Algumas Primeiras Impressões
Acordei nervosa. Tomei banho, nervosa. Tentei comer algo - nervosa -. Não era pra menos, afinal, a primeira entrevista oficial da minha vida iria acontecer naquele dia. Sim, a primeira. Sim, já tinha estagiado em outro lugar e não, não houve uma entrevista de verdade, uma vez que eu já sabia que a vaga era minha. Enfim, saí de casa três horas e meia antes do marcado, porque sou "dessas": prefiro chegar cedo a chegar tarde - a verdade é que eu tinha medo de pegar o ônibus errado ou não encontrar a rua a tempo -.
Cheguei uma hora antes do marcado na rua do prédio, então fui tentar - só tentar mesmo - comer alguma coisa. Eu sempre fui assim, ansiosa demais. Meia hora depois lá ia eu caminhar na rua Padre Chagas. Disseram-me que é a rua mais rica/chique/exuberante de Porto Alegre. "É, bicho, é a rua mais chique". Entre esse pensamento e olhadas arregaladas para os carros, me atentei para o número dos prédios: 300 e pouco. Eu precisava estar no 66 em meia hora. "Santo Deus, vou me atrasar". Caminhei mais rápido. Dez minutos depois, olhei pro outro lado da rua e vi os números 65 e 67. Olhei pro meu lado, 66. Entrei suando, arfando. Sentei no saguão e comecei a me abanar. Decidi não subir vinte minutos antes porque não queria parecer a chata-que-chega-muito-antes. Dez minutos antes era razoável. Subi.
Dou de cara com a sala 405 e com um problema: a porta. "Como vou bater nessa porta enorme de vidro? Só tem uma partezinha de nada de madeira. Tem uma campainha ali, mas e se não for dessa sala? Imagina a porta da sala 406 abrindo e eu vou dizer o quê? 'É aqui que pediram uma pizza?' Não, não: 'é aqui que pediram uma estagiária?'. Tá, Vitorya, foco. Vou tentar.... dar um toquezinho de leve". E espero. Vejo uma silhueta se aproximando e a porta abre com uma moça sorridente, que diz "quase nem ouvi tu bater! Prazer, Rossana".
O ambiente não poderia ser mais amigável: vejo uma coluna azul e colorida, cheia de fotos e adesivos de naves espaciais coladas - ahhhh... Nave é o nome da agência..." -, algumas mesas dispostas com muitos, muitos, muitos lápis e canetas em cima, dois sofás de cores diferentes, várias revistas, livros, bloquinhos de anotação etc. Então surge uma voz, do nada, quase fantasmagórica: "Vitorya, tu chegou mais cedo, né?". Respondo tentando não transparecer o nervosismo - sim, ele ainda existe -: "ah, sim, cheguei vinte pra uma". "Ah, bom" responde. Rossana e A Voz conversam coisas que eu não entendo, algo sobre alguém que responde os emails. Não consigo ver quem fala por causa da estante cheia de livros. A Voz volta a se dirigir a mim: "Vitorya, nós vamos te enrolar um pouquinho, porque a Mari ainda não voltou. Espera aí, tá?" "Claro, claro, não tem problema". Claro que não tem problema, Voz. Elas continuam conversando, até que alguém que eu acreditava ser a Mari chega e bate na porta - penso: "eu preciso aprender a bater na porta assim se quiser trabalhar aqui, tá decidido" -. Era a Mari. A entrevista começa.
A Mari, que é Mariana, senta ao meu lado no sofá, Rossana na minha frente, ao lado da Voz - que é Lucia, moça que troquei alguns emails antes de chegar ali -. Ela conta: "vamos te avaliar de frente e a Mari de perfil. Logo chega uma pessoa pra te avaliar de costas, pelo outro ângulo". Ela diz que gostou do meu entusiasmo nos emails, mas preocupou-se com a distância. "A bolsa não é lá essas coisas, poxa, 400 reais mais 100 de vale transporte... é quase trocar seis por meia dúzia". Expliquei que estava acostumada a passar por perrengues, que o meu antigo estágio era a 1km da avenida principal, na última rua da cidade e que isso não seria um grande problema. "É, quero ver em setembro, na chuva, no frio. Depois de um mês tu já se desespera...". É, talvez ela tivesse razão. Não poderia dizer "capaz, adoro caminhar na chuva e no frio", seria muita cara de pau.
A conversa seguiu, elas explicaram o trabalho que eu teria de fazer - clipagem, mailing, relatórios, atualizações de redes sociais... - e enfatizaram: é chato. É um trabalho extremamente chato, mas fácil. Ok, podemos conviver com isso. Ah, e não posso deixar de comentar o momento de praxe: "quantos anos tu tem, mesmo?" "tenho 17" "QUÊ? Mas, sei lá, pra mim tu tinha 26!" - confesso que já passei por isso diversas vezes na vida e nunca tinham falado essa idade. É novidade ter 26 anos, risos-.
Expliquei pra elas sobre o curso técnico em agropecuária que fiz, que não serviu de muita coisa pra área que ia seguir. Mari se interessou nisso, perguntou sobre o arroz, e eu expliquei um pouco como funcionava o meu trabalho no antigo estágio. Lucia, que já estava olhando pro relógio há um tempo, disse: "ó, marquei com a outra moça às 13:30. Tchau pra ti". Combinamos que, se eu quisesse realmente a vaga de estágio, tendo em vista todas as dificuldades, eu teria de mandar um texto falando isso.
Esse era pra ser o tal texto, e eu ainda não falei nada sobre querer realmente a vaga. Pois é.