados, como se em suas feições pudesse encontrar a resposta escrita, disfarçada astutamente. Não teria escolha que não insistir naquele assunto, James presumia; não se quisesse cumprir seu dever como lhe cabia. Não interessava sua repulsa por seu novo encargo, não se deixaria se responsabilizar pela morte de uma — até onde ele sabia — inocente.
Assentiu com certa gratidão ante as palavras asseguradoras da princesa, muito embora, por dentro, se visse hesitante em crer nelas. Ela poderia estar sendo sincera, poderia não exigir satisfações dele por iniciativa própria e direta, mas quem haveria de dizer o que ele não teria de contar-lhe, de maneira ou outra? Se ela, eventualmente, desejasse por algo, ele não poderia negar-lhe; não sem soar, no mínimo, rude, além de suspeitoso. Por que sentia a necessidade de ocultar algo de sua senhora, afinal? Ademais, se terceiros se dessem a especulações, para o bem dela, James também não poderia fazê-lo. Quanto mais pensava, mais notava o quão ignorante era sobre o destino de si próprio e de ambos a partir daquele dia. Talvez não devesse se surpreender com tal, tendo em vista que sequer sabia em que cama dormiria aquela noite.
— Agradeço vossa consideração, minha senhora; manterei isso em mente — afirmou, esforçando-se para que suas incertezas não se fizessem transparecer em sua voz. — No entanto, não tenho nada a esconder. Por favor, não se sinta acanhada se houver algo que julgue necessário saber.
Adelaide estudou o guarda por alguns breves instantes, buscando em sua expressão quaisquer sinais de que sua aparente insistência em obter uma resposta o causasse algum incômodo – mas ler a outras pessoas nunca fora um de seus pontos mais fortes e, caso fosse sincera o bastante consigo mesma, estava à procura de uma resposta que já possuía. Nas presentes circunstâncias, dizer que aquela era uma situação confortável para qualquer um dos dois seria mentir deliberadamente.
Permitiu que seu olhar vagasse pelo jardim durante alguns breves instantes, mirando um arbusto de flores de cor vibrante, embora não o enxergasse realmente. O gesto não apenas tinha a intenção de dar a entender a James que ela não pretendia pressioná-lo, mas também lhe dava algum tempo para organizar seus próprios pensamentos na mente que parecia fervilhar com estes – na grande maioria, fantasias sobre um futuro do qual a princesa não sabia o que esperar.
A voz de James a trouxe de volta à realidade, e mais uma vez os olhos dela se demoraram nos dele. À exceção de uma de suas sobrancelhas, que se arqueou conforme ele falava, incentivando-o a prosseguir, manteve sua expressão absolutamente impassível. Por fim compreendia o incessante burburinho que percorrera a multidão todo o tempo no salão em que haviam sido apresentados; nem todos os murmúrios eram, afinal, declamações de satisfação com a retirada do obstáculo que Adelaide representava aos nobres. Alguns deles simplesmente comentavam sobre o filho bastardo do duque de Westhelm.
E compreendia também o motivo pelo qual limitara sua glória ao posto de um mero guarda real – na posição delicada que ocupava na vida de sua família, aquele era o máximo de honra que lhe havia sido permitida. Duvidava que lhe tivessem oferecido alguma escolha, afinal. Comprimiu os lábios, sentindo uma pontada em seu coração; pela primeira vez, uma onda de simpatia por James percorreu o seu corpo. Não ser capaz de seguir o próprio destino era uma dor que Adelaide conhecia muito bem. Perguntou-se quantos dos planos dele haviam sido interrompidos com a designação presumivelmente indesejada.
Devia se parecer muito com a mãe, Adelaide constatou, examinando-o. Embora houvesse de fato reconhecido alguns traços do rosto do duque nas feições do próprio James, não passavam de meros detalhes – alguém menos observador poderia sequer tê-los notado, ela imaginou. Ou está enganada, uma voz sussurrou, insinuante, em sua mente. Não quer relacioná-lo a um homem que quer afastar você do trono, portanto se enganou a ponto de não enxergar as semelhanças. De fato não seria agradável pousar os olhos nele todos os dias e se lembrar de que seu pai provavelmente fora um dos primeiros a aconselhar o rei a mudar a linha de sucessão. Lhe parecia um tanto irônico – pois em qualquer outra ocasião, tal sugestão seria considerada alta traição e passível de pena de morte, mas eram palavras ditas abertamentes a seu pai e consideradas por ele pelo simples fato de que era uma mulher.
Bem, talvez não apenas por isso, ela admitiu, franzindo o cenho levemente. Decerto sua admiração quanto ao governo inglês de Elizabeth nos últimos anos não havia passado despercebida, e tampouco seu desinteresse em rituais tipicamente católicos. Imaginava que deveria ter sido mais cuidadosa quanto a isso, mas, àquela altura, era tarde demais para se arrepender de suas próprias atitudes.
“Você a conheceu? A sua mãe, eu me refiro,” indagou, impetuosamente, ignorando por um momento o restante do discurso de James. O motivo pelo qual o fizera lhe parecia bastante claro – nunca tivera a chance de conhecer sua própria mãe, a rainha Anne-Claire, morta poucas horas depois de dar à luz, e portanto quaisquer histórias de pessoas cuja sorte em tal quesito superara a dela a interessavam e encantavam imensamente. Ainda assim, porém, fora uma pergunta indelicada, e ela se amaldiçoou no mesmo instante em que se deu conta do que havia dito. “Eu quero dizer... sinto muito,” balançou a cabeça, o cacho que havia se soltado esvoaçando com o movimento. Deu graças à escuridão, pois ao menos o guarda não poderia ver o seu rosto afogueado. “Não foi cortês de minha parte perguntar.”
Mais uma vez a pergunta que rondara sua mente horas atrás se manifestou, ligeiramente mais esperançosa. A quem pertence a lealdade que ele jura? Mas o rei não estava ali, e o quanto se podia ser voluntariamente leal a um homem que rouba tudo o que lhe é mais precioso – a liberdade? Estendeu a mão para tocá-lo em um gesto de conforto, dizer-lhe assim, ainda que de forma implícita, que sua posição não importava; entretanto, pensando mais a fundo, se retraiu, contentando-se a assentir em resposta às palavras dele.
“E não duvido,” assegurou-o. Não sabia bem o que pensar de James Edgar de Westhelm, mas não levaria muito tempo para descobrir – e, até que o momento chegasse, poderia depositar alguma confiança nele. Devia ser de fato habilidoso, pois de outra forma não teria sido considerado para o cargo de guarda pessoal da princesa, por mais ambíguo que este fosse; além disso, mostrava ser um homem inteligente, cujas frases eram marcadas pela polidez. Como havia dito poucos minutos antes, certamente não esperaria mais dele do que aquilo que lhe fora exigido... E fora exigido que ele a protegesse, embora Adelaide soubesse que aquele se tratava apenas do pretexto de seu pai para mantê-la sob vigilância constante.
