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Se procure, menina!
(via Nath Araújo Art)
Crie meninos e meninas da mesma maneira.
Feminismo: o básico em linhas gerais.
- Natália Santana
Seres do sexo masculino e feminino são claramente diferentes, biologicamente falando. Estas diferenças são o que definem, no mundo animal, as funções de cada ser e o seu comportamento, que se mantêm firmes e fortes na natureza por anos a fio. Se voltarmos no tempo a cerca de 200 anos, por exemplo, veremos que as leoas e os leões mantinham naquela época os mesmos hábitos que mantêm até hoje. Entre nós, seres pensantes, há também diferenças biológicas muito claras. Foram estas diferenças que a humanidade usou durante muito tempo para determinar que funções e comportamentos devemos assumir. Nós, seres pensantes, usamos a cor da pele e outras características físicas, por exemplo, para dizer quem deveria ser rei e quem deveria ser escravo.
Ao longo da nossa história as diferenças biológicas entre os seres do sexo masculino e feminino foram usadas para indicar funções e construir a ideia daquilo que é ser homem e daquilo que é ser mulher. Às questões biológicas somaram-se fatores sociais e religiosos que com o passar do tempo forjaram ideais para os homens e mulheres que afirmam que o primeiro é a inteligência, a virilidade, a razão, a voz de comando, a representação de Deus (a voz que fala por Ele e a imagem Dele), a seriedade, o ser completo em si mesmo (Freud que o diga!); enquanto dizem que ser mulher é exatamente o contrário, é a ausência de inteligência, de virilidade, de razão, de seriedade, é ser aquela que carrega o pecado em si; é basicamente ser aquele que não é homem, aquele ao qual faltam as qualidades de homem.
O ser feminino foi definido como segundo, como outro, como sexo frágil por que sempre foi visto através do homem, depois do homem. A mulher não possui significado por si própria, ela possui significante: o homem. É ele quem a define. O homem é aquele que é forte, inteligente e completo o suficiente para escrever a história, a mulher é aquela que aparece como coadjuvante. Não é que as mulheres não tenham vivido coisas importantes ou não tenham a capacidade intelectual que os homens têm, não é que elas não tenham feito as mesmas reflexões ou feito descobertas importantes ou que não tenham refletido sobre suas trajetórias – em verdade, diversas mulheres foram cientistas, musicistas e pesquisadoras das mais diversas áreas – a elas simplesmente foi tirado o direito de reconhecimento (um salve para Rosalind Franklin!) por conta de mitos biológicos e religiosos profundamente enraizados em nossas culturas.
O feminismo é o discurso filosófico que afirma que a mulher não precisa do homem para ter significado, que o ideal daquilo que é ser feminina ou daquilo que é ser mulher não pode ser definido pelos homens, com base em suas experiências e menos ainda com base nos seus corpos. O feminismo busca a ressignificação do conceito de feminilidade de modo que ele possa ser descoberto e redescoberto por cada mulher ao analisar suas próprias vivências, questionando assim os parâmetros sociais de feminilidade tais como fragilidade, castidade, amabilidade, doçura, dependência do homem, subserviência, competição entre mulheres, entre tantos outros vistos como verdade absoluta pelo senso comum.
Feminismo não é sobre odiar homens e não é sobre vitimização das mulheres. É na verdade sobre o protagonismo. Os homens têm sido os filósofos, escritores, cientistas e músicos obrigatórios nos nossos currículos há muito tempo - isso para não mencionar que eles eram os únicos aos quais as ciências e artes foram permitidas como trabalho por anos quase incontáveis e que eram os únicos com direito a reconhecimento, como já dito antes. É muito difícil para um homem entender este ponto de vista por que ele se reconhece em cada esquina da história da humanidade. As mulheres precisam se procurar e ir a fundo para compreenderem que os estereótipos eternizados não são obrigatoriedade, para isso é que existe o feminismo.
Das discussões, leituras, debates, relatos de experiência e encontros de mulheres surgem as demandas que fazem as mulheres saírem às ruas. Do direito ao voto, na primeira onda feminista no século XIX; passando pelo questionamento das estruturas sexistas de poder que buscou afirmar que a mulher não pertencia apenas ao ambiente doméstico, na segunda onda; atravessando os questionamentos feitos dentro do próprio movimento feminista observando recortes de classe e cor, vividos desde o início da terceira onda, por volta 1990 até hoje; chegando às reflexões sobre empoderamento feminino em relação ao próprio corpo e ao seu espaço na sociedade – onde surgem, entre tantas outras, a pauta do aborto, da cultura de estupro, da sororidade, da objetificação dos corpos femininos, do feminicídio; o feminismo vem buscando entender e discutir as relações de gênero de modo a proporcionar às mulheres uma nova maneira de enxergarem a si mesmas.
Sim, o feminismo compreende que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher. E sim, o feminismo também compreende que ninguém nasce homem, mas se torna homem. Por que o feminismo compreende que somos seres que sofrem influência da sociedade a todo o momento. Assim como também compreende que os ideais daquilo que é ser homem podem ser igualmente nocivos aos seres do sexo masculinos que não se identificam com eles. Apesar de estar bastante ligado aos novos debates sobre teorias de gênero, o feminismo discute papéis de gênero quando eles estão intimamente ligados ao comportamento feminino, enfocando as mulheres. Argumentos como “por que as feministas não pedem o alistamento militar obrigatório?” ou “não vemos mulheres falando sobre os padrões de beleza masculinos, igualmente inatingíveis!” não fazem o mínimo sentido, pois estas são lutas que não nos cabem.
Há, como em qualquer movimento e/ou filosofia criado por seres humanos, falhas e lacunas no feminismo. Por isso o movimento feminista ganhou tantas ramificações e há tantas mulheres que não se sentem representadas por ele. É fundamental que se compreenda o que a palavra feminismo quer dizer, que se estude e pesquise além dos blogs e artigos de opinião, além das redes sociais e das citações e trechos batidos. O feminismo precisa ser vivido dentro de cada mulher que se diz feminista como um exercício diário de desconstrução dos ideais e de compreensão da outra e do outro. Assim os braços se estenderão e ele atingirá o seu propósito de libertação feminina das amarras dos papéis de gênero impostos a nós.
“That’s all we really waaaaaant” da Amanda Paschoal
Do Arquivos Feministas, no Facebook.
Sobre o feminismo: ninguém é obrigado a nada!
(ficou um tanto grande, confesso!)
- Natália Santana
Algumas coisas me entristecem bastante. As informações erradas que circulam acerca do feminismo e a facilidade que nós feministas temos para cairmos na intolerância em relação a elas são, atualmente, sinônimos de reflexão para mim. Vi há poucos dias um vídeo intitulado “Não sou obrigada a ser feminista” e tomei conhecimento sobre uma página no Facebook de nome similar a este. Ter contato com esses conteúdos foi, no mínimo, intrigante.
Resumidamente, tanto o vídeo quanto a página se propõem a debater a “falácia feminista sobre igualdade”. Para as pessoas que produziram estes conteúdos o feminismo é um movimento que se baseia em mentiras, que busca a superioridade feminina e que é delirante no que diz respeito aos seus questionamentos – acabo de ler, pro exemplo, um texto que fala sobre como as feministas saúdam a gordura e os pelos em detrimento dos corpos bonitos que aparecem nas propagandas sob a desculpa de que estão interessadas em desfazer a objetificação dos corpos femininos, quando na verdade querem criar um novo padrão onde o gordo é o belo – como eu disse: intrigante, no mínimo.
A primeira coisa que me chamou a atenção no vídeo foi o fato de a apresentadora estar falando sobre a realidade canadense e não sobre a nossa realidade. Ela cita dados do país mostrando como as mulheres que sofrem agressões podem facilmente encontrar casas de apoio e como a lei se aplica severamente aos agressores; fala sobre a equiparação dos salários femininos e masculinos em sua pátria e ao fim questiona as feministas sobre pelo que diabos elas estão lutando, se duas de suas principais pautas já foram atendidas no país. E mais, coerentemente aponta os dados que mostram a quantidade de homens que sofrem violência doméstica e não recebem a assistência devida.
