𝑺𝑨𝑽𝑰𝑵𝑮 𝑵𝑬𝑽𝑬𝑹𝑳𝑨𝑵𝑫? past life flashback.
Era um grande alívio para Wendy retornar à Terra do Nunca. Havia sonhado por tanto tempo com aquele momento que sequer pensou em como o lugar poderia ter mudado até o momento em que colocou os pés na praia próxima ao acampamento de Pan. O que antes era o lugar mais excepcional que já tinha visto agora não passava de uma… praia. A água, que antes era a mais cristalina que poderia existir, estava sem aquele brilho característico e parecia até sem vida, se é que fosse possível. O céu, que antes era o mais azul que já tinha visto, agora tinha algumas nuvens. Por alguns instantes, ela permaneceu parada no mesmo lugar, observando o lugar que estivera anos antes com certa estranheza. Wendy não era mais a mesma, havia amadurecido e endurecido e parecia que o mesmo havia ocorrido com a Terra do Nunca.
Deixou que algumas lágrimas escorressem por suas bochechas enquanto se dirigia em silêncio ao acampamento, tanto por ter conseguido sair do inferno em que vivia há alguns anos quanto por ver aquele lugar mágico tão… mundano. Não pôde evitar o sentimento de culpa durante o caminho, mas também decidiu que permaneceria ali por tempo indeterminado. Sua família agora se resumia aos irmãos, então não havia nada que os prendesse ao mundo sem magia. Fora que ali havia algo lhe prendendo… Peter. Não tinha ideia de como seria encontrar com ele depois de todo aquele tempo.
Ainda que estivesse um tanto atordoada com tudo o que havia ouvido nas últimas horas, Wendy não conseguia deixar de se sentir feliz em estar ali. Havia aprendido a amar cada um daqueles meninos e somente agora percebia como havia sentido falta de todos eles. Então, conversava animadamente com todos, assim como dançava ao redor da fogueira sem maiores preocupações. Era tão bom estar ali, longe da guerra. Não precisaria mais se preocupar a todo instante, ainda mais porque se sentia tão segura quando estava próxima de Pan e dos meninos perdidos, e tal sensação era libertadora.
Depois de várias danças e risadas, Wendy precisou ir para um lugar mais silencioso da comemoração. Ela ainda era uma garota introvertida, então em alguns momentos acabava precisando de um espaço e de uns minutos para si. Sentou-se em um tronco que havia ali, suspirando alto enquanto fechava seus olhos. Seu momento foi interrompido, porém, por uma voz atrás de si. Wendy se levantou, virando-se para Tiger Lily com um sorriso no rosto… que logo se desfez. “Não diria que sou a salvação da Terra do Nunca, está mais para o contrário.” riu fraco, franzindo o cenho ao perceber o quão diferente a (até então) amiga estava. “Não estou entendendo… O que aconteceu com você?” indagou, cruzando os braços sobre o peito. “Ninguém me pediu em casamento, nem me entregou o coração da Terra do Nunca… Eu não sabia de nada disso e se soubesse teria vindo antes. Não é como se a minha vida estivesse boa do outro lado, mas obrigada por perguntar.”
O quê havia acontecido com ela? Tiger Lily poderia discursar por horas e não se cansar —— desde as responsabilidades de chefe caindo do dia para a noite sobre as suas costas; a doença do pai; a fome que sucedeu a seca e o cair da Terra do Nunca porque Peter Pan não fora capaz de controlar os próprios sentimentos.
O que havia acontecido com ela era simples. Tiger Lily percebera que não haviam motivos para considerar Wendy Darling tão especial.
No início, quando a garota chegou com os irmãos, ela gostou de ver um rosto novo. Uma menina para conversar, só para variar. Mas o quê tornava Wendy tão especial a ponto de ser venerada pelos meninos perdidos, coroada como a mãe da Terra do Nunca por Peter Pan, como se a própria Tiger Lily não estivesse lá há muito mais tempo? Cuidando da terra como se fosse parte dela?
Por um tempo, ela se negou a acreditar que aquilo estivera mesmo acontecendo com a Terra do Nunca. Ela se negou a acreditar que Peter Pan faria qualquer coisa que pudesse prejudicar o quê era deles, de Tiger, de Peter, dos meninos perdidos, da tribo, das fadas e até mesmo dos piratas. Porque às vezes, amar alguém como Tiger Lily amava o amigo e os seus meninos perdidos, significava dar uma segunda chance. Significava não ser capaz de aguentar vê-lo daquela forma sem poder fazer nada. Mas para tudo existia um limite; até mesmo para o amor.
E ali ela estava frente à frente com a garota que corrompera a Terra do Nunca. A sua Terra do Nunca. Os seus amigos.
“Eu não ligo pra sua vida do outro lado.” Descolou as costas da árvore, dando um passo para frente para que pudesse encarar melhor a garota. “Me diz uma coisa, Wendy Darling, por que você voltou? De verdade.” Perguntou em tom desafiador. “Porque, se bem me lembro, quem pediu para ir embora foi você. Quem abandonou a Terra do Nunca foi você. Então eu não sei se acredito se você disser que se preocupa com algo aqui que não seja o Peter.” Começou a caminhar em passos lentos, desenhando círculos com os pés. “De certo modo, eu nem culpo ele tanto assim. Ele era uma pessoa bem diferente antes de conhecer você. Ele era agradável. Ele se importava com o resto de nós. Ele era meu amigo e eu gostava muito dele.” Tiger Lily balançou a cabeça, parando no lugar para que pudesse encarar a outra nos olhos. “Mas aí, do dia pra noite, tudo o que ele e os meninos perdidos falavam sobre, era Wendy Darling e seus irmãos. Eles já não ligavam pro resto de nós. Eles só queriam a Wendy, a queridinha da Wendy.” Sorriu de forma amargurada. “Enquanto isso, nós tentávamos salvar a terra e nossas próprias peles. Nós tentávamos salvar as fadas; até os piratas. Então... o quê aconteceu comigo, Wendy, foi que eu precisava de alguém para culpar. Eu prefiro acreditar que o Peter ainda é o mesmo Peter que eu conheci um dia. E, coincidentemente, nada disso teria acontecido se você nunca tivesse vindo pra cá.”