Tudo acabou. E o que não acabou, se dissolveu. As memórias perderam o sabor, as músicas se tornaram ruído. Eu tive que aprender a viver sem celebrar aquilo que só existe em mim. Apaguei as lembranças como quem sopra a fumaça de um incenso — fingindo que não ardeu.
Te vi de novo, sabe? Mas não era você. Era o seu reflexo em uma xícara de chá de hortelã. Um vulto espreitando nas bordas do que poderia ter sido. Ali, no fundo da porcelana quente, eu vi o que não foi. Uma escolha minha. Uma decisão sua. E tudo se converteu no nada.
Só que o chá de camomila me contou outra história. Me mostrou caminhos que eu nunca cogitei trilhar. Me deu direção quando eu já não queria andar. E mesmo com o amargor que carrego do que um dia fui, teve doçura. Uma doçura silenciosa.
Mas aí… você reapareceu. Não em carne, não em gesto. Em sombra. No ponto exato onde eu ainda fraquejo. E me ofereceu um chá. Um convite quase místico. A luz atravessava as folhas das árvores e tocava seu rosto como se a natureza ainda ousasse te lembrar bonito. Você ali, com uma xícara fumegante nas mãos.
E entre todas as almas vivas que existiam naquele instante, eu só conseguia olhar pra morte.
A sua.
Ou talvez, a nossa.
Porque tem coisa que continua ali, mesmo depois de ir embora. Um cheiro. Um som. Uma lembrança impregnada nas paredes do peito. Você virou isso: um espectro. Um eco. Um fantasma que só eu vejo.
E entre todas as possibilidades do que ainda posso viver, continuo me perdendo no que já morreu.
- Zowell