Confesso que fiquei extremamente encantada com os dados apresentados pela moça. É bom saber que em alguns países as mulheres começam a ser ouvidas. Em contrapartida, também me entristece ver que os homens que vivem o terror da violência doméstica não são escutados e sofrem em silêncio. Outra situação sobre a qual ela comenta é a grande quantidade de presos canadenses que sofrem estupros. A senhorita no vídeo pergunta então por que as feministas não levantam a bandeira destes homens e não procuram se movimentar em busca de políticas públicas que os ajudem a resolver estas questões, já que fazem da igualdade sua palavra de ordem. Peço licença para uma comparação (salvando as devidas proporções, é claro!):
Imagine que um belo dia você descobre que seu vizinhou mudou-se para a África, para um país paupérrimo no meio do continente mergulhado em guerras civis, a fim de ajudar as crianças com fome deste lugar. Enquanto muitas pessoas acham a atitude belíssima e se comovem com a iniciativa dele, algumas até enviam ajuda ou procuram as pessoas necessitadas perto de suas casas para fazerem algo de bom, inspirados pelo vizinho, outras conformam-se em apontar o quanto aquela atitude é hipócrita, pois se aquele ser humano realmente se sentisse condoído pela dor que a fome causa teria procurado auxiliar as crianças com fome no seu bairro, que moram sob a marquise do prédio e até relembram algumas vezes em que viram o vizinho jogando comida fora, para corroborar seu ponto de vista.
É desta maneira que enxergo o tipo de argumentação que aparece no vídeo e na página citados acima. Para mim, ela simplesmente não faz sentido. Concordo que violência é violência sempre e não me alegra que a violência doméstica sofrida pelos homens, em qualquer lugar do mundo, não seja levada a sério. Mas há que se compreender que os dados são sintomáticos, que eles contam uma história. Há um motivo para o número de mulheres agredidas ser muito maior que o número de homens – estou falando do Brasil, pois não sei absolutamente nada sobre o Canadá – e há um motivo para os homens que apanham de suas mulheres não serem levados a sério. Esse motivo tem oito letras, começa com ma e termina com chismo. Adivinhou?
Do meu ponto de vista o machismo é um sistema que se instalou nas sociedades em algum ponto da história da humanidade que relega às mulheres uma posição subalterna em relação aos homens. Concordo sem hesitar que atualmente as mulheres estão vivendo o período histórico em que têm mais liberdade – as mulheres ocidentais, diga-se de passagem –, mais autonomia e mais possibilidade de independência e capacidade de ascensão social. Nunca nos foi permitido escrever, trabalhar, estudar e crescer como é hoje, entretanto isso não muda o fato de que ainda existem questões enraizadas na nossa cultura que maltratam as mulheres.
O mapa da violência e o IBGE oferecem dados estarrecedores sobre a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira e sobre a quantidade de garotas casadas aos 14 anos neste país, respectivamente. Obviamente também é muito fácil encontrar os números que falam sobre a quantidade de homens que morrem por homicídio e a quantidade de homens presos no Brasil, que eu concordo, são igualmente preocupantes, embora nos remetam a questões sociais diferentes. As pessoas defendem as causas com as quais se identificam. Certamente, ninguém é obrigado a ser feminista.
A única coisa a qual somos obrigados é a não divulgar informações erradas por ai. Estou perfeitamente ciente, como disse lá no começo do texto, que muitas feministas tendem à intolerância quando alguém fala mal do movimento, questiona nossas ações e aponta os furos encontrados na nossa argumentação. Quem participa de grupos feministas sabe que há grandes divergências mesmo dentro do movimento. Entretanto, o feminismo não é sobre intolerância, é sobre reflexão e atitude. É sobre mudança. É sobre desconstrução.
Não há uma cartilha para ser feminista, não há uma coleção de regras básicas sobre isso – e te garanto que se te disseram isso, estavam errados. Feminismo não tem nada a ver com não se depilar, engordar ou emagrecer, usar saias longas ou curtas, deixar de usar maquiagem ou abandonar a sua religião e aquilo no que você acredita. E com certeza, feminismo não é sobre berrar para aquelas que não são feministas que elas estão erradas e são loucas. O único preceito necessário para ser feminista é estar disposta a repensar o seu lugar e o das outras mulheres no mundo para, partindo das suas reflexões, agir para mudar o mundo e a si mesma – seja com atitudes diárias e “pequenas” de sororidade ou com grandes eventos.
É bem importante respeitar as mulheres que não são feministas por que ninguém é obrigado a comungar dos ideais de ninguém. E é bem importante respeitar as que são, pelo mesmo motivo. De uma maneira ou de outra, sigo acreditando que somos perfeitamente capazes de aprender umas com as outras.
Eu sei que é importante!