Ergueu os olhos para que se encontrassem com os dele mais uma vez com a pergunta, e um sorriso irônico se formou inadvertidamente em seus lábios. Então de fato pretendia cumprir sua função... Ou fora incitado por seu pai a lhe perguntar e procurar saber o quanto a filha compreendia sobre sua situação. De qualquer maneira, ela possuía uma resposta. “Deve saber que há aqueles que não aprovam a minha situação como herdeira do trono. Mas, enquanto a maioria mantém suas opiniões em segredo...,” ergueu uma das sobrancelhas. Aqueles que se opunham à linha de sucessão atual estavam por toda a parte – imaginava que James deveria conhecer ao menos um. O ducado de Westhelm não era um local reconhecido pelo respeito incondicional dispensado às mulheres, tampouco um que apoiasse a ascensão de uma rainha ao trono de Naeworth. “Bem, há aqueles que chegariam a extremos para me impedir de herdar a coroa de meu pai,” completou. Não se tratava de uma mentira – apenas uma omissão, visto que não especificara quem eram aqueles a que se referia. Mas não haveria necessidade de fazê-lo... ao menos não ainda. Decidira confiar em James, sim... Porém não cegamente. Duvidava de que poderia chegar àquele ponto algum dia.
Encarou-o durante algum tempo quando ele fez sua afirmação, sem saber como deveria reagir, e por fim apenas anuiu. “Compreendo... E agradeço,” adicionou. “Mas, por ora, isso é tudo.”
Hostages — para 01
lionheartedhound:
Suas mãos decidiram-se por ir repousar atrás de suas costas, uma a segurar o punho adjunto à outra, enquanto ele se punha em marcha para acompanhar a princesa; uma amostra quiçá considerável do desconforto que guardava, frenético, em seu peito. Já não se importava em demonstrá-la, porém; não quando já se distanciavam da grande maioria das pessoas que possuía qualquer interesse em analisá-lo ou qualquer prazer a ser retirado em vê-lo naquela situação. Presumia que, a partir do momento em que entrara pelos portões daquele castelo, todos os seus gestos, ações e palavras haviam passado a dizer respeito a Adelaide e apenas a ela — uma ideia algo reconfortante; dever explicações a tão somente uma pessoa. Entretanto, nada se tornaria simples e libertador a tal ponto, ele deveria saber sem titubear; estaria seu raciocínio afetado pelo vinho? Os olhos do rei ainda estariam sobre suas costas e, muito embora não fossem os de seu pai, eram próximos o suficiente dele para reportar-lhe qualquer passo em falso que desse. Qualquer falha um pouco significativa para com a princesa, sua dignidade e seu bem-estar sem dúvida serviria de justificativa para que o duque cortasse todo laço que tinha com ele, laços os quais lhe haviam sido impostos diante dos ouvidos e olhos de todos, para seu duradouro constrangimento. Serviria de justificativa para que fosse colocado na rua de uma vez por todas e nunca mais retornasse ao ducado com qualquer receptividade. Tudo o que ele mais desejaria, James supunha.
Só então as palavras do monarca voltaram à sua mente, como um som agudo, destoante do resto. Que reportasse a ele qualquer comportamento incomum por parte da sua filha. Agora que dispensava um pouco mais de atenção àquelas palavras de ordem, elas lhe soavam mais curiosas. Decerto, uma indicação de que seus serviços não eram de posse única e integral de Adelaide — ela era o bem de um reino e ainda pertencia, acima de tudo, à custódia de seu pai. Uma ideia tão difícil quanto bizarra de contemplar. A princesa, como posse de alguém; com exceção, talvez, dos belos, mas repetitivos discursos da realeza sobre como pertenciam a seu povo. Sempre vira Adelaide como a futura rainha, possuidora. Bem sabia que os coroados nem sempre eram os que governavam verdadeiramente; todo reino era erguido sobre pilares determinados, afinal, e a disposição dos donos desses pilares em sustentá-los era essencial. E negociável. Ela poderia não reter todo o poder em suas mãos, ao contrário do que proclamações do Direito Divino fariam aos mais ingênuos crer, mas, ainda assim, James não conseguia encará-la como propriedade, como moeda de troca a ser paga sob o véu de um casamento, como já vira seu pai fazer com suas irmãs e ouvira damas a se queixar.
Por outro lado, de algumas das mesmas pessoas as quais cimentaram a concepção de Adelaide como a mais provável futura governante de Naeworth, já ouvira preocupação ou descontentamento pela ideia de uma mulher no trono, trazendo o risco de que este caísse nas mãos de um homem não pertencente à linhagem dos Redwater; até mesmo, Deus o proibisse, de um estrangeiro. Ou ela poderia optar por se abster de um matrimônio, condenando o reino a não possuir herdeiro certo e, de maneira geral, em consequência de seu mero gênero, à instabilidade política. Previsões compreensivas, mas algo apocalípticas aos olhos de James. A Inglaterra, a um pedaço de mar de distância, prosperava nas mãos uma mulher, afinal. Às custas dos carregamentos espanhóis, de certa forma, mas prosperava, por artimanhas inegavelmente sagazes.
Era outro temor, ele acreditava — Naeworth uma vez mais nas mãos dos ingleses, agora convertidos a “hereges”. A ideia lhe atraía mais do que poderia admitir, se uma atração propulsionada por certo amargor. Um reino tomado por “hereges”, tais como ele, embora observasse sua fé em segredo — ainda tinha algum apreço por sua vida — e dedicasse-a a Lutero mais do que a Henry VIII. Ademais, reconhecia a profunda contribuição que a insular Grã-Bretanha poderia trazer à marinha de sua própria ilha. Entretanto, situação similar seria arriscar uma guerra civil em nome da religião, derramamento de sangue por Deus e Deus. Havia motivos mais honrosos pelos quais pegar em armas.
Foi abruptamente retirado de seus devaneios por uma voz feminina a apontar-lhe algum quadro na parede e sua atenção voltou-se a ele. O mesmo tornou a acontecer algumas outras vezes durante o percurso, nas quais James oferecia algum breve elogio ou murmúrio de acordo. Seu foco fora dirigido aos arredores, que podiam agora ser apreciados com mais clareza, sem ninguém tapando a visão; dentre o descômodo silêncio tenso instalado entre ele e a princesa e as conjecturas de pouca utilidade que rondavam-lhe a mente, a melhor das atrações a que se dedicar. A corte de Naeworth era verdadeiramente uma obra-prima, sobrepujando a austeridade gótica que predominava na fortaleza de Westhelm. Ao menos tinha aquilo para apreciar em sua estadia ali.
Sentiu o jardim antes de vê-lo, a brisa fresca a penetrar brevemente no salão antes de envolvê-lo por inteiro, trazendo consigo uma quietude de certo sucesso em acalmar o espírito. Não estavam sós e o silêncio não era absoluto, nem poderia sê-lo. Ainda assim, aquele espaço formava um contraste significativo com o tumultuado salão do banquete. Respirou fundo, devagar, apreciando a inédita calmaria e o aroma tão puro que invadia, gélido, suas narinas. Enquanto o fazia, James permitiu-se averiguar os arredores. De fato, via o motivo para o estima de Adelaide, se fora genuína. As flores estavam cheias, cada planta impecavelmente podada, como seria de se esperar de similar propriedade. Poderia, com tranquilidade, gastar alguns instantes em desbravar o lugar. Todavia, não era para tanto que estava ali.
