O passar dos anos só havia servido para uma coisa: Ensinar a Cordélia que sua teimosia prevalecia acima de todas suas qualidades e que ela, mesmo após tanto tempo, definitivamente nunca aprendia. A ter o pulso firme, a não adotar amigos de almas fragilizadas para si, a não desapegar-se da poesia nas tragédias, a ver-se como uma mulher segura, e a comportar-se diante de Hector.
Madeline havia conhecido o francês em seus anos de Hogwarts, quando tinha dezessete anos e uma vida de sonhos pela frente; e diante do sotaque charmoso do rapaz e o campo magnético que era sua personalidade, a garota jamais aprendera a comportar-se como alguém segura de si. A filha dos Bulstrode jamais soubera lidar com rapazes bonitos, e aceitar as palavras de Hector, sobretudo a realidade de que elas eram dirigidas para ela, era algo que Cordélia não pudera fazer tão depressa. E anos após aquela primeira experiência, a ruiva continuava não fazendo.
Ela queria rir de tudo o que ele dizia, mas não porque o que ele falava era engraçado. E sim porque cada palavra dele causava um rebuliço dentro dela. Como ele podia afirmar aquelas coisas com tamanha certeza? Como ele podia enxergá-la daquele modo? O francês era um dos homens mais charmosos que conhecia, capaz de ganhar o mundo com seu sorriso, e ainda sim ela ouvia-o agradecer à ela por estar onde estava, quando deveria ser o contrário. Cordélia sabia que ela não era nada sem seus amigos. Após o sumiço de Regulus, a ruiva caíra em desgraça, e se não fosse por Christine, Ambrose e Hector, ela jamais teria se reerguido. E mesmo reerguendo-se, mesmo após aceitar que tinha chance de correr atrás de seus sonhos ao entrar na faculdade, seu envolvimento breve com um colega de campus trouxera a notícia da gravidez. Ali, mais uma vez, Madeline achara que seu mundo estava prestes a despedaçar. Como diabos ela seria mãe? Mas Christine havia lhe apoiado o tempo inteiro, e quando ela teve Celia, soube que aquela havia sido a melhor decisão de sua vida. A pequena garota iluminava seus dias e Cordélia acreditara que sua vida seria ela, Christine, Ambrose e Celia pelo resto de seus dias. Até Hector aproximar-se de novo, e ela entender que ser uma mãe solteira não era motivo de afastamento para o rapaz.
Todavia a despeito de tudo aquilo que ocorrera, era ele quem agradecia ela por tê-lo ajudado a encarar sua própria vida, quando a dela só estava nos eixos de novo também pelo apoio do rapaz. Por aquela razão, e pelo calor que pintava de rubro suas bochechas toda vez que ele a elogiava, Cordélia queria rir com Hector. Negar suas doces palavras, dizer-lhe que não havia nada demais no que fizera, ou no que escolhera vestir naquela noite. Mas ele era tão teimoso quanto ela, e aquela guerra era uma que Bulstrode não podia vencer.
Naquela noite, tivera a chance de estreiar sua primeira peça. Ou pelo menos a primeira peça em que ajudara a produzir integralmente, ainda que não fosse sua em termos de roteiro. Depois de terminar a faculdade, a ruiva conseguira um trabalho em um teatro trouxa, e sua antiga paixão por aquele universo a ajudou a crescer ali. Depois de meses, Cordélia vivia para aquele lugar. Para sua equipe e seus amigos de trabalho, para os atores mirins e cada responsável pelo cenário e figurino. Pelo zelador que varria o palco após as peças e para cada pessoa que trocava um agasalho por um ingresso, e ocupava então um lugar nas fileiras de bancos vermelhos ao longo do local. Cordélia respirava o teatro e, naquela noite, ficara evidente que o teatro a respirava também.
A peça havia sido um sucesso, e se a ruiva já tinha motivos para chorar com a recepção do público e o carinho de sua equipe, Hector e suas flores proporcionaram mais uma razão para as lágrimas nos olhos azuis da inglesa. Anos depois e ele continuava um bobo, capaz de levitar garotas de seus pés com uma palavra; ainda que Cordélia não conseguisse aceitar que ela fosse uma daquelas meninas. Ele podia ter tantas paixões… Por que insistir nela? Vencer suas inseguranças ainda era algo difícil para a ruiva, e por tal razão ela não conseguia ver o que tinham como algo de fato afetuoso para além da amizade. Ela já se achava tão sortuda de ter Hector como seu amigo outra vez, como alguém que assistia todas as suas peças mesmo quando ela havia ajudado somente no figurino e mesmo quando ele nem sequer estava na cidade. Parecia soberbo acreditar que ele pudesse ter algum interesse nela outra vez; quando a hitória breve de ambos acontecera no passado. Mesmo amando Celia com toda sua alma e todo seu ser, Bulstrode ainda não acreditava que homens charmosos de fato quisessem algo com mulheres que eram mãe solteiras. Não importava o quanto Yaxley já tivesse, desde o primeiro encontro de ambos, quebrado seus medos e estereótipos com cada conversa.
Daquela vez, entretanto, Cordélia aceitara sair com ele. Talvez fosse a emoção da noite, a felicidade e a sensação de realização que a tomavam. Ou talvez fosse o fato de que ele nunca parecera mais charmoso, e que aquela noite parecia pedir por um momento deles. De qualquer forma, Cordélia aceitara. Christine estaria em casa com uma Celia adormecida, não haveriam perigos. E a ruiva poderia sempre compensar as coisas com a loira ao ajudá-la a sair com Brosey escondido do olhar da família conservadora. Aquela noite deveria ser de Cordélia e Hector, em nome da amizade que tinham, do romance que tiveram. Do que quer que estivesse na estrada da vida eles, esperando por vir.
Após combinarem que um restaurante seria tardio demais naquele horário, a ideia de irem até o apartamento de Yaxley fora aceita em unânimidade. Cordélia apenas afastara-se para despedir-se de toda sua equipe, aplaudir e abraçar cada envolvido na peça, e distribuir algumas de suas tantas flores para cada integrante ali, antes de voltar até Hector. O casaco em seus ombros, a bolsa em seu braço, uma única flor em sua mão e o sorriso envergonhado, mas ainda imensamente satisfeito, nos lábios. – Still sure about it? Eu realmente não quero ser a causadora de uma notificação de barulhos tardios no seu prédio. – Um pouco incerta, mas com um tom leve de diversão na voz, Cordélia disse. Roubando um segundo para pressionar a arcada no lábio inferior, antes de suspirar em um sorriso mais suave. – I know I said this before, but… Thank you for all of this. Again. – E aproximando-se um pouco mais do francês, a ruiva esticou seu braço livre para que ele encaixasse este com o seu; seu rosto virando-se minimamente para o dele afim de indagar com o mesmo sorriso anterior. – Shall we, monsieur?
Mesmo viajando muito, Hector, sempre tivera a dificuldade em achar um lugar onde ele pertencesse. Quando ainda garoto ele procurava em todos os lugares uma forma de poder se adaptar as inúmeras situações. Se precisassem que ele estivesse em um grupo influente de jovens ascendentes da sociedade bruxa, ele sem dúvidas, o faria assim como seu avô havia pedido. Se precisassem que ele se transferisse para Hogwarts, em busca dos antigos privilégios de sua família, ele também o faria. Ele sempre fora alguém adaptável. Diferente de sua irmã, que não poupava em reclamações, Hector cumpria seu dever. Era o mínimo que ele poderia fazer em retorno de tudo que havia sido investido no garoto desde pequeno. Não poderia se virar a quem lhe tratou tão bem, e decidir tomar um caminho diferente.
Pelo menos, era assim que ele pensava até ir para Hogwarts. Sua ida para o castelo não poderia ter sido em melhor horário, ainda assim, Hector não conseguia largar o sentimento que ele havia feito decisões erradas. Ele queria poder refazer muitas de ações, mas tudo que ele havia feito era em prol de estar em um grupo popular, e agradar seus pais. Em Hogwarts, era muito mais claro que ele não era o único preso naquela teia de aranha que era a sociedade bruxa. O diferente era que havia uma resistência, e como Hector pode aprender ali. O garoto mesmo ainda abaixando sua cabeça pode entender que ele precisava ser honesto consigo. Ainda que seu avô tivesse cuidado de tudo, e acobertado para que nada fosse relacionado ao Yaxley não era assim tão fácil.
Foram muitas pessoas que mostraram para Hector que ainda havia tempo de mudar. A pessoa mais influente, sem dúvidas, havia sido Cordelia. Por isso, ele continuava ali. Fora com ela, e naquele castelo que ele havia encontrado pela primeira vez o pertencimento. Não era o mais aconselhado, ele nunca deveria pertencer a algum lugar. Seu destino era continuar viajando e cuidando de todos os negócios de sua família. Ele nunca jogaria todo aquele peso para Mirabelle. A irmã merecia ser livre, e ele estava preso ao fardo de ser um dos herdeiros da fortuna que acumularam na frente. Mesmo não odiando o que fazia, Hector sempre se perguntava o que teria acontecido com ele, se depois de resolver seus problemas, ele jogasse tudo para o alto. Ele não tinha essa coragem, mas ele também não afastaria as pessoas que havia ficado tão próximo. Por isso, não fora difícil comprar um apartamento no Reino Unido, e poder ajudar aqueles que tanto ajudaram.
Quando foi embora, após, o desaparecimento de vários bruxos, entre eles, o grande amigo de Cordélia. Hector pensou que nunca mais teria lugar na vida da mulher. Ele nunca deveria ter a abandonado. Ele estava lá durante boa parte do tempo que Cordélia precisava, e tudo que pode fazer para que a garota não acabasse seguindo um caminho muito pior. Pensando atualmente, Hector percebeu que poderia fazer ainda mais por ela. O problema era, Cordélia mesmo com todos os problemas que tinha os enfrentava. Ele imaginava que nada pudesse destruir a Bulstrode, e ele havia visto a mulher se levantar de algo que se tivesse acontecido com sua irmã, ele não conseguiria. Cordelia sempre fora mais forte que todos eles, na perspectiva de Hector. Isso não vinha de uma sociedade bruxa atrás da garota, ou de fazer o que lhe era esperado. Cordelia era assim, por razões desconhecidas a Hector. Ela tinha sua própria chama que fazia até mesmo o sol ter inveja de tão forte que a garota era, e do quanto ela poderia fazer bem a todos a sua volta. Mentindo, e lutando contra seu passado, Hector nunca estaria sequer em lugar de poder conversar com alguém tão forte. Fora por causa dela que ele havia decidido enfrentar tudo que seu avô havia acobertado. Por mais que seu envolvimento tivesse sido pequeno no acidente, ele estava lá, e não havia feito nada. Por muito tempo.
Acreditava que nunca poderia ver a garota brilhar tanto quanto em seu último ano em Hogwars. A forma como ela conduzia as coisas, e como os olhos da garota poderia deixar qualquer estrela do seu enciumada. O que eram estrelas durante a noite quando se estava em companhia de Cordelia Bulstrode? Hector nem mesmo sabia o que fizera para merecer alguém tão boa em sua vida. Ele estava completamente enganado, pois em cima do palco agradecendo por todos que compareceram a sua peça, Hector vira um brilho completamente diferente. Era muito diferente do brilho que a mesma carregava enquanto eles se conheciam quando jovens. Uma beleza que mesmo visitando milhares de galerias de arte, lendo livros sobre pintores, Hector nunca havia visto. Não conseguia comparar a nada. Cordélia era única. Ainda assim, a mesma não conseguia enxergar o quanto era magnifica. O que deixava Hector intrigado com o jeito da garota. Quando conversavam ou estavam juntos não pareciam adultos, e sim dos adolescentes estranhos que achavam ser pequenos em mundo tão grande. Hector ao menos esperava que Cordélia soubesse o quão grande era ela, e que ela nunca fora destinada a pouca coisa. O que era dela, era muito maior que seus problemas.
