Porque as pessoas odeiam Tess Munster (e outras pessoas gordas)
Porque as pessoas odeiam Tess Munster (e outras pessoas gordas)
A menos que você seja alguém que recusa a usar redes sociais, tenho certeza que você sabe que a modelo plus-size Tess Munster/Holliday abalou o mundo das pessoas ao se tornar a primeira modelo “do tamanho dela” a assinar um contrato com uma agência. Ela possui 1,66m de altura e veste 54, o que está bem distante do tradicional padrão da indústria de corpo violão tamanho 42. Modelos de tamanho grande nunca usam mais do que 48/50, e geralmente tem 1,73m ou mais de altura. Gente… Tess é muito baixinha e muito gorda e está quebrando todas essas regras de merda, como a superheroína que ela é.
Mas mudar o status quo pode ser tudo, menos fácil. Se eu quiser ficar de luto pela humanidade, tudo o que eu preciso fazer é ler os comentários do Instagram da Tess. Crianças, não façam isso em casa. Sério, não façam, confie em mim, eu vou lhes dizer o que vocês vão encontrar lá para que não precisem lamentar pela humanidade também. Atualmente é raro eu ler comentários, mas quando eu tiro um momento para me lembrar que esse tipo de trabalho é importante por olhar o perfil dela, eu encontro centenas e centenas (juntando tudo, milhares… talvez milhões) de comentários que ou a chamam por nomes de animais de fazenda, ou exprimem “fatos” sobre como ela vai morrer cedo baseado em ciência ou expressam preocupação sobre o modelo de comportamento negativo que ela exerce promovendo a obesidade ao amar a si mesma… e estes são os comentários gentis.
Os comentários da imprensa até o momento não são diferentes. Mas vamos nos distrair por um momento e reconhecer que Tess ja foi matéria de tantas grandes publicações que deixa esta menina aqui impressionada: Time Magazine, People, Cosmo, CNN, Nylon, TMZ, Daily Mail, Life & Style e muitas outras. Olhe para a lateral do seu Facebook; muito provavelmente ela é um dos assuntos mais comentados neste momento. O fato de que esta mulher sexy está em toda internet neste momento é revolucionário e eu estou curtindo cada momento disso.
Mas até as publicações positivas carregam junto julgamentos e opiniões, e Tess não é a única a receber essa quantidade absurda de ódio e críticas. Eu mesma já tive a minha cota de palavras indelicadas junto com a maior parte dos blogueiros e ativistas que eu conheço. Infelizmente, isso não se limita a personalidades conhecidas. A hasktag #Fatkini foi atacada há pouco tempo e comentários foram deixados para todos os usuários que postaram uma foto com a tag empoderadora.
Por anos essa corrosividade tem me deixado intrigada e tenho me perguntando: POR QUE isso está acontecendo? POR QUE amar a si próprio é tão controverso? POR QUE o mundo está tão louco?
Bom, eu descobri o porquê e é por causa de algo que eu chamo de "Moeda do Corpo".
É algo assim: nós fomos ensinados como sociedade que SE nós atingirmos o corpo ideal que vemos na mídia tradicional (e não antes disso), vamos conseguir amor, valor, sucesso e, por fim, felicidade. Que é o que todos nós queremos, certo?
Como a grande maioria da nossa cultura entra nessa, existem milhares de pessoas investindo tudo o que possuem para atingir esta meta. A meta sendo: magreza, que obviamente equivale a felicidade, lembra? (Perceba: outras “metas” corporais também se aplicam aqui, como corpo sarado/pele clara/ aparência cisgênera etc.) Então, eles passam a vida em um estado perpétuo de autodepreciação (e chamam de inspiração!) enquanto se acabam de malhar para se tornar o ideal. Americanos gastam bilhares de dólares em produtos de beleza todos os anos. Entre as milhões de pessoas fazendo dietas, presenteamos a indústria da perda de peso e de outros produtos para emagrecimento com mais de 60 bilhões de dólares. 14 milhões de americanos fizeram cirurgia plástica em 2012 e, sim, este número continua crescendo. Talvez nós passemos fome ou talvez apenas nos fixemos na contagem de calorias como se isso fosse determinante para a nossa salvação. Talvez tenhamos transformado a academia no nosso Deus. Qualquer que seja a nossa escolha individual, nós, enquanto sociedade, fazemos do "corrigir nosso corpo" a nossa principal obsessão e permitimos que isso consuma a nossa vida. Isso acontece para a maioria de nós, independente se escolhemos fazer parte disso ou não. Vivemos para dar o nosso melhor para atingir a meta (vendida como felicidade) de uma perfeição impossível.
Então, depois de tudo isso, quando uma gorda que não fez todo o trabalho, que não tentou consertar o corpo, que não tem interesse na verdade inquestionável que nós cegamente acreditamos, se levanta e diz "EU SOU FELIZ!", nós nos revoltamos.