Voltou-se para a princesa ao seu lado, na expectativa de que ela começasse um diálogo, mas notou que os olhos dela já repousavam em si, inquisitivos. Desviou seu próprio olhar, deixando-o se perder mais uma vez nos arredores, como quem nada percebera, sua contemplação agora minguada pela tensão em seus ombros, por uma renovada consciência aguda das razões pelas quais estava ali.
Enfim ela cortou o silêncio e James pôde substituir a visão de uma estátua afastada pela dela, com renovada atenção. Novamente, a menção de um título, agora soando muito como um deslize. Suprimiu um esgar de desagrado ante a bajulação a qual Adelaide parecia sentir-se obrigada a proferir. Quiçá pudesse, um dia, ser merecedor de elogio similar, quando obtivesse a permissão de se provar em um campo de batalha ou algo mais do que meros torneios e a defesa da fortaleza contra ladrões… contudo, sabia que a princesa o dizia sem motivos para acreditar em suas próprias palavras. Poderia ser uma conclusão tirada de comentários glorificadores por parte do duque de Westhelm, mas estes também eram vagos, falsos em seu orgulho e máscaras de outras intenções, o que o tornava ainda mais difícil de aceitar. Bem, não importava. Estava ali para responder às dúvidas dela, tal como deduzira.
— De fato, não o fomos, Vossa Alteza — afirmou com um assentir. — Não sei quanto lhe foi dito, nem quanto mais gostaria de saber, mas pergunte e lhe direi o que quer que julgue útil saber, com toda a honestidade que me cabe. Tem a minha palavra — por um momento, perguntou-se sobre quais e quantos aspectos de sua vida ela desejaria inquirir. E haveria de dizer-lhe tudo, não? — Também peço que me diga o que gostaria de mim e meus serviços. Detestaria desrespeitá-la, ou à sua dignidade. Da mesma maneira, não me foi revelado se alguma ameaça imediata torna minha presença requerida. Isso seria tudo que eu ousaria demandar saber — uma indagação que rondava sua cabeça havia certo tempo. Por que um guarda, só agora? Inicialmente, presumira ser um acordo conquistado por seu pai, sempre tão persuasivo e dedicado a levar seus próprios interesses a cabo, para ter uma desculpa para se livrar dele. Naquele instante, porém, considerava a possibilidade de um perigo real, intrigado.
Mais uma vez seus olhos repousaram sobre James, a mesma usual curiosidade brilhando por trás de suas íris claras. O quão indecoroso ele não deveria considerar seu recém-obtido hábito, de encará-lo todo o tempo como se o estivesse analisando? Era a princesa, de fato, e por tal razão imaginava que ele não demonstraria desconforto quanto àquela atitude, ao menos não em sua presença – poucos ousariam fazê-lo –, mas, criada como fora para governar um reino, sentia-se na obrigação de aprazer todos à sua volta, como seria sua tarefa caso um dia se tornasse rainha. Parecia-lhe um destino improvável, àquela altura, mas se desapegar de um costume de tantos anos levava algum tempo.
E, tal como um reino e seu governante dependiam da boa vontade de seus súditos para sobreviver e manter sua posição, Adelaide, cujos passos seriam acompanhados dia e noite pelos olhos vigilantes de James, também dele dependeria. Não era ingênua o suficiente para pensar que conquistar sua amizade mudaria algo em sua situação; não eram muitos aqueles que estariam dispostos a desafiar o rei, e decerto descumprir uma ordem direta – como estava certa de que havia sido; seu pai não arriscaria a possibilidade de que um de seus servos pudesse encontrar qualquer brecha em sua lei – se encaixaria em alta traição. Um único movimento em falso e James, a despeito de qualquer rumo que sua relação pudesse tomar a partir dali, seria obrigado a informar a seu pai.
Afastou uma mecha de cabelo cor de fogo que se desprendera de seu penteado durante a caminhada até ali, seu olhar por fim se afastando do rapaz para que pudesse se fixar no céu escuro e estrelado acima deles. Era uma das muitas razões pelas quais os jardins eram sua área favorita dentro dos limites do palácio. Ali, não se sentia sufocada, envolta na rede de artimanhas tecida pela corte de seu pai; olhando para as estrelas e para as flores, tinha a breve ilusão de que estava livre para fazer de sua vida o que bem entendesse. Mas, como todas as ilusões, não passava disso, e ela logo se via bruscamente trazida de volta para a sua realidade, onde seu cargo, ainda que estivesse prestes a ser tomado de si, a limitava.
Inspirou o ar perfumado pelas flores, observando o ambiente a seu redor e esperando que ele a acalmasse, procurando convencer a si mesma de que seu nervosismo não passava de tolice. Não havia perigo algum em ter uma conversa franca com James – a não ser, talvez, pela perspectiva de parecer estúpida. Talvez fosse o que a assustava, afinal; não pretendia dizer nada que fosse de grande valor a seu pai, e portanto não havia risco para a sua imagem, mas permitir que o homem com quem conviveria pensasse mal dela... Bem, era um cenário desagradável na visão de alguém tão habituada a causar boas impressões.
Mas esperara demais para fazer suas indagações; estava certa de que, posta no lugar de James, se sentiria inquieta com as delongas feitas até ali. Novamente seus olhos se encontraram com os dele – desta vez, porém, denotavam clara determinação. Não se interromperia, e tampouco pretendia arrastar o momento de quietude por muito mais tempo, por mais que ele a tranquilizasse. Coisas importantes deveriam ser discutidas. E havia suas próprias dúvidas a sanar.
“Não soube sobre sua identidade até estarmos frente a frente, quando se apresentou a mim esta tarde,” declarou, buscando se manter altiva, embora se sentisse, na realidade, envergonhada. Gostaria que a tivessem informado adequadamente antes que o houvesse encontrado em pessoa; desta forma, teria sabido o que esperar, e não o forçaria a passar por situações que poderiam ser consideradas desonrosas ou ofensivas – tais quais algo que muito se assemelhava a um interrogatório, guiado por uma princesa a quem supostamente deveria servir. “No entanto, sei quem é seu pai,” adicionou, hesitante, “e isso é tudo,” mais uma vez fez uma pausa, procurando encontrar nos olhos dele qualquer sinal que indicasse que fora longe demais. Ele dera a sua palavra de que a responderia e, ainda assim, ela temia desrespeitá-lo. Se não era do desejo dele fazê-lo com ela, então tampouco a princesa pretendia causar alguma espécie de ultraje a ele. “Esperava que pudesse me dizer quem é você,” acrescentou. E estava interessada – estivera interessada desde que o vira.
O questionamento de James a fez sorrir com amargura – então ele de fato não tinha conhecimento sobre os reais motivos pelos quais sua presença ali se fazia tão necessária. Como o bom guerreiro que Adelaide imaginava que fosse, preocupava-se com a possibilidade de uma ameaça iminente; e como explicar a ele que, exceto por aquela à sua coroa e a seu direito, não havia ameaça alguma? “O rei teme pelo futuro do reino, mas se recusa a dividir suas dúvidas comigo. Acredito que minha segurança esteja em jogo,” disse, por fim. O que poderia ter dito? Não a verdade, certamente – não se suas suspeitas pudessem ser apresentadas ao rei. Então encontrariam uma maneira de se livrar dela imediatamente, e era um risco que Adelaide não correria.
