Querida saudade:
Eu poderia escrever sobre todas as coisas que doem em mim, poderia enumerá-las, catalogá-las, arrumar tudo numa pilha. Mas nada disso mudaria o que aconteceu, certo?
Os meus olhos, coitados, vivem marejados. Mal posso ouvir o seu nome que já os afogo novamente... é que - penso eu - te amei mesmo antes de abri-los pela primeira vez.
Eu tinha toda aquela raiva gritando dentro de mim, e você me cuidou, teve paciência, nunca me julgou. Pelo contrário, sempre me confortou dizendo que eu estava doente.
Nunca me esquecerei de quando você me acordava cedinho com um prato de banana amassada e leite... todos os dias. Eu amava o gosto e amava comer na cama. Segundo você, eu não poderia tomar os remédios de estômago vazio. Hoje, acordo sempre tarde e nunca me lembro de comer alguma coisa antes de engolir algum comprimido. Isso machuca o lado de dentro da minha pele, não literalmente, é claro.
Será que aproveitei completamente a sua companhia? A sua falta faz muito barulho, me fere. Sinto que estou vivendo na sala de espera de algum consultório, ansiando pra chegar a minha vez de te encontrar.
Eu subo as escadas, olho pro céu, pergunto se alguém está me ouvindo e me desmancho em lamentos.
Com o tempo, quando o barulho cessar, vão pensar que esqueci e que o meu corpo voltou ao funcionamento normal. Mas a verdade é que a sua falta vai me ferir durante toda a minha vida, só que em silêncio.
Estou te escrevendo em baixo de lágrimas. Por que você tinha que ir tão cedo, mamãe? Acredito que todos os seus dias na terra foram cumpridos e que seu corpo estava muito fraco e cansado, mas a parte mais egoísta de mim queria que você continuasse aqui... comigo.
Eu te amo, mas acho que já disse isso.
Do seu grilin,
Victoria.













