tenho o habito de fugir quando sou confrontada a abandonar minhas armaduras.
ninguém gosta de sair da zona de conforto, ainda mais se esta tiver sido criada pelos traumas através de muitas porradas e feridas.
durante anos, eu fiz uma cerca ao redor dos meus machucados para que ninguém pisasse neles; esta solução me pareceu mais eficaz do que curá-los realmente. e tudo bem, só fiz o que achei melhor pra mim.
mas aí o universo me trouxe você.
fui confrontada desde o nosso primeiro encontro, se quer saber. sua realidade diferente da minha em alguns aspectos fez com que eu não cogitasse a hipótese de nos tornarmos um casal um dia. isso definitivamente não passou pela minha cabeça, exceto quando eu tava toda melada da pipoca que eu comia e tocou “quer ser minha namorada” do ferrugem em alguma caixa de som em madureira, enquanto esperávamos minha condução no ponto de ônibus, e você cantou a parte “beijo de pipoca” no meu ouvido e rimos. mas só nesse momento e logo a ideia ficou pra trás. por quê? bom, porque há tempos não permitia alguém com vivência diferente passar da minha fronteira imaginária. e quase foi assim contigo. quase. mas você por algum motivo continuou me procurando. lembro de não fazer questão algumas vezes, assim como você. até que algo aconteceu e de repente você me laçou. quando digo de repente, é no sentido mais literal possível. definitivamente do dia pra noite, me vi apaixonada por você. sei que a recíproca é verdadeira. nem se eu quisesse muito eu conseguiria explicar o que aconteceu aquele dia, mas você sabe. eu sei que você entende. e desde então, estamos aqui. algumas águas já rolaram embaixo dessa ponte que construímos e eu quis abortar a missão, como sempre. afinal, é o que eu faço. depois de algumas guerras emocionais compulsórias que a vida me alistou, as pessoas só tem a chance de me aborrecer uma vez pra nunca mais. mas você fez eu entender o que minha mãe queria dizer quando falava que “o barro precisa ir ao fogo pra virar vaso”. não existe relacionamento sem crises e por você eu quis dar a cara a tapa. não sei bem o porquê. não sei se foi teu sorriso, teu falar manso ou teu jeito afetuoso, mas algo dentro de mim dizia para não te deixar ir embora tão fácil assim. preferi ouvir e tem sido desta maneira todos os dias.
veja, você nunca me fez mal, mas sempre me confrontou e é assim que tem me feito crescer. me perdoe quando eu disser que quero me afastar, como ja fiz algumas vezes. espero que eu não fale mais isso, mas se eu disser, me ignore assim como já fez. continue entendendo que é meu medo e espere eu me acalmar.
de você não quero promessas, apenas o presente e a verdade. só quero que continue me olhando com esses olhos que ora é risonho, ora confuso. sabemos que nem sempre iremos entender a realidade do outro, mas admiro a nossa coragem de tentarmos ser colo mesmo assim.
que teu silêncio continue sendo meu conforto e tua risada meu antídoto.
que continuemos nos achando na linha tênue entre calmaria e intensidade.
que nossos sábados agitados e domingos pacatos nunca caiam na rotina.
que meu colo continue sendo o travesseiro que você repousa a cabeça quando deita no sofá.
que quando um de nós pensarmos em desistir, lembremos do dia em que o universo virou uma chave, abriu um portal na matrix e fez com que deixássemos de ser um, para sermos dois.
e que eu continue enxergando conforto no nosso confronto.
espero que você continue me encorajando a cuidar das minhas feridas para que eu viva na excelência da minha existência.
te peço que se cuide, enquanto não posso dizer que te amo.