❝━━━━━ there’s a calm before the storm ♔ F&C
Freya não era o tipo de pessoa que gostava de ficar presa num lugar só por muito tempo, principalmente quando estava em terras estrangeiras. Claro que o palácio irlandês era como sua segunda casa, todavia, isso não significava tanto assim em seu caso. A jovem andava mais estressada que o normal nos últimos dias, principalmente pela carta que recebera avisando-a sobre o estado de saudade da rainha Elizabeth. A mulher podia não ser a pessoa mais carinhosa do mundo, mas fora quem a criara e lhe ensinara tudo o que sabia. Desde andar até seus princípios, que levava firmemente consigo. Por fora ela era sempre confiante e cheia de vida, mas não conseguia agir mais com tanta confiança. Não quando sua mente queria correr para a Inglaterra mesmo quando sua prima precisava tanto dela bem alai. Fora preparada a vida toda para ser rainha, todavia, no fundo, não sentia se pronta ainda. Se algo terrível acontecesse à sua mãe e Freya tivesse de assumir, havia milhares de inseguranças lhe atormentando. Frey continuava a ser brita, não sabendo direito como se portar como uma dama, como sorri e ser simpática. Não sabendo ser como Anne. Sabia que a mãe detestava aquilo nela, dizendo sempre que ter opinião não significava expô-la o tempo todo e ela entendia, realmente entendia. Porem herdara aquilo do avô e do pai. A necessidade de falar, de se impor. Para a sua infelicidade, contudo, Freya era uma mulher. Mulheres não deveriam falar a não ser que necessário. Não deveriam jamais se impor. Jamais questionar. Jamais reclamar e, principalmente, jamais, sobre nenhuma circunstancia, lutar. Mas o que fazer quando sua personalidade gritava o absurdo contrario? Não conseguia fazer aquilo. Não conseguia ser outra pessoa, queria simplesmente ser ela mesma ao menos por alguns momentos sem que fosse julgada por tal.
Pensamentos demais começavam a deixa-la irritada e confusa, não aguentando continuar agindo como se tudo estivesse um mar de rosas. Precisava de um tempo. Um tempo da nobreza, realeza, das falsidades, das reverencias e de tudo incluso. Ficara à maior parte da manhã dormindo visto que passara toda a noite treinando. Em casa, podia treinar quando quisesse. Os guardas haviam demorado, mas já estavam acostumados consigo. Todavia, estava na Irlanda agora e ainda que amasse lutar, não pretendia nem de longe ofender o povo em questão. Sendo assim, sua opção foi treinar pela noite, sozinha e protegida pela escuridão, onde ninguém a veria. Pela tarde visitou a biblioteca por algumas horas, não que ler fosse um de seus maiores hábitos. Não era. Contudo, era um dos poucos locais ali onde podia ficar sozinha durante passar do dia. Logo mais a noite cairia, pôde notar ao olhar pela janela. Talvez em três, quatro horas no máximo. Freya assim resolveu dar um basta naquilo tudo. Deixou o palácio, andando até o lago, o que causou certo revirar no estomago. Ela e Anne costumavam ir até ali com seu tio Edward. Pensava que não ousaria voltar sem ele, contudo, ali estava ela outra vez. Engoliu em seco encarando o próprio reflexo com desgosto. As orbes claras, porém, também focaram-se no céu no momento que uma gota caiu na água e transformou o que outrora parecia um espelho num bando de ondas. Moveu a cabeça para cima, observando as várias nuvens de chuva e, pela primeira vez naquela tarde, deixando que um sorriso genuíno crescesse no canto de seus lábios. Amava chuva, desde sempre. Tivera muitos resfriados quando menor exatamente por ter desobedecido a mãe e fugido para a varanda dos próprios aposentos para sentir a chuva tocar-lhe a pele. Não sabia como aquilo começara, mas imaginava que fora porque Elizabeth disse que seu pai possuía o hábito em questão. Muito pouco sabia sobre o homem já que a mãe não costumava falar a respeito. As poucas coisas que sabia dele sempre fizera o possível para tentar imitar, como lutar, por exemplo. Qualquer conexão, por menor e mais estúpida que fosse, já era alguma coisa que tinha do pai.
Apesar de fazerem anos, lembrava-se bem do terreno além do lago, apressando o passo para explorar o mesmo. A chuva caía preguiçosa e isso não a parou nem por um momento, muito pelo contrário, só a deixara mais animada para continuar ali. Todavia, apesar da caminhada sem pressa, as gotas que caíam no céu se intensificaram numa profundidade absurda nos minutos seguintes, deixando a inglesa completamente encharcada e tremendo pelo frio. Acabou soltando uma alta risada de si mesma, pensando no rosto de desaprovação de Elizabeth se estivesse vendo aquele momento. Pensou em voltar para o castelo, mas certamente cairia em algum momento, já não conseguindo mais ver muita coisa à distancia por conta da chuva. Sendo assim, correu na direção de uma igreja muito antiga que havia ali. Entrara no local no máximo três vezes, mal lembrando-se de sua decoração. Pôde recordar, porém, de uma entrada nos fundos, correndo até a mesma e adentrando o lugar. Tirou o excesso de água dos longos cabelos negros, procurando qualquer pano ou manta por ali para se cobrir. Para sua sorte, num dos armários encontrou algo para se aconchegar um pouco. Passou por entre os bancos, observando a bela e majestosa decoração, que parecia muito mais sombria e mórbida naquele dia tão cinzento e chuvoso. Todavia, era lindo ao seu olhar. Sempre houvera certa beleza dentre o caos na opinião de Freya. A morena sentou-se, torcendo para que a chuva logo parasse para que não ficasse ali presa e entediada. O destino tinha um humor negro algumas vezes, transformando simples desejos em oportunidades de piadas ridículas. Ouviu um alto barulho vindo das enormes portas duplas da entrada, virando-se imediatamente um pouco assustada. Ergueu-se do banco, recuando alguns passos e puxando uma vela com uma longa parte de metal. Lançou a vela para o lado, erguendo o metal na direção de quem quer que houvesse entrado ali. ❝━━━━━ Escute bem, se pretende me atacar de alguma forma eu juro que...❞ A voz falhou quando a pessoa tornou-se mais que uma silhueta distante, reconhecendo de imediato quem era e sequer conseguindo esconder seu descontentamento. ❝━━━━━ Cassian?❞ A cordialidade desapareceu junto ao susto de vê-lo ali, no estado de calamidade tão lastimável quanto seu próprio. Jogou o objeto em mãos ao chão, tornando a encolher-se na manta jogada nos ombros e sentar onde estava outrora. Não escondia de quase ninguém seus pensamentos sobre ele. Cassian era uma ameaça para Anne, para seu trono e para tudo que a prima treinara para ser. Seu mero respirar já a incomodava por completo. Anne era como uma irmã e qualquer ameaça sobre ela já era o suficiente para deixar Freya em modo de ataque. Não o conhecia, as palavras que trocaram não foram o suficiente para tal ou meramente boas de nenhumas as partes. Ela o detestava e ele parecia não sentir nada muito diferente, certamente já tendo ouvido as poucas e boas que Freya murmurava sobre o mesmo por aí. ❝━━━━━ O que faz aqui, hum?❞ Questionou, sequer cogitando estar sendo seguida. Ele certamente tinha muito mais o que fazer. ❝━━━━━ Se escondendo das suas selecionadas?❞
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