Porque essa vadia quebrou as regras. Ela furou a fila. Ela nos roubou involuntariamente. E, essencialmente, ela transformou o trabalho das nossas vidas em algo insignificante.
É a mesma coisa que investir tudo o que você possui em ações e, em vez de obter retorno, você descobre que seu dinheiro vale tanto quanto o dinheirinho do banco imobiliário. De repente todo o seu investimento (moeda do corpo) possui o devastador valor de zero.
Eu também passei por isso e eu também me revoltei.
O óbvio problema com a moeda do corpo é que magreza não é necessariamente sinônimo de felicidade. É apenas sinônimo de dinheiro nos bolsos das empresas que vendem insegurança para nos transformar em clientes frequentes. É um golpe baixo e deixa qualquer um que cai nessa armadilha sem chão, e consequentemente os irrita mesmo que eles não saibam o motivo. Então toda a raiva é direcionada para a pessoa que trapaceou no sistema e achou o pote de ouro sem achar o fim do arco íris.
Tess é o alvo perfeito para esse tipo de raiva e ódio a gordura: ela é bem sucedida (Vogue italiana, galera) ela está apaixonada (ele é um amor e tem sotaque australiano), ela divulga que tem valor, e... por Deus, ela é feliz pra caramba. Tudo isso sendo muito NÃO-magra.
Em uma entrevista arrasadora para o Yahoo!Saúde, Virgie Tovar recapitula de forma eloquente (como sempre): "'Gordo' é o termo que agrupa todas as coisas que a nossa cultura tem medo: direito das mulheres, pessoas que se recusam a ceder perante as pressões de conformação social, medo da morte. Pessoas que odeiam gordos percebem o amor ao próprio corpo como uma ação contra aquelas pessoas que tomam as rédeas da própria vida e escolhem o que eles querem independente do que a cultura manda. Isso é muito assustador para muita gente".
A raiva que eles expressam é, na verdade, contra eles próprios. Uma pessoa que odeia ver alguém feliz e livre, no fundo, gostaria de ter a força para fazer o mesmo, mas eles estão tão absorvidos ou convencidos com as coisas como são agora que isso os impede de ver essa liberdade como algo belo. Então eles veem e odeiam... Pessoas têm investido bastante tempo e recursos nesse jogo que diz "magros são vencedores". Então, quando se deparam com exceções à regra, se sentem pessoalmente invalidados, roubados e afrontados.
Essa linha de raciocínio cai como uma luva na conversa que eu tive com amigos sobre as diferentes reações que gordos recebem caso eles sintam culpa ou não pela sua gordura. Gabi Gregg, do Gabifresh, lacrou ao dizer: "Se tem uma gorda na televisão tentando desesperadamente emagrecer, lamentando sobre o quão difícil a vida é e falando sobre como ela come para lidar com a vida etc, então todos se comovem e torcem por ela. Coloque a mesma pessoa com uma blusinha cropped sorrindo e as tochas aparecem." Falou e disse, menina.
Se uma pessoa gorda aceita essa baboseira como todos os outros, ela encontra empatia. Ou talvez apenas seja permitido que ela exista sem visibilidade. Mas e se ela mostra qualquer sinal de felicidade sem seguir os comandos? Bom, nesse caso, cortem-lhe a cabeça e VAMOS FILMAR!
Se você ainda não ouviu ao mais recente This American Life (programa de rádio americano) chamado "Se você não tem nada de bom para dizer, DIGA EM CAPS LOCK", eu recomendo. Com este episódio iluminado, Lindy West compartilha seus constantes encontros com o ódio na internet e relata um acontecimento inédito de um e-mail enviado por um troll particularmente cruel contendo um sincero pedido de desculpas.
Aconteceu de verdade, então pegue o seu queixo do chão.
Como essa mulher não tem medo, Lindy ligou para o troll para conversar sobre o motivo pelo qual ele a odiava tanto. Depois de perguntar sobre o porquê ele a escolheu dentre tantas pessoas para atormentar, a conversa foi mais ou menos assim:
- Troll: Bom, tem a ver com um tema que você escreveu bastante sobre como é ser pesada - as dificuldades que você teve por ser uma mulher do seu tamanho, ou qualquer termo que você queira usar.
- Lindy: você pode dizer gorda. É o termo que eu uso.
- Troll: Gorda. Ok, gorda. Quando você falou sobre se orgulhar de quem você é e de sua trajetória, isso meio que acendeu o ódio que eu sinto.
O troll compartilhou que ele já havia parado com assédio virtual, mas confessou que durante o período que atacou Lindy, ele estava vivendo o que ele chamou de "vida sem paixão". Que ele odiava seu corpo, tinha levado um pé na bunda, trabalhava em um local que ele odiava. Ele estava vivendo o oposto da felicidade.
A parte interessante é que desde então ele retornou aos estudos, encontrou uma nova namorada, começou a dar aulas para crianças e encontrou satisfação. Ele também não tentava mais infligir dor nos outros online. É fascinante como isso funciona. E prova exatamente o que o senso comum já sabia: pessoas felizes não tentam infligir dor a outras propositadamente.
Bom, isso não é exatamente um segredo. Eu diria até que é apenas questão de bom senso (e tão incontestável quanto o exemplo de Ira Glass sobre as caixas cinzas em seu podcast - a gravação é hilária e o exemplo fica logo no início mas você ficaria surpreso com a quantidade de pessoas que discordam de um conceito tão simples. Uma vez eu vi um comentário em um vídeo do Prince Ea (sobre odiadores e sua raiva) que me fez rir porque dizia: "eu escrevo alguns comentários vulgares [...] e as pessoas já presumem que eu sou um imbecil infeliz na vida real. Que tal as pessoas pararem de ser tão sensíveis?"
Alguém, por favor, dê um abraço nesse cara.
Se nós aplicarmos esse conceito simples sobre pessoas felizes ao ódio corporal, nós veremos que pessoas que amam seus próprios corpos não tentam propositalmente fazer com que outros odeiem os deles.
Ou, como Meghan Tonjes pontua: "Aqueles que desrespeitam o corpo dos outros não acham que seus corpos são grande coisa. Eu garanto."
Infelizmente, sabendo disso, não é de se espantar que nós vemos hostilidade online. Por quê? Porque a maior parte das pessoas passa o tempo incansavelmente tentando atingir um sonho vazio. Porque a moeda do corpo é uma farsa. Porque todas essas pessoas aprenderam a odiar seu corpo atual e muitos não fazem ideia de que é possível pensar diferente. Mas o fato mais importante é que é possível sim. Amor corporal não é apenas para pessoas gordas, é para todas as pessoas. Todos possuem o direito de amar a si próprio. Magros. Gordos. Baixinhos. Altos. Todas as habilidades. Todos os tamanhos. Todas as formas. Todos os tons. Todos os sexos. Todos os gêneros. Odiadores ou não. Afinal nós estamos no mesmo barco. Nas minhas aventuras online e na vida real eu ainda não encontrei uma mulher que não quisesse mudar algo no seu corpo e homens em situação parecida, exceto que eles são absolutamente proibidos de falar sobre isso. Nos enfiaram goela abaixo as mesmas mentiras, e apesar disso não dar o direito a ninguém de propositalmente machucar outros, nos dá um ponto de início para compreensão.
Odiadores vão continuar a dizer o que eles quiserem para Tess e para qualquer outra pessoa gorda que eles considerarem um modelo de comportamento ruim. Eles vão continuar a viver sem noção do motivo pelo qual eles se sentem enojados, mas, quem sabe? Talvez alguns fiquem mais sábios. E apesar de eu não colocar minha mão no fogo pela maioria (ainda falta muito pra poder contar com isso) existem algumas pessoas trabalhando em prol de uma transformação social e nós estamos progredindo. Uma mulher muito gorda assinando com a agência de modelos London? Isso é progresso, meus caros.
Para aqueles que estão enfrentando qualquer tipo de ódio ao corpo, façam um favor: ignore essas pessoas que dizem que se amar não é ok. Sinta pena dessas pessoas que te odeiam por serem felizes. Nós todos sabemos como é a sensação desse tipo de autocrítica. Não é obrigatório, mas se você puder, envie para alguém mensagens de amor ao próprio corpo porque eles também merecem se amar como um todo.
Continue amando essa "versão negativa" de si mesmo.
E, nas palavras de Tess, não esqueça de “se cercar de pessoas que pensam como você e que tenham pensamentos positivos, que acreditem em você. É crucial para a sua felicidade e bem estar. Nunca se compare com outros e celebre tudo o que faz de você o que você é.”
E se você algum dia se encontrar sem forças para lutar contra esse ódio (às vezes é forte demais), eu te ofereço esse Twitter de sabedoria de “vida bem vivida”, de Gabourey Sidibe, como fonte de inspiração.
Para as pessoas que fazem comentários maldosos sobre as minhas fotos GG, eu quase me afundei em lágrimas dentro do meu jatinho particular a caminho do meu emprego espetacular ontem a noite. #brinks
Encontre sua versão de emprego dos sonhos. Sua versão do jatinho particular. Seu corpo não é um obstáculo, e certamente não é uma barreira para a felicidade. A única barreira é a falsa crença de que você precisa mudar a si próprio a fim de estar bem. Você possui a força necessária para vencer esse preconceito, acredite em mim.Agora vá encontrar felicidade, derrube uns forninhos e viva!
Esse artigo é uma tradução do The Militant Baker e você pode conferir o original AQUI.