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Mais do mesmo: Dizia Newton sobre a Inércia
O que a História dificilmente conta são os defeitos dos indivíduos. Isaac Newton, por exemplo, ninguém diz que Isaac Newton era preguiçoso.
Só os preguiçosos ficam debaixo de árvores, esperando que uma maçã caia na cabeça para criar teorias que revolucionam o mundo. A teoria da Inércia, defendida por ele mesmo, é apenas uma desculpa para seu modo “tranquilo” de ser. Em entrelinhas, o físico dizia que quanto mais ele ficava em repouso, mais tendia a continuar naquele estado.
Era um preguiçoso. Mas um preguiçoso com contatos.
Usou das teorias de Santo Agostinho – um dos poucos filósofos ligados à Igreja – para livrar-se de uma das mais poderosas instituições da época: a própria Igreja. Algumas atitudes são condenadas pela religião (sete delas, para ser mais preciso). Não citarei todas, apenas a que seguia o Sir: a preguiça.
A teoria do Agostinho, que anos depois seria salva-guarda de Newton, falava que: a preguiça condenada pela Igreja não é aquela preguiça do domingo em frente à tv, a preguiça das “lagarteadas” após o churrasco e, sim, a preguiça mórbida, a preguiça ao trabalho. A preguiça à vida.
Newton tinha preguiça, mas esta preguiça o levou ao estrelato. Por ser uma pessoa não exatamente pró-ativa, teve a oportunidade de criar as leis básicas da física. Então, a preguiça não é um pecado. Leva alguns ao triunfo.
De certa forma o Grêmio vive como Newton, à espera de sua maçã. Segue preguiçoso no campeonato.
Ficaremos atentos, pois acreditam uns, piamente, que na verdade quem irá cair não será a maçã, mas os preguiçosos.
Este texto foi originalmente postado em 31 de julho de 2009, aqui.
Homeophrasia I
A ação que parte da tranquilidade é ponto final. A ação que parte da ação é reticência.
É tempo de mudar
Uma cidadezinha pacata. Era tudo o que ele tinha. A droga de uma cidadezinha pacata. Alfredo estava no alto de seus 20 anos e não podia dizer que tivera muitas experiências na vida. Aliás, a vida por lá era muito monótona. Aos 14 anos, Alfredo namorou uma menina, mas o relacionamento durou apenas algumas semanas e meia dúzia de singelas beijocas na boca. Aos 16, ele viajou pela primeira vez, foi à uma antiga e histórica cidade do interior. Mais uma vez, uma cidadezinha pacata. Quando completou 18 anos, arrumou seu primeiro emprego. Mas ele era chato. 8 horas diárias de puro tédio e as emoções passavam longe. Ele era assistente de um velhaco senhor, que vendia qualquer coisa sem valor, sem utilidade por qualquer mixaria que desse. Ganhava pouca coisa, questão de trocados, que rendiam algo em torno de um sorvete de duas bolas por final de semana.
O tipo da vida que ele levava não o entristecia. Pela convivência, ele aprendeu a lidar com o tique-taque desacelerado do relógio. Ele vivia em uma espécie de repouso mental. Seu cérebro chegava a atuar apenas em meia fase. Afinal de contas, aquele dia a dia não necessitava de muita amperagem cerebral. Quando ele completou 20 anos, ainda morando com com os pais e com a vó, que tinha sua própria casa nos fundos do terreno, ele decidiu que era hora de mudar. Viver naquela cidadezinha pacata não era algo que ele podia chamar de vida.
Ele realmente estava determinado a mudar. E num rompante de ansiedade - sentimento do qual ele ainda não havia experimentado - e outros sentimentos que perturbavam sua natureza, normalmente tranquila e sem sal, ele datou o dia da mudança. Era uma quarta-feira, perto do meio dia quando a resolução havia sido feita e ele decidiu: "na segunda-feira, semana que vem, a sua vida, Alfredo, vai dar uma guinada, vai mudar completamente, você será um novo homem". E finalizou: "me aguarde". Após conjeturar as palavras, começou a pensar nos preparativos para a mudança.
Concordou consigo mesmo que aquela quarta-feira era já um dia perdido para sua revolta. Aquele era um dia para fazer tudo como ele sempre fez. Os preparativos teriam que esperar. Amanhã seria o dia, conforme havia calculado, restariam quatro longas 24 horas.
A pacata cidade parecia ter ganhado certa vida depois que ele se revoltou contra o sossego. Era como se todos da cidade tivessem ouvido o grito de liberdade de um jovem de uma cidadezinha pacata.
No dia seguido ao da auto-revelação, Alfredo começou a arrumar as malas. Pegou seus pares de meias, calças jeans surradas, camisas desbotadas, suéteres feitos pela sua própria avozinha e todo o mais que mantinha o seu velho e quebradiço guarda-roupa ainda em utilização. Enquanto abria a gaveta de cuecas para pegar as poucas roupas íntimas que tinha, muitas delas já com o elástico a se render, encontrou cartas velhas de seu primeiro e único amor. Aquela das poucas beijocas na boca.
Alfredo não percebeu que no processo, o tempo voou. Como nunca havia voado na pacata cidadezinha. Ao finalizar as arrumações nas malas, foi dormir para esperar o próximo dia. Na sexta-feira, foi em busca de mantimentos. Enlatados, conservas, defumados e outros itens que sobrevivessem à calorosa e poeirenta viagem que faria. Na mercearia, na quitanda e sentados pelos bancos da praça da cidadezinha pacata, os habitantes o encaravam como se soubessem o que ele estava tramando.
Era sábado e Alfredo achou que devia alguma satisfação ao seu novo chefe, o dono do cinema de bancos mofados do centro. Após desconversar e invetar desculpas pela sua falta nos últimos dias, Romeu, o dono do cinema, disse que "tudo bem meu jovem, não tivemos sessão nesses dois dias. Não veio ninguém". Alfredo trabalhou naquela tarde para juntar os últimos níqueis que conseguiria com os poucos bilhetes que vendesse.
Domingo: dia de contar à família.
Sentou no sofá velho da sala cor de um amarelo gema. A mãe esticava a roupa no varal improvisado com acesso pela janela. O pai sentado na poltrona do papai, respirando fundo, quase entrando em alfa pelo sono que o abatia. Antes de abrir a boca, Alfredo já tinha ensaiado sua fala trezentas vezes. Mas ao vivo, nada adiantou. Suas palavras soaram como as de uma criança medrosa que busca atenção. Seus pais devem ter pensado "tanto faz" porque nem responderam ao suposto chamado da vida que seu pobre filho, um bicho do mato, havia recebido.
Era chegado o dia e nada aconteceu: o relógio não despertou. Após 30 minutos de atraso, a mãe bate na porta três vezes, chama o filho e Alfredo acorda. Num sopetão, levanta da cama decido a mudar. E pensa "é hoje, é hora de mudar". De forma energética, troca de roupa, pega a mala e vai até a cozinha tomar o café. O pai e mãe estão lá, também no ato de se alimentarem matinalmente. Ao ver seu pai velho e a mãe sem forças para segurar nem mesmo o bule, Alfredo perde a vivacidade de sua escolha. Mudar não vai ser fácil, seus pais irão definhar em pouco tempo e ele não estaria ali nem para enterrá-los com compaixão.
Alfredo percebeu. Sua vida era ali.
Mas para satisfazer seu agora selvagem ego, ainda precisaria mudar. Para pensar, pegou o jornal, como sempre faz para clarear as ideias. Ao abri-lo, Alfredo pensou de novo sobre tudo o que havia acontecido nos últimos dias. Iria desistir? "Não" - gritou ele, assustando seus pais sonolentos. "Agora é a hora, tudo vai mudar". Começou a ler o jornal de trás para frente. Com a nova experiência, Alfredo se sentiu um novo homem. Aquilo era audaz. Era uma subversão de todos os seus valores. Era o que precisava o jovem da cidadezinha pacata.
Uma teoria - e como derrubá-la
1. Eu acreditava na filosofia
Sempre acreditei na filosofia. Fui um fervoroso a levantar o estandarte com as cores de sua bandeira. Li Platão, li Sócrates, li Nietzsche. Li. E acreditei no que li. Durante muito tempo acreditei que a filosofia era o ápice da própria sabedoria.
A filosofia salva muito mais do que a religião, bradava eu.
Mas nesse pensamento encontrei pequenos labirintos: a filosofia é tão incerta, fala tão vagamente e especula tanto sobre a vida, o universo e as coisas, que precisa, inevitavelmente, apoiar-se nas muletas de outras ciências (há quem considere a filosofia uma ciência) para se explicar. Se falamos de pessoas, inevitavelmente falamos de psicanálise, de pedagogