Prazer, feminismo.
Eu já vivi muita coisa. Já sofri muito, já vi muito. Ainda que com pouca idade, percebi que nunca me encontrei. Nunca tive turma, nunca tive um relacionamento satisfatório, nunca consegui estudar do jeito que eu queria. Eu sempre fui a diferente da turma, a rebelde, a esquisita. Meus relacionamentos sempre foram complicados e eu me recriminava todas as vezes por isso. Até então, eu era “anti feminismo” porque sempre aprendi que as mulheres tinham que estar sempre lindas e dispostas a satisfazer os machos-alfa, independente da situação. O conhecimento que eu tinha sobre feminismo era aquela parte bem radical, onde as mulheres recriminam 100% os homens. Nos meus relacionamentos, eu largava tudo, até o que era parte da minha essência pra agradar, e era aí que eu sofria. Diversas vezes eles se aproveitavam disso pra me pisar porque sabiam que eu ia voltar atrás. Já passei muita humilhação, já fui muito usada, já fui muito esculachada em todos os sentidos. Já marquei muito salão de última hora porque “como ele vai me ver descabelada?”, “e se ele sentir que eu tenho uns pelinhos perdidos?” e se...? Já fiz restrições alimentares malucas porque “se você perder só essa barriguinha...” No meu último relacionamento, as coisas não mudaram muito. Me envolvi com um colega que estava em um momento sensível, fazendo com que eu me disponibilizasse ainda mais que com os outros. Deixei os amigos de lado, saí da balada mais cedo pra ir ver ele, dispensei rolês legais, comprei roupas do filme que ele gostava, comprei presente e tudo mais. Nenhum amigo lembrava dele fim de semana a noite, mas eu estava lá a semana toda. Ele era um amor e me tratava muito bem, dizia que só eu tinha ficado perto dele e que eu era especial. Quando a sensibilidade passou e ele teve condição de voltar pra rua, começou a me desvalorizar. Marcava de sair tarde, não respondia mensagem, a menos que fosse pra dizer que eu enchia o saco, não queria me ver, só podia sair se fosse por puro prazer dele. E eu sofri de novo, mais do que nas outras vezes. Eu sabia que ele não era o cara certo mas ainda assim sofria porque eu fiquei ali quando ele mais precisou. E em um dia qualquer, depois de seis meses, ele resolveu sumir sem deixar rastro. Não atendia o cel, não respondia mensagem e quando me via na rua virava o rosto pra não ter que falar oi. Tentei dizer que não queria obrigar nada e que podíamos ser só amigos, mas não adiantou. E eu nunca entendi o motivo. Me culpei todos os dias e procurei em cada dia achar alguma coisa que eu tenha feito pra “perder ele”. As coisas começaram a mudar faz pouco tempo, quando conheci duas luzes na minha vida. Uma conhecida postou algo no facebook sobre aula particular pra quem não estudava fazia tempo. Fiz de conta que eu era conhecida e me ofereci para estudarmos juntas e ela aceitou. Em alguns dias ela contratou uma amiga dela que era fera em exatas e marcamos as aulas na casa dela. Logo no primeiro dia me senti insegura porque ela e a amiga eram feministas e eu não sabia como ia rolar a conversa. No intervalo da aula, senti que eu precisava pedir uma opinião diferente de tudo que eu já tinha ouvido. Em tom de brincadeira, pedi aulas sobre feminismo e as duas, mais do que interessadas fizeram uma conversa intensa rolar. Contei tudo, de todos os meus relacionamentos, e elas me acolheram de uma forma inexplicável. A partir desse dia, eu comecei a pensar no meu “ex” de uma forma diferente, e a única conclusão que consegui chegar foi: ele é um babaca. As meninas me apresentaram um feminismo diferente, que me deixa ser quem eu sou e me faz enxergar que eu sou a prioridade. Devagarzinho, eu entendi que se alguém gostar de mim, ela não vai precisar que eu esteja magra, com cabelo alinhado, unhas feitas e disponível 24h. Eu entendi que eu sou bonita do jeito que sou, que eu preciso me arrumar pra mim (se assim eu decidir), que eu posso continuar comendo o que gostar porque é mais importante eu continuar com a barriguinha que eu até gosto do que passar vontade só pra agradar os outros. Meu sofrimento durou 3 meses, mas passou, graças às minhas amigas que me ensinaram o feminismo com calma e sem obrigação. Hoje, eu consigo entender que quem perdeu foi o colega, que podia muito bem ter continuado tendo o sentimento sincero que eu tinha por ele, do que simplesmente sumir e achar que “conquistou” mais uma. Hoje, eu tenho amigas que não me fazem sentir burra só porque ainda não entrei na faculdade, e como é bom estudar quando você está perto de pessoas queridas. Hoje, eu tenho amigas que enxugaram as minhas lágrimas e fazem eu me sentir a vontade estando de chinelos e cabelo preso num coque sentada de qualquer jeito no sofá. Hoje, eu conheci um cara bacana que puxou um assunto bobo só pra eu conversar com ele, que me chamou sábado à tarde pra dar uma volta com a turma, e que me fez sentir linda mesmo morrendo de sono sem maquiagem num fim de quinta. Isso pode não significar nada, mas já me faz acreditar que nem todos os homens são babacas. Hoje, eu tenho amigas. (e amigos!) Hoje, o feminismo me deixa mais forte, porque toda vez que eu me sinto fraca, eu sei que tenho amigas que me apoiam e me devolvem forças. Hoje, eu sei que ser eu mesma faz com que eu atraia pessoas que gostam realmente de mim pra minha vida. E hoje, eu comecei a me entender, e ser feliz.










