Um ótimo local para conseguir madeira é em uma casa velha e abandonada, porém lá é também um ótimo local para fantasmas. As flechas de prata com cano de madeira, banhadas em pó de ferro envenenado era a marca registrada de Crystal. Era tóxico para criaturas que reagiam a um dos três materiais, ou a qualquer coisa que a garota banhasse as flechas. Uma coisa que gostava mais do que criar suas armas? Criar seus venenos. Por isso, na maior parte das únicas vezes, a chamavam de tóxica. A tóxica Crystal. Que no momento, não tinha nada de especial além de um celular que não parava de vibrar no bolso do casaco. Quando conseguiu achar um antigo potinho de dentes de criança - daqueles de leite que as mães costumavam guardar - em uma prateleira alta, fez um círculo de sal e as ligações pareceram sessar. No entanto, assim que ligou o fósforo, resolveu atender. Kristen podia ser a pessoa mais consideravelmente louca mesmo estando sã que conhecia, mas não ligaria com tanta vontade assim por nada.
— Olá. Aqui é a Crystal, deixa sua mensagem após o sinal. Pi- Mentira, oi — Foi interrompida por uma fala um tanto quanto hiperativa — Matando um fantasma que resolveu se apresentar enquanto eu pegava mater… Espera. O Daniel? — Assentiu, mesmo com a garota do outro lado da linha surtante não podendo ver o gesto — Me explica isso! — Seu fôlego começou a pesar, sabia o quanto aquele garoto era importante para Kristen. Ela entrou na sua vida como um daqueles furacões malucos e se tornou sua melhor amiga num piscar de olhos. A irmã que não teve, e assim, não deixaria Kristen perder seu irmão de verdade enquanto Crystal podia fazer o que podia para salvá-lo. E para salvá-la dessa loucura toda. — Estou indo para casa agora, fique calma! Tente pensar em algum plano, qualquer coisa, mas não levante a bunda do sofá até eu chegar. — Dava para ouvir Crystal se apressando. O caminho levaria 20 minutos ao todo se não tivesse cortado tantos caminhos e tantos sinais, o diminuindo para apenas 10. Os pneus gritavam, e o telefonema já tinha sido desligado a tempos, mesmo ainda o segurando perto da orelha.
Encostou, pulou do carro e nem mesmo deu o alarme.
— Kristen! — Gritou, entrando e indo até a amiga. — Tudo bem, me conta tudo. — Poderia se dizer que Crystal estava falando por falar pelo simples motivo de que foi até a amiga, disse as palavras, a olhou com um “Vai ficar tudo bem”, mas não gostava de falsas esperanças. Não sabia se realmente iria ficar tudo bem, e não falaria isso para ela só porque a deixaria tranquila. Não deixaria, pioraria tudo. Por isso apertou a mão dela e, enquanto ouvia, foi direto para o acervo de armas que mantinha no fundo falso de uma mala e geralmente colocava em cima das mesas para ficar mais fácil achar assim que preciso. Montariam primeiro um plano de chegada ao endereço, com várias cartas na manga para caso as tentativas falhassem. No final, um improviso básico sempre acontecia. Crystal tinha desenvolvido um pequeno ácido em sangue de morto para vampiros assim que ouviu a história de Kristal, ainda no dia em que as duas se conheceram e fingiram para o hospital inteiro. Foi engraçado em parte, se não tivesse as outras. Mas havia apenas duas doses. Uma nas mãos de Crystal, outra na de Kristen. E as duas estariam no ninho deles, caso fosse uma armadilha. — Eu preciso te dizer isso. Se ele, depois desses anos, não for mais seu irmão… Você não vai poder tratar ele como irmão, Kristen. Ou eu não vou.
Kristen podia não ser a caçadora mais experiente do mundo em relação a todas essas bizarrices que aconteciam por aí, ou ser jovem demais para realizar o seu trabalho, mas se existia uma coisa que ela tinha de sobra, era determinação. E quando sua determinação era grande, nada era capaz de pará-la. Ficava feroz, brava e perigosa, mais do que no natural, levando em conta o quão imprevisível poderia ser consigo mesma. Naquele momento ela sentia algo ainda maior, uma determinação tão forte que a deixava cega. Ela faria qualquer coisa para salvar o irmão e reencontrá-lo. Se tivesse que matar, ela mataria sem pensar duas vezes. Porém, algo a impedia. Kristen não o via fazia tanto tempo. Se sua voz estava diferente, assim como o seu jeito, ele também deveria estar. Não que ela ainda fosse a mesma. Dois anos mudam muita coisa. Antes Kristen era uma adolescente boba e ingênua a tudo o que acontecia, entrou na caçada sem ter noção do que fazia, tudo por Daniel. Se tornou mais responsável, mais louca, mais madura, talvez um pouco mais protetora, de uma forma mais realista. Suas mudanças eram boas, muitos não tinham orgulho de mudar tanto, porém Kristen tinha orgulho do quanto havia mudado. Estava mais corajosa do que nunca e suas habilidades haviam aumentado consideravelmente. Ela iria dar um jeito de qualquer forma, e não importava o que tivesse que fazer.
Assim que desligou o telefone, encarou o grande armário atrás do sofá. Crystal havia pedido para ela ficar quieta, mas é claro que ela não ficaria. Foi até o depósito e pegou as melhores armas, as testou, fez tudo o que devia, as organizou pouco a pouco. Deveria pensar em alguma coisa, não iriam simplesmente arrombar a porta da frente, dar alguns tiros e flechadas, pegar o menino e bam! Felizes para sempre. Não, isso não iria acontecer. Ela queria, porque seria muito louco, e de longe a missão mais fácil do ano, mas é, ela não tinha sorte na vida. Infelizmente sua mente estava acelerada demais para pensar em alguma coisa, além do fato que o cérebro da dupla era Crystal e não Kristen. Pensar em algo sem ela seria estranho e acabaria em uma bagunça total, já que a ruiva pensaria de menos e agiria de mais. Voltou para a sala e se sentou, encarando a tela desligada da TV, até escutar o barulho do carro estacionando as presas, e uma garota correndo em sua direção. Levantou-se, com a respiração pesada e deu um mínimo sorriso, sentindo que os olhos estavam ficando úmidos, porém fez o possível para não chorar. Não agora.
”Por que demorou tanto?" Tentou brincar, mas sua expressão não ajudava. Sentou-se novamente a puxando para se sentar também e despejou informação atrás de informação, de modo que Crystal entendesse. Contou sobre como ele parecia controlado e estranho, não estava com medo ou como antes, e não parecia tão alegre. Por mais que tentasse ignorar, ela conseguia ver nos olhos da amiga que a situação não estava sob controle. Fechou os olhos e sentiu a primeira lágrima descer. Ela não cedia tão fácil, mas não conseguia mais controlá-las. Segurou o líquido que a amiga havia feito em mãos, tremendo enquanto tentava voltar ao normal. Não podia tratar isso como uma coisa qualquer. Kristen encarou o olhar de Crystal e balançou a cabeça, apertando a própria mão, sentindo as unhas machucarem sua pele. Soltou um suspiro pesado. "Você sabe que eu vou fazer de tudo pra salvá-lo, não sabe?" Deu um sorriso amargo, e voltou a olhá-la nos olhos. "Se ele não for mais o meu irmãozinho, eu mesma darei um jeito. Seja qual for o jeito. Eu vou fazer." Soltou as palavras com dificuldade, porém não expressava certeza. Era por isso que precisava da amiga. Ela estaria lá caso as coisas saíssem do controle, caso ela não conseguisse. Limpou as lágrimas com as mãos e respirou fundo. Preferiu o silêncio, imaginou que a melhor amiga sabia que teria que agir hora ou outra caso acontecesse o pior. "Certo, você já deve ter pensado em algum plano, não é? Porque se quer saber o meu, envolve arrombar a porta com o pé e atacar." Deu de ombros, voltando aos poucos com suas ideias mirabolantes e um tanto quanto suicidas.