E mais uma vez se viu confrontada com outra pergunta para a qual não tinha uma resposta certa. O que desejava dele, além daquilo que ele não podia lhe oferecer, estando tão preso a ela quanto ela estava a ele – que não precisasse acompanhá-la a lugar algum, mas sim permitir que vivesse sua vida como sempre vivera? Não podia esperar tal coisa dele, pois James respondia ao rei, e o rei ordenara que ele mantivesse guarda junto a ela.
“Sei o que esperam que faça. Imagino quais foram as ordens do rei,” afirmou. “E, se é do interesse dele que o mantenha informado sobre o que quer que seja, que assim aconteça. Mas gostaria que soubesse que não espero o mesmo,” arqueou as sobrancelhas, como se para enfatizar a constatação. “Me fez um voto de lealdade mais cedo, quando nos conhecemos. Mas não confundirei sua lealdade com o direito de esperar que me dê satisfações todo o tempo, pois é um direito que não tenho,” prosseguiu, e esperou que a sinceridade estivesse clara em sua voz. “Não tem a obrigação de responder às minhas perguntas, se não for do seu desejo. Portanto, se não o fizer, agora, não me sentirei ofendida.”
E não se sentiria – decepcionada, talvez, pois a curiosidade era uma de suas mais óbvias características, mas não ofendida. Se perdera seu próprio livre arbítrio e o direito que tinha de se manter, não forçaria James a perdê-los também.
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As palavras da princesa mais uma vez, em efeito instantâneo, fizeram-no se perguntar quanta sinceridade ela lhe oferecera, tanto naquela única sentença — estaria mesmo indo a seu encontro? Soava-lhe como uma eventualidade improvável — quanto ao longo de toda aquela noite. Deduzia que a maior amostra de genuinidade estava nos olhares os quais, por pura coincidência, flagrara durante a ceia; olhares cujo significado lhe era um completo mistério. Provavelmente não passavam de mera curiosidade quanto ao desconhecido que agora se tornaria a pessoa mais presente — em forma física, ao menos — em sua vida; desconhecido em cujas mãos sua vida seria colocada, confiada. Provavelmente, ela apenas o estudava na tentativa de depreender algo sobre seu caráter; James faria o mesmo se posto em seu lugar. Contudo, não podia ter certeza de tal, nem dizer se, na ocasião, aquelas orbes já ocultavam alguma reprovação ou qualquer outro juízo de valor, positivo ou negativo. Em consequência, como por via de regra, assomava em seu peito a urgência de aprender a ler aqueles novos semblantes. Lidaria sobretudo com uma princesa, indubitavelmente ensinada a esconder seus pensamentos e mentir desde que nascera, até alcançar a maestria naquela arte; quanto tempo levaria para conseguir decifrá-la corretamente? Tudo que sabia com segurança era que, por ora, teria de se resignar a caminhar na escuridão. De que importava o que ela opinava sobre ele, de qualquer forma? Que perigos ela podia representar para si?
Agora, cara a cara com o fato de que eram, em essência, completos estranhos, indagava-se também quanto ela saberia sobre ele. Quanto haveriam lhe dito? Somente aquilo que todos tendiam a saber, acreditava; talvez ainda menos. Filho do duque de Westhelm. Afirmado, por uma vez na vida, como o guerreiro que era, ele supunha. Teriam sequer lhe avisado sobre o exato status de seu novo guarda? Confundia-o que, ainda assim, ela se referira a ele como lorde, embora ele não possuísse qualquer título verdadeiro; não era denominado como nada mais do que o “bastardo de Westhelm”. Abordagem cortês, quiçá? Ainda era insólito. Se a princesa buscasse por um cumprimento formal, havia outras designações a utilizar, algumas de maior precisão. Bem, ele compreenderia eventualmente, supunha. Ela decerto tinha suas próprias perguntas a lhe fazer, como uma boa, sensata senhora que inspeciona seu novo servo. Então, descobriria se ao menos lhe haviam dito seu nome.
Assentiu em imediato acordo com a sugestão apresentada pela moça, uma suave onda a qual mesclava alívio e gratidão percorrendo seu corpo. Pouco podia dizer sobre as flores do jardim daquele castelo, mas anelava por algum ar puro, pelo frescor da noite, assim como pela oportunidade de se ver distante do aglomerado que se amontoava no salão. Se haviam de conversar, ainda mais sobre um tema tão desagradável, ao que parecia, para ambos (ou interpretara erroneamente a hesitação da princesa antes de se referir a suas “tarefas”?), seria imensamente mais confortável fazê-lo longe dos olhos perscrutadores de todos aqueles estranhos. Nunca se sentira de todo confortável sob eles. Talvez teria a sorte de constatar que seu pai, tal como toda sua comitiva — ou a maior parte dela, ao menos —, já haviam se retirado para seus aposentos ou para qualquer lugar em que não precisasse tornar a encará-los.
Em um primeiro instante, James fez menção de estender-lhe o braço, porém se lembrou à tempo de que Adelaide não era uma dama que ele convidara para fazer-lhe companhia, mas sim uma princesa a qual agora estava sob seu encargo. Talvez fosse mais apropriado que mantivesse a mão no punho da espada; ele sequer sabia ao certo qual gesto seria o correto. Aquele toque tão pessoal, no entanto, sem dúvida não o era. Deteve o movimento.
— Soa-me como uma excelente ideia. Os salões desse castelo são uma obra-prima, sem dúvida, mas… confesso que estava desejoso por algum ar fresco — ofereceu em seu lugar, as palavras escapando-lhe de maneira fácil, verdadeiras, a tênue sombra de um sorriso algo embaraçado em seus lábios. Se realmente estavam fadados a passar uma quantia inimaginável de tempo juntos por dias a fio, James presumia que cabia-lhe o mínimo esforço para ser agradável e garantir que as interações entre eles o fosse também. Um esforço que raramente despendia com seus familiares, talvez por ter se acostumado às tensões sempre prevalentes, talvez por ter admitido a inutilidade de se dar ao trabalho. Com sua nova posição, entretanto, tinha a chance de alguma espécie de recomeço para fazê-la tão suportável quanto possível. Acenou a cabeça em um breve movimento para adiante. — Por favor, mostre o caminho.
Adelaide esquadrinhou com o olhar o homem diante de si, buscando decifrar nos olhos dele as respostas para suas perguntas. Estaria ali pela honra e glória que eram prometidas àquele que ocupasse cargo tão próximo aos membros da realeza ou, ainda, pela mera obrigação, imposta a ele contra a sua vontade? Quem seria James, o guarda, que recusara o título de lorde e pedira que se referisse a ele apenas pelo nome? Tinha suas próprias suposições, sem dúvidas, mas até que ponto seriam verdadeiras? Ele lhe diria, se ela perguntasse? O haviam designado a acompanhá-la e, portanto, ela imaginava que era merecedor da confiança do rei – mas e quanto a ela? Poderia confiar no rapaz cuja suposta função era protegê-la? E, mesmo que a resposta fosse não, haveria outro caminho ou seria forçada a fingir ser alguém que não era para o resto de sua vida, em nome de sua própria imagem e reputação perante seu pai – seu rei – e seu reino? Acostumada a tão facilmente tirar conclusões sobre o caráter daqueles com quem convivia, as incertezas a tornavam inquieta.
