🌹} — Alguns locais em seu corpo ainda latejavam sob o tecido vinho de seu vestido. Fizera muito bem em escolhê-lo: era elegante e leve, revestido por uma renda delicada, e ainda possuía longas mangas e uma gola alta. Ou seja, cobria cada centímetro do seu corpo com as marcas de amor de Ikeesha, o capitão do Sea’s Dagger e líder dos piratas. Seus serviços se diferenciavam pela sua total discrição. Os únicos que poderiam saber quem era de fato eram os integrantes da tripulação de seu cliente. Estes eram fiéis o suficiente para manter seus encontros em segredo. Logo, sumir com qualquer indicio de sua profissão era essencial.
O famoso Sea’s Dagger, na visão da francesa, era como todos os outros navios. Extremamente luxuoso, é claro, mas como todos os outros: Desconfortável. Definitivamente não teria paciência ou saúde mental o suficiente para viver daquele jeito. Alimentação à base de conservas e rum, que não era uma de suas bebidas favoritas. O sol escaldante da manhã e o vento congelante da madrugada. A maresia grudava em sua pele e seus cabelos, “engordurando-os”. O cheiro forte de frutos do mar era repugnante e, somado ao balanço constante do navio, deixava-a enjoada. Sem contar com o cheiro abominável da tripulação. Cada segundo que passava ali só piorava sua ânsia de vômito. Abriu seu pequeno guarda-sol antes de pisar para fora da cabine e enfrentar uma caminhada de aproximadamente 15 minutos até o Black Rabbit.
A primeira coisa que percebeu ao sair da cabine principal foi sangue. Um dos subordinados de seu cliente, não lembraria seu nome nem se tentasse, limpava as poças de sangue do chão de madeira com uma escova e um balde de água. Ikeesha passou por aqui, pensou de imediato. Lembrou-se dos gritos de alguns minutos atrás e tudo fez sentido. Gostaria de ter presenciado a carnificina. Curiosidade mórbida.
Atravessou o deck, ignorando alguns olhares sorrateiros dos marujos. No Sea’s Dagger ela era respeitada e, além disso, existiam muitas mulheres também. Lá fora, a coisa era diferente. Não era uma sensação agradável caminhar sozinha entre centenas de homens, que certamente não fodiam uma mulher há meses. Não gostava de admitir, mas, nesses momentos, toda a sua confiança parecia apagar dentro de si. Sabia muito bem que uma mulher como ela não poderia vacilar em um mundo dominado pelos homens. Esse era mais um dos motivos de odiar o porto.
Estava descendo a rampa para o cais quando foi abordada por uma garota. Confusão cruzou seu rosto, antes de suas sobrancelhas se unirem e seus olhos castanhos se estreitarem, a fim de analisar a possível ameaça. Era uma simples maruja. Uma beleza comum e sem graça, com cabelos castanhos castigados pela vida que levava e o rosto levemente corado. Seus olhos passearam rapidamente por suas roupas ordinárias. Escutou-a atentamente. Por um breve momento, Rosé demonstrara ser o quê era: fria e calculista. Porém, assim que nenhuma ameaça foi detectada, seu rosto se iluminou com um belo sorriso.
— Rosé Moulin. — Apresentou-se com o seu sotaque francês, apertando a mão da jovem e beijando o seu rosto. Eu? Parte da tripulação? Talvez um dos adornos de ouro e pedras preciosas, mas jamais parte da tripulação. Depois, com uma falsa tristeza para ilustrar sua indignação interna, perguntou. — Diga-me, Lucy Spring: Eu pareço fazer parte da tripulação?
Lucy não esperava pelo beijo no rosto. Depois de tanto tempo no mar, sozinha entre vários companheiros que só sabiam gritar e xingar, ela havia se esquecido de como era ser tratada com educação. O gesto da mulher apenas fez o sorriso da curandeira crescer para os lados. Eu sabia que ela era diferente! Alguém com um gosto tão peculiar para vestimentas não podia ser bruta como os piratas do Sea’s Dagger.
- Diga-me, Lucy Spring - Rosé falou com a sua voz de veludo, e Lucy imediatamente reconheceu o sotaque. Havia aprendido a língua durante o período em que o Slut Mary aportou na França. Eu pareço fazer parte da tripulação?
Lucy se sentiu um pouco tola por ter feito a pergunta.
Rosé não era uma pirata, ela não podia ser. O sotaque francês, as roupas, sua postura, e até mesmo a entonação da sua voz… Tudo indicava nascimento nobre. Se Lucy estivesse em um jogo de adivinhação, diria que Rosé era a filha da rainha de Etheliron. Entretanto, aquilo apenas levantava mais perguntas: Por quê alguém de nascimento elevado estaria no Sea’s Dagger? Essa não. Por acaso será que ela se ofendeu com o que eu disse?
- É claro que não! - a curandeira respondeu apressada, tentando reparar o dano que havia feito. As duas continuavam a descer a rampa de acesso em direção ao cais.- Pardon, eu só… Eu não pensei antes de falar. É claro que você não é uma pirata, que tolice a minha! Mas…
Lucy observou Rosé mais uma vez enquanto andava e sentiu sua mente ficar ainda mais embaralhada. Não conseguiu pensar em um motivo para a nobre estar em um local como aquele. Decidiu que seria melhor não perguntar, não queria arriscar ofender a recém-conhecida.
- Nada, esqueça - Lucy falou tentando esconder uma risada nervosa. - Srta. Rosé, eu sei que nós mal nos conhecemos, mas você acha uma boa ideia eu navegar no Sea’s Dagger? - podia não saber o que Rosé estava fazendo no navio pirata, mas se a mulher tinha andado pelo convés sem ser atacada pelos outros marujos, ela provavelmente deveria ter algum tipo de amizade com o chefe da curandeira. - Naveguei durante alguns anos em um dos navios menores do Capitão Ike, mas sempre escutei histórias sobre o quanto o Sea’s Dagger era mais perigoso. Mais intenso. Eu… Eu ainda não sei se fiz a escolha certa ao aceitar a proposta do capitão.