aproximar-se de Matthew não estava exatamente nos planos do veterano, mas foi uma consequência inevitável quando se dispôs a protegê-lo um bom par de vezes. Billy não era o mais influente por ali, não tanto quanto os riquinhos cujos pais doavam milhares de dólares para reformas na estrutura do campus. e ele até tinha certa popularidade com as garotas, mas o olhar delas nunca brilhavam muito ao vê-lo chegar com a Pick-up antiga, como quando viam os carros luxuosos que a maioria desfilava pelos arredores da universidade. mas uma coisa William sempre soubera: como impor respeito (ou o mais próximo disso), especialmente por vias um pouco mais… agressivas. a parte boa de não ter nada na vida, era que não poderia ficar pior. as ameaças dos rapazes de que seus pais poderiam destruir o Baker se quisesse se tornavam vazias quando percebiam que o rapaz nada tinha a perder. em compensação, o rosto bonito daqueles garotos teriam certa dificuldade em se recompor caso entrassem em uma briga. alguns até o fizeram, suficiente para que a fama de Billy se espalhasse. ele não era do tipo que deviam irritar, simples assim. e os que se atreveram a fazê-lo, acumulavam histórias desastrosas que terminavam em seus narizes sangrando. William era carismático o suficiente para ter um adequado número de colegas com quem se dava bem, mas reservado demais para chamar muitos deles de amigos. não ajudava muito que Billy tivesse conseguido irritar a versão masculina da Regina George da universidade. em sua defesa, não fazia ideia de que a morena com quem passou interessantes horas dentro de seu carro era namorada de Lewis Ford - o sobrinho do reitor. e mesmo que aquilo tivesse acontecido no segundo ano, era o motivo de ter uma ou outra dor de cabeça por ali. e quando Lewis não conseguia atacá-lo, resolvia atacar quem era próximo de si. assim, sua aproximação de Matthew era quase como uma faca de dois gumes. ao mesmo tempo que diminuía os ataques, também o colocava no radar de Ford.
nas últimas semanas, especificamente, parecia que Lewis fazia questão de ser o mais insuportável possível. não era como se Billy pudesse estar perto de Matt sempre, e mesmo que pudesse, também não era o seu cão de guarda (termo esse usado por Ford diversas vezes). entendia, ainda, que o mais novo também não apreciava a imagem de coitado que não sabia se defender, por isso apenas intervinha quando necessário. como, por exemplo, naquela manhã. a raiva de William já borbulhava desde cedo pela discussão que tivera na noite anterior com o pai — que resultara, inclusive, em um corte feio no antebraço quando o mais velho lhe atirou uma garrafa. não quis checar o quão feio era o ferimento, pois independentemente, não teria dinheiro para se atrever a pisar em um hospital. no fim, seria só mais uma cicatriz entre as outras. mas o corte coberto pelas três voltas de fita crepe não o impediu de socar com força considerável o rosto de Ford quando este ultrapassou o limite de sua paciência. admitiria que descontara a raiva do pai naquela ocasião, mas o loiro engomadinho merecia e muito aquela surra. o problema? o feito lhe rendera uma suspensão bem na semana de provas; o que significava que ele precisaria compensar algumas aulas durante o verão. se soubesse desse resultado, tinha batido ainda mais forte no universitário babaca.