Observou o salão a seu redor como se procurasse pelos olhos atentos de alguém, mas, em seu íntimo, sabia que ninguém a estaria observando àquele ponto. Dali em diante, prestar atenção às atitudes da princesa seria uma tarefa confiada a James – com os olhos dele constantemente sobre si, outros nobres não precisariam se preocupar com coisa alguma. Uma atitude duvidosa que fosse e eles seriam alertados de imediato. Era a real intenção por trás de todo aquele ridículo cerimonialismo, não era? Não se tratava de interesse pelo seu bem estar, mas sim de cuidar que fosse vigiada todo o tempo, do mais perto quanto fosse possível.
Voltou-se mais uma vez para o homem que vinha ocupando seus pensamentos com uma frequência assustadora – e poderia ser de outra forma? Estariam na companhia um do outro por mais tempo do que qualquer outra pessoa; ousava pensar que, dentro de alguns dias, ele invadiria mesmo os seus sonhos – e tratou de erguer o canto de seus lábios em um sorriso tão genuíno quanto podia lhe oferecer nas circunstâncias. Imaginou por um momento tê-lo visto erguer o braço, mas não fez menção ao movimento inadvertido; não estava realmente certa de que acontecera e, de qualquer forma, não seria prudente caminhar de braços dados com aquele que deveria ser tratado como servo – embora imaginasse que, caso o fizesse, seria invejada por muitas das damas ali presentes, que pareciam tão interessadas em James quanto ela própria (ainda que por motivos certamente diversos, que seriam inapropriados a uma princesa).
Tal linha de pensamento a levou a uma indagação que a havia ocorrido no início da noite, quando se dera conta de que não haveria escapatória de sua presente situação. Fora requerido de James que a escoltasse e observasse todo o tempo – mas o que seria de sua função durante a noite? Não havia ocorrido à tão astuciosa nobreza que, em vez de se deitar para dormir à noite, a princesa poderia permanecer desperta e armar alguma espécie de plano para impedir o atentado a seu direito de nascença? E, se sim, o que esperavam que o guarda fizesse – passasse a noite com ela, em seu quarto? Decerto não seria adequado – ou honra e reputação já não eram importantes aos olhos de seu pai, desde que Adelaide estivesse longe do trono?
Eram questões pertinentes, mas que, afinal, poderiam ser desvendadas mais tarde. Naquele momento, havia outras coisas mais importantes a ser esclarecidas, e era com tal objetivo em mente que ela guiava o guarda através dos corredores do palácio – ocasionalmente apontando alguma tapeçaria ou pintura do século anterior nas paredes, apenas porque o silêncio era incômodo demais aos seus ouvidos – em direção ao exuberante jardim.
Pareceu levar menos tempo do que o de costume para alcançá-lo, ou talvez estivesse mergulhada tão profundamente em seus próprios pensamentos que não notara os minutos se arrastando. De qualquer forma, logo estavam livres dos corredores de pedra lisa do Castelo Naeworth e sob o céu estrelado do jardim. Havia alguns casais, convidados do banquete, caminhando por entre as flores, mas, desconsiderando-os, o espaço estava relativamente vazio e indubitavelmente mais calmo do que o salão do lado de dentro. O ar estava fresco, quase frio, mas Adelaide não se importou, limitando-se a apreciar a sensação da brisa contra seu rosto, cerrando os olhos por um breve momento.
Voltou a abri-los alguns segundos depois, e passou a observar James com grande interesse. Imaginou se seria correto expor seu interesse de tal forma, especialmente quando havia outras pessoas por perto, mas sua curiosidade suplantava o pudor e, sendo assim, ela não se inibiu, permitindo a si mesma mais alguns instantes de análise. Imaginara a princípio que ele era filho do duque de Westhelm – havia semelhanças entre os dois, poucas, mas havia e, durante o jantar, suas suspeitas haviam sido confirmadas por trechos de uma conversa discretamente entreouvida. Mas, se o era, por que recusava o uso de um título, e por que fora relegado à posição de um mero guarda real? Havia honra nisto, era claro, mas seria mil vezes mais honrado no exército de Naeworth, onde sua posição de guerreiro seria devidamente reconhecida. Então, qual era a verdadeira identidade de James?
“Peço que me perdoe pela indelicadeza,” começou, umedecendo os lábios. Sua voz soou estranha a seus próprios ouvidos. “Mas não acho que tenhamos sido devidamente apresentados, lor... James,” corrigiu-se apressadamente, o tom escarlate subindo às suas bochechas quando o hábito a levou ao uso da qualificação. “Nossa convivência nos próximos meses, anos, quiçá, será inevitável. E eu gostaria de conhecer mais... Tanto quanto fosse possível... Sobre o valente guerreiro que foi nomeado para me proteger,” prosseguiu; àquele ponto, não havia um estágio mais avançado de vermelho em que seu rosto pudesse chegar, e ela agradeceu pelo abrigo que era a escuridão da noite. Palavras bonitas costumavam funcionar – e, se não funcionassem com ele, ao menos ela teria essa informação, de que não seria tão simples conquistar sua simpatia quanto o era com outros.
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Tão logo viu o sorriso florescer no rosto da princesa, James se pôs a perguntar o que ela realmente sentia. Não lhe parecia haver qualquer motivo para alegria genuína ali, mesmo para aqueles que não tomavam ofensa pela presente ocasião, tal como ele. Acostumara-se a ler as pessoas com facilidade, resultado de um grande empenho intencional para aprendê-las. A partir de agora, porém, estaria cercado de faces desconhecidas, a cujo funcionamento ele era completamente alheio por ora, e já sentia a familiar ânsia de decifrar exatamente com quem estava lidando. Um traço que lhe viria a ser útil em seu novo trabalho, percebeu. No mesmo instante, quis extirpá-lo. No entanto, aquela não era uma opção; haveria de fazer o maior proveito dele, então.
— James — ofertou ao perceber o título pelo qual a ruiva se direcionava a ele, com a postura já endireitada, novo sorriso, discreto, a tocar os cantos de seus lábios. — Só James, por favor — suprimiu o impulso de olhar para seu pai para averiguar sua reação; não precisava de tanto para saber que aquele era o comportamento esperado de si. Pouparia-se de conferir uma congratulação tão menosprezível, como se buscasse por ela. — É demasiado gentil. Não poderia ser me dado privilégio maior nessa vida do que acompanhá-la e protegê-la. Fá-lo-ei a qualquer custo, com lealdade inabalável, tem a minha palavra — um voto. Sentiu seu coração disparar em seu peito, fervente, mas gélido, como se só então seu destino se cristalizasse, real, vibrante, sem volta. Mais uma vez, o impulso a fervilhar em seu âmago; mais uma vez, suprimido. Conseguia sentir o olhar do duque queimando-lhe a nuca e só aquilo é suficiente. Ele sabia de seu lugar. Não precisava que o responsável por colocá-lo ali o recordasse dele. Também não lhe devia gratidão. Havia piores destinos para se ter, podia quase ouvi-lo dizer. Pois havia melhores, os quais ele já teria conquistado por mérito, se mérito fosse o bastante.
