Manteve o olhar cravado no escocês, os olhos de âmbar faiscando de raiva — não uma raiva explosiva, não mais, mas daquelas que queimam lento, como brasa sob as cinzas. A fala dele ainda ecoava em sua mente: “Sua vida é mais do que servir um herdeiro.” Como se fosse fácil. Como se ainda houvesse espaço para ser qualquer coisa além disso. Como se os próprios pais não houvessem a dado de presente para Anatolia tão logo havia nascido. Ela não era nada além de uma assistente, ela não sabia fazer nada além daquilo. Soltou um riso curto, sem humor, e passou uma mão pelos cabelos, afastando da testa um fio rebelde — não por vaidade, mas para se recompor. Para vestir de novo a máscara. ❛ Eu não esperava que você sequer fosse para aquele lugar. ❜ Caso se livrasse da raiva, admitiria que o achava um bom jogador. Talvez não tão bom quanto ela, mas um bom jogador. E ela esperava que ele possuísse cartas na manga o suficiente para jamais cair naquele tipo de situação. Ela tinha alguns planos e promissórias, e sequer era um homem! Imagine o mundo de possibilidades que Caden não possuía… Aquilo não era a pauta, de qualquer forma. Por isso, isolou o pensamento. ❛ Você realmente não entende, não é? ❜ Ela suspirou. Era um som baixo, seco, quase imperceptível — mas nele havia mais fúria do que em qualquer grito. ❛ Eu represento a Anatólia, padre. Esse seu joguinho me prejudica mais do que a ele. Comprova minha inutilidade, minha incompetência. ❜ O salto ecoou de novo quando ela girou sobre os próprios pés, encarando-o com mais proximidade do que seria aceitável. Seus olhos faiscavam como brasas. ❛ Se me permite, padre, acredito que seja o senhor quem finge não saber como as coisas funcionam. Ou talvez de fato não saiba. Afinal, acredito que esteja em uma posição confortável demais para preocupar-se com assuntos menos relevantes. Como, por exemplo, a posição de uma mulher sem títulos nessa sociedade, e não, eu não estou pedindo que me ajude. ❜ Não imaginava que o esclarecer era necessário, mas era involuntário minar assuntos para não deixar que nada precisasse ser entendido nas entrelinhas. Existiam pessoas que sequer sabiam o significado dessa palavra. ❛ Não somos iguais, Caden. Você é um duque, tem uma família próspera e que, eu imagino, o apoie e permite que escolha o que desejar. Eu, não. Sinto muito se decepciono as vossas expectativas sobre mim, ou meu potencial. Você não seria o primeiro a se sentir assim. Mas, vossa graça, eu me importo com a reputação de Sarp. Me importo com ele sentado no trono. E eu irei fazer isso acontecer. ❜ Sempre fora seu propósito, mesmo antes de Vossa Majestade ameaça-la. Havia estado ao lado de Sarp por todos esses anos apenas para vê-lo ascender. E somente quando isso acontecesse, ela poderia descansar. Ela ergueu o queixo, como quem se recusa a quebrar o contato visual, mesmo quando estavam tão próximos. Um segundo. Dois. O olhar dela não vacilava. ❛ Perfeito. Acho que não teremos mais acordos, então. Fique fora do meu caminho, O’Rouke. Ou da próxima vez não será o Sarp a te colocar na cadeia.❜ E, no fundo, ela não brincava. Já havia esmagado e sacrificado muito de si mesmo, e se ainda precisasse passar por cima de alguns princípios ela faria. E fingiria ser fácil. Porque ela era assim, quando o assunto principal eram as necessidades de Anatolia.