14 set.
Sempre imaginei que quando eu partisse ou que quando qualquer pessoa que eu conhecesse partisse, o tempo ia fechar. Literalmente fechar: nuvens escuras, chuva, ventos fortes, possíveis desastres naturais e tudo o que se pode esperar de um grande temporal. Mas não fechou. O dia estava lindo.
Bom, pode ser que em algum lugar do mundo estivesse acontecendo a tempestade que eu imaginei: céu escuro, trovoadas, raios, caos… Mas aqui, no dia 13 de setembro de 2023, na cidade do Rio de Janeiro, não fechou. O dia estava tão bonito que parecia não caber tempo para despedida. As vezes não consigo acreditar.
Talvez a morte não seja tão simbólica quanto eu pensei. Talvez a morte seja tão insossa que nem faz questão de ambientar a partida. Talvez a morte só seja e ponto final. Sem aspas, sem licença para o simbolismo e para a poesia.
Neste mesmo dia, celebrava-se o aniversário da mãe de um amigo muito querido. Nesse mesmo dia, uma amiga se preparava para um intercâmbio na Alemanha. Nesse mesmo dia, alguém nascia. Nesse mesmo dia, alguém partia.
Posso dizer que não a conhecia tão bem, apesar de saber, por terceiros, de algumas das suas limitações, queixas e problemas. Estudamos no mesmo colégio e ela era uma das melhores amigas da minha melhor amiga. Ela não gostava de mim, mas nada que me tirasse o sono. Hoje, acho que vou demorar a dormir.
Apesar de tudo, nunca lhe desejei o mal. Sempre esperei que ela pudesse se recuperar das perdas; que pudesse progredir com os tratamentos; que pudesse viver sem sofrimento. Dito isso, não quero desrespeita-la, então não acho justo compartilhar o que sei e nem quero.
O que quero dizer, além do monólogo interminável, é: momentos como esse me fazem pensar que cada palavra mal dita, que cada posicionamento conturbado pode ser um pedido de ajuda para aquilo que não conseguimos conter sozinhos.
Talvez se você estivesse sob os cuidados e acompanhamento de um bom profissional, com as ferramentas apropriadas para te ajudar, para te conduzir, para policiar quando necessário, você ainda estaria aqui. Eu sinto muito por não ser esse o caso. Sinto muito mesmo.
Sei que não tinha nada que eu pudesse fazer, porque nem se quer éramos próximas (nenhum pouco), mas a sensação de impotência me sufoca. Não sinto culpa por não ter buscado aprofundar uma relação, mas eu gostaria de ter ajudado, se possível.
Se o pós vida de fato existir, espero que descanse; espero que esteja bem; espero que o sofrimento, enfim, tenha cessado.
Enquanto escrevia esse texto, bem próximo de concluir, o tempo fechou. “A defesa civil notifica: Previsão de chuva nas proximas horas na cidade do Rio com ventos fortes e raios. Fiquem atentos aos alertas da Defesa Civil - 14/9. Emergencia 199”.
Talvez a morte não seja tão insossa assim.
Eu sinto muito.
Descanse em paz.
