Estar ali era incrivelmente fácil para Hector. Ele não precisava impressionar outras pessoas, ele não precisava demonstrar seu amplo conhecimento em terras ou tentar convencer novos investidores. Poderia ser simplesmente um espectador, fazendo algo importante para alguém que se importava. Não imaginava que Cordélia ainda fosse a mesma, e que tivesse tempo para um viajante como ele. O que ele fazia ainda era pouco com o que a mulher merecia, e mesmo que Cordélia negasse ela merecia os aplausos, e todas as flores que ele havia encontrado. “Acho que não teremos esse problema. Vou me sentir ofendido se você não for. Sem contar que Celia está louca para conversar com você sobre as coisas dela, e como você vai poder conversar se nunca foi lá?” Usar Célia era um golpe baixíssimo, mas sabia que somente de mencionar a garota, Cordélia não recuaria tanto. Ele amava a filha de Cordélia, em uma escala quase maior do que amava Cordélia. A pequena garota conseguia conquistar o coração de qualquer um. Sem contar, que ela parecia uma pequena fada dos livros que lia quando menor. “Falando nisso, acho que Christine está fazendo um ótimo trabalho. Eu jurava que quando fosse encontra-la novamente ela estaria usando coturnos e jaquetas militares. Fiquei extremamente feliz em saber que ela gostou das pequenas asas que eu trouxe para ela. Não sei se você acabou vendo. Pelo menos quando ela estava comigo ela usou e ficou parecendo uma pequena fada. Ou ela realmente gostou, ou foi muito educada.” Comentou ao se lembrar. Sempre que podia ele enviava presentes a menina, e um pouco antes da peça de Cordélia ele pode visita-la, e lá estava a garota usando seu presente.
Por mais que seu avô quisesse que o garoto tivesse já se casado, Hector, havia adiado aquilo. No começo, ele havia muitas coisas para resolver. Depois, ele concluiu que não seria justo. Ele não precisava se casar por conta de fortuna. Havia conseguido aumentar consideravelmente com poucos anos as propriedades que tinham. Não seria justo, pois Hector sempre acabava viajando muito. Fazer com que sua esposa viajasse com ele o tempo inteiro ou prendê-la em um lugar enquanto ele trabalhava seria cruel. Enquanto seu avô não insistia naquela história novamente, Hector estava contente em fugir dela. O problema era que toda vez que ele via Célia, ele imaginava que seria assim quando tivesse uma filha. Ele queria que a garota fosse tão maravilhosa quando a pequena garota. Porém, sabia que seria pedir demais ao universo. De toda forma, ele já era grato por simplesmente fazer parte da vida de Célia.
A mulher sempre tivera mais facilidade em guia-lo do que Hector. Então logo encaixou seus braço no da mulher que estava lhe esperando. “Não é tão longe daqui se quiser ir andando, mas podemos aparatar. Você decide, mas sabe está uma noite linda lá fora. Claro, aquelas coisas lá no céu, como se chamam? Ah, lembrei, as estrelas. Elas não são nada comparadas com você, mas acho que você não sai muito para fazer inveja a elas. O que acha de brilhar um pouco?” Um sorriso um pouco torto estava nos lábios do antigo aluno da Ravenclaw. “Quanto as flores, foi algo pequeno, está bem? Você merece muito mais.” Com isso, o mesmo foi até um dos arranjos mais perto dele, e pegou duas flores. Então voltou para o braço do mulher. Colocando uma no cabelo da mesma, e entregando uma outra sozinha para ela. “Acho que assim você acaba não se esquecendo de mim.” Ter uma oportunidade como aquela ainda era algo estranho para o Yaxley. Sempre pensou que no momento que fosse embora nunca mais conseguiria voltar. Algumas vezes era muito bom estar errado.