Em vez de tornar as orbes azuis para ele, James lançou-as impensadamente aos arredores. Deparou-se com um monarca a sorrir-lhe com entusiasmo exagerado e vir em sua direção até prostrar-se ao seu lado, fazendo suas costas retesarem-se feito um arco em consequência da nova tensão. O que ele queria?
O homem aproximou-se ainda mais, até conseguir sussurrar-lhe algo, e James tentou disfarçar o desconforto enquanto ouvia, mantendo todo seu corpo estático, com exceção da cabeça, a qual permitia assentir volta e meia. Aparentemente, ele queria informar-lhe de seus deveres, os quais deveriam ser começados de imediato: que mantivesse um olhar atento sobre a princesa onde quer que ela fosse e reportasse a ele qualquer coisa que parecesse incomum. Tudo para o bem dela e do reino. O discurso usual. Ignorável. Qualquer escusa que ele tivesse a apresentar não tinha relevância alguma. Ainda assim, algo no tom do Redwater deixava-o mais incomodado a cada palavra. Ou seria o bafo contra sua pele?
— Tem minha obediência e compreensão, Majestade. Um pai sempre deseja somente o que é melhor para seus filhos, afinal — o bastardo retrucou em tom ameno, alto o suficiente para que seu próprio progenitor ouvisse. Ele, ao menos, decerto captaria o sarcasmo ácido tão habilmente velada no comentário… destinado apenas a ele, de qualquer maneira.
O rei, porém, não pareceu fazer-lhe caso. Afastou-se, mencionou o banquete por vir. Só então James tomou plena ciência da multidão de pessoas que os cercava, como se uma cortina se abrisse diante de si. Por que tantas pessoas, reunidas bem ali? Esperava um banquete para seu pai, sim, um dos únicos atos daquela pantomima dos quais fora previamente noticiado; contudo, esperava por encontrar convidados apenas mais tarde, tanto quanto por algo mais… pacato. Uma esperança tão tola quanto sem sentido, claramente. Bem, que fosse. Deixaria os nobres com seus joguinhos enquanto observava em silêncio. Foi com esse pensamento que os seguiu para o salão correto.
Embora sua índole determinasse que fosse reservado perante desconhecidos — ou desconhecidas —, James costumava participar das danças que se seguiam àquele tipo de evento, se somente para cortejar uma dama por uma única noite. Não daquela vez, porém. Certamente, a maior parte de seus momentos de ócio morriam ali, substituídos por uma dedicação integral a seu dever.
A ele se dirigiu. Ao encontro da princesa Adelaide, agora de forma direta, em vez de roubar-lhe olhares inquisitivos que, por vezes — para sua surpresa —, esbarravam nos dela, como fizera durante todo o jantar. Agora, quando devidamente próximo, repetiu uma mesura.
— Vossa Alteza — cumprimentou-a. — Espero que não esteja a abordá-la em má hora. Vosso pai recomendou que eu iniciasse meus deveres o mais cedo possível, mas prefiro ouvir vosso ultimato e vossos próprios desejos — foi o melhor que conseguiu formular. Ora, o que haveria de dizer-lhe? “Tenho permissão para começar a segui-la para todo canto a partir desse momento?” Não havia nada para retirar a estranheza daquela situação. Nenhuma pergunta que sentia que seria adequado arremessar-lhe tão rapidamente. Onde estaria alojado? Onde dormiria? Quando poderia fazê-lo? Ela saberia? Ou haveria de esperar por um anúncio vindo do pai dela, ou algum serviçal que pudesse representá-lo naquele quesito? Bem, supunha que podia esperar mais um pouco pelas respostas. Procurá-las dificilmente adiantaria sua chegada.
Adelaide esperara pela situação que se desenrolava à sua frente desde o momento em que fora informada sobre o seu irreversível destino – integrantes da nobreza rodeando-a, congratulando seu pai por tão gentil iniciativa, impulsionada puramente por sua preocupação com a segurança de sua única filha. Tendo passado a sua vida inteira em meio a tramas da corte, porém, era suficientemente inteligente para conseguir ler as entrelinhas de todos os discursos emocionados, e podia ouvir com clareza as palavras que não eram ditas. Cumprimentavam o rei, não por ser um pai afetuoso, mas por tê-la arrancado do trono sem maiores esforços.
Mais uma vez foi arrancada de seus pensamentos pelas palavras do guarda. James, ele dissera, apenas James. Seria a recusa de uma forma titular o resultado da falsa modéstia que Adelaide conhecia tão bem e com a qual estava tão acostumada? Não, concluiu, com mais uma análise breve do perfil do homem com quem seria forçada a conviver a partir dali. Nem mesmo o lorde mais desejoso de agradá-la abriria mão de seu título com tal intuito; conhecia nobres o suficiente para saber disso. Lançou um olhar fugaz na direção do duque de Westhelm, cuja comitiva trouxera o rapaz até ali, e pela primeira vez se sentiu interessada em conhecer a história por trás deste. Bem, decerto não lhe faltaria tempo para fazê-lo.
Não alterou sua expressão – ainda impassível, o sorriso desaparecendo por trás de uma máscara de seriedade que ela esperava ser o suficiente para afastar a fúria de seus olhos – ao ouvir as palavras seguintes do guarda. As reconhecia como um voto de lealdade, mas a quem? Certamente não a ela, ou a menos assim pensava, ainda que fosse o alvo do belo e ensaiado discurso. Era um súdito de seu pai e estava ali sob o comando dele; não devia lealdade alguma a uma princesa que em breve seria despida de tudo aquilo que por direito era seu. Entretanto, por mais que sua sensatez lhe dissesse para não confiar em James, havia algo mais primitivo, talvez instinto, talvez mera esperança, informando-lhe que ele tampouco parecia satisfeito com sua situação. Desejou desesperadamente estar certa. Pois se a veracidade das palavras dele era inexistente e ele não acreditasse realmente no que dizia, então tampouco estaria jurando lealdade ao rei, e seria mais fácil conviver com um mentiroso do que com alguém complacente com a injustiça que lhe era feita.
Estreitou levemente os olhos ao notar a aproximação do rei, mas os dois homens estavam distantes e falavam em voz baixa o suficiente para que ela não conseguisse escutar a conversa. Imaginava qual seria o tópico – ela própria. Era o único elo que ligava o guarda pessoal, James, a seu pai, o rei de Naeworth, e portanto não conseguia pensar em quaisquer outros assuntos que pudessem estar discutindo. Uma constatação atravessou seus pensamentos de súbito, e apercebeu-se por fim de que James não poderia ter mentido, ao menos não por completo. Por mais que não considerasse servi-la um privilégio, teria que acompanhá-la aonde quer que fosse; tinha tanta escolha quanto a própria Adelaide.
