Em mim nada é superficial, se tocar não é só na pele, a alma sente.

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@sufixal
Em mim nada é superficial, se tocar não é só na pele, a alma sente.
Tinha uma tendência a romantizar certas dores, mas não de forma vazia
era quase como se tentasse entender a própria vida através da beleza das coisas quebradas.
Um passo. Um olhar. Amor. Como aconteceu?
Você chegou num daqueles dias de sol amplo, desses que iluminam tudo sem esforço. Mas, por dentro, o tempo estava nublado. O frio não vinha do vento. Era meu. Eu caminhava assim há tempos, sem esperar nada, tão ferida que as dores já tinham virado silêncio. Meu coração batia no mesmo compasso cansado, quase sem cor.
Então ouvi a sua voz. E algo em mim se deslocou, como se você alcançasse meu peito e tocasse o que já parecia inatingível. Questionei como aquilo podia existir, como poesia poderia atravessar a carne dessa forma, como realidade e encanto podiam se misturar tão naturalmente.
Sem perceber, deixei você pisar nesse território que eu nunca tinha deixado ninguém alcançar.
Foi nesse passo quase imperceptível que comecei a querer ser lar.
sob a pele,
ml
Eu só queria ser eu mesma e ainda assim ser amada sem precisar merecer nada além do que já sou.
— Ecos do infinito
“Eu tenho caminhos em mim que ninguém nunca percorreu.”
— Coturnos.
Tenho a capacidade de enxergar os mínimos detalhes; é o meu dom, e também a minha maldição.
sob a pele,
ml
A vida na hora. Cena sem ensaio. Corpo sem medida. Cabeça sem reflexão. Não sei o papel que desempenho. Só sei que é meu, impermutável. De que se trata a peça devo adivinhar já em cena. Despreparada para a honra de viver, mal posso manter o ritmo que a peça impõe. Improviso embora me repugne a improvisação. Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas. Meu jeito de ser cheira a província. Meus instintos são amadorismo. O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante. As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis. Não dá para retirar as palavras e os reflexos, inacabada a contagem das estrelas, o caráter como o casaco às pressas abotoado-eis os efeitos deploráveis desta urgência. Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez! Mas já se avisinha a sexta com um roteiro que não conheço. Isto é justo-pergunto (com a voz rouca porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores). É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida feita em acomodações provisórias. Não. De pé em meio à cena vejo como é sólida. Me impressiona a precisão de cada acessório. O palco giratório já opera há muito tempo. Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas. Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia. E o que quer que eu faça, vai se transformar para sempre naquilo que fiz.
Wislawa Szymborska, A vida na hora
“O tempo parecia pouco, e a gente se parecia muito.”
— Paulo Leminski.
Dói decidir ir
mas sustentar essa decisão
é como uma lâmina afiada
cravada em um coração sensível
Queria saber de você
se foi bem na prova
se consertou o carro
se ainda pensa em mim
enquanto toma o café
Mas não posso saber
preciso seguir
Mesmo com o desejo insistente
de olhar pra trás
sei
com a alma rasgada
que nada meu ficou lá
sob a pele, ml
É preciso muito amor
Pra curar a dor
Desse imenso vazio
Mal preenchido
Que maltrata o peito
E fecha o riso.
Para me despir
não basta o tesão
é preciso alma aberta
e fôlego para aguentar
o que há por trás da pele
não estou bem
não está certo
a sensação de que a qualquer momento o mundo vai desabar
mesmo sabendo que consigo segurar
é pesado
dizem que estou indo bem
mas não consigo me sentir assim
sufoca
aperta o peito
como se eu corresse rumo à liberdade
mas a qualquer instante pudesse ser atropelada pela realidade
é desgastante
quero me esconder no meu mundo
mas aqui é tão solitário
meus sentimentos não são adequados
e mesmo me esforçando tanto pra acertar
sinto que faço tudo errado
carrego o caos sob a pele
e ele grita em silêncio, como se só eu pudesse ouvir
quando será que vou me aceitar?
ml, sob a pele
Nossa despedida dói.
Dói porque eu quis que fosse você.
Ainda amo o sorriso largo,
o corpo que me cabia,
a firmeza doce de quem me queria.
Mas amo também em silêncio,
o quanto me feriu tua ausência mesmo presente.
Teus problemas viraram fuga,
teus sentimentos, muralha.
E eu, do lado de fora, pedindo abrigo
com o coração na mão.
Não posso me deitar onde não há espaço.
Não posso me doar onde não há retorno.
Amo, mas não me basto só de amor.
Preciso ir.
E não sei o que dói mais:
a saudade rasgando o peito
ou a decepção, afiada, latejando fundo.
Sinto tua falta,
mas já não posso sentir você.
Por mim, não posso sentir tanto.
E aprendi:
não se apaga um passado,
mas se aprende a deixá-lo quieto,
lá atrás,
enquanto eu sigo
mesmo aos cacos,
inteira de mim.
sob a pele,
ml
O olhar também toca.
Rasga o ar com delicadeza feroz,
desnuda segredos
sem jamais encostar um dedo.
É afago invisível,
mordida muda no meio da frase,
abraço que chega antes do corpo,
partida que fica mesmo depois.
Tem olhar que beija.
Tem olhar que rompe.
E tem aquele que te atravessa
e nunca mais sai.
Nanda Marques.