Mia era a personificação da complicação. Esse sempre foi o melhor jeito de defini-la. Se eu soubesse que aquela íris castanha-esverdeada fosse me deixar tão louco eu nunca teria proposto sexo casual com ela. Confia em mim. Eu costumo fugir dessas encrencas, mesmo sabendo que elas sempre vão dar um jeito de me encontrar. A ideia toda partiu de pressuposto que se apaixonar pela minha melhor amiga estaria fora de cogitação. O sexo era bom, confesso. Não, era estupendo, isso. – não sei o que significa, mas ela disse a palavra alguma vez pra qualificar sei lá-o-que que era bom demais. - O tesão me afrontava só de ouvir a voz dela no meio da cozinha perguntando o que eu queria para o jantar. Mas, aquele tipo de amor que deixa as coisas meio fora do ar, era impossível. Vamos considerar que eu tenha um tipo de “instinto”, que um segundo antes de tudo fugir do meu controle, aciona um alarme me fazendo pular fora do barco e entrar em outro navio. Tá me entendendo? Nunca fui muito bom com metáforas. Só nunca me apaixonei por ninguém. A única vez em que as coisas quase chegaram a tal ponto – insano – a garota partiu para um lugar da Europa uma semana depois de sair da minha boca aquelas três palavrinhas, com sete letras e três monossilábicos arrogantemente infantis. Depois disso, eu nunca tive coragem pra deixar acontecer de novo. Mas ninguém esperava por Mia. A garota é um tipo de furacão ambulante embalado em punhos pequenos, pernas grossas e cintura bem marcada. Que assiste seriado policial querendo descobrir o crime e o culpado antes mesmo dos créditos iniciais terminarem de passar. E é neurótica também. Fala rápido demais, faz tudo ao extremo demais e sempre acha que esta no lugar errado, fazendo esse tipo de “drama a qualquer custo” sem nunca acreditar quando digo que ela é gostosa. Extremamente gostosa quando morde os lábios carnudos e passa as mãos no meu peitoral querendo sexo. Ela sabe o que quero na cama, ela sabe o que eu quero fora dela. Eu tô sem saco pra ir pra balada, mas tenho pra ela. Mia me entende. Isso nunca foi qualidade de ninguém. Foi ai que me envolvi com Julia.
Eu não perderia minha melhor amiga só por causa dessa coisinha estupida que eu sentia quando olhava pra ela, ou quando via outro cara passando olho em suas pernas. Não. Eu só não previ o que aconteceria dali pra frente. Quando Mia chamava a minha nova namorada de tarântula – o apelido surgiu depois de um documentário da Discovery Channel – queria dizer que ela estava sentindo também. E, enquanto eu tentava fugir em silêncio, Mia fez isso tudo aos prantos e abertamente. Ignorou minhas ligações, me mandou à puta que pariu, justificando que não queria mais nada comigo porque tinha que focar na sua promoção. Ela tinha que focar em qualquer coisa menos em mim. Não que eu fosse desistir tão fácil. Passei três meses ligando, indo ao seu apartamento e aparecendo na porta da sua empresa. Só até perceber que ela estava feliz.
Você fica atônito quando descobre que quem tu ama pode viver se você. É meio psicótico na verdade. A gente realmente acredita que a pessoa é sua até ver com ela com outra, como se a tivesse comprado ou algo assim. Tu fica puto com a garota, com o cara e consigo mesmo. Acho que principalmente consigo. A sua propriedade - que supostamente tá com seu nome tatuado na testa – foi invadida porque você foi burro o suficiente pra desocupar a casa, ou não foi o homem que deveria ter sido para assumir que aquele lugar era teu. E convenhamos, tem coisa mais autodestrutiva do que se culpar pela perda de alguém? Pior que tem. Descobrir que aquela garota é a sua garota. Tá me entendendo? Por mais que eu tivesse tentado tirar toda essa estupidez da minha cabeça, não funcionou. Eu a amava. A tal ponto de pensar em fazer aquele tipo de loucura que ela adorava ver em filmes de comedias românticas. Mas só pensar, por meses. Coragem mesmo, só me apareceu quando a vi no aniversario do estagiário da minha empresa, usando um vestido azul que realçavam os seus seios com a nuca exposta. Já falei que nunca consegui resistir a nuca da Mia? Muito menos ao olhar arregalado, surpreso e amedrontado que ela me deu a se dar conta que eu também estava ali. Por um segundo, tudo pareceu dar certo. Até a Julia resolver cumprimentar o seu ex namorado. No caso, eu. Mia desapareceu como uma boa menina mimada que tem medo de enfrentar as coisas de frente. E eu, no ápice do Daniel apaixonado, apareci na porta do seu apartamento as quatro da madrugada dizendo que queria ela na minha cama, todos os dias. Impulso mal pensado? Pode até ser. Mas eu não sei mais o que se pode ser proposto à garota que, ao olhar para as suas unhas, corresponde ao mesmo que imagina-las arranhando as suas costas.
Mas ela não quis. É claro que não. Por que Mia era programada para se complicar e não aceitar nada que pudesse lhe fazer feliz com desculpa de ser “psicologicamente quebrada” ou “um dano, para qualquer que chegasse perto”. Eu não sei quanto tempo mais uma garota pode continuar sendo desse jeito, mas eu deixei que ela fosse, porque era Mia.
Afinal, quantas pessoas a gente encontra na vida pra dizer “Olha, eu desistiria de qualquer pessoa no mundo, desde que ela não fosse você. Simplesmente porque eu não consigo, porque não quero, porque eu já não sou mais capaz.”? Em um cara como eu, apenas uma garota. Eu não deixei que as crises estupidas dela de “você não vai me aguentar por muito tempo” me abalassem, eu não fui embora nem por um segundo.
Mas uma hora cansa, cara. Cansa de discutir o mesmo assunto todos os dias, como se convencer alguém do que ela mesma sente fosse trabalho seu. E não é. Quando eu cheguei em casa naquela noite sem nem dar um beijo de boa noite nela, eu estava acabado. Queria mandar tudo á merda e conseguir pensar em fazer sexo com outra garota, como eu não pensava a mais de um ano. Mas eu não conseguia, é claro. Porque tudo o que tinha na minha cabeça era Mia e suas pernas grossas sobre aquele sofá, que eu queria mas não podia mais tocar por pura exaustão de continuar em uma relação que não vai a lugar algum. Eu não queria mais as coisas desse jeito. Pelo menos foi o que eu achei até a única pessoa que tem a chave da minha casa adentrar pela porta com os cabelos castanhos encharcados de água e dizer:
— Eu aceito. Eu aceito morar contigo. Mas não abro mão do meu apartamento, Daniel, porque se eu pensar por mais um segundo, acabo correndo daqui e perdendo você. E eu não quero perder você. Nem vou. Mas ficar sem meu apartamento significa ficar sem a gente, e nada do que é nosso pode ser deixado para trás. Inclusive a mesa da cozinha do meu apartamento. Não, não chega perto. Eu tô falando, Daniel, que droga não faz assim, Daniel, para, eu…
— Tá, eu já entendi. Seu apartamento fica. Mais alguma coisa Mia? Porque, pelo amor de Deus, eu tô louco pra terminar de arrancar sua roupa no balcão da nossa cozinha.