Não sei se vou me acostumar com essa tua partida. Olhando ainda em tua boca, dá pra lembrar e sentir o gosto dos teus lábios, e sei que, sobretudo, é nele que me prendo e fico marcada. Não me ensinaram a dizer até logo, quiçá adeus, mas hei de me sentir confortável quando saber que de longe, ainda que nos braços de outro alguém, tu estarás feliz.
Embora as coisas não tenham saído como planejado ou esperado, ou até tido algo mais sério, mas o tempo mudou a rota de cada detalhe, e sabe lá Deus onde foram parar. Mas meu bem, para cada coisa há o seu tempo certo - ora chegue ora não chegue. A tua partida, mesmo que dolorosa para mim, há de cessar. Pessoas vêm e vão, nem todas sequer ficam, e você foi uma dessas. Marcas e gestos hão sim de ficar, mas logo passa e tu não mais será o motivo de meu desconsolo.
Eu preciso dizer que quando você chegou naquela tarde como quem nada queria, assim como o sol que vai repousando lentamente ao horizonte, eu não medi forças para descobri que você infringia todas as minhas leis, inclusive as que regem meu corpo, porque naquele momento, mais do que nunca, eu te quis. Eu te quis recostado sob meus seios enquanto podia acariciar seu cabelo, seu pescoço, suas costas, assim, como quem nada queria, mas você não podia imaginar as minhas intenções; mas também, a sua petulância de ser tão leviano por dentro, mas com uma forma extraordinária de conquistar o que bem deseja, suas mãos habilidosas, seu beijo delicado e seu jeito, possuem a maior parcela de responsabilidade por todo holocausto causado.
As tuas palavras sinceras foram confortantes e lembro-me de cada uma delas: “Eu preciso dizer que quando eu estava ali, naquela tarde como quem nada queria, ficava pensado em uma outra moça e evitei qualquer contato a mais para não infringir o que meu coração dizia, porque naquele momento eu estava com a imagem dela na cabeça. Eu a queria mais próxima de mim recostada em meu peito enquanto podia dizer palavras bonitas, acariciar seu rosto e cabelo, assim, pois ela era a moça quem me completava. Nenhuma outra pessoa poderia reverter minha situação, eu não estava perdido, muito pelo contrário, havia me encontrado naquela moça. O seu jeito estaria a me encantar a cada boa lembrança, acredite. Desculpe-me o infortúnio por tal holocausto causado, mas meu beijo e meu jeito, apesar de possuírem a maior parcela de tamanha responsabilidade, não tinham e não tem sequer uma gota de maldade.”
Eu resolvi que precisa me libertar de todo mal que você havia me feito. Você chegou, me bagunçou, não levando em consideração a bagunça que já sou por vida, depois, resolvi que eu deveria me ajeitar. Posicionar-me quanto aos meus sentimentos. Não sei ser virtuosa. Meios termos, para mim, não existem! Sempre exagerei. Meus sentimentos gostam de escoar como água abundante pela torneira, assim fiz. Dizer-te que resolvi recuar, que resolvi não mais deixar-te confuso, fazia parte do meu show particular de sofrer calada! Foi fácil te dizer tudo àquilo que falei. Difícil mesmo era prender o meu desejo de te beijar e te acariciar. Quando eu olhava-te, sempre via alguém oposto a mim, alguém que faria parte das minhas exceções. Um caso particular. Mas aquilo não podia prosseguir. A tua ingenuidade e o teu carisma eram demais para os meus problemas e o mau caos. Todo teu cais não suportaria isso! Você estaria condenado! Por este motivo, em uma nova tarde, resolvi que aquela conversa deveria acontecer. Não fui autêntica e me arrependo disso. Como eu queria ter te dito todas aquelas palavras olhando em teus olhos, só pra que você visse o que havia acontecido e para que, jamais se aproximasse de mim - outra vez, até. A minha forma rude é uma arma. Quando somos delicados demais, o sofrimento costuma ser redobrado. Eu te queimei dos meus pensamentos. Mas o pó que sobrou, resolvi colocar em um pote e guardar comigo, sem nem ter porquê. Hoje descobri que fiz àquilo porque este tipo de sentimento é como uma fênix, ele renasce das cinzas, assim como o pó que te fiz. Mas, novamente, quando penso que posso em restabelecer e me refazer, dou-me por conta das coisas que você diria, caso estivesse comigo naquele momento, então, as últimas palavras são tuas: “Decidi acreditar que o mal que possivelmente havia te feito fosse uma simples brincadeira, mas eu já estava lá quando você chegou e piorei o que já estava bagunçado, e permaneci calado. Não pude demonstrar qualquer sentimento - já que não o tinha direito. Meus sentimentos são como enigmas, mas se os esqueço, resolvo - os por conta própria e nem percebo. Recuar e não me deixar confuso, fez de mim parte da plateia que assistia o show do teu sofrer calada! Nossos olhares foram recíprocos, quanto a nossa oposição. De fato, um caso particular. Mas isto não podia prosseguir. Minha ingenuidade e o meu carisma, talvez, digam como sou. No entanto sou fraco demais para suportar problemas e caos. Todo o meu cais haveria de se esvair. Naquela tarde poderia ter feito e dito muitas coisas, mas não o fiz. Ao dizer olhando em meus olhos o que havia acontecido, por que não me aproximaria mais de ti apesar de talvez saber o feito? Hora de desarmar a arma rude e aderir a arma da ternura. Ser delicado quanto a algumas coisas, não há nenhum problema sequer. É preciso usar a delicadeza em ocasiões que exijam força bruta e poucos o fazem. Tu me queimastes do teu pensamento. Se guardas o pó que sobraste das minhas cinzas é porque pensas que todo o sentimento é como uma fênix. Mas saiba que o sentimento quando findado, não volta a ser o que foi há um tempo atrás.”