Fogo que queima internamente
Sempre estive acesa, sempre me mantive bem sozinha, eu alimentei o fogo dentro de mim por anos, sozinha. A chama que fazia com que eu funcionasse, a chama que mantinha meu lado bom vivo. Até que um dia, resolvi não me prender mais ao meu simples lampião, resolvi desbravar o mundo, minha chama iluminava escuridão adentro .
Descobri novas sensações, descobri alguém que fosse agua, mas aquilo não era pra mim, ele nunca me entendeu e sempre quis com que eu fosse mais recatada. Conheci alguém que era vidro, mas ele também não me entendeu, fez de tudo para me prender, não entendeu que eu queria conhecer o mundo. Também conheci o álcool, que fez com que eu ficasse completamente fora de mim, eu não conseguia me conter e sempre me chateava por ele causar isso em mim.
Após tantas experiências traumáticas, eu comecei a me adaptar. Ser da forma que todos esperavam que eu fosse, seja ser menos luminosa, seja ser mais recatada, seja ser mais do lar. Eu perdi completamente minha verdadeira essência, e aquela chama tão bela à qual eu já fui um dia, se fora. Eu ainda a sentia, mas estava tão longe. Foi quando eu percebi que a chama nunca esteve dentro de mim, nós formávamos um só ser, e quando fui obrigada a me adaptar para ser aceita, ela realmente entrou para meu interior. Mas ela não gostava disso, ela me sufocava, implorava para sair, clamava por liberdade. Isso começou a se tornar perigoso, ela começou a me queimar e isso nunca havia acontecido! Eu fiquei louca, isso não poderia estar acontecendo. Por quê? Por quê? Por que ela estava fazendo isso comigo? Estivemos juntas por tantos anos… Então, eu resolvi a deixar sair para esclarecermos essa situação. E foi tão glorificante senti-la novamente, senti tanto medo que ela tivesse me deixado. E ao sentir aquele calor novamente, eu entendi. Ela não só fazia parte de mim, como ela era eu, e eu não posso fazer isso comigo mesma. Eu estava apagando algo que pensei que me faria mal, mas na verdade eu estava tentando apagando a mim mesma, bem, tentei. Porque é impossível apagar a nossa essência, podemos reprimi-la somente, mas isso causa dores imagináveis, causa feridas que demoram pra se curar.
Foi então que eu conheci o vento, mas não uma ventania, e sim, uma brisa. E eu deixei que ela nos levasse, que nos alastrasse pelo mundo. Eu percebi que não valia a pena voltar para meu lampião, passei tempo demais presa a ele. Mas também não valia a pena deixar de ser quem eu sempre fui, aprendi a aceitar o que sempre fez parte de mim, aprendi a aceitar a mim mesma, e eu estou muito mais feliz assim.