Esperou até que o rei se afastasse para anunciar o banquete e, então, inspirou, com força e profundamente. Como a princesa que era, jamais havia sido realmente livre para fazer o que quisesse e ir aonde desejasse. Ali, parada em meio a um salão apinhado de importantes nobres e frente a frente com o homem que seria forçado a segui-la, dava adeus a seus últimos instantes de liberdade ilusória.
Encontrava-se em tal estado de curiosidade sobre o rapaz que fora designado para ser seu guarda – James, repetia incansavelmente em seus pensamentos, saboreando o nome – que não se incomodara em manter a discrição durante o jantar. Passara a maior parte do tempo com os olhos postos nele, a ponto de ter sido flagrada vez ou outra quando ele levantava a cabeça e o olhar dele se cruzava com o seu. Propositalmente ou mera coincidência, ela não sabia dizer. Estaria exercendo desde então o seu novo cargo?
Não pôde se dizer surpresa no momento em que o jantar se findou e os convidados começaram a se dispensar, para as câmaras dos hóspedes do palácio ou para caminhar por alguns minutos ao ar livre, ao notar a proximidade dele. Franziu o cenho ao vê-lo fazer uma breve mesura diante de si, e perguntou-se o quanto aquilo não se tornaria incômodo com o passar dos dias, caso fosse fazê-lo a toda vez que se encontrassem – a todos os momentos do dia, isto era. Perguntou-se se deveria dizer a ele que tais formalidades não seriam necessárias, e se seria correto fazê-lo. Não sabia quais eram os procedimentos certos a seguir a partir dali. Não era uma circunstância na qual já havia se visto antes.
Um sorriso frio começou a se formar em seus lábios diante da menção de James a seu pai, mas ela se forçou a contê-lo em tempo. Não lhes traria bem algum se o tratasse com dureza; não fora o rapaz o responsável por colocá-los na situação em que estavam. Na realidade, conforme constatara durante sua apresentação formal algumas horas antes, talvez ele sequer quisesse estar ali fazendo o papel de um cão de guarda. Estavam fadados a passar o resto de seus dias na companhia um do outro; podiam torná-la agradável, o suficiente para que não fossem um estorvo um para o outro. Se estava presa a ele e vice-versa, então deveriam tentar fazer de sua relação amigável. O tanto quanto fosse possível, ao menos.
“Oh, não se preocupe. Estava prestes a ir ao seu encontro, na realidade, James,” respondeu-lhe, por fim, em uma meia verdade. De fato planejara conversar com o rapaz, mas gostaria de ter adiado seus assuntos até no mínimo a manhã seguinte, quando se sentiria menos cansada e mais preparada para lidar com alguém indo a seu encalço a todos os lugares desde que saísse da cama.
Ergueu levemente a cabeça ao ouvir as palavras seguintes do rapaz, perguntando-se a até que ponto elas seriam verdadeiras. Realmente levaria em consideração o que ela tinha a dizer? E, mesmo se fosse o seu plano, precisava se lembrar constantemente de cuidar com o que falava, pois cada tropeço seu seria indubitavelmente relatado a seu pai. Baixar a guarda em um contexto como aquele seria extremamente perigoso. E, ainda assim... Olhou discretamente a sua volta, para os muitos nobres que ainda se amontoavam no salão de jantar. Se não poderia confiar em James, então confiava mil vezes menos em qualquer um dos homens que estava próximo de si, e não ousaria permitir que eles a ouvissem. “Bem,” começou, “pensei que talvez pudéssemos fazer uma caminhada pelo jardim. A noite está clara e as flores estão belíssimas nesta época do ano,” afirmou, erguendo levemente as pontas das saias do chão para evitar tropeçar nelas. Estava feliz por poder ser sincera ao menos sobre alguma coisa, por menor que pudesse parecer. “E então poderemos conversar sobre... suas tarefas,” acrescentou, em um tom tão leve quanto conseguiu.
Hostages — para 01
Dispensou um último olhar à imponente fachada do castelo antes de seguir o duque de Westhelm para seu interior, deixando para trás a bem-podada trilha formada pelo amplo jardim. Quiçá se impressionasse mais profundamente pela visão que de pouco o envolvia, decoração opulenta sem dúvida realizada por alguns dos melhores artistas do reino, não estivesse tão acostumado ao exibicionismo da nobreza. Em sua mente, porém, predominava a tentativa de absorver um único pensamento: é aqui que você vai viver agora. Por Deus sabia quanto tempo. Talvez, e provavelmente, até sua morte — ou até que a princesa Adelaide se casasse e ambos fossem realocados para algum outro lugar.
Não sofria por ser arrancado de seu lar. Não, angústia decerto não era o sentimento que agora borbulhava em seu ventre e se enrolava em sua garganta feito uma gavinha; sequer saudade. Nunca vira aquele ducado como lar, afinal. Era muitas coisas — quarto de despejo para sua mãe, moradia no sentido mais físico e racional da palavra —, mas não lar. O que sentia era muito mais familiar, algo que, apesar de tudo, apesar do passar dos anos, nunca deixara de sentir por completo.
Raiva.
Talvez devesse ter esperado por algo assim. Pelo momento em que seu pai tentaria se livrar dele como quem arranca uma erva-daninha de seu jardim. De fato, esperava por aquele momento; esperava-o desde que percebera o que significava para o duque e o quão imutável era aquela imagem. Ainda assim, sua chegada não era mais fácil de lidar. Era o melhor guerreiro dentre seus irmãos, capaz de desarmá-los de olhos vendados, e sabia disso, pois já o fizera; era honrado e instruído, embora muitas vezes tivesse de colher seu conhecimento das sobras dos outros ou da boa-vontade de alguns sábios. Apesar disso, o que lhe era dado? Reconhecimento? Um lugar entre as tropas da família? Não. Um trabalho como cão de guarda, era isso que lhe era dado. Parecia ser toda a glória que estava fadada a ser sua, no fim das contas. Um emprego tedioso, a invisibilidade eterna, às sombras do vazio da realeza.
Invisibilidade eterna?, podia quase ouvir a voz de lorde Ewing, o mais próximo que possuía de um mentor, a perguntar-lhe. Não crê que Deus o vê, que Deus o reconhece? Não crê em Sua graça? Entretanto, não seria a primeira vez que James questionava de quanto valia aquela graça em questões terrenas. Recordou-se também do Inferno de Dante e seu nono círculo, com um espaço especial dedicado aos invejosos, como se sua própria memória estivesse ávida por condená-lo antes mesmo de sua morte. Pois bem, A Divina Comédia não era sua bíblia; não seria ele a crer em versos florentinos.
