Abriu os olhos lentamente, levando certo tempo para se acostumar com a escuridão que a envolvia. Estava deitada no chão, os membros frios lhe pareciam ser de vidro. Tentou se lembrar de algo, qualquer coisa, mas a cabeça doeu com o esforço e o estômago pareceu se contorcer, revirando ácido. Sentou-se, esfregou os olhos e procurou identificar as formas do aposento em que estava. Olhou para cima e um arrepio percorreu sua espinha, pois não havia teto. As paredes subiam até se mesclarem completamente com uma escuridão que parecia não ter fim. Ela tentou conter o medo e focar em outros detalhes, mas ele estava ali - pesado e eterno como o escuro sobre sua cabeça. À sua esquerda havia um corredor com muitas portas, quadros nas paredes e móveis amontoados em diversos pontos, luzes azuladas entrando por janelas quebradas e iluminando um caminho extenso demais para ser real. O corredor, também, parecia não ter fim.
Na sala onde estava ela avistou apenas uma janela, coberta por uma cortina com buracos por onde a pouca luz do aposento entrava. Era possível ver cadeiras e sofás encostados nas paredes, manequins empilhados aqui e ali, com buracos vazios onde deveria haver olhos pintados. Mas nenhuma porta. A sensação de que algo estava errado aumentava junto com as dores que ela sentia.
A última coisa que viu estava em um dos cantos da sala, do lado direito: um espelho. O objeto parecia emanar ondas de inquietação e algo que ela não conseguia definir. O medo apertava o coração agitado, mas era preciso olhar mais de perto. Levantou-se, andou cambaleante para perto do espelho e ao aproximar-se o bastante, observou apreensiva o próprio reflexo. Parecia claro demais, apesar da pouca luz disponível. “Tem luz própria, a luz vem de dentro”, ela pensou. Viu o corpo machucado e fraco, os olhos cansados e a pele pálida. Mas havia algo mais e ela continuou encarando, apesar do medo.
Ela sentia o ambiente cada vez mais hostil, se fechando em volta dela, quando finalmente viu algo. Os olhos no espelho brilharam, por apenas um instante, mas ela viu. Piscou algumas vezes, esperando o fenômeno se repetir e mais uma vez a luz fantasmagórica passou pelos olhos no espelho, dessa vez acompanhada de um sorriso. Ela assistiu o sorriso triste no reflexo por alguns segundos antes de ouvir um barulho e sair de seu transe. Mas o sorriso continuou ali e ela, aterrorizada demais para tentar entender qualquer coisa, começou a dar passos lentos para trás, na esperança de não chamar mais atenção do que quer que estivesse sorrindo para ela. “Mas é tarde demais, ela me viu, eu sei que me viu, ela me viu!”
O barulho voltou, dessa vez mais alto, e dessa vez ela viu o que era: a mão dentro do espelho batia no vidro. E era tarde demais, ela queria sair. O desespero tomou conta e ela tentou andar mais rápido, mas sem conseguir tirar os olhos do espelho, tropeçou. Unhas arranharam o vidro e ela se encolheu com o ruído, enquanto rastejava desajeitada, tentando levantar. Olhou para o espelho mais uma vez antes de se colocar de pé. O rosto do outro lado parecia se contorcer de raiva, enquanto se lançava contra o espelho, até que ele quebrou. O barulho do vidro estilhaçando a colocou em movimento e ela foi na direção do corredor.
A forma saída do espelho colocou-se de joelhos, e de olhos fechados respirou fundo e soltou um grito gutural que preencheu toda a sala. Arrancou de si pedaços de vidro e levantou-se, cheia de cortes, pingando sangue, o olhar queimando de raiva. Viu a garota indo na direção do corredor e sua raiva só aumentou.
Com o pouco de força que lhe restava, ela corria no mesmo ritmo de seu coração, sabendo que seu reflexo viria logo atrás, mas sem arriscar olhar mais uma vez. Ouviu o grito estremecer as paredes e começou a chorar de medo. Tentou abrir algumas das portas no corredor, mas todas estavam trancadas e os passos apressados se aproximavam, então ela apenas continuou a correr.
Ainda não estava correndo, não precisava. “Ela não vai muito longe.” Mas cada vez que a olhava sentia a pele queimar e andava um pouco mais rápido. Fechava os punhos com tanta força que as unhas cortavam a palma da mão. Mas não sentia dor alguma (ao menos não da forma como a garota entendia dor), a dor era sua essência. E naquele momento tudo que importava era destruir a garota que corria tão desesperadamente.
