O mundo visto de cima
Nasceu vendo o mundo em muitas cores. Pouco incomodava o beliscão das agulhas, os primeiros exames, a mão insistente que limpava. Era de seu interesse enxergar as cores, os tons, as formas.
Foi crescendo como alguém que repara nos pequenos detalhes. A flor que nascia na rachadura da calçada era um buquê de oportunidades. Nas brincadeiras, era mais que a mãe ou a filha: gostava de imaginar cenas longas, muitos personagens, tramas confusas e às vezes sem sentido.
Tornou-se uma adolescente sentimental, que se recusava a aceitar o dress code da escola classe média alta. Forçava o listrado, o xadrez, o poá ou qualquer outra coisa que pusesse cor nos corredores. Isso tudo porque enxergava em tons diversos demais.
Mas não eram apenas os tons que variavam. Ela descobriu que era incapaz de encontrar o fio de uma história e não perseguí-lo até que chegasse ao novelo. Na verdade, aos poucos percebia que pra cada fio que encontrava, outros dez novelos se embolavam no meio do caminho. E foi assim que construiu seu jeito de entender o mundo: um novelo emaranhando, que quase nunca nos permite perceber onde é começo e onde é fim.
Cores, linhas, cheiros… Esses últimos eram um elo memorial, que a faziam se lembrar de dias passados, onde o chão era mais macio de pisar, a vida mais leve, os pensamentos menos atordoados. O hábito de ver tudo de um jeito tão complexo a tornou uma pessoa nostálgica. Talvez porque no passado as coisas faziam mais sentido — ainda que o sentido sempre viesse depois que tudo passava.
Quanto mais crescia, mais difícil era fazer sentido das coisas. Pois, além das cores, linhas e cheiros, ela parecia ver a vida de cima. Enxergava as grandes avenidas da cidade se cruzando, os prédios, os quarteirões. Via a multidão na feira de domingo atravessar a rua listrada de branco. Mas o pior era que, assim que via a multidão como um corpo que se desloca de uma calçada até a outra, descia seu vôo, encostava os pés no chão e reparava na dupla de moradores de rua, que — apesar de sujos, mal vestidos e provavelmente famintos — riam-se naquele domingo de manhã.
Era difícil ver a vida em tantas nuances. Pesava de vez em quando. Era impossível não ouvir o pio de todas as rolinhas, a terra girando em seu próprio eixo, a mãe contando uma piada no fundo, o relógio do ponteiro que fazia um barulho esquisito. Cansava estar atenta a isso tudo. E cansava ainda mais quando, perto de um ser humano agraciado por sentidos normalizados, se achava um elemento fora do lugar.
Nas rodas de conversa, abaixava os voos. Tentava esquecer as cores, relevar os cheiros. Os fios soltos ficavam para trás, ainda que sua mão tremesse para puxar um por um. Aos poucos foi se acostumando a se encolher nos espaços que lhe eram cedidos. Encontrou alguém que lhe dava as dicas certas: esqueça isso, guarde aquilo, corte esse galho, recolha este braço estendido, abaixe o rosto, faça o que eu digo. E assim, aos poucos, foi se apequenando.
Mas alma que nasceu pra ver o mundo de cima não se aguenta apertada. As cores não dão trégua, os cheiros não desaparecem. As linhas estão aí, para serem puxadas até o novelo. E foi assim que, de um dia pro outro, resolveu esquecer os conselhos. Abriu a janela, pisou no parapeito, pulou pro espaço vazio e voou pro céu azul, pintado de laranja, rosa e amarelo, bem na sua hora favorita do dia, quando o café da tarde recém passado cheirava na cozinha.









