Outro dia numa conversa de bar com alguns amigos, falávamos sobre o quanto nos apaixonamos todos os dias. Parece loucura, mas quem nunca ficou balançado por alguém numa troca de olhares no ônibus? Ou se pegou pensando naquela pessoa que te atendeu bem numa livraria? Sempre que eu me interessava por alguém aleatório que cruzava meu dia, já imaginava a nossa conversa, a troca de telefone. E no ápice da minha loucura, fantasiava nosso namoro.
Uma vez fui obrigado a ir ao mercado, e eu odeio mercados. E ao passar pelo caixa, um rapaz que trabalhava lá me elogiou, e falou que adorou os meus alargadores. Na hora me senti um adolescente desajeitado, e saí tentando disfarçar um sorriso bobo. E eis que na semana seguinte, a pessoa que vos escreve foi todos os dias ao mercado.
Se minha mãe precisasse de um absorvente, eu ia ao mercado. Se faltasse um tempero qualquer na hora de cozinhar, estava lá eu me arrumando para ir buscar no mercado. Eu inventava qualquer desculpa para ir até lá. Todas as vezes ele me olhava e sorria, e eu olhava de volta retribuindo o sorriso, e ia embora sem me dar conta do papel ridículo que eu estava fazendo. E depois dessa semana, o meu então “grande amor” sumiu. E não faço ideia até hoje do que houve com ele.
Nunca contei isso para ninguém, até porque eu me sentiria ridículo falando isso em voz alta. Mas naquele momento enquanto meus amigos contavam situações parecidas, eu me senti abraçado, e que não estava sozinho nesse mundo. E isso me fez pensar bastante, e concluir que por mais que estávamos rindo da situação, a triste realidade é que #SomosTodosCarentes.
Nós vivemos uma carência coletiva, onde ninguém consegue uma relação sadia. É uma busca constante, que nos faz se encantar por qualquer pessoa que nos chama a atenção. Talvez isso seja um reflexo do “sexo fácil” que a gente consegue hoje. Pense bem, atualmente é mais fácil conseguir nudes, do que uma conversa inteligente?
Essa falta de interesse afetivo das pessoas acaba nos colocando numa extrema carência, que na hora que surge o primeiro idiota, nós não nos preocupamos em conhecê-lo de verdade. Pulamos etapas importantes, e quando menos esperamos, a decepção chega como um balde de água fria dias depois de mudar o status de relacionamento no facebook. rs
É triste ver alguém se prendendo a uma relação por medo de ficar só, ou vergonha de assumir que está solteira. Ter um relacionamento virou uma espécie de status. Se você não está numa relação, você não é bem-sucedido socialmente. E infelizmente eu já vi pessoas engolirem traições, abusos, e qualquer outro tipo de humilhação por medo de não estarem nesse padrão.
Confesso que eu já tive esse medo, e acabei me envolvendo com babacas, e saltando de relacionamento em relacionamento. Até que jogaram na minha cara que eu não era feliz, pois eu não tinha amor-próprio. E essa verdade me doeu como um soco no estômago.
Depois de um tempo remoendo isso, eu consegui me olhar no espelho, e entender que eu não precisava viver dessa maneira, que eu tinha que me valorizar mais. Foi difícil, mas eu precisava mudar. Aos poucos fui construindo meu amor-próprio, e me empoderando todos os dias, e fazendo disso um hábito.
Uma frase que faz muito sentido nessa minha jornada de amor, é uma dita no filme “As Vantagens de ser Invisível”. O personagem Charlie pergunta para o Sr, Anderson, porque as pessoas boas sempre escolhem as pessoas erradas para namorar, e ele dá a maravilhosa resposta de que “Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos”. Então se você não estiver bem consigo mesmo, você aceitará a primeira opção que surgir a sua frente, pois acredita que não conseguirá um relacionamento melhor.
Olhando para trás, eu já não consigo me ver carente ao ponto de fantasiar com o cara do mercado, e nem sinto a necessidade de ter alguém do meu lado para me sentir completo. Finalmente eu entendi que o amor verdadeiro significa. A fórmula é simples: olhe para você e ame suas qualidades, compreenda os seus defeitos, reflita e fale todos os dias o quanto você se ama. E naturalmente você vai absorver esse sentimento, e transmitirá essa plenitude para as pessoas, atraindo aquelas que se identificam.
Hoje em dia estou aberto para conhecer novas pessoas, mas sem a neura de que preciso de um relacionamento imediatamente. Estou deixando as coisas rolarem, sem pressão ou desespero. Já dizia minha mãe: “Tudo tem seu tempo”.