eu tenho essa impressão de que preciso me afirmar e dizer quem eu sou a todo momento. para ninguém se confundir, para que me lembrem, para que não errem algo simples como meu nome. passo noites acordado ensaiando como me apresentar e como corrigir quem se enganar, de vez em quando me pego repetindo "o meu nome é melodia". como se fosse algum tipo de mantra, como se minha identidade fosse ser apagada a partir do momento em que eu não focasse nela completamente. chego a pensar que estou buscando algum tipo de validação - talvez esteja. mas a questão maior não são as outras pessoas, sou eu. mais vezes do que eu gostaria. porque me afirmo para checar se ainda estou aqui, penso e revivo várias vezes o meu processo de autoconhecimento e autodescoberta como se eu precisasse de mais certezas. sobre quem sou, meu nome e pronomes.
contei para jade que as vezes me vejo como uma farsa e evito me olhar no espelho porque surge em mim o instinto de socá-lo para tentar deletar a imagem que reflete do mundo; que minhas disforias tem mais a ver com o que vejo do que com o que não vejo; que talvez eu possa estar me apropriando de um rótulo que não me pertence apenas para saciar minha ânsia em ser de algo ou alguém, apenas para enganar minha fome de mim. até isso me roubam. pois a única certeza que me sobra é que não sou nada. nada do que querem, esperam, almejam, sonharam. sou errado. esquerdo.
não me vejo rosa. não me vejo azul. me vejo cinza em um mar colorido. uma mancha no carpete perfeito. um erro de formatação. um sinal de interrogação. confessei que de vez em quando choro desejando não ser algo físico. rio entre lágrimas ao lembrar de como minha mente repetia durante o dia "você é adulto, melodia." e em como ao escurecer ajo semelhante a uma criança assustada e perdida - talvez eu seja uma brincando de crescer. mas parece injusto, não? entender tanto da minha essência enquanto minha estrutura parece um rascunho do que eu deveria ser. li um livro uma vez em que o amor da vida de um homem morreu e sua alma foi direcionada ao local onde se conheceram. ela se tornou uma presença. não um fantasma. ela podia tocar nas coisas e pensar e ser. apenas deixou de ter forma. senti inveja. sou uma pessoa ruim por isso, jade?
sou o pecador que tantos condenam por tentar entender com tanto fervor a imagem e semelhança? eu sou ruim quando o desejo por arrancar certas partes minhas sobem como fogo em minha pele e minhas células gritam não não não não não não. apenas não.
acho que por isso gosto da adrenalina de chegar perto o bastante da borda para cair. como se eu comesse a morte pelas beiradas. conheci uma garota uma vez e ela me disse que talvez me lançar sempre na frente de uma arma fosse uma maneira mórbida de tentar me salvar. porque se há sangue, há vida, certo? e as vezes esse fato me foge. sinto que corre em minhas veias toda a tristeza que me cerca, e minha agonia é como um parasita me consumindo de dentro pra fora. enquanto na minha garganta os moldes que me forçam a caber impedem a entrada de ar nos meus pulmões. em uma das sessões mencionei isso para jade. que de vez em quando a escuridão é tão intensa que me esqueço que sou humano. os sentimentos ruins arrancam minha humanidade mastigam meu nome e minha certidão de nascimento e a possibilidade, pequena porcentagem, a microscópica chance de eu ter minha identidade. me afirmo para mim, não é, jade? eu sei. saber ainda dói. mas é que me lembro de mim porque os outros têm essa mania de me esquecerem. me visto de mim porque tentam rasgar minhas roupas e me usar como boneca.
talvez por isso as minhas constantes tentativas de acabar comigo talvez por isso eu ria quando quero chorar talvez por isso eu faça um corte e veja o vermelho escapar preciso me lembrar que não sou uma coisa preciso de algo que me lembre que tudo isso são partes. frações a morte me lembra que sou composta por carne e osso. como aquela música de onerepublic que diz tudo o que me mata me faz sentir vivo. devolve meu direito em ter um nome. me tira o receio de ser cinza. me permite enfrentar as mãos que querem me manchar com suas cores. caso contrário me vejo sempre um quase. era pra ser. foi por pouco. pobre, melodia. arranha. causa microfonia.
esses pedaços podem ser bonitos, não podem, jade? e talvez eu possa inventar uma cor que me caiba uma roupa que me mostre enquanto esconde o eu que tento calar todos os dias. talvez se eu começar a dançar sobre esses cacos, eu consiga ouvir meu nome, e qualquer dor por estar sendo mutilada não se comparará com a que sinto sempre que assino um documento que não é meu.
eu posso ser inteiro apesar dos espaços vazios? eu posso me reconstruir com rachaduras e tudo?
porque eu visto uma fantasia todos os dias. e eu posso falar sobre o quanto pesa e o quanto é cruel e sobre como há dias em que quero me jogar na frente dos carros
ou da minha janela
ou só sair correndo
há dias em que sinto tanta raiva que nem me reconheço
ou é tanta tristeza que nem eu quero ficar perto de mim
eu olho para pan as vezes e por dentro estou me despedindo
e chego perto tantas vezes, jade. eu posso falar mas do que adianta me despir pra vestir de novo? eu quero ser eu sem restrições. se um dia eu colocar tudo o que guardo pra fora, quero jogar no lixo sem ter que recolher depois. porque é isso o que faço, jade. eu falo e depois recolho eu vomito e depois tudo me é enfiado goela abaixo de novo.
estou pedindo muito? quantos de mim terei que perder até poder me ter?
você não tem que pedir, melodia. apenas se pegue de volta. toda vez que tentarem te tirar de si, lute pelo eu que tanto quer ver no espelho ocupando o lugar de todo esse borrão que enxerga. porque você já se tem, só não pode se deixar escapar. e não deveria querer teu nome na boca dos que não sabem cantar. nem mesmo apreciar uma boa música.
acha que serei inteiro um dia, jade?
acha que um dia se verá como algo que já é completo, melodia? sem padrões ou formas.
levantei a cabeça, sorri. eu já sou, não sou?
sim, melodia. sim, você é.























