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@towarrds
DAISY RIDLEY for PORTER, 2020
remando numa estrada. caminhando num oceano profundo. imóvel diante de uma tentativa. submersa no vazio de outra. buscando um céu azul que contemple cada gota de suor escorrido durante o percurso. bebendo o próprio fracasso a fim de matar a sede do caos que se fizera ali. caminhando arduamente num caminho frio e impiedoso. congelando os pulmões incapazes de capturar o oxigênio e impossibilitando a respiração. caída no mármore abandonado do deserto obscuro que existe em mim. naufragando no próprio mar. sendo engolida na própria terra. perdida no próprio deserto. buscando voar sem ao menos possuir asas. avistando um precipício que carrega para os braços da morte. e ela abraça forte. guarda no colo. caminha para uma luz quase apagada qualquer. some. não deixa rastros.
contornada de emoções que devoram a paz e como vulcão a borbulhar, toda a raiva entra em erupção e respinga a sua volta. e escorre. e queima todos os rastros históricos de que algo bom existiu ali. apaga os registros, apaga as memórias, apaga. deleta. queima. destrói. e quando a primeira gota chega ao mar, parece cessar. e aos poucos vão afundando num oceano incapaz de resfriar. não tem efeito. toda a fúria a fim de rasgar as vestes e enudecer cada acontecimento. a fim de arrancar aquela mediocridade mascarada de amor. toda aquela teórica sensatez que se desmancha na prática. contudo, deixar ir muitas vezes é se libertar. é quebrar as correntes, é voltar a enxergar, é voltar a ter autonomia. e é poder se reencontrar com seu verdadeiro ponto de paz, se entrelaçar novamente com seu verdadeiro amor, aquele nu e sincero. o próprio.
quando algumas pessoas vão, é como tirar um peso das costas e acabar com a respiração ofegante de quem sabe que está correndo para chegar à algum lugar e nunca chega. quando algumas pessoas chegam, é como respirar fundo, encher o peito de sensações boas que mais parecem o ar fresco entrando em suas vias respiratórias. o ir e vir se dissolvem e num elo entre ceder e acolher, um rio desemboca num oceano de prazeres e medos. imensidão que engole, mas ensina a mastigar, que afoga, mas ensina a nadar e em constituições de si, se desfaz em mim, em ti, em nós
gente que te atravessa feito flecha gente que te atravessa feito gente gente que se inscreve na gente gente que se faz moradia na gente gente que é gente sem deixar de lembrar da gente, que um dia amou sem saber amar gente em todo canto gente em todo lugar meu Deus, como pode? ter tanta gente e só uma gente ter a forma exata que o formato de nossas mãos procuram? gente ali gente lá e a gente aqui, sendo nós novamente sem medo sem pressa só querendo ser só querendo estar só querendo amar
recuperar as notas que faz tua melodia encantar o ambiente por onde tu passas. caminhar descalço, num asfalto quente, esfolando as solas do teu coração. buscar teu caminho de volta onde tu possas voltar a respingar amor. e não fazer demasiada demora onde tu não possas ser morada afetiva.
a história nunca isentou mulheres fortes. eu não preciso de absolvição por ter me apaixonado por uma. parte de quem me tornei foi por amar cada pedaço teu.
desalinhada dos sonhos
submissa as tentativas falhas
pé descalço, chão quente
inibida de qualquer desejo motivador
jogada às traças
caminhando no meio fio da vida fingindo ser equilibrista
fazendo da arte seu instrumento de fuga
atuando a falsa vontade de viver
questionando o céu
buscando não repostas, mas um sentido qualquer
esbaldando-se na única delícia capaz de trazer plenitude, o amor
sobrevivendo a mercê da dúvida
e o chão quente, fervendo, borbulhando
o pé, descalço
no raso da dúvida
na sombra da incerteza
no rompimento das dificuldades
na impaciência da espera
no mar de questionamentos
no remo do querer
no mergulho do sim
nas profundezas do amor
na lógica do sustento
na racionalidade dos fatos
a balança que pesa, mas não calcula
a junção que não soma
a aceleração que se desfaz
a inércia que se refaz
o encontro de dois polos que anula
a combustão das sensações
fórmulas que não podem ser aplicadas
matéria que não consegue fluir
espaços geográficos limitados pela condição de ser
buscas frenéticas a longo prazo
imparcialidade no posicionamento
mergulhada na instabilidade
afogada em tentativas
jogadas tardias
quebradiça por inteira
penetrando a epiderme de forma corrosiva e fazendo morada subjetiva
pessoas são diferentes e o processo de desconstrução é diário. tá tudo bem sentir diferente, tá tudo bem se arrepender, tá tudo bem querer tentar de novo, tá tudo bem estar errado. o importante é entender que mudamos o tempo todo e que o eu de hoje é melhor que o eu de ontem. tá tudo bem se respeitar, você deveria mesmo fazer isso. tá tudo bem abraçar a sua dor, ela é só tua. tá tudo bem não entender algumas coisas. tá tudo bem se perder e só depois se encontrar, ainda que diariamente. admiro a filosofia de Heráclito porque ele dizia: nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tão pouco o homem. absorver as descargas e permitir a conexão dos fios que alinham e se concentram em cada canto do que essencialmente somos. partir do princípio de que nada se modifica em vão e nenhum fio é desconectado sem antes descarregar toda eletricidade necessária. nossas intuições não costumam falhar porque nossa energia é certa. ela existe. ela afeta. é afeto.
acalantar no peito o perigo de expandir
recolher as cinzas que dissolve em ti
e restitui em mim
submersa em dúvidas
no raso da certeza
na soma do desejo
no rompimento do não
a surpresa do incerto parecer mais certo do que até mesmo a beleza de um sol se pondo
pôr esse que leva contigo cada raio de medo
e te permite recomeçar logo amanhã,
bem de manhã
poesia escrita em ser
o corpo vivia fielmente o papel do lápis
a mente assumia de forma rígida as letras que preenchiam qualquer espaço vago aonde pudesse encaixar a arte da escrita
o coração poetizava com sutilidade cada verso da realidade vista enquanto a alma toda colorida contornava em essência àquilo que viria a ser vida
(gabriela sene)
dizem que demoramos um ano para superar de fato um grande amor em nossas vidas, mas e quando os dias se parecem horas e os meses se parecem dias e um ano se parece com ontem? e quando um ciclo parece se renovar constantemente impedindo que nada envelheça e que tudo se conserve quase como intacto?
Sea Surge: Grimsby, Ontario, Canada