A vela sobre a relva, por Hugo Simões (@1levezinho)
A primeira de muitas historias que irei escrever. Dedicado á Tânia que mesmo no meio de uma depressão me consegue inspirar, apesar de nunca me corrigir os textos como lhe peço.
Era lua nova. Uma escuridão absurda em qualquer direcção em que olha-se, e enquanto os seus olhos se habituavam, na esperança de que aquela gravilha que parecia ser moída a cada passo que dava não chegasse a um fim e o fizesse cair numa das muitas covas que imaginava haver á volta dele, não conseguia deixar de pensar no peso no peito que sentira meses antes.
Era um rapaz normal com cabelo a tapar lhe os olhos, barba rala, com pouco menos de um metro e oitenta e tão magro como alguém normal poderia desejar ser, não era escanzelado como a avo lhe chamava mas o significado de músculo era algo completamente desconhecido para ele. Acabara o liceu com boas notas e tinha de decidir onde seguir os seus estudos, mas como é que alguém tão socialmente introvertida podia decidir o sitio onde ia passar os próximos 3 a 5 anos da sua vida? O único sitio que para ele fazia sentido era a terra natal dos seus pais, mas não importava de que maneira pensasse no assunto era sempre como levar um soco no peito e perder todo o oxigénio no corpo, não pelo seu pai ter morrido no acidente de condução nesse mesmo sitio, ele era uma criança e do pouco de que se conseguia lembrar era das palmadas que levava quando fazia uma das suas sessões de equilibrismo na varanda da sala de jantar, nem pelo facto de que sempre que iam visitar a família a conversa da mãe acabava sempre por ser uma lista de criticas as forças policias locais, ela ficava simplesmente furiosa com ideia de como uma pequena cidade no nortenha podia ter a maior taxa desaparecimentos no pais da ultima década. Talvez fosse pela arquitectura do lugar, o castelo, o cemitério e os edifícios históricos da baixa,mas fosse pelo que fosse havia sempre um lugar que o deixava mais calmo. O pólo universitário tinha apenas uma dúzia de anos e não percebia se era pelo seu aspecto moderno ou pela enorme biblioteca onde ele passava os seus dias nas ferias, mas estava familiarizado com o lugar e se havia um sitio onde ele acha-se que ia sobreviver, era ali.
Era lua nova. Reinava o silencio no dormitório e o quarto onde estava não era diferente a não ser talvez no arrepio que lhe corria a espinha sempre que espreitava pela janela, era lua nova, era impossível distinguir o que fosse a não ser alguns vultos que passavam rapidamente pela rua e o seu quarto não era diferente. Finalmente adormeceu. O que sonhava era uma incógnita, se pudesse responder durante o sono o que lhe passava na mente talvez o que lhe tirariam da boca não seria mais do que um ranger de dentes envoltos pela escuridão natural da mente humana mas sem duvida que se possível descrever os terrores que assombram a mente humana, gritos paralisantes a raiar a demência seriam a descrição perfeita. Acordou ofegante sem perceber o que se passava ao seu redor apenas conseguindo distinguir o raspar de uns passos pesados a tentarem ser leves antes antes que a força da corda a ser atada em volta do saco que lhe foi empurrado pela cabeça fosse atada. Resistiu, mas a força dos seus atacantes era maior. Conseguiu por-se de pé apoiando-se no copo sobre a mesa de cabeceira, um copo alto, não foi feito para ter a pressão de um adolescente sobre ele. A dor dos vidros a espetarem-se na palma da mão fez com que cambalear-se para frente e fosse de cabeça contra a cómoda.
Estava tonto, quase entrou em pânico ao ouvir os seus dentes a bater de frio no vazio da noite, quando respirava sentia o pano que tinha sobre a cabeça a bloquear-lhe a boca. O pouco ar que lhe sobrava foi usado no grito furioso que soltou quando tentou libertar-se do saco, a dor na mão era intensa. Soltou-se. Estava completamente escuro, mas apesar de conseguir distinguir perfeitamente os contornos que o rodeavam, apesar das dores que sentia e do nervoso que crescia dentro dele por ser ter apercebido onde estava, nada disso importava, a uns metros dele, bloqueada por uma lapide, saia uma pequena luz, e isso era importante. Tentou andar em linha recta, mas como se o castigassem e o seu estado não chegasse, o chão estava cheio de gravilha. Tropeçou e caiu duas vezes antes de chegar a luz, moída pelas pedras em que cairá nesses instantes, e o barulho, o barulho que aqueles pequenas pedras faziam ao rasparam umas nas outras, era o único som que ele odiava, odiava quase tanto como o lugar em que estava. Ah frente da lapide estava um perfeito rectângulo de relva com uma vela branca espetada na terra a direita do que deveria ser o centro. Um cartão estava ao lado da vela. A frase era simples e com apenas um objectivo, encontra a saída e junta-te a nós. Pegou na vela, mas a cera que escorria por ela queimou-o fazendo com que caísse se apagasse no chão, e o mais provável era ele começar a chorar neste ponto se não tivesse já percebido o que se passava.
As famosas praxes, mas porque de todos os lugares ali? Só tinha estado ali uma vez, no funeral, mas sabia que só havia duas saídas e a que se encontrava atrás dele estava fechada. Aquela cidade transmitia-lhe um desespero que só sentia nos seus sonhos, mas aquele lugar, aquele dava todas as voltas ah sua imaginação. Se não lhe dissessem o que estava enterrado em todo aquele chão e criptas talvez fosse o jardim mais bonito que vira com os seus quadrados de relva, corredores intermináveis de árvores e flores em volta de todas as pedras, todas elas perfeitas na forma. Mas era um cemitério, debaixo de cada raiz havia um corpo em decomposição, as árvores eram velhas e as suas sombras mostravam todo o tipo de monstros e as flores estavam secas pelo tempo ou descoloradas porque esta nova sociedade já nem acha importante prestar tributo com coisas vivas, mesmo que seja aos mortos. Mas apesar disto o que achava realmente bizarro era a disposição circular dos túmulos e sempre em grupos de treze. Não era supersticioso mas sabia que nenhuma ideia assim podia ter um resultado cristão.
Chegara as portas da capela e sabia que nas traseiras estava a segunda saída. Sentia as ideias rodopiar a sua volta. Não havia sombras, estava demasiado escuro, mas conseguia vê-las tão claramente como na mais perfeita das luas cheias. O som das pequenas pedras por debaixo dos seus pés criavam arrepios no seu corpo como um cubo de gelo pelas costas. A respiração continuava pesada e a mão doía e mesmo que não a conseguisse ver e as vezes a dor desaparecesse, sabia que não devia estar a melhorar nem um pouco.
A capela estava ali mas havia um assunto mais importante a resolver, a sua esquerda uma luz tinha-se acendido e ele já corria na sua direcção, a capela já não era importante, talvez estivesse ali alguém na mesma situação e mesmo se não soubesse se ia ajudar ou ser ajudado ele tinha de ir. a vela estava no chão, aos pés de uma rapariga de cabelos comprimidos. Parara de correr a um metro dela. Não sabia o que dizer mas antes que pudesse sequer chegar a essa conclusão unhas finas com alfinetes estavam a agarrar a sua mação de Adão, e antes de qualquer reacção ela tinha-lhe cortado o olho esquerdo. Estava cansado, incapacitado e sozinho e a única coisa que lhe passou na cabeça era poder despedir-se do pai que devia estar ali por perto naquele mesmo cemitério. Mas se ele conseguisse falar, e o pai estivesse ali para ouvi-lo, a única coisa que ia escutar era um grito de dor de como se se ouvia no inferno.