As lágrimas dificultavam a visão, mas ela não conseguia parar de chorar e soluçar. - Por favor, não! Ajuda, por favor, ajuda! - ela implorou, mas não imaginava que a criatura do espelho fosse dar alguma atenção ao pedido, ou que alguém fosse ouví-la e ajudar. Os músculos das pernas e braços latejavam de dor e o corredor se estendia além do alcance dos olhos dela.
Ouviu a voz dela implorar e riu, descontrolada. - Eu vou arrancar toda a sua pele, criança maldita! - E começou a andar ainda mais rápido, se aproximando dela.
A ameaça do reflexo ecoou pelo corredor e ela ouviu o som dos pés ficar mais forte e mais perto. Os pulmões ardiam e na boca sentia o gosto metálico do sangue, mas precisava continuar correndo. O corredor agora parecia ter menos luz e mais objetos no caminho. Esbarrava em todos eles e apenas passava por cima, vez ou outra se cortando ao derrubar algum vaso ou porta retrato.
Arriscou olhar para trás e percebeu, tomada pelo horror, que o rosto da criatura parecia ainda mais deformado e que ela estava cada vez mais perto. Não havia muito tempo para pensar, ela parou apenas um instante, avistou um objeto que parecia pesado e correu para jogá-lo na direção do eu do espelho.
Ela assistiu a garota olhar para trás e parar, tremendo de medo, mas não esperava o movimento seguinte. A surpresa veio voando na direção dela e atingiu a cabeça. Caiu de costas no chão e sentiu o sangue quente brotar na testa. Levantou-se e agora parecia uma boneca quebrada. Gritou, e dessa vez o ódio na voz dela tomou forma e cobriu as paredes com uma substância vermelha e pegajosa. Ela começou a correr de verdade, cansada de brincar.
Ela ouviu o objeto atingir a criatura e o corpo caindo, e voltou a correr, acreditando agora ter alguma vantagem. Mas seus pés estavam cortados, as pernas parariam a qualquer momento e ela sentia a cabeça e o coração pesados demais, sentia vontade de vomitar, mas sabia que não tinha nada pra botar pra fora.
Outro grito e esse passou por ela deixando tudo mais pesado. Em meio às lágrimas ela viu as paredes mudarem de cor e um cheiro podre tomar conta do lugar. Ela começou a gritar e implorar outra vez, sabendo que a criatura estava ainda mais perto. Podia sentir a energia dela queimar sua pele. Tentou correr ainda mais rápido, mas não tinha forças. Tropeçou e bateu a cabeça antes de cair de cara no chão. O corpo se balançava com os soluços, ela sabia que havia acabado. Sentiu uma mão puxar e segurar seus cabelos, mas não conseguia ver nada, só chorar e tremer.
Viu a garota tropeçar e cair, e sorriu satisfeita. Não precisaria correr nem mais um minuto. Andou até ela e levantou-a pelos cabelos e arrastou mais um pouco, até o final do corredor.
Chegaram a uma sala grande, parecida com a que continha o espelho, porém esta era iluminada por uma luz vermelha que permitia distinguir melhor os objetos. Nas paredes os manequins de olhos vazios agora se fundiam com a substância vermelha, parecendo respirar. A criatura do espelho jogou a garota no chão, e ela tentou se erguer apenas o suficiente para rastejar para longe, mas era inútil. O reflexo virou o corpo dela e sentou-se em cima. Olhou-a nos olhos enquanto ela gritava e pedia para ser poupada. Continuou olhando enquanto destruía o rosto dela com as unhas. Ela permaneceu de olhos abertos e foi possível ver quando as lágrimas pararam e o brilho neles sumiu. Onde antes havia um rosto, agora apenas uma massa vermelha e disforme. A criatura terminou o trabalho, ofegante, cansada, e olhou o resultado com uma expressão diferente da que a levara até ali. Os olhos se encheram de lágrimas e a luz vermelha deu lugar à mesma luz azul e fraca que iluminava o resto do lugar. Saiu de cima do corpo e sentou ao lado, abraçando o que restara dele. Sentiu o coração quebrar e apertou a garota contra o peito, fechou os olhos e deitou devagar. O jogo acabou, ela adormece.