como aquela notícia foi parar no ouvido da mãe de Matthew, Billy não sabia bem. talvez o próprio reitor tivesse entrado em contato com ela, se não tivesse sido Matt mesmo. William não imaginava com clareza a relação que o jovem teria com os pais, mesmo que sempre falasse muito bem da mãe, o que indicava que havia uma boa relação ali. não era como se os dois rapazes se abrissem muito um com o outro, por mais que àquela altura fossem grandes amigos. o único amigo de verdade que William tinha, se fosse sincero. e o rapaz não se importava com o que Matthew decidia ou não contar, e o que a família dele pensaria do brutamontes briguento que quebrava narizes por aí. nem mesmo Matt sabia que aquele número era maior que aparentava, se somasse as brigas clandestinas que lhe rendiam considerável grana. não pensou, porém, em qualquer momento, que receberia um jantar de agradecimento. com exceção do dinheiro que recebia nas lutas, suas brigas não eram recebidas de forma muito positiva pela maioria das pessoas. mas… bem, fazia sentido que a mãe do rapaz estivesse aliviada pelo jovem ter sido protegido. Billy imaginaria que assim deveria ser as mães com os devidos instintos maternos ajustados. quando negar o convite não funcionou, tentou ao menos parecer apresentável. usava o seu melhor jeans, e a camiseta branca continha uma manga que ia até metade do antebraço — suficiente para esconder o jeito ridículo que lidara com seu corte, se não se movesse demais. quando Matthew abriu a porta, um sorriso pequeno se fez no rosto do mais velho, que bagunçou o cabelo do mais baixo antes de entrar na casa. era… enorme. Billy já tinha dado inúmeras caronas para Matt, mas nunca entrado na residência. parecia até algo saído de um filme. o olhar foi logo na direção da mesa de jantar, que estava posta e muito bem decorada. “isso tudo é para mim?” a pergunta saiu antes que ele pudesse prender as palavras dentro da boca. ora, por que seria? talvez teriam outros visitantes? ou arrumavam a mesa daquele jeito sempre. que tonto! o pensamento se dissipou quando o amigo disse que sim, e que havia avisado a mãe do possível exagero, mas ela havia insistido. ainda observava a decoração da mesa quando ouviu a voz feminina. “senhora Galbraith, não precisava disso tudo não, eu…” a fala foi interrompida quando terminou de virar na direção da voz, e se deparou com o que ele tinha certeza que era a mulher mais bonita que já havia visto. não sabia quantos segundos ficou em silêncio, parado como um idiota, mas de repente o cérebro pareceu enviar a mensagem para que as mãos agissem, e Billy a ajudou com a travessa que parecia pesada. “aqui, eu ajudo” disse, tomando a tigela das mãos da mulher e a colocando no centro da mesa. aproveitou para limpar o suor da mão na calça jeans antes de esticar o braço direito para cumprimenta-la. “é um prazer conhecê-la, senhora Galbraith. Sou Billy. Billy Baker” seu nome de repente soava patético. mas imaginava que tudo pareceria patético perto de alguém como ela, mesmo.
gabsverse:
Billy não saberia dizer se o amigo era um rapaz atraente; pensaria que sim, muito embora nunca houvesse gastado tempo analisando aquela hipótese. não era o maior conhecedor dos níveis de beleza masculina, se fosse sincero mal saberia classificar a si mesmo em algum tipo de escala. sabia que era atraente o suficiente para não ter problema algum em se manter ocupado quando queria, mas também não era um modelo que quebrava corações por aí. pensava, no mínimo, ser melhor que o sem graça Ford. e também apostaria que boa parte do motivo dele mesmo ou Lewis terem um número um pouco mais considerável de mulheres interessadas neles que Matt tinha muito mais a ver com o comportamento confiante (e/ou obstinado) dos dois, quando em comparação à falta de jeito inerente do mais novo, não necessariamente às aparências. então não, Baker nunca havia pensado se o mais jovem era considerado ou não alguém bonito — mas pego de surpresa pela imagem de Christine, sem dúvidas podia dizer no mínimo que a genética estava a seu lado. a mulher, na realidade, não parecia mais do que uma irmã mais velha deste. se não soubesse de quem se tratava, de início suporia que aquele era o caso. certo, dava para ver que Christine tinha mais vivência que os dois universitários, mas ninguém poderia ser capaz de dizer que ela aparentava ter um filho daquela idade. ou filho qualquer, ainda. por um mísero instante, quase que instintivamente, lembrou da imagem da própria mãe. ou do que se recordava dessa. mesmo sendo de pelo menos cinco anos antes, a imagem da própria mãe parecia ser de alguém com pelo menos vinte anos a mais que a Galbraith. não sabia a idade de Christine (e sinceramente, nem da própria mãe), mas apostaria que boa parte da diferença se traduzia muito mais em aparência que em números.
