me sento sobre o saco de merda composto das minhas piores escolhas
exatamente aqui, agora, escolho enfiar em uma das caixas de doação os cinco livros que, cuidadosamente, colecionei da poesia de Drummond
havia um sonho naquela época que já não mais se move. está morto. como tantas outras coisas em mim
tenho evitado pensar nos meus buracos
preencho o tempo com filosofia e com aspirações de pessoas cinzas
um futuro mora na borda do meu olho,
mas o aqui e o agora,
irmão,
o aqui e o agora,
é o lugar perfeito para se planejar uma fuga
para cavar a parede com uma colher
para rasgar os punhos aumentando um túnel
para sangrar o caminho inteiro até o desconhecido
o aqui e o agora.
este espaço que demorei tantos anos pra notar
sempre nas indas e vindas — o que se foi, o que vai ser
é um entre
é um vão
e o barulho do meu coração pulsando sangue para todo o meu corpo
se torna suficientemente alto para me colocar à beira do precipício da loucura
o amanhã vai ser melhor.
eu sei, mas ele não mora nesse entre
nem o minuto seguinte mora aqui
o entre em que comecei a escrever
já não é o entre em que termino este texto
mais um texto
pra guardar no saco de merda
sobre o qual eu me sento.
























