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Você se destruiu! Você tinha um corpo e rosto de Idol, que pena que se destruiu. Você é um perigo pros nossos cidadãos.
[Esse texto foi traduzido por mim, mas escrito pelo confessionsofacoordi-noona.tumblr.com]
Como sabem, estou passando um tempo na Coréia do Sul por causa da súbita e inesperada oportunidade de emprego que não pude recusar. Tenho vivido no centro de Seoul e minhas experiências como um membro da cultura coreana (tenho sangue coreano e filipino) foram as mesmas de outros jovens civis. Porém, ontem a noite, aconteceu algo que me afetou muito, muito profundamente e, naquela mesma noite, me fez sentar e pensar por um tempo sobre esse assunto.
Apenas um contexto sobre essa experiência – tatuagem ainda é um grande tabu. Ainda há um grande estigma, estereótipo e grande reputação sobre pessoas com tatuagens, assim como aqueles que escolhem carreira como tatuador. Na Coréia, não é ilegal ter tatuagens. Porém, ser tatuador é ilegal. Essa profissão não é respeitada nem é legalmente reconhecida. Tenho certeza de que muitos de vocês vão concordar comigo, é completamente ridículo ter que conseguir um diploma de medicina para ser tatuador, já que isso é considerado uma modificação corporal. Mas... se trabalhou muito duro pra ter uma licença pra praticar medicina, você escolheria ser um tatuador quando há milhares de outras profissões que pagam centenas de vezes mais?
Então, saí pra comer com vários colegas num restaurante na parte mais movimentada do centro de Seul. Tenho certeza que já mencionei isso, mas cerca de 70% do meu corpo é tatuado. Tenho as costas toda tatuada, tatuagens nas mãos e nos dois braços inteiros (não, não vou mostrá-las e não, não vou falar os significados nem descrevê-las). Daí, apenas 5 minutos depois, notei que vários idosos e pessoas de meia idade encaravam e ficavam de boca aberta olhando na nossa direção. Depois de 10 minutos lá, tornou-se dolorosamente óbvio que eles não estavam encarando meus amigos... estavam me encarando.
Os olhares tornaram-se invasivos e me deixavam desconfortável. Eles resmungavam baixo e olhares discriminatórios acompanhavam a atenção indesejada. Nos apressamos e pedimos pra levar a comida. Quando levantamos, agradecemos os garçons e nos dirigimos pra saída, uma senhora se aproximou. Ela cuspiu pra mim. Me xingou. Disse que eu era “como olhar um arco-íris depois da chuva, mas depois de alguns minutos era como o tsunami que vem em seguida”.
No início, apenas sorri, dei uma pequena risada e assenti. Mas o marido dela se aproximou e continuou a me atacar verbalmente dizendo que eu “tinha muito potencial” e que eu me “destruí”. Ele me disse, “você se destruiu. Você tinha um corpo e rosto de uma Idol. É uma pena que tenha se destruído assim.” Logo depois outra senhora o acompanhou e disse, “Seus pais devem ter vergonha de você. Deve ser por isso que eles te largaram aqui, sua patife feia e repugnante. Você é um perigo pra nossa sociedade”.
Isso dói.
Nessa hora, meus amigos começaram a entrar na minha frente, incluindo um colega que, com muito orgulho, tem cabelo roxo e azul brilhante. Cuspiram pra ela, e depois que os trabalhadores do restaurante acalmaram a situação e nos conduziram pra fora, andei por uns 500 metros e comecei a chorar.
Sei que não falo muito sobre minha vida pessoal ou experiências como uma cidadã da Coréia do Sul, assim como minhas experiências relacionadas ao meu trabalho aqui; mas, nesse ponto, acho importante enfatizar os padrões de beleza dos sul coreanos e da cultura sul coreana. É verdade que isso está evoluindo e com o passar da geração, as coisas estão mudando. Entretanto, a quantidade de pessoas na meia idade e idosos aqui é maior que qualquer outro lugar no mundo. Dessa forma, esse país está entre os mais lentos em aceitar revoluções culturais e sociais de moda e beleza.
Não vou hesitar em dizer que tenho orgulho das minhas tatuagens. Cada pedaço do meu corpo tem um pedaço da minha história de vida. Do mesmo jeito que algumas pessoas, como autores, escrevem autobiografias das suas experiências de vida, uso a minha no meu corpo. Elas são lembranças de bons tempos, maus tempos e momentos que me mudaram como pessoa e me moldaram em quem sou hoje. São lembretes de que passei por várias coisas e sobrevivi. São, também, lembretes de erros que jamais voltarei a fazer. Tenho, no meu corpo, obras de arte de alguns dos mais conhecidos artistas no mundo, incluindo algumas obras (incluindo uma que estou finalizando) do novo modelo da NONAGON, Jae... um tatuador popular no instagram, Kiji... e o não famoso artista Lee Jaehyo.
Apesar de não concordar com nenhum tipo de cirurgia plástica que disfarce quem você realmente é, não vou mentir e dizer que não fiz nenhuma. Eu fiz. Mas isso não deveria ser feito só pra entrar nos padrões da sociedade aqui, nem seu desejo de ser mais aceita ou, especialmente, seu desejo de parecer sua celebridade preferida.
Os padrões de beleza aqui na Coréia do Sul são enormes e acredito que é muito importante pra muitos de vocês entenderem isso. O que é aceito fora nem sempre é aceito aqui. Qualquer coisa considerada “alternativa” ou é chamado de “eclético e único” nas outras sociedades, seria considerado “vergonhoso, estranho ou desapropriado” aqui. Tenho certeza de que com o tempo e exposição, a cultura da beleza aqui vai mudar e evoluir. Mas é preciso entender o porquê de tais padrões e não apenas aprender a aceitá-los, mas permitir que eles criem confiança e um forte senso de segurança em si mesmo.
한정주
kang_h_won