não precisou de esforço algum para que o pensamento logo retornasse à obra de arte diante de si, que pedia que ele a chamasse pelo nome. ficou animado diante da possível intimidade, mas por algum motivo, parecia errado. como se ela estivesse em um patamar que o rapaz definitivamente não chegava. “obrigado outra vez. não precisava mesmo, senhora Galbraith” repetir a formalidade não fora nenhum tipo de afronta ou de mensagem, apenas instintivo. “esperou?” o detalhe o pegou de surpresa, simplesmente porque não se lembrava de alguém mais tão animado assim com sua presença, especialmente em um contexto tão simplista. o mais perto disso eram as garotas da faculdade animadas ao vê-lo chegar com a caminhonete para um encontro furtivo do qual não falariam por aí com tanto orgulho. ele costumava saber seu lugar: era interessante o suficiente, e sabia bem como agradar no sexo. definitivamente não era do tipo ‘namorado de ouro’, e não teria ninguém desfilando com Billy por aí. não que essa parecesse a proposta de Christine (infelizmente), era apenas que a mulher de fato parecia apreciar sua mera presença, como Matthew. e aquilo o deixou satisfeito como não se lembrava de sentir há tempos. agradecera a blusa que escondia o leve arrepiar nos pêlos que sentiu quando a mais velha espalmou as mãos em suas costas, forçando a si mesmo a tentar se recompor ali. ora, o que fazia? ela era mãe de seu melhor amigo! e casada, ainda.
“não se preocupe, eu como até pedra, se temperar” admitiu, rindo um pouco da própria piada em uma tentativa de ser simpático. costumava ser carismático com certa facilidade quando queria, mesmo que estivesse um pouco sem jeito. na verdade, o leve nervosismo provavelmente o deixava mais agradável ainda, já que equilibrava com os traços tão fortes de seu físico. “não é necessário, senhora G… hm… Christine.” oh. gostava de como seu nome soava. “na verdade, acho que se soubessem que a senhora chegou a reclamar, as coisas podiam… sabe, piorar. daqui a pouco eles cansam.“ se não cansassem das brincadeiras, provavelmente cansariam de apanhar em algum momento. “ah.” soltou, baixo. não costumava falar muito de si. o que Matthew sabia era por pura convivência, e não porque o rapaz dizia qualquer coisa de si mesmo. “sim. estou na universidade há alguns anos, eu… não diria que sou o melhor aluno, mas estou bem o suficiente.” deixaria de lado que a suspensão por ajudar o amigo faria com que ficasse de recuperação em uma matéria aquele semestre. “já já acaba. e aí.. bom, hoje eu trabalho como mecânico.” ugh. odiava falar sobre sua vida. “e logo, quem sabe” encolheu os ombros, referindo-se a um emprego melhor. “eu não sei se sou chamativo” riu baixo, brincando com o garfo no prato. ele era, sim, mas só por ser um brutamontes de quase dois metros que estava sempre com ferimentos na face e nos punhos. ou naquele dia específico: no braço. “acho que sou alto demais pra passar despercebido, só isso” comentou, com um pequeno sorriso lateral. “não sei, acho que normais. tem os idiotas pra lidar, matérias pra passar. mas foi bom conhecer Matthew. ele é um bom amigo. a senhora fez um ótimo trabalhando criando ele” talvez fosse um elogio esquisito? não pode deixar de notar a careta do amigo. mas o que diria? não era como se pudesse realmente elogiar nela tudo o que pensava naquele momento. “e a senhora? não me lembro de Matt dizer com o que trabalha”
a descrença de william quanto à valorização de sua presença na casa fora quase adorável aos olhos de christine, o que a fez sorrir e concordar com a cabeça; ela só não achara mais porque ainda estava surpresa com a diferença entre o rapaz e o filho. bem, era bom que fosse assim. significava uma importante quebra de estereótipo pelo qual imaginava que toda mãe acabava passando por em algum momento da vida. seu filho era adulto, logo, os amigos dele também seriam. “se não tivesse aceitado, eu teria continuado a tentar te trazer até mim. matthew já te avisou sobre isso, não?” respondeu-lhe com um curvar de lábios cúmplice, lembrando-lhe como se fosse um segredo que ele havia acabado de recordar.
a resposta dele sobre o paladar nada exigente a fez negar com a cabeça, risonha. “dizendo isso você só está abrindo caminho pra que eu te use como cobaia toda vez que vir aqui. isso vai me fazer contar com você sempre pra guiar a minha jornada gastronômica. palavras tem poder, william baker.” a entonação da última frase viera na mesma de um conselho tranquilo, mas com expectativas, enquanto utilizava do ambiente descontraído que ele também parecia estar disposto a ajudar a criar pra deixá-lo confortável e fazê-lo entender que ali tinha liberdade pra se soltar. se ele risse novamente como havia feito há pouco, ela estaria satisfeita. a forma como billy também pronunciara seu nome a fez adocicar o sorriso pequeno que mantinha nos lábios pela simplicidade que pedia. esperava que ficasse confortável pra ele conforme o passar do tempo, pois desejava que mantivessem esse contato – conforme o possível, claro. não queria se meter na vida de matthew, o amigo era dele, afinal. não dela. “eu entendo... e também peço desculpas pela intromissão. eu só realmente não... é frustrante ter que ver certas coisas acontecendo e não poder fazer nada.” comentou, desabafando um pouco.
