Às vezes eu penso que virei adulto antes de entender o que era ser criança.
Tem partes da minha infância que eu nem consigo acessar direito. Não porque esqueci — mas porque doem. Eu me sentia sozinho, indesejado… e isso vinha de dentro da própria família.
Com 10 anos eu já tava aprendendo a me virar. Almoço simples, janta repetida, caminhada no sol pra ir pra escola, sem dinheiro pra merenda… tinha dia que era só silêncio no estômago mesmo. Às vezes, o que salvava era resto de salgado dos outros. E seguia.
Nunca fui de ter muitos amigos. Mas, de algum jeito, todo mundo sabia quem eu era. Engraçado isso.
Aos 15, perdi minha mãe. Meu pai seguiu a vida dele. E eu fiquei. Sozinho, mas andando.
A vida foi acontecendo sem pedir licença. Eu não tava pronto pra vida adulta — mas ela veio mesmo assim.
Me formei, caí direto numa pandemia, assumi responsabilidades que ninguém ensina em livro. Primeira semana de trabalho e já era eu por mim, tomando decisão grande, com gente dependendo de mim pra viver.
E você aprende. Na marra. Sempre na marra.
Hoje, anos depois, ainda tem muita coisa que eu não sei resolver. Ainda me sinto imaturo em vários momentos. Nunca parei de trabalhar de verdade, carrego dívida, cansaço… e, às vezes, a sensação de estar sempre correndo atrás de alguma coisa que nem sei o que é.
Mas, ao mesmo tempo…
Eu já vi gente voltar a andar quando ninguém acreditava.
Já vi gente voltar a respirar sozinha.
Já vi vida voltar pro corpo de quem já tava desistindo.
E isso pesa. Mas também sustenta.
A verdade é que tem uma parte de mim que ainda tá tentando viver o que não viveu lá atrás. Tentando entender quem é, o que quer, como se encaixa.
E talvez seja assim mesmo.
Talvez ninguém esteja realmente pronto.
Talvez a gente só vá aprendendo enquanto vive, errando, ajustando, sobrevivendo… e, de vez em quando, fazendo algo que realmente importa.
Eu ainda me sinto perdido às vezes.
Mas eu sigo.
E, por enquanto, isso precisa ser suficiente.
















