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Eu tenho tendência de pensar nas piores possibilidades.
6 de agosto vem se aproximando e, com ele, aquela vontade imensa de que o tempo fizesse uma curva no espaço só para eu poder te abraçar bem forte de novo. Às vezes esbarro sem querer em vídeos na internet de pessoas vivendo momentos simples com suas avós, e meu peito aperta na hora. O luto é esse caminho longo, feito de dias e dias de altos e baixos. Hoje, sinto que já estou um pouco menos mal do que no começo, embora ainda existam momentos de choro desesperado. Mas hoje o que domina não é a dor crua, é a saudade. Uma saudade viva, cheia de detalhes, cheiros e memórias inesquecíveis.
Sinto uma falta diária do cheiro do seu feijão refogado invadindo a casa e daquele seu sorrisinho me chamando para tomar a primeira canequinha com você assim que ele ficava pronto. Saudade das nossas brincadeiras ao telefone, de quando eu ligava fingindo uma voz diferente para te enganar e você, com toda a sua voz doce, soltava sem hesitar: "Oi, minha princesa, eu sei que é você".
Saudade imensa de ouvir você me chamando de Lohreninha. De quando eu implicava tirando o seu andador de perto só para brincar que você não iria mais embora, e você me olhava e chamava meu pai no fundo: "Ô Beto, olha a Lohrena aqui ó!". Que falta me faz olhar para o relógio quando dá 13h e saber que, se você não ligasse naqueles minutos, eu ligaria e do outro lado da linha haveria alguém radiante de felicidade só por ouvir a minha voz.
É saudade de ter o seu colo quentinho para deitar, mesmo quando você reclamava rindo e dizia que era duro demais, de segurar as suas mãozinhas enrugadas sempre quentinhas e ouvir você dizer, com aquele olhar calmo, que um dia eu ficaria assim também. Saudade de ir na sua casa num dia de semana qualquer e te ver parecendo uma verdadeira telefonista, atendendo mil ligações durante o dia, porque todas as pessoas que te amavam faziam questão de falar com você diariamente. Vó, você era o nosso elo, a nossa base e foi você quem manteve tudo e todos unidos.
Sinto falta das suas histórias, das gargalhadas gostosas que só você dava fechando os olhinhos e abrindo aquele sorrisão iluminado. E que saudade da sua casa... Quando voltei lá depois que você já não estava mais aqui, percebi com um nó na garganta como tudo ali era pequeno e delicado, exatamente proporcional a você e eu nunca tinha percebido.
Olhando ao meu redor hoje, também vejo a minha mãe envelhecer a cada dia, e percebo como ela tem se parecido cada vez mais com você, nos gestos, no olhar, na forma de cuidar. Ver esse processo de envelhecimento de quem a gente ama é difícil, mexe muito comigo e me lembra do quanto o tempo é avassalador.
Nesses dias de tantas mudanças, em que estou prestes a dar novos passos na minha vida e na minha carreira, a insegurança às vezes tenta bater na porta. Mas quando o medo aparece, eu fecho os olhos e consigo ouvir exatamente a sua voz me dizendo para confiar, me encorajando a ter coragem e mandar eu meter as caras sem olhar para trás. Se você estivesse aqui agora, sei que ficaria toda orgulhosa, boba de alegria, dizendo para todo mundo que a sua neta é "global", exatamente do jeito que meus pais brincam comigo e me pedindo para descrever em detalhes cada coisa que estou vendo para você imaginar quando eu te falasse sobre.
Fico me perguntando se, de onde você estiver, você se orgulha da mulher que estou me tornando. Se me acharia bonita agora que emagreci, me cuidei e aprendi a me amar mais. Escrevendo tudo isso, não sinto uma tristeza pesada, mas sim uma saudade daquelas fortes, que chegam a dar um gostinho amargo na boca. Mas sinto, acima de tudo, a certeza de que não estou sozinha. Se a espiritualidade realmente existe e eu sei que sim, eu sei que tem o seu dedo de proteção, o seu axé e o seu amor em cada detalhe que tem se desenhado na minha vida.