Sororidade
A árvore genealógica da sororidade
- Natália Santana
Um amigo me perguntou dia desses por que eu simplesmente não fico com o fulano de tal já que o acho atraente. Lembrei-me que uma amiga nossa já esteve em um relacionamento com o tal fulano e que mesmo depois das coisas (mal) acabadas ela ainda sente algo por ele, por isso respondi: “ – Sororidade.” Ele, que costuma dizer ser pró-feminismo, me garantiu que isso era bobagem por que sororidade não tem nada a ver com isso. Ele não consegue entender o meu ponto de vista que me mostra que não vale a pena correr o risco de me indispor com uma amiga com quem trabalho e a quem estimo muito só pra dar uns amassos em um cara que nem é tão bonito assim. Se (ou por quais motivos) ela daria mais importância à nossa amizade ou ao fato hipotético de eu ter ficado com ele não é algo que deve me incomodar, o primeiro passo para mostrar a outras mulheres o que é o feminismo é ser um exemplo de feminismo.
Sororidade é um termo ainda pouco conhecido e aceito (o word está grifando-o de vermelho todas as vezes que o escrevo) fora dos círculos de debate feminista. Quando falo sobre ele algumas vezes arranco risos indesejados dos meus interlocutores “um termo que significa irmandade entre mulheres?! Haha, você é mesmo engraçada!”. Outras vezes, ouço que já existe uma palavra para a irmandade entre os seres humanos, fraternidade. E se não fosse o fato de que o conceito de fraternidade foi cunhado por homens, pensando em homens, durante uma época em que só eles tinham o direito de pensar politicamente – para quem não sabe este é sim um termo político, ligado à Revolução Francesa – ele seria perfeito. Eu acredito que só conseguiremos ser vistas pela sociedade como iguais aos homens (com todos os direitos e liberdades que eles têm) se pudermos primeiramente compreender que somos todas iguais, que estamos no mesmo barco, que quando a diferença nos inferioriza precisamos dar as mãos por que os homens não estarão lá por nós.
Conversando com minha mãe e minha irmã, acabei criando um exercício fácil que toda menina pode fazer para compreender o que é sororidade e por que ela deve existir. Chamo-o de árvore genealógica. Consiste em procurar a mulher mais velha da sua família da qual você tem notícia e a partir dela seguir a árvore genealógica, acompanhado as histórias de suas filhas e irmãs, até chegar a você. Vou exemplificar:
Minha avó materna casou aos 15 anos por que sua família passava dificuldades e seu pai não queria que ela trabalhasse. Poucos anos depois ela teve sua primeira filha e seu marido não quis assumir a criança, logo eles se separaram. Ela casou-se novamente, com o meu avô, para anos depois ser traída por ele. Minha avó materna, a revelia da vontade de seu pai que não queria vê-la trabalhando, sempre foi uma trabalhadora incansável e aposentou-se há alguns anos, sempre incentivando os filhos a trabalharem e estudarem para não passarem pelo que ela passou. Pelo bem da família, ela e meu avó aprenderam a ser amigos, ela hoje não guarda rancor.
A minha tia materna mais velha sempre foi mal vista por que ela gostava de ir a bares e varar a madrugada na rua conversando com os amigos. Quando ela engravidou pela primeira vez – e o pai da criança foi embora sem nem pensar duas vezes – seus dois irmãos homens chamaram-na de puta e um deles partiu para cima dela, precisando ser segurado pelas mulheres da casa para não bater nela (ele acreditava que precisava ensinar-lhe uma lição). Quando ela engravidou pela segunda vez e o pai da criança também foi embora (raramente aparecendo para saber como o garoto estava) seus irmãos repetiram que ela não tinha jeito mesmo e que não havia mais nada que se pudesse fazer por ela. Minha tia nunca gostou de estudar, é bem verdade, mas a exemplo da minha vó, ela aprendeu a trabalhar para criar as duas crianças cujos pais nunca enviaram um centavo sequer para ajudar com o que quer que fosse.
Suas duas irmãs, das quais uma é minha mãe, muitas vezes pensaram que ela “andava mesmo fazendo coisas erradas”, mas sempre souberam que se ela tinha responsabilidade pelo fato de estar criando dois filhos sozinha, os homens que a abandonaram tinham mais. E que de maneira alguma ela devia ser chamada de puta por conta disso.
