Ela observa a parede todas as noites. A luz do fogo forma sombras que se movem.
A caverna está silenciosa. Ninguém ousa fazer barulhos altos. Os terrores da noite estão lá fora.
Os pequenos estão amontoados em um canto.
Ela observa a parede. Passa o dedo sobre a pedra fria. Uma curva, ume pequena curva.
Ela observa, sem entender o que está vendo.
Os dias passam depressa. Há muito o que fazer. Catar frutos, caçar pequenos animais. Um eventual favo de mel. Levar os pequenos para beber água. Sempre em grupo, sempre com medo.
O mundo é perigoso. Garra, unhas, presas, veneno. É preciso ficar atenta a tudo.
Ainda assim, a cabeça dela volta para a pequena curvatura na parede da floresta. O que há ali?
É noite novamente. Um dos caçadores foi atingido pelos chifres de um búfalo. Logo, ele deve morrer. Mas enquanto isso, a tribo cuida dele.
Ouvindo os gemidos baixos, ela olha fixamente para a parede.
Como em um sonho, algo parece emergir da pedra. Ela observa, de boca aberta.
Procurando em volta e acha lenha antiga queimada. Ela pega um pedaço, ainda sem saber o que fazer. Mas ela precisava fazer algo.
Ela pressiona o pedaço de carvão contra a parede. A mão começa a mexer, obedecendo o que os olhos estão vendo.
Ela risca a parede da caverna. A forma da parede é seu guia.
Um corpo, uma cabeça, pernas, os chifres.
Ela para. Os olhos apertados para enxergar além da fumaça e das sombras.
Na parede, ela enxerga o búfalo. Suas formas em carvão. Sua força, a pelagem escura, os chifres perigosos.
As crianças são as primeiras a ver. Olhos brilhando. Elas balbuciam coisas. Uma delas toca a parece, como se fosse acariciar o pelo do animal representado em carvão.
A mulher pressiona novamente o carvão contra a parede.
Com o carvão, ela desenha um homem preso nos chifres do búfalo.
Todos imediatamente olharam para o caçador ferido.
Em silêncio, eles absorvem aquilo. A história do caçador e do búfalo contada sem palavras.
Aquele desenho era todos os búfalo e todos os caçadores em suas lutas.
O caçador e o búfalo morreriam no mundo, mas a partir de hoje viveriam para sempre em carvão, pedra e memória.