Mesmo possuindo apenas a luz de labaredas como fonte de iluminação, podia constatar o carmim a manchar as feições alheias, um profundo contraste contra a tez tão alva. Seria resultado somente do pudor enraizado nos fundamentos da outra ou haveria ela dito algo recebido de forma errônea? A questão que se seguira pouco trazia esclarecimentos, sem que conseguisse definir com certeza se de fato havia ali acidez. Ainda assim, trouxe-lhe certo acanhamento; os olhos desviaram-se brevemente ao chão. Ora, o que Catharina lhe pedia era incomum, ela deveria ter plena ciência de tal; pedido que ela nunca conjecturara receber. Sequer imaginava o que haveria de dizer e, sobretudo, como. Decerto, a outra sabia que precisava de detalhes pelos quais se guiar, não? Não tinha intuito envergonhá-la ou desonrá-la com sua pergunta.
A voz feminina chamou seu olhar de volta a ela, assim como sua atenção, na espera pelas respostas as quais julgava necessárias. Parte do que ouviu, no entanto, trouxe surpresa clara em seu semblante. Cuidara de enfermos, então? Como uma médica, uma curandeira? Seu peito acalentou-se em admiração à ideia, sensação evocada sempre que conhecia alguém que compartilhava da paixão pelas artes da cura. No entanto, o que realmente a intrigava era que a loira possuísse os conhecimentos. Ainda tentava, com certa dificuldade, compreender a educação recebida pelas nobres cristãs, mas tivera a impressão de que a oferta do conhecimento científico era limitado. Em Belônia, porém. Decerto, Castela possuía suas particularidades.
Afastando os pensamentos intrigados, tornou o foco às declarações da outra. Pouco a pouco, acreditava entender em certa extensão o que era pedido de si. Oh, sim. Ela, de fato, queria saber tudo, ou tudo que Aliye possuía quanto a Mihail. Não possuía indagações já pré-determinadas? Pois bem. Assentiu.
— Creio que sim, Vossa Alteza — respondeu-a com toda a neutralidade que era capaz de estabelecer em sua compostura. — Sinto muito pela pergunta, caso ofendeu. Há... muito a ser dito sobre o que acontece na cama e não sabia se tinha dúvida específica, mas, se deseja saber tudo, como disse, farei o que posso para ajudar — esclareceu-se. Uma forma de ganhar tempo para si própria enquanto tentava formular uma réplica que desse a Catharina o que ela buscava. Tinha tudo em sua mente, conhecimento angariado pela experiência de noites de prazer. No entanto, lutava para colocá-lo em palavras de maneira que fosse, ao mesmo tempo, esclarecedora e respeitosa. Falava com a noiva do homem com quem dividia a cama, afinal. Ya Allah! O quão mais estranha poderia ser aquela situação?
Começou a caminhar a curtos passos por seus aposentos, lábios comprimidos, ainda pensativos. Logo, partiram-se, permanecendo silenciosos por alguns instantes. — Bem... não creio que haverá de se preocupar com falta de desejo — voltou o olhar à princesa. Ela era, sem dúvidas, belíssima. Se bem conhecia Mihail, ele estava longe de ser cego ao fato. — Ele é amante... — excelente, pensou. No entanto, aquilo dificilmente soaria adequado, ainda que com o intuito de tranquilizar a outra. — ... considerado. Não creio que forçará Vossa Alteza a nada, ou ignorará seus próprios desejos. Não há que temer. Duvido que deixará Vossa Alteza insatisfeita. Mas, se deseja agradar ele... — nova pausa, ponderativa. Como poderia colocar em palavras o que deveria ser feito? Estalou a língua. — Pode... usar de seu corpo para... tocar ele. Mãos... boca. Sim? — podia sentir o rubor a subir-lhe pelas maçãs do rosto, acalentar seus ouvidos. Não tendia a sentir-se tão acanhada tratando de tal assunto. Contudo, a situação em que estava, com aquela interlocutora em especial, era extraordinária. Ajuntada às lembranças que insistiam em florescer em sua mente, espalhando calor por seu corpo, era difícil não se mostrar afetada. — Pode... ter ele deitado e Vossa Alteza sobre ele. Em minha experiência, é prazeroso para os dois — um sorriso repuxou os cantos de seus lábios ante memórias próprias, suprimido de imediato pela concubina. Compostura, sim? — Pode... criar espera, se demorar, explorar como quiser, sem pressa. É possível que ele que... quere... — pigarreou. — Quererá fazer o mesmo. Sou vaga? Sinto muito, não domino essa língua e não sei certo como explicar com palavras — concluiu, caindo em silêncio em seguida. Era o que se lembrava de dizer, o que conseguia dizer. Havia, decerto, atos específicos, mas haveria de entrar em detalhes. Para um início, acreditava haver dito o suficiente. Um pequeno suspiro. — Pode perguntar a ele, também. Por acaso... disse que cuidou de enfermos?