“Sim, traíste! Descartou-me quando não me fiz necessário a vossos planos” disse com amargura, voltando a encará-lo com o coração tão ou mais apertado do que as mãos que o prendia no lugar. Sentia-o tentar se livrar daquilo, livrar-se dele, de seu confronto, de sua presença, mas não o deixaria fugir novamente sem que ele ouvisse tudo o que tinha a dizer.
“Vossa alteza pode pronunciar vosso discurso para quem quer que seja, mas não para mim. Eu o conheço melhor do que qualquer um nesse castelo. O conheço bem o suficiente para saber que não pensas no bem de ninguém além do vosso próprio.” sussurrou, sabendo que suas palavras eram dolorosas, porém reais. Sempre passou tanto tempo dando a ele o benefício da dúvida, encantando-se pela doçura de seu olhar e de seu sorriso, que agora, movido pela mágoa, era como se tudo não passasse de pura ilusão de um coração apaixonado.
“O que o motivas é sempre vosso prazer, vosso poder. Catarina é seu troféu, enfim conquistaste aquela que não se rendia a vossos encantos. Não sei se ela está ciente do sacrifício que aqueles que o amam fazem em nome deste maldito sentimento.” disse, enfim soltando-o e afastando-se com um passo para trás “Creio que vossa estratégia apenas prova o quão…dispensável me tornei para vossa alteza.” os olhos âmbar de Tristão brilhavam por lágrimas não derramadas, antes que o general fizesse uma reverência exagerada ao seu rei “Creio que a decisão mais digna e mais sensata que me resta tomar é renunciar ao meu cargo atual. Vida longa e próspera, rei Rodolfo.”
Mais lágrimas que não conseguia segurar escaparam de seus olhos, cada palavra servindo como um tapa na sua cara. Mas, mesmo assim, Rodolfo se recusava a se render, tinha que fazer Tristão entender.
“Não... Não é nada disso...” Tentou, num fio de voz. “Eu não te descartei, eu apenas...” Fechou os olhos, não aguentando mais a visão de Tristão zangado consigo. Será que ele não entendia? Tudo aquilo não tinha a ver com Tristão e a única coisa que havia feito era tentar evitar que ele soubesse certas coisas. Era tão errado assim? Nada tinha que mudar entre eles e entretanto, Tristão parecia até mesmo tomar dores que não eram suas.
E seus pensamentos, fruto de sua forma teimosa e egoísta de pensar, foram se transformando em raiva pela maneira como Tristão estava lhe tratando. Montemor estava bem agora! Tinha água! Importava tanto assim o modo como ele fez para conseguir isso?
Voltou a abrir os olhos quando foi solto, sendo atingido novamente pelo olhar machucado de Tristão que não conseguia entender ou simplesmente se negava a enxergar o que estava na sua cara.
Quando Tristão se afastou foi como se seu coração perdesse o compasso e Rodolfo foi tomado de um sentimento urgente de faze-lo ficar custe o que custar.
“Tristão! Não ouse!” Ofegou como se tivesse acabado de correr uma maratona. Passou as mãos rapidamente pelas bochechas ainda molhadas, o rosto se tornando cada vez mais avermelhado, mas não só pelas lágrimas. Avançou na direção de Tristão, como se realmente fosse capaz de fisicamente pará-lo. “Não podes fazer isso. Você ainda é um subordinado nesse castelo e a menos que eu te dispense você não pode simplesmente dar as costas a mim! Eu sou o seu rei!” Disse erguendo a voz, usando um tom raivoso que jamais tinha usado diretamente contra Tristão antes. “Seu dever é puramente me proteger e não ficar dando seu parecer sobre o que eu faço com o meu reino ou a minha vida! Você jurou, jurou ficar ao meu lado para sempre, dar sua vida por mim! Seu único dever é para com Montemor e ao seu rei! Ou quer ser declarado um traidor, tal qual Afonso? E não pense que eu o salvaria da morte, ou que alguém mais o ajudaria! Se ainda é um soldado honrado, o minimo que deve fazer é manter sua palavra e sua lealdade. Ou tudo que você falou era da boca para fora?” Foi se aproximando conforme seu discurso seguia e ao dizer a ultima parte já estava bem perto dele. “Você é meu, Tristão! Meu! Você não pode me deixar!” Num gesto um tanto violento, puxou Tristão para um beijo possessivo e raivoso.
Não, Tristão não podia deixá-lo. Nunca. Toda sua agressividade no fundo era medo. Medo de ser abandonado por pessoas que ele amava. De novo. Não queria machucá-lo. Mas não podia negar que seria capaz de tudo, até mesmo prendê-lo no calabouço para sempre, apenas para não permitir que ele se fosse. Ao contrário dos pais, ou de Crisélia, ou de Afonso, Rodolfo podia realmente fazer algo para que Tristão não se afastasse. E mais uma vez, seus desejos pessoais falavam mais alto.