Minha tia materna mais nova costumava dizer que seu marido era o anjo da sua vida até descobrir de uma maneira muito impactante que ele possuía uma segunda família. Minha mãe não teve apoio em casa quando disse que ia prestar vestibular para serviço social e meu avô que disse que não teria lhe dado o dinheiro se soubesse que era para pagar por isso (vale dizer que ele pediu desculpas pelo que disse, muito tempo depois). As coisas que minha mãe passou com meu pai valeriam um post inteiro.
Claro que existem muito mais mulheres na minha família e com muito mais histórias: Minha vó paterna tem histórias incríveis de superação sobre o período em que ficou só depois que seu marido retirou do banco todo o dinheiro dela e fugiu com uma mulher mais nova (ela ficou com 8 filhos para criar); Minha tia paterna mais nova poderia escrever um livro sobre como superou dois relacionamentos abusivos – um deles bastante violento – e criou dois filhos enquanto lutava por espaço na área de comunicação, rádio e tv numa época em que só homens trabalhavam neste meio; Aquele tio materno mais novo que tentou bater na irmã quando soube que ela estava grávida precisou engolir o orgulho ao receber a notícia que sua filha do meio também engravidara aos 19; mas acredito que essas histórias bastam para vocês entenderem onde quero chegar.
Foi pensando na história destas mulheres, das mulheres que eu conheço, que vejo quase todos os dias, mulheres que nem entendem o que feminismo significa, que eu entendi por que precisamos de sororidade. Por que, não importa para onde você olhe, a história se repete conosco. O tempo inteiro os homens estão nos julgando, nos ofendendo, atrapalhando o nosso trabalho, nos dizendo o que fazer, nos negando apoio, nos abandonando. Há quem diga que isso não está relacionado a questões de gênero, que não há relação entre esta violência e o modo como os homens veem as mulheres por que são estas histórias individuais, casos isolados, mas se você para e analisa sua árvore genealógica verá que isso não é verdade.
Se houver apenas uma mulher que não está segura, empoderada, protegida e liberta, nenhuma das outras está. É isso que este exercício mostra, que não há como você se libertar sem libertar as outras mulheres. Por isso sororidade deve ser mais que uma palavra, dever ser uma atitude constante no dia a dia de quem se afirma feminista. Procurar compreender, ouvir, não ofender, entender a história das mulheres ao seu redor, não julgá-las de pronto, não competir com uma mulher e sim dividir o espaço com ela. Só desta maneira seremos mais fortes.
Então, estejamos juntas.
DE JEITO NENHUM!
Para não se deixar abater pelo cansaço.
- Natália Santana
É domingo de manhã. Mal acordei e já me enfiaram goela a baixo uma bela dose de desânimo. Existe um blog, que também possui uma página no facebook e um perfil no twitter, que se chama Feminista Cansada: essa frase resume exatamente o que estou sentido agora.
“Mas Natália, por que você é feminista? Você acredita mesmo que isso de homens oprimindo mulheres existe? Você não acha que existem outras causas mais importantes pelas quais lutar, tipo a fome na África? Você acredita mesmo que isso de ser feminista vai mudar alguma coisa?” Há dias, como hoje, em que esta última pergunta parece merecer um não bem grande e redondo. Dias em que parece que eu devia me esconder no quarto e só sair de lá quando o machismo acabar. Perdoem-me então se este texto parecer meio sem sentido ao começo, hoje escrevo pra me lembrar de por que quero fazer parte da revolução.
Apesar do cansaço, não vou me esconder no quarto por que quero ser ouvida. Se aos berros eu sou ignorada, imagina o que aconteceria se eu me escondesse! Não vou me trancar por que o tempo inteiro os homens ao meu redor pensam que têm o direito de supor o que eu diria, de não me perguntar ou considerar o que eu tenho a dizer ou ainda de rotular todas as minhas opiniões contrárias como “exagero emocional” e terminar a sua “crítica construtiva” dizendo “não fica assim, é lógico que eu presto atenção em você. Eu te amo, sua linda!”.
Apesar do cansaço, não vou me trancar no quarto pois para estudar com os melhores professores é necessário que todos os dias eu engula perguntas que nada tem a ver com música. É necessário ouvir cantadas de todos os lados, o tempo inteiro, mesmo que você seja conhecida como a garota que reclama delas. Não posso ficar trancada por que sempre que vou sair preciso pensar se a roupa que escolhi vai acabar provocando comentários indesejados daquele professor e depois preciso me lembrar de que não são as minhas roupas que causam as cantadas já que aquele dinossauro do meu departamento é conhecido por tratar as mulheres dessa maneira, afinal de contas “ele é um amante das mulheres! ”.