Eu rezo e peço tanto para sonhar com você. Eu to com TANTA saudade. Mesmo que os sonhos demorem a vir, no meu coração eu sei que seu amor continua aqui. Te amo para sempre, minha vózinha linda. Espero que de onde você estiver, você esteja bem.
A gente joga sem promessa e sem roteiro, e talvez seja exatamente por isso que funciona tão bem. Eu confesso que dei uma enrolada antes do nosso primeiro movimento, não por nada mas só em respeito ao meu próprio tempo. Mas quando a porta da casa dela abriu, entendi que o tempo certo era aquele. Ela me esperava de lingerie de renda preta e blusa folgada, andando pela casa com a calma de quem sabia exatamente o que estava fazendo. E eu fui a presa e não tive resistência nenhuma contra isso. Tinha jantar pronto, uma conversa gostosa que foi virando beijo e um quarto com cheiro de vela perfumada onde a minha timidez não durou cinco minutos. É lindo ver uma mulher inteligente, engraçada e segura do próprio taco. Entre um lap dance acidental, ela cantando em inglês e espanhol, me olhando bem no fundo dos olhos, sem desviar o foco um segundo sequer e uma entrega absurda, o que sobrou foram arranhões no meu pescoço e costas e aquela risada boba de pós sexo. Hoje ela até me perguntou se eu estava tímida ontem quando cheguei. Tava, sim. Mas essa timidez já era. Não estou apaixonada, não estou buscando rótulo e nem criando expectativas pro futuro. Mas amo olhar no olho dela. Amo a voracidade, a química visceral que rola no meio de uma festa qualquer e aquele jeito de me puxar pro canto da escada do prédio quando o mundo ao redor tá um caos. É intenso, é gostoso de viver e, por enquanto, isso é mais do que suficiente.
descer ao inferno, mapear os caminhos e, assim, aprender como voltar.
Eu gostaria de poder morar no início das coisas.
No frio na barriga do quase, na fase em que tudo é novidade e o mundo parece acelerar de um jeito gostoso. É o jantar surpresa num dia de semana exaustivo, a vela perfumada acesa, o constrangimento bobo e a gargalhada que vem logo antes de um lap dance perfeito. É a descoberta de novos ritmos com a F. e é também a doçura meiga e engraçada da S., com seus 23 anos novinhos contra os meus 28. Essa distância que às vezes me faz travar por um segundo, mas que se dissolve na leveza dos nossos encontros. É a proximidade madura e bonita que ficou com a minha ex, provando que nem toda despedida precisa virar ruína.
O início das coisas é viciante porque nele mora a urgência. E se me perguntarem qual é o meu animal preferido, a resposta é simples: sou eu mesma quando coloco alguma coisa na cabeça.
Existe uma linha tênue, quase invisível, entre o desejo e a obsessão. Desejar é passivo, é um querer morno que espera as coisas caírem do céu. A obsessão, não. Não tem nada mais gostoso do que os primeiros dias de uma nova obsessão, aquele momento em que a ideia te engole e você passa a responder por ela. É esse limite borrado entre o saudável e o tóxico, onde a vida ganha uma intensidade que não dá para simular.
Ninguém ganha de quem está mentalmente possuído. Não é sobre talento, e nunca foi sobre sorte, é pura e simples obsessão. Algumas coisas na vida não se conquistam só querendo um pouco. Elas exigem essa fome, esse estado de transe.
É essa mesma força visceral que tá movendo meu jogo lá fora. A ansiedade da mudança , o processo de finalmente tá perto de virar a chave. A contagem regressiva para fechar a porta de casa, pegar as minhas chaves e ter o meu próprio espaço antes do que qualquer um esperava.
Gostaria de morar no início das coisas pela leveza do encantamento, mas a verdade é que não existe nada mais forte do que ficar para ver o resultado. Assistir à continuidade do meu próprio esforço, ver a semente virar chão e saber que cada centímetro da minha paz foi construído por mim.
O início atrai, mas é o resultado que alimenta. E dessa vez, eu vou até o fim.