As mãos cobertas de farpas e filetes de sangue não pareciam incomodar o rapaz, que continuava a descascar o tronco de uma árvore com uma certa raiva. Seus episódios aconteciam duas vezes a cada semana, infelizmente, aquilo era o melhor que conseguiu alcançar. Quando este já estava praticamente destruído, Daniel caiu de joelhos no chão e suspirou, sentindo a culpa subir sua cabeça e a dor finalmente causar algum desconforto em si. Morar sozinho perto da floresta foi uma decisão que fez assim que chegou ao Limbo, sentia-se melhor naquela terra de ninguém e que era tão imprevisível quanto ele mesmo. E bom, era melhor bater em árvores do que em outros seres que também ocupavam aquele espaço, certo?
Porém dor nenhuma era comparável com a que ele sentiu ao ver o rosto da garota em sua frente. Tudo estava queimando dentro de si, tudo doía e parecia que estava sentindo a mesma dor antes de sua morte. Ele preferia ter ido para o inferno do que ter que encarar a coreana olho no olho depois de tantos anos. Sabia que tinha matado Minah por sua falta de responsabilidade, sabia que ela havia sido morta pela sua falta de autocontrole, por razão de ter uma mente tão transtornada e esquisita, ele tinha plena e total certeza e a culpa poderia lhe engolir a qualquer momento se ele permitisse. E de forma parcial, ela realmente conseguiu, Daniel afastou-se completamente da garota na primeira oportunidade que teve. Não queria que ela tivesse que sofrer de novo por sua causa, não queria que ela o visse no seu pior estado, ele era um monstro e sempre teve consciência, o acidente foi a prova que todos precisavam de que ele era somente um garoto bizarro. O garoto que explodia por razões estúpidas, que ouvia vozes e via pessoas, que mudava de humor da mesma maneira que o tempo, sim, este era Daniel, não importava se estava vivo ou morto.
No fundo, ele só queria que fosse mais uma de suas visões, que ele estava delirando de amor e que Minah já tinha o esquecido. Que estava continuando sei-lá-o-que na cidade e que agora ele era somente uma memória azeda que ela preferia esquecer. E talvez a última parte fosse verdade mesmo e ele daria razão a ela a qualquer momento. Ele tinha medo do que ela era capaz, se ela era capaz de fazê-lo sentir-se vivo e sabia que detinha do poder para lhe envenenar até engasgar na própria solidão e amargura em vida, na morte, ela poderia ser ainda pior.
Ao ouvir a voz da garota, conseguia ouvir sussurros próximos de seu ouvido, acusando-o e repetindo o que ele já sabia. Haviam tantas coisas no Limbo que eram diferentes que davam abertura para suas alucinações parecerem normais e ele se desconectar de sua realidade, era perigoso ficar perto dos outros, principalmente quando se está no ápice disso. A única coisa que conseguiu fazer foi dar um tapa no próprio rosto. O estalo fora forte o suficiente para assustar um pobre animal que repousava ali perto. Ele realmente esperava que fosse uma de suas visões, mas quando ele abriu os olhos novamente, ela continuava ali, repleta de ódio e ele não podia fazer nada além de ouvir. Ele merecia, no fim das contas. O sangue deixou rastros horizontais em contraste com a enorme cicatriz que cruzava sua bochecha. Daniel respirou fundo e olhou para ela, com o olhar tão vazio e anormal quanto ela poderia lembrar. — Minah... É bom ver que você está... Bem. — Limpou as mãos no avental que usava por cima das roupas, deixando manchas vermelhas junto das que se assemelhavam a cor da terra onde pisavam. Haviam até mesmo algumas flores em seu bolso, porém todas estavam mortas ou com pétalas arrancadas, não era de seu feitio deixar aquilo acontecer, mas era um de seus sinalizadores. Se seus dias estavam ruins, talvez aquele fosse ficar ainda pior.