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Se ela tivesse feito algo extraordinĂĄrio, limpado nossos nomes com lama e nos tirado da cegueira, se ela soubesse qual seria o trĂĄgico fim, e talvez nem fosse tĂŁo dramĂĄtico se eu entendesse a importĂąncia do adeus, mas se mesmo assim ela tivesse feito algo muito bom, uma obra de arte, um espetĂĄculo de circo, aĂ quem sabe as coisas seriam as mesmas. Ainda bem que nĂŁo sĂŁo.Â
E de olhar pra frente Ă© um medo escandaloso, Ă© de tirar o fĂŽlego de tĂŁo bonito, eu me gabo tanto das pinturas e de todo esse ar artĂstico que nem descobri ainda, Ă© um justo defeito, ninguĂ©m vai acabar caindo na mesma poça que eu desenhei. E Ă© perfeita, no meio do asfalto de giz de cera e carvĂŁo, vocĂȘ nem percebe a gravidade que estou me colocando, Ă© linda e ĂĄgua muda de tom, muda de cor e se transforma, se agita conforme os passos, deixa marcas e a poeira sobe e suja tudo, quase como a nossa vida, mas sĂł Ă© uma representação.Â
Se ela sorrisse tĂŁo sacana todas as vezes que eu me atormentasse com o futuro, se ao menos ficasse em silĂȘncio, mas com histĂłrias inteiras contadas nos olhos, segurasse velas e dissesse que o apagĂŁo estĂĄ na nossa mente, arrumasse os lençóis e fosse dormir no sofĂĄ, se ela aos poucos fosse podando as rosas e arrancando as ervas daninhas, aĂ quem sabe eu poderia nos considerar lar. Ainda bem que isso Ă© sĂł uma metĂĄfora.Â
E que a vida siga seu rumo, se ajeite por conta prĂłpria, pague as contas e converse com o sĂndico, cansei de mudanças. Ela diz que a intensidade Ă© um defeito e eu quase acredito, mas quem sabe eu nĂŁo esteja olhando as fotografias com um olhar crĂtico. Por que? Estou mudando de assunto o tempo todo e perdendo a coragem sem entender muito bem o que Ă© covardia. Mas Ă© perfeito, almoçar sopa industrializada, comprar leite em pĂł e passar o dia na cama porque o começo da vida Ă© um lento engano, e eu desenhei poças na rua toda porque sentia falta da chuva, e nĂŁo porque tinha medo dos trovĂ”es.Â
Se ela visse o gato e sentisse a coceira no nariz, se ouvisse miados e risadas no fundo da noite, aĂ sim, eu demoraria um tempo pra entender os Ășltimos parĂĄgrafos. Ainda bem que tudo isso nĂŁo saĂ da minha cabeça.Â