“tá tudo bem, mãe, corta esse assunto. estamos bem. isso não vai nos atrapalhar mais. a gente tem coisa melhor pra fazer e pensar.” comentou o jovem galbraith, de forma tranquila, enquanto alcançava o prato com as batatas assadas à billy, o encarando como se dissesse que não iria se arrepender por botá-las no prato. há algum tempo atrás, o discurso de matthew não seria a mesma coisa. ele estava afundando-se bem menos na autopiedade desde que conhecera alguém com quem compartilhar o peso. christine sentia-se um pouco mal. não que achasse que matthew era um estorvo para o baker, longe disso – melhor do que ninguém sabia que matt era um rapaz incrível, sensível e prestativo –, mas seu filho não era uma responsabilidade dele. pelo menos não devia ser. william parecia um jovem bom de coração e com tudo pra seguir em frente, e mesmo com os traços fortes e aparência que denotava uma personalidade fechada, exalava uma modéstia e uma sociabilidade que ela entendia como necessária pra compensar a primeira impressão que provavelmente tinha receito de passar. mal sabia ele que a galbraith que ouvia tudo com atenção e interesse já se encontrava encantada com o baker desde que ouvira falar de sua existência. “o fator experiência prática é muito importante nessa época, então aposto que está indo bem, billy.” comentou, divertindo-se quando o filho comentou que pelo menos billy tinha um emprego, sendo que ele nem mesmo estágio tinha. “tenho certeza de que quando se formar e as coisas estiverem mais claras, você vai estar melhor preparado pra quando o que você decidir escolher, de fato, vier.” christine ofereceu e serviu billy e o filho de vinho tinto, assim que recebeu as positivas, para então servir-se. “fora que você deve estar sendo modesto, o matt fofocou que você ia melhor do que ele vai agora no primeiro ano, e que seu último projeto na disciplina de desenho técnico teve uma das melhores notas. meus parabéns. matt parecia bem orgulhoso de você, inclusive.”
e em meio aos protestos de matthew alegando que fofoqueira era ela por estar falando pra ele o que o próprio filho lhe confidenciou, a galbraith riu, negando com a cabeça com tranquilidade à opinião do mais alto. sim, ele podia ser um homem enorme, mas christine se referia a outra coisa. o elogio também mexera um pouco consigo. fazia tempo que não recebia um, então isso a balançara. “certamente você é um rapaz alto, mas não acho que queira dizer muita coisa. eu acho que é a sua energia. tem gente que nasce com isso. deve ser seu caso. você tem algo aí bastante especial, senhor baker. ” as orbes verdes pareciam tentar ler billy de uma forma que ninguém mais poderia enquanto ela o encarava, mas a morena também não conseguia. só parecia saber que william ainda tinha muito pra desenvolver e mostrar e, por mais que se enganasse com algumas pessoas, ela acertava com a grande maioria. tinha puxado a essa habilidade de seu pai nesse ponto. “não me pergunte, não vou saber explicar. mas basta confiar em mim. eu costumo não errar.”
“ se isso existe mesmo, ela tem uma boa intuição, tenho que concordar.”
matthew deu de ombros, confirmando. por mais cético que fosse e tivesse uma personalidade bem mais prática, concordava que billy era uma pessoa diferente. provavelmente algo que ele só conseguiria se tentasse muito, muito mesmo. de qualquer forma, não queria o amigo sem jeito ou constrangido na mesa, e o conhecia. sua mãe estava animadinha demais. “desculpa. você não tem que se acostumar com isso tá? mãe, para de encher o saco dele, ele vai pensar que você é uma daquelas malucas dos cristais.”
“tudo bem, eu paro. eu paro.” christine levantou ambas as mãos, nada incomodada. “não sou a maluca dos cristais. e respondendo a sua pergunta, billy, no momento, eu sou mãe em tempo integral da peste do seu amigo. mas eu-... bem, eu costumava ser advogada. há milhões de anos atrás.” afirmou. podia considerar-se advogada? fazia tanto tempo.