Definitivamente não posso mergulhar no escuro do meu quarto por que praticamente todos os dias eu escuto a pergunta: “Você acredita mesmo que isso de homens oprimindo mulheres existe? ” Da boca de homens com sorrisos debochados. Eu, que trabalho com adolescentes, não posso me dar o luxo de esperar o mundo mudar sozinho. Tenho que empoderar outras garotas antes que elas internalizem a ideia de que machismo não existe, tenho que mostrar para os garotos como eles nos oprimem e o que nós podemos fazer juntos para que isso acabe.
Tenho muita vontade de me trancar no quarto quando leio notícias sobre as atrocidades que acontecem mundo a fora, quando fico sabendo dos assassinatos no meu bairro ou quando percebo que não estou fazendo nada realmente palpável para ajudar sequer as pessoas com fome nas esquinas movimentadas do Recife. Os absurdos que nós cometemos, se pensarmos em todos os seres humanos como um só organismo, são tantos e acontecem de maneiras tão variadas que deixam qualquer um louco. Isso, porém não quer dizer que haja uma causa mais importante que a outra. Sim, preocupo-me com a fome na África e com todas as outras questões sociais no mundo inteiro, mas o feminismo é a causa que escolhi pra mim. Se existe alguém incapaz de notar que as questões de gênero são tão importantes quanto qualquer outra questão social, então não posso simplesmente me trancar no meu quarto, preciso fazê-los entender sobre o que é nossa luta.
O cansaço me puxa pela mão com força, mas não posso ceder por que estou cercada de mulheres fortes que ao longo dos anos e depois de tanto sofrimento simplesmente não cederam. Minhas avós, minha mãe, minhas tias, minhas professoras, minhas amigas. Todas nós estamos aqui aguentando todos os dias, há anos, as cobranças para sermos mães competentes que não podem reclamar da ausência dos pais, para sermos as melhores nos nossos trabalhos mesmo recebendo menos do que deveríamos, para nos comportarmos da maneira certa. As cobranças para estarmos sorridentes e lindas apesar do sofrimento doméstico que ocorreu a praticamente todas elas, a praticamente todas nós.
E, finalmente, não posso me trancar no meu quarto e esperar o mundo melhorar por que já passei muito tempo trancada lá dentro. Apesar de ter ouvido falar sobre o feminismo desde os 14 anos, demorei muito pra começar a falar abertamente sobre ele, demorei muito pra botar a minha cara no sol, pra decidir que não aceitaria mais. Voltar para o quarto agora seria parar um processo de desconstrução que está apenas começando. Voltar para o quarto agora seria dar carta branca para todos eles declararem de vez que estamos todas loucas e que essa coisa de machismo nunca existiu: voltar para a escuridão seria admitir que nós perdemos, que o mundo será sempre deles.
É necessário construir um mundo onde o julgamento do valor das meninas não esteja na mão dos homens, por isso não vou me trancar no quarto. Vou me exercitar mais, superar o cansaço e fazer daqui um lugar melhor para que nenhuma outra garota sequer pense em viver trancada num quarto.
Sobre mulheres fortes:
Que nos as conheçamos
Que nos as sejamos
Que nos as criemos
Um dia de vestido (ou o dia do empoderamento)
- Por Natália Santana
Naquele dia fui com a minha mãe numa loja bem pequena e careira que ficava numa avenida movimentada em um bairro do Recife. O objetivo era gastar o meu primeiro “salário” comprando um vestido que eu namorava fielmente havia já três semanas. Como eu costumava dizer em alto e bom som que vestidos eram coisas de mulherzinha (é verdade, houve um tempo que eu acreditava que o termo mulherzinha era ofensivo), minha mãe estranhou o pedido, mas ela não se negou a ir comigo, achou fantástico que eu estivesse gastando o meu dinheiro com algo para mim. O vestido, para minha frustração, fora vendido uma hora mais cedo. Cogitei a possibilidade de ir embora, mas a vendedora habilmente me convenceu a procurar por outro e em menos de trinta minutos saí da loja com um vestido decotado, multicolorido, com comprimento pouco acima do joelho. Definitivamente, um vestido de mulherzinha.
Eu nem sequer imaginava que aquele dia ainda seria lembrado quatro anos depois e que teria a importância que ele tem hoje. Foi naquele dia que surgiu a possibilidade de começar este blog, por exemplo. Aquele vestido está comigo até agora, devidamente colocado no cesto de roupas sujas depois de participar da filmagem de uma cena em um filme de um amigo. Ele foi comigo quando fui pela primeira vez na casa daquele cara incrível, estava comigo no dia em que eu me toquei de que aquele outro cara, na verdade, era bem babaca, estava comigo da primeira vez que cantei no CAC, estava comigo quando decidi que podia ir sozinha à praia e ao cinema e em muitos outros momentos significativos durante a primeira grande fase de amadurecimento da minha vida.
Isso porque o vestido me mostrou que eu adoro ser mulherzinha e que não há absolutamente nenhum problema nisso. Há muitas especulações em minha cabeça sobre a razão disso ter acontecido desta maneira. Talvez o fato de eu ter ido comprar o vestido com a minha mãe, a mulher mais incrível que eu conheço, ou o fato de eu ter ganho o meu primeiro salário fazendo monitoria para uma professora maravilhosa, ou o fato de a vendedora ter me dito que toda mulher tem o direito de se sentir bonita, ou simplesmente todos estes fatores juntos tenham feito daquele dia um dia marcante e do vestido o símbolo desta marca. O fato é que naquele dia, quando cheguei em casa e o vesti novamente, entendi o significado de uma palavra que eu só viria a conhecer anos depois: empoderamento.
Naquele momento ficaram definitivamente para trás conceitos que já estavam lentamente caindo por terra: a idéia de que garotas estão naturalmente competindo entre si; a idéia de que os meninos podiam ser amigos melhores, pois tinham menos frescura; a idéia de que ser uma mulher vaidosa é sinônimo de ser fútil; a ilusão de que eu seria mais respeitada pelos homens se mostrasse que me comportava como eles; aquela falácia absurda de que tudo que mais queremos em nossas vidas é ser bonita para um homem para que possamos ser amadas por um homem. O vestido de mulherzinha me fez querer ser bonita para mim mesma, me fez me encantar com o corpo feminino de frente para o espelho, me fez ter orgulho de ser mulher. Os amigos homens foram mantidos, mas o encanto com o estilo de vida masculino simplesmente acabou. Sim, eu era uma mulherzinha e sim, aquilo queria dizer que eu era um mulherão. Um mulherão que descobriu que é muito melhor ter amigas mulheres, pois são elas que te entendem de verdade, um mulherão que decidiu que não queria ser tratada como um menino pra poder ser ouvida – um mulherão que passou a odiar a expressão “ah, mas você pode por que você é brother”, tão amada anteriormente.
Eu já havia escutado e estudado um pouco sobre feminismo antes deste dia e até concordava com ele. Porém, foi só a partir daí que eu passei a dizer com orgulho que sou feminista. Foi só a partir daí que entendi do que falavam aqueles textos indicados pelo professor de filosofia (o único homem verdadeiramente pró-feminismo que já conheci). Desde aquele dia assumi comigo o compromisso de ler, pesquisar, ouvir, pensar e repensar cada vez mais sobre o que é ser mulher, sobre o que acontece com outras mulheres ao redor do mundo, porque se eu havia recebido informações erradas durante muito tempo – cerca de 17 anos – isso provavelmente teria acontecido com outras mulheres também. Assumi o compromisso de repensar as minhas atitudes diariamente para desconstruir o machismo que insiste em aparecer em alguns comentários que fazemos de maneira tão automática que já nem percebemos.
Quando escuto ou leio em algum lugar a palavra empoderamento lembro-me instantaneamente deste dia. Do dia em que ser mulher passou a ser maravilhoso. Do dia em que decidi que nunca mais deixaria nenhum homem me dizer o que fazer baseado em idéias errôneas concebidas em um mundo cheio de preconceitos de gênero, o dia em que eu decidi ser a mulher da minha vida. Hoje, quando tenho um dia ou uma semana muito boa, cheios de acontecimentos positivos e de bom humor, digo que tive um dia ou uma semana de vestidos. Fiz deste símbolo algo inquestionável e me apego sempre a ele quando o derrotismo bate e penso “ah, esse mundo machista não tem mais jeito”. Tem jeito sim, é só cada mulher descobrir o seu dia de vestido.