TINTA QUENTE
Você já sentiu alguém escrever dentro de você?
Não no papel...
Em você.
Nas ideias.
Nos silêncios.
Nas partes que ninguém alcança.
Porque eu confesso...
Cansei das palavras comportadas.
Das frases alinhadas.
Das emoções engomadas.
Dos versos que pedem licença para existir.
CANSEI.
Eu quero a poesia que tropeça.
Que respira torto.
Que invade.
Que desmonta.
Que chega sem pedir autorização.
E foi assim que você apareceu.
Verso por verso.
Rima por rima.
Invadindo meus pensamentos.
Misturando a sua voz na minha.
Misturando o seu caos no meu.
Misturando a sua história na minha história.
E quando percebi...
Já não sabia mais quem escrevia quem.
Já não sabia onde terminava a minha verdade
e começava a tua.
TUDO SE MISTUROU.
As ideias.
Os medos.
Os sonhos.
As cicatrizes.
As entrelinhas.
Porque existem encontros que não acontecem no corpo.
Acontecem na alma.
Naquela parte escondida
que a gente protege do mundo inteiro.
E você chegou exatamente ali.
ALI.
Onde ninguém chegava.
Onde ninguém ficava.
Onde ninguém entendia.
E eu deixei.
Talvez porque reconheci algo familiar.
Talvez porque pela primeira vez
não precisei traduzir quem eu era.
Você simplesmente leu.
Leu meus silêncios.
Leu minhas falhas.
Leu minhas contradições.
Como quem encontra poesia
num caderno abandonado.
E então veio a revelação...
A mais bonita de todas.
Não era sobre criar versos.
Era sobre criar conexão.
Porque algumas pessoas escrevem poemas.
Outras...
Se tornam o poema.
VOLTOU COM FORÇA.
E hoje entendo.
A arte mais intensa não nasce da perfeição.
Nasce do encontro.
Do choque.
Da coragem de compartilhar aquilo
que existe de mais verdadeiro.
Por isso não quero apenas escrever palavras.
Quero escrever memórias.
Quero escrever presença.
Quero escrever algo tão real
que sobreviva ao tempo.
Porque quando duas almas dividem a mesma tinta,
até o silêncio ganha voz.
Poesia de Gilson Rodrigues
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