Meu tio Samuel sempre foi considerado estranho.
Mas em Midnight Hollow isso nunca significou muita coisa.
Ele passava horas conversando com as flores do jardim.
Às vezes ficava parado olhando as rosas balançarem com o vento como se estivesse esperando uma resposta.
E o pior é que parecia receber.
Meu tio tinha aquele tipo de loucura silenciosa.
Risadas sozinho no corredor.
Experimentos questionáveis feitos no próprio corpo.
Quase toda semana alguma coisa explodia.
Uma vez ele apareceu na cozinha completamente eletrocutado, com fumaça saindo da manga do casaco e o cabelo levantado.
“Funcionou quase perfeitamente.”
Foi tudo que disse antes de pegar as tais jujubas mágicas.
Ele era obcecado pelas tais jujubas mágicas.
Com cheiro de produto químico e açúcar queimado.
Samuel dizia que elas ajudavam a “abrir caminhos”.
Ninguém perguntava caminhos para onde.
Foi no trabalho que ele conheceu Olívia.
Ela chegou perto dele primeiro.
Daquelas bem infantis mesmo.
Ele encarou ela por alguns segundos com aquele olhar perdido e meio assustado dele.
“Essa mulher é mais louca do que eu.”
Foi provavelmente ali que ele se apaixonou.
Samuel sempre falava sobre portais temporais.
Sobre versões antigas da cidade.
Sobre pessoas que existiam em lugares errados.
Às vezes ele parava no meio da frase e ficava olhando para o vazio.
Como se tivesse esquecido em qual ano estava.
O primeiro encontro deles foi no cemitério.
Ele convidou Olívia como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
E ela aceitou como se fosse também.
No começo da noite ele ficou genuinamente irritado porque ela não tinha cabelo preto.
Então ele apareceu segurando um buquê torto de flores meio mortas e ela acabou sorrindo.
Meu tio tinha esse dom estranho de irritar e encantar ao mesmo tempo.
Depois eles foram até a cabana da Madame Mersi.
A cigana mais esquisita de Midnight Hollow.
A fumaça dentro da cabana tinha cheiro de vela derretida e chuva velha.
Ninguém saía de lá exatamente igual.
Quando Olívia saiu da consulta, desmaiou na lama.
Samuel ficou desesperado.
Começou a gritar o nome dela tão alto que os corvos levantaram voo das árvores.
Ela acordou assustada quase na mesma hora.
E logo depois, por motivo nenhum aparente, tirou a roupa e saiu correndo pela rua.
Olívia apontou para ele e começou a rir.
Daquela risada que desmonta a pessoa inteira.
Meu tio olhou para trás esperando vergonha.
Mas encontrou felicidade.
Então ela tirou a roupa também.
E os dois saíram correndo pela estrada escura de Midnight Hollow, gritando e rindo como duas crianças completamente fora da realidade.
A neblina engolindo os dois.
Os vizinhos fingindo não olhar pelas janelas.
Foi provavelmente a cena mais romântica que já aconteceu naquela cidade.
Depois disso ele trouxe Olívia para morar com a gente.
Ela era bem mais nova que ele.
Quase da idade do meu irmão.
Papai odiou imediatamente.
Ele dizia que ela só queria nosso dinheiro.
E Midnight Hollow adora transformar infelicidade em fofoca.
Não demorou para a cidade inteira começar a repetir isso nos mercados, nos corredores da prefeitura, nos velórios.
Mas eu observava Olívia às vezes.
Do jeito que ela olhava para Samuel quando ele começava a falar sobre viagens no tempo.
Do jeito que ria das caretas dele.
Do jeito que segurava a mão dele durante as tempestades.
E talvez amor em Midnight Hollow seja exatamente isso.
Encontrar alguém tão quebrado quanto você.
E decidir correr junto assim mesmo.