[Flashback] My empire of dirt | Sawyer & Abby
A única coisa que conseguia ouvir era o som da chuva, que caia pesadamente do céu nublado e escuro daquela noite de sexta feira. Sawyer tinha um incrível fascínio pela chuva, por mais estranho que isso pudesse parecer. Quando criança, Edmond, seu irmão mais velho, sempre inventava uma nova forma de passar o tempo quando chovia, seja com meras brincadeiras dentro de casa ou com peripécias na lama, em pleno jardim e ao som das reclamações de sua mãe. Dessa forma, um dia nublado nunca era sinal de que não poderia brincar do lado de fora da casa. Pelo contrário, simbolizava que finalmente poderia correr em meio as poças de lama na companhia do irmão e dar início aos famosos ‘Rainy Games’. A ideia era tão entusiasmante que muitas vezes o próprio Sawyer torcia por chuva, ansiava por uma tarde como aquela, desejava poder sentir o delicioso cheiro de terra molhada e observar as nuvens cinzentas se aconchegando umas nas outras na imensidão do céu.
Naquela noite, no entanto, a chuva tinha um gosto muito diferente de infância.
O hufflepuff estava parado em meio ao imenso campo de quadribol, contemplando as três enormes balizas nas extremidades, a arquibancada vazia e o castelo mais ao fundo. Tinha ao seu lado sua vassoura, a companheira de tantos anos que o ajudara a conquistar uma vaga no time de sua casa e a ser o excelente jogador de quadribol que era. Podia se lembrar de cada partida vestindo o uniforme cor de ouro da casa de Helga, cada jogo, desde aqueles que ganhara em equipe até os que perdera. O grito da torcida ainda soava fresco aos seus ouvidos, a melhor melodia que alguém poderia desejar. E no dia em que gritaram seu nome, Sawyer sabia que era um homem feliz. A sensação da goles em suas mãos era tão vívida que era como se estivesse segurando uma naquele exato momento, sentindo a adrenalina percorrer seu corpo frente a antecipação de um lance importante. A responsabilidade, a imensa alegria da vitória, a vontade de vencer e o gosto amargo da derrota, tudo isso ainda era muito claro para o garoto de dezesseis anos, memórias tão bem conservadas que era como se as tivesse vivenciado naquela semana.
Sawyer esticou o braço esquerdo para o alto, sentindo a fisgada de dor tomar conta do ombro machucado e repleto de cicatrizes. Os ossos acabaram colando com o tempo depois de sua última partida pelo time de quadribol de hufflepuff, aonde fora atingido no ombro por um balaço em alta velocidade. O estrago havia sido tão grande que nem mesmo magia seria capaz de recuperar tão rapidamente os estilhaços que seus ossos estavam. Madam Promfrey tentara ajudá-lo de todas as formas possíveis, chegando inclusive a enviá-lo para o Hospital St. Mungus na esperança de que outros Healers pudessem ter uma visão diferente do quadro, mas todos haviam concordado que o melhor seria deixar seus ossos se recuperarem com o tempo, mesmo com a ajuda de magia. Ninguém o havia alertado da dor naquela época, aquele constante latejar, o maldito incômodo que não o deixava em paz, nem mesmo quando estava totalmente parado. A dor que o colocava tão distante de sua única paixão.
O rapaz abaixou-se para abrir o grande baú de madeira que guardava a goles, os dois balaços e o pomo de ouro reservados para treino. Liberou uma das inquietas bolas de ferro, vendo-a voar em disparada para o alto. Puxou os óculos enfeitiçados para aparar a chuva e iluminar ao seu redor e, depois de segurar com firmeza o bastão de madeira na mão esquerda, montou em sua vassoura e alçou voo. Precisava fortalecer a musculatura e os ossos do ombro, necessitava de um treino de força para avaliar suas próprias condições caso quisesse voltar a jogar um dia. Sawyer Wood havia nascido para ser um jogador de quadribol e o rapaz não aceitaria que seu futuro fosse tirado dele daquela forma, que seu sonho de ter um futuro brilhante como jogador profissional se tornasse pó.
Se algum dia Abigail Fenwick tivesse a oportunidade de sentir o cheiro exalado pela fumaça em espirais saída da poção de brilho perolado, Amortentia, a loira tinha certeza absoluta que cheiro de chuva estaria dentre os que ela sentiria. Os grossos pingos de chuva que castigavam os jardins do Castelo de Hogwarts eram observados pela hufflepuff de dentro do castelo, por um vitral próximo à biblioteca. Passara o sábado, que até então exibira apenas um céu nublado, cercada de livros, pergaminhos, anotações e do habitual silêncio que ela tanto prezava que somente era encontrado na biblioteca. O silêncio que precisava para se concentrar, para esquecer dos problemas pessoais e focar nos estudos. Abby definitivamente não seria encontrada na lista de melhores alunos de seu ano. Não por falta de tentativa, sem dúvida, mas simplesmente por não conseguir pegar o jeito de algumas matérias – fato esse que a fazia questionar se era mesmo merecedora de possuir o dom da magia. A ideologia presente na época, até mesmo nos corredores de Hogwarts, prezava que a magia seria extinta em breve com a presença de nascidos trouxa, como ela. Prezava que, por uma questão biológica de que ser bruxo seria um gene recessivo presente no DNA de todos, os filhos de nascidos trouxa seriam cada vez menos bruxos com o desenvolvimento da linhagem da família. Porém, como ela constatara, mágica não tinha absolutamente nada a ver com biologia. Era algo único, singular, e, se ela recebera a oportunidade de ser uma bruxa, era porque merecia.
O estudo dedicado de Transfiguração teve de ser interrompido assim que o som da pesada chuva que caía nos exteriores invadiu os ouvidos da jovem Fenwick, seguido alguns minutos depois pelo cheiro que ela tanto adorava que adentrara a biblioteca por alguns vitrais que ainda encontravam-se abertos. Esse simples momento a fez sorrir, talvez pela primeira vez genuinamente em semanas. Chuva a fazia lembrar de casa, do dia em que ela e Benjy saíram correndo assim que começou a chover e tomaram banho com a água que caía do céu. Riam, completamente despreocupados, e Abby conseguia lembrar-se perfeitamente daquele dia como se tivesse sido ontem. Despreocupação. Era algo que fazia falta. Ao apertar os olhos na observação do exterior do Castelo, a hufflepuff conseguiu avistar alguém voando no campo de Quidditch. Alguém de uniforme amarelo. Se a perguntassem, não saberia responder. Como ela sabia que aquele garoto voando era Sawyer? Muitos poderiam chamar de conexão, algo que eles com certeza teriam depois de seis anos da amizade mais pura e verdadeira, que incluiu até um envolvimento romântico no passado. Porém Abby preferia acreditar que ela simplesmente o conhecia. Sabia que era a cara dele sair naquele dia chuvoso e ir treinar quadribol, mesmo com o ombro machucado, mesmo com recomendações de ficar em repouso.
Saiu de onde estava e praticamente marchou até o Salão Principal, descontando o que sentia com a força que os pés batiam no chão. Estava furiosa, claro. Já não bastava ela ser diretamente responsável pela lesão do ex-namorado, ele também resolvia ignorar claras ordens médicas de healers qualificados do St. Mungus e simplesmente ir treinar sob a chuva mais torrencial do ano. Via-se na obrigação de cuidar dele, por mais que o seu maior desejo no momento fosse manter distância de Sawyer devido aos termos em que o relacionamento deles acabara. Acabara. Ainda era difícil aceitar essa ideia na sua cabeça, mesmo que mentalmente. Mas, sempre que sentia isso, trazia de volta as memórias de quando a viu beijando outra garota e a raiva habitual voltava. Com essa raiva, soltou o grito mais alto, na entrada do campo de quadribol, na tentativa de chamar a atenção do garoto que voava em meio aos pingos de chuva. – Sawyer Wood! – Não se importava se estivesse com a roupa encharcada – o que estava -, se pegaria algum resfriado no dia seguinte – o que pegaria. Só queria tirá-lo dali de uma vez.









