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@tristebahia
Levou a ponta dos seus dedos ao nariz enquanto olhava para o lado de fora da janela. O cheiro de alecrim, sálvia e boldo davam um sensação de que, aos fechar os olhos, ela se encontraria em casa; sua mãe estaria coando um chá de folhas recém arrancadas e faria o mesmo discurso de sempre: "se a erva não está fresca, não há nenhum poder em suas veias e não terá efeito". A movimentação constante promovida pelas rodas do ônibus na pequena estrada de terra, entretanto, tiraram de sua imaginação essas memórias. Estava longe de casa agora. Olhou mais uma vez para a janela; em breve, ao longo da estrada de terra, a pequena casinha apareceria na janela, sua vó abanando os braços comemorando a sua chegada. Uma cena que se repetia pelo menos uma vez por ano desde que nasceu. Enquanto isso, via a noite aos poucos estendendo o seu cobertor sobre aquela face do planeta e a lua lá fora anunciando a chegada eminente de uma lua cheia nos próximos dias.
Ela apertou as folhas com seus dedos, manchando as mãos de cheiro e sabor. As ervas, frágeis, com certeza não chegariam frescas a tempo. Segurava com firmeza os ramos, tentando impedir a força de vazar pelos poros, ou, pelo menos, esperava absorver um pouco dessa energia. Não era exatamente um problema, aparecer na casa da avó com flores mortas; elas haviam sido colhidas, a morte eventual era inevitável. Ver, porém, a potencialidade das plantas escapando em suas mãos era como observar um objeto prestes a cair: a gravidade lhe chamando para o chão, mas a ação nunca sendo concluída. Era uma questão de ser e não ser; um limbo palpável.
Alguns podem considerar que o buquê de ervas em suas mãos era um presente estranho para sua avó. Como toda cidade do interior, a abundância de hortas e produções caseiras era grande. Mas o presente não tinha sido uma iniciativa de Jade. Vinha de uma vontade da mãe, que entregara tudo antes de levar a filha para a estação. O buquê era um recado; era o jeito de sua mãe avisar que estava tudo bem, que algumas tradições nunca mudam e que, a cidade é grande, mas não é o suficiente para engolir certos aspectos da sua velha vida no campo. O buquê era o símbolo de resistência.
A sua família por lado da mãe era de uma cidadezinha pequenininha (assim, tudo no diminutivo mesmo) do interior. Sua mãe havia decidido se mudar para a cidade grande depois de conhecer o pai de Jade. Talvez tenha sido um ato de rebeldia se mudar, depois de anos de gerações e gerações terem habitado a mesma casa no interior. Talvez ela só tenha se mudado porque tinha tido o impulso que faltara em muitas da mulheres daquela família. No fundo, o ato de mudança não chocou a avó. Quando conversam sobre isso, entretanto, é possível sentir em seus olhos enrugados pelo tempo, a tristeza e o orgulho de ver uma filha que finalmente havia resolvido sair de um lugar seguro.
Mamãe nunca mais voltou para o campo. Palavras lhe faltavam quando é questionada sobre a sua escolha. Jade ficava chateada pela teimosia da mãe. Como não voltar para a sua casa de origem depois de anos morando fora? Como não visitar sempre que possível? A mãe de Jade e sua avó não haviam brigado, não era uma questão de orgulho, nem de ódio. Se há algo escondido por trás dessa aceitação toda, Jade uma dia irá entender.
"No que você está pensando?"
A voz interrompeu seu devaneio. A menina do seu lado tirou os fones de ouvido ao se virar.
"Tô pensando em nada, não. Você já tá pronta pra descer, Leo? Daqui a pouco chegamos!"
Leo olhou espantada:
"Até parece! Se não fosse nada, você não teria me avisando em cima da hora que estavamos chegando! Você me conhece bem! Agora tenho que me apressar..."
Jade olhou para a sua amiga e riu, Leo sempre foi do tipo que nunca foi capaz de concluir nada na hora, como se "mais cinco minutinhos" fosse seu lema de vida. Tinha resolvido convidar a amiga para a casa da avó buscando mudar alguns costumes e relações. A avó adorava visitas, mas nunca eram pessoas que vinham da cidade grande, e fazia um tempo que ninguém ia lá. Leo pareceu encantada com o convite, sabia que a relação de Jade com o campo era, vamos dizer, diferente. Ser a escolhida para acompanhar a amiga nessa missão, então, era mais que um convite para uma festa do pijama casual. Era uma porta de entrada para aquilo que era de mais secreto e querido. Jade havia aberto sua casa e agora Leo estava entrando pela porta da frente e não mais tentando invadir pelas janelas.
A grande verdade, entretanto, era que, pela primeira vez, desde muito tempo, Jade estava insegura em fazer essa viagem. O campo sempre foi um lugar, se não o único, em que ela se sentia plena, em que exergava na sua vida uma razão para estar lá. Após a última viagem, o campo começou a se transformar em ameaça. Ela não entendia como algo tão próximo poderia ter se metamorfoseado assim rapidamente, sem nada de fato ter acontecido, em algo tão amedontador.
A decisão de trazer Leo com ela não era uma medida para agradar a avó, mas de lhe proporcionar segurança.
Jade e Leo haviam se conhecido há apenas dois anos, desde que as duas haviam entrado no colegial em uma escola nova. Eram duas estranhas em um ambiente onde todos eram muito próximos. A proximidade entre as duas era eminente, como a lua cheia que estava por vir no céu lá fora.
"Chegamos! Olha lá vovó!"
A velhinha estava do lado de fora do ônibus, a poeira provocada pela frenagem das rodas na estrada de terra subiu a altura dos olhos da figura, tampando a sua visão. Aos poucos, a nuvem marrom decantava novamente, voltando ao seu lugar de origem. A figura da avó apareceu aos poucos, sendo desvendada em pedaços pela poeira ao redor. Os atentos perceberiam que nenhum grãozinho de terra ficou de fato na pele e roupas da avó, enquanto tudo em volta tinha recebido uma camada leve de pó, transformando a cena em uma fotografia antiga, as cores desbotadas. Vovó não estava desbotada.