Drink up me hearties, yo ho {Mikeesha
resilience-z:
Não era possível afirmar que eram amigos. Na verdade, não era possível afirmar sequer que gostavam um do outro. Toleravam-se, certamente, mas talvez fosse puramente pelo bem das relações que mantinham com pessoas em comum. Contudo, a estranheza com que lidavam um com outro em ambientes civilizados não impedia que se juntassem, vez ou outra, para beberem como condenados e festejarem como porcos na sujeira.
E brigarem. A combinação de Michael, Ike e álcool sempre acabava em briga.
Surpreendentemente, os socos não eram trocados entre si. Era mais uma questão de Michael divertindo-se com os modos do capitão após algumas dezenas de garrafas. Para alguém com uma figura tão esbelta, Ike certamente era capaz de segurar seu licor.
O que ele parecia ser incapaz de conter era a diarreia verbal que o doce veneno fazia jorrar.
Encontravam-se, habitualmente, numa taberna à beira do porto, ponto de encontro comum para piratas, prostitutas baratas e aqueles que procuravam os favores de ambas as classes. Michael bebericava de um copo de uísque enquanto aguardava a chegada do infame capitão, observando as interações que seguiam no ambiente sem tomar parte.
Michael adorava a liberdade com que os piratas levavam a vida, o motto de pilhar, saquear e assaltar parecia imensamente simples quando comparado com todo o trabalho que teve para chegar onde estava. E mais recompensador também. Estaria mentindo se afirmasse que nunca considerara aquela vida para si quando mais novo, contudo, nunca fora um homem de vida fácil. E agora, homem feito, lhe parecia insano jogar tudo o que conseguira para o alto para embarcar num navio.
Quando se deu conta, já havia consumido o conteúdo de seu copo, assim como o da garrafa sobre a mesa. Acenou com o casco vazio para o dono da taberna, sinalizando com os dedos que desejava mais duas garrafas. O capitão dos piratas chegaria a qualquer momento, e se não encontrasse uma bebida prontamente a sua espera, sentiria-se no direito de se servir da primeira que encontrasse na mesa.
– ( ;; ☠ Michael era uma companhia deveras questionável. Ike conhecia diversas pessoas, dos mais variados tipos, rostos e personalidades, mas por melhor que fosse sua memória, não eram todos as faces e nomes que poderia lembrar por completo. Sendo assim, era de se esperar que um guarda real, com o qual só conversava periodicamente em assuntos laborais, não fosse um dos poucos em que os detalhes fossem gravados pelos neurônios megalomaníacos do pirata, e muito menos que ele fosse um de seus acompanhantes mais frequentes de bar -- mas ele era. Não se lembrava quando exatamente começaram a se encontrar para beber e arranjar brigas (não entre eles; com outras pessoas era sempre mais divertido) porque provavelmente estava completamente bêbado na ocasião, mas não importava mais. Sendo assim, Michael era uma das poucas pessoas que podia conversar sem ter literalmente filtro algum (provavelmente era por isso que as brigas eram tão frequentes). Eram encontros dos quais sentia falta.
Dito isso, estava animado ao receber o convite do “amigo”. Trajava suas vestes de couro preta justas e discretas se não torneassem tanto o corpo já torneado, além da espada fiel na cintura fina. No rosto, carregava o sorriso cínico de sempre, o brilho malicioso nos olhos de alguém que sabia que aquela noite não lhe traria nada de bom. Mas, ah, ele merecia um descanso -- o dia fora carregado de assinaturas chatas e encontros mais chatos ainda; sinceramente, estava mais sóbrio que o normal para aguentar toda aquela baboseira de burocracia; ele era um pirata, droga! --, então permitia os pensamentos voarem para a taberna suja e escondida onde iria descarregar toda a sua frustração do dia.
Adentrou o bar com os ombros para trás, o peito para frente e o nariz em pé; arrogante, como sempre. Com os olhos, procurou o guarda solitário, e não tardou a achá-lo. Seu sorriso dobrou de tamanho, e apertou o passo até a mesa, jogando-se na cadeira vazia à frente do oficial com uma sonora gargalhada.
« Mike, Mike, Mike! » disse, apoiando os dois cotovelos na mesa e inclinando-se para a frente. Olhou a garrafa vazia que separava os dois, e franziu o cenho, em decepção. « Eu gostava muito desse! » comentou, como uma mimada criança triste; dois segundos depois, no entanto, o seu ar brincalhão e infame voltou, e reclinou-se sobre o encosto da cadeira, espreguiçando os braços. « Ah, mas isso não vai ser nada perto dessa noite, de qualquer forma. » riu para si mesma, cruzando os braços na frente do peito, dando uma ligeira piscadela para o companheiro, indicando subitamente que já suspeitava que ele havia feito outro pedido. « Como tem sido esses seis meses, rapaz? Algo de interessante aconteceu na minha ausência? »











