Sobre estereótipos de personagens pretos
Atenção: esse post possui gatilhos de racismo e menção de violência e est*pro
No post de hoje, eu quero continuar com os posts do mês da consciência negra falando ainda sobre estereótipos, mas dessa vez focando em personagens masculinos porque, por mais que alguns sejam parecidos, existem detalhes que fazem toda a diferença.
E assim como no post sobre estereótipos de personagens pretas, nesse aqui eu quero falar um pouco sobre os principais presentes na ficção e o quanto eles podem ser nocivos para pessoas reais, para tentar conscientizar você, querido escritor, na hora de criar os seus personagens.
Vamos lá?
Antes de mais nada, eu gostaria de reforçar aqui que a vivência de pessoas pretas e não-brancas em relação a pessoas brancas é um tanto diferente. Então, na hora de criarmos nossos personagens, precisamos nos atentar a isso e entender que existem características que podem parecer até lisonjeiras, se olharmos à primeira vista, mas que para as pessoas inseridas naquele contexto, a coisa é um pouquinho mais complicada.
Outra coisa que eu quero reforçar é que pode ser que você encontre exemplos dos estereótipos citados em personagens femininas também (assim como o contrário, no post anterior), mas provavelmente vai ser mais comum em personagens masculinos, como o caso do…
O negro mágico
O termo Magical Negro foi popularizado pelo diretor Spike Lee e é usado para falar do estereótipo do personagem masculino preto visto como um sábio, um místico (chegando a ter poderes sobrenaturais, em alguns casos) e que é apresentado como uma figura humilde, à princípio. E o único propósito desse personagem é ajudar, salvar ou mudar para sempre a vida do protagonista branco.
Isso nos leva ao primeiro problema com esse estereótipo: assim como no caso da Mãe Preta, o personagem preto é colocado numa posição onde seu único objetivo na história é ser um suporte para o desenvolvimento do personagem branco, sem motivação ou personalidade própria. Até mesmo seu sofrimento, como no caso do filme “À Espera de Um Milagre” passa a ser sobre o protagonista branco, especialmente quando na narrativa esse sofrimento é aceito e naturalizado sob uma falsa ideia de “dignidade”. O filme que eu citei, inclusive, foi um dos exemplos dados por Spike Lee na hora de falar sobre o estereótipo do negro mágico.
Uma definição muito boa do site TvTropes é:
“Com tanta sabedoria espiritual (e às vezes, mesmo que não sempre, poderes sobrenaturais), você pode se perguntar por que o negro mágico não se apresenta para ele mesmo salvar o dia. Isso nunca irá acontecer. Ele é tão iluminado e altruísta que ele não tem desejo de ter glória para si, ele só quer ajudar aqueles que precisam de um guia… o que, por pura coincidência, significa justamente aqueles vistos por Hollywood como mais adequados para serem protagonistas, não seu próprio povo oprimido.
Na verdade, o negro mágico não tem outra motivação na vida que não seja ajudar pessoas brancas a atingirem seu potencial, podendo até mesmo ser descartado ou morto, depois que servir ao seu propósito. E se ele um dia expressar qualquer desejo “egoísta”, será apenas no contexto de fazer o protagonista branco se dar conta do próprio racismo e se tornar uma pessoa melhor”
Outro problema com esse estereótipo é que, em muitos casos, ele também pega um pouquinho de racismo religioso e transforma a espiritualidade não-branca em algo a ser visto como exótico, a ser temido ou até mesmo como uma piada.
E se existe o estereótipo do negro mágico que precisa salvar o branco, também temos o…
Negro que precisa ser salvo pelo branco
Antes que você pense: não, não é uma situação de “E se fosse o contrário?”, porque apesar de parecer oposto ao anterior, esses estereótipos são parecidos em certos aspectos: além da origem humilde, em ambos os casos os personagens negros basicamente aparecem na vida dos brancos para torná-los pessoas melhores e/ou fazerem eles se darem conta dos próprios privilégios.
Para esse estereótipo funcionar, precisamos da figura do “branco salvador”: é aquele personagem branco super do bem, que faz de tudo para ajudar os negros — menos, em muitos casos, ouvi-los ou enxergá-los como algo além de casos de caridade.
Esse tipo de comportamento acaba sendo reproduzido na vida real também e passou a ser muito criticado, por causa de voluntários e famosos brancos que viajam para locais pobres na África, por exemplo, com o intuito de se promoverem em redes sociais, muitas vezes tirando fotos com pessoas sem a autorização delas em busca de likes e elogios.
(Só um adendo: não quero necessariamente acusar a Rafa Kalimann de ser assim, mas a foto postada e a legenda são tremendamente infelizes e ilustram meu exemplo) Esses primeiros dois estereótipos muitas vezes surgem como uma tentativa (falha, óbvio) de tentar retratar homens negros como pessoas boas e trabalhadoras. Os próximos, no entanto, passam longe disso:
O negro malandro / bandido
Esse estereótipo é muito comum em novelas, onde muitos atores negros só tem oportunidade de trabalhar nesses papéis. O arquétipo do malandro pode servir tanto como alívio cômico quanto para vilões, mas o fato é que esses estereótipos reforçam a mesma ideia preconceituosa de que negros não são confiáveis, responsáveis ou fiéis. Além disso, esse estereótipo muitas vezes associa a ideia do negro a ser alguém preguiçoso, que prefere roubar ou aplicar golpes em vez de trabalhar.
Essa ideia é especialmente nociva se pensarmos na vida real, onde homens negros são as maiores vítimas de violência policial e passam, todos os dias, por situações onde são tratados como criminosos, mesmo sem estarem fazendo nada de errado.
Muitas vezes, esse estereótipo anda lado a lado com o do...
O negro “bruto” e violento
Desde a época da escravidão, pessoas negras têm sido desumanizadas e, para o homem preto, foi relegado o papel de ser visto como um animal, como define o autor Daniel do Santos:
“Os homens negros eram sempre caracterizados como indivíduos exóticos, irracionais, fetichistas, bárbaros, incivilizados, dentre outros adjetivos, classificações e juízos de valores de grande teor etnocêntrico e, sobretudo, racista. A escravização dos povos africanos gerou várias projeções imagéticas sobre os homens negros, que eram vistos generalizadamente como meros animais, desprovidos de razão, inteligência, humanidade e cultura.”
E infelizmente, existem marcas desse preconceito que duram até hoje em diferentes níveis.
Um exemplo disso é meio parecido com o estereótipos da mulher negra forte, onde alguns homens pretos acreditam que precisam ser verdadeiros “machos”, dentro de um contexto nocivo de masculinidade tóxica que afeta inclusive os que não se encaixam nessa ideia, como homens não-hetero que são considerados “afeminados”.
E assim como no caso da mulher preta forte, esse arquétipo do personagem negro “bruto” impede que homens negros sejam retratados como gentis, sensíveis, amáveis e dignos de afeto.
E, enfim, esses dois estereótipos acabam trazendo um terceiro que, infelizmente, é muito comum:
O negro “bem-dotado”
Esse talvez seja o estereótipo mais comum em certos gêneros literários, novelas e filmes: o “negão” forte, viril, sexual e “bem-dotado”. E por mais que pareça algo lisonjeiro, assim como no caso da preta “fogosa”, o estereótipo do “negão” só serve para objetificar homens pretos.
Muitas vezes, esse fetiche também vem acompanhado da ideia de brutalidade, tanto por conta da ideia de que todo homem negro supostamente faria sexo mais “hardcore” quanto pela ideia difundida em relação ao tamanho de seu pênis. É muito comum ver isso aparecer, por exemplo, na indústria pornô, onde é comum filmes onde homens negros “bem dotados” são retratados como uma fantasia de “sexo selvagem” para pessoas brancas, independente da orientação sexual.
Na prática, esse estereótipo também vem da época da escravidão, onde o valor (literalmente) dos homens negros era medido pela força, robusteza e também pela capacidade sexual, tornando-os inclusive vítimas de incontáveis abusos. E até hoje, esse arquétipo tem diversas consequências negativas, como:
O fato de homens negros serem visto por algumas pessoas como esse estereótipo ambulante e, assim como no caso da “preta fogosa”, serem alienados de experiências românticas e sexuais saudáveis, porque as pessoas ao se relacionar com eles criam essas expectativas e tratam apenas como um fetiche.
Esse imaginário do “negão” geram uma enorme pressão em homens negros que sentem que precisam “abraçar” esse estereótipo e corresponder a essas expectativas. Portanto, homens que não se encaixam — tanto fisicamente, quanto sexualmente e até psicologicamente falando — podem ser preteridos e suas outras virtudes, como inteligência, sensibilidade e afins são deixadas de lado.
Homens negros serem falsamente acusados de est*pro. Lembra do que eu escrevi ali em cima sobre a escravidão e o estereótipo do negro violento? Então, desde aquela época existia esse arquétipo do Mandingo, o escravo perigoso que ia “perverter” as filhas dos escravocratas, o que levou homens a sofrerem inúmeras violências, linchamentos e acusações.
Uma minissérie que retrata isso é “Olhos que Condenam”, que conta a história real de cinco jovens negros entre 14 e 16 anos que foram falsamente acusados e condenados de estuprar uma mulher branca no final dos anos 80, até hoje considerado um dos maiores erros jurídicos da história dos Estados Unidos.
Conclusão
É importante falarmos e repensarmos sobre esses estereótipos porque, assim como no caso de personagens pretas, são ideias que possuem muitas vezes raízes racistas e afetam, diariamente, pessoas reais — e que, por vezes, são perpetuadas na escrita e até mesmo na divulgação de livros, como acontece com certa frequência no caso do homem negro “bem-dotado”. Nossa parte, como escritores, é nos conscientizar sobre o que produzimos e o que consumimos que pode estar mergulhado em estereótipos racistas.
Para finalizar, eu quero deixar essa frase do influencer Levi Kaique:
“O que pode ser uma piada ou apenas um fetiche para você, pode gerar inseguranças, problemas psicológicos e emocionais irreversíveis na vida de um homem negro.”
Espero que vocês tenham gostado do post
Beijos e até mais!
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REFERÊNCIAS:
Conheça a história real que inspirou a minissérie da Netflix 'Olhos que Condenam' (technewsbrasil.com.br)
Magical Negro - TV Tropes
Masculinidade negra: ser homem negro no Brasil é conviver com uma série de estereótipos, que envolvem gênero, raça e classe social. - Trip (uol.com.br)
Complexo de branco salvador: precisamos falar sobre isso (janelasabertas.com)
Rafa Kalimann vira alvo de críticas por publicações durante viagem a Moçambique: ''Insensível'' (uol.com.br)
Reconhecendo estereótipos racistas na mídia norte-americana | by Suzane Jardim | Medium
As a black gay man, I'm subjected to racist stereotypes on dating apps | Metro News
8 Estereótipos Racistas que Novelas Precisam Parar de Usar (nodeoito.com)
Racismo e o mito do homem negro estuprador
Hiperssexualização do homem negro
DOS SANTOS, Daniel. Ogó: encruzilhadas de uma história das masculinidades e sexualidades negras na diáspora atlântica.