Suas divagações foram interrompidas por uma pesada mão em seu ombro, cessando seus passos. Só então seus arredores tornaram a se fazer claros diante de seus olhos. Notou que já estava diante do rei, o qual seria facilmente reconhecível como tal por sua compostura e suas vestes finas, mesmo se James nunca o houvesse visto à distância. Ao seu lado, uma jovem ruiva de feições delicadas, quase angélicas, vestida tão ricamente quanto. Princesa Adelaide Lucile, certamente. Observou em silêncio, mandíbula tensa, enquanto seu pai cumprimentava calorosamente o outro homem, como se houvesse algum afeto real em sua “amizade”. As palavras zumbiam em seus ouvidos, mas ele não estava prestando atenção o suficiente para compreendê-las. Seus olhos flutuavam de rosto em rosto, sem propósito, sem objeto de busca, apenas a analisar rasgos de cada um e os contrastes que formavam entre si. Distinguiu apenas seu próprio nome, indubitavelmente seguido de algum enaltecimento em dissimulado orgulho, e o retorno da pressão em seu ombro, indicando sua deixa. Com o melhor sorriso que conseguia abrir sob as circunstâncias, ajoelhou-se diante do rei e o cumprimentou. Em seguida, fez o mesmo diante da princesa.
— Vossa Alteza é bela como nenhuma obra de arte seria capaz de expressar — disse, tão somente porque um elogio soava adequado à situação. No entanto, não podia negar, ela era bela. Ao menos aquela parte podia ser dita com sinceridade, em oposição à fala que realmente lhe cabia naquele teatro: — Será uma imensa honra servi-la.
Os olhos de Adelaide perscrutavam a multidão com aparente desinteresse, o rosto inexpressivo contrastando com os diversos graus de emoção no semblante dos outros presentes ali. Comprimiu os lábios em um mínimo gesto de desgosto, imperceptível o suficiente para passar em branco diante do alvoroço da comitiva. Apesar da fúria que a assomava, era preciso dar algum crédito à astúcia de seu pai; frente a frente com tantos nobres cuja fortuna sustentava o reino, não poderia ousar se descompor e macular a imagem dos governantes.
Mordeu o lábio inferior com força, procurando conter a nova onda de cólera que percorrera seu corpo com a constatação. Se sua preocupação com a imagem de Naeworth era do conhecimento de seu pai, então por que não seria do desejo dele que o sucedesse como rainha? Em seu íntimo, entretanto, sabia a resposta para aquela pergunta, embora lhe parecesse tão absurdo quanto toda a situação que era forçada a enfrentar. O rei temia que um período de instabilidade política se seguisse à ascensão de uma governante do sexo feminino, e não estava disposto a deixar seu reino nas mãos de alguém que pudesse torná-lo vulnerável.
E não era o único a pensar assim, notou, em uma observação amarga. Se fosse o caso, por que tantos representantes da nobreza teriam se dado ao trabalho de ir até ali para prestigiar uma ocasião que, de outra forma, nada significaria para eles? Havia uma única razão por trás de sua presença, e se tratava da necessidade de se certificar de que a princesa não seria um obstáculo nos planos traçados para o futuro do reino. Adelaide era o centro de uma maldita celebração do fim de sua própria liberdade.
Sua atenção foi capturada pela visão de Lorde Grey, o embaixador inglês. Se destacava entre o aglomerado de rostos em expectativa por manter uma constante expressão de desgosto; parecia tão infeliz quanto a própria Adelaide, embora não se esforçasse tanto quanto ela em esconder o que realmente pensava. Era uma reação compreensível, ela refletiu. França e Inglaterra vinham competindo pela influência no bem localizado reino desde que Naeworth deixara de ser domínio inglês, quase dois séculos antes; ademais, com a rainha Elizabeth reinando sozinha e em seu próprio direito na Inglaterra, era de se esperar que desejassem o apoio de outro país com uma mulher no trono. Tradicionalmente católico, Naeworth sempre fora mais inclinado a uma aliança com a França, mas Lorde Grey provavelmente esperava conseguir dobrá-la à sua vontade caso lhe fossem dados tempo e oportunidade para fazê-lo. Talvez tivesse armado seu próprio plano para colocá-la no trono, se jurasse se aliar à Coroa inglesa. Mas agora, com um cão de guarda seguindo-a para onde quer que fosse, a possibilidade se esvaíra como água escorrendo por entre seus dedos; o herdeiro presumível do trono, Geoffrey Redwater, filho do ambicioso irmão mais jovem de seu pai, desprezava os ingleses e jamais consideraria uma proposta de se aliar a eles.
Não tinha Lorde Grey em grande consideração; a ideia de que qualquer um pensasse em controlá-la de alguma forma lhe trazia ondas de repulsa. Ainda assim, precisava admitir que ele estava certo. Não seria difícil convencê-la a formar uma aliança formal com a Inglaterra, e não apenas porque era governada por uma rainha. Adelaide, que nunca tivera muito apreço por ritos católicos, compartilhava com a monarca inglesa não só gênero, mas também religião. Jamais poderia ousar admiti-lo, mas era adepta do protestantismo. Seus olhos faiscaram com a raiva; lhe parecia injusto que alguém precisasse manter escondida sua fidelidade a Deus. Mas, pensou, lembrando-se de onde estava e do que seu pai pretendia fazer com seu direito de nascença, a justiça estava em poucas coisas.
Mergulhada na distração causada por seus pensamentos, sequer notou a entrada do duque de Westhelm e de toda a sua comitiva. Não os percebeu ali até que o burburinho das conversas espalhadas pelo salão cessou, para que o rei pudesse se fazer ouvir; as palavras pronunciadas no fluente francês de seu pai a trouxeram de volta à realidade, e ela fixou sua atenção nos homens a quem ele se dirigia. Imaginou qual deles seria o responsável por escoltá-la aonde quer que fosse a partir dali; não precisou pensar por muito tempo.
Ele se ajoelhou diante de seu pai primeiro, como era o correto a se fazer, e ela se aproveitou do breve momento para analisá-lo rapidamente. Não se parecia com o homem cruel e inflexível que pintara em sua imaginação, mas vivera o suficiente para saber que aparências podiam ser enganosas. Um rosto bonito – como o dele de fato era – não significava nada além disto.
Quando ele se voltou para finalmente cumprimentá-la, ela também sorriu, espelhando o que havia no rosto dele. O gesto nunca alcançou seus olhos, frios e endurecidos como pedra devido ao descontentamento, mas ela esperava que nenhum dos presentes fosse perspicaz o bastante para notar. Fingir a ignorância diante do que acontecia consigo mesma, como se acreditasse em todas as escusas de seu pai para encobrir o real motivo pelo qual solicitara um guarda pessoal, era o melhor que podia fazer. No futuro, talvez sua máscara a salvasse do exílio.
Perguntou-se quanto das palavras ditas pelo rapaz seriam verdadeiras, e quanto seria apenas uma fachada de necessária polidez. Precisou lutar com todas as suas forças contra o sorriso irônico que ameaçava se sobrepor ao falso, e, quando falou, procurou soar tão natural quanto era possível.
“Agradeço... milorde,” acrescentou, arqueando uma das sobrancelhas. Qual seria a maneira correta de se dirigir àquele homem? Não se lembrava de um nome, e talvez não houvessem mencionado um a ela. Riu internamente, amarga, embora ainda mantivesse o sorriso doce enquanto se dirigia a ele. Precisaria lhe fazer esta pergunta, mais tarde; conviver com alguém cujo nome era desconhecido seria provavelmente uma experiência desconfortável. “Serei eu a honrada, com o prazer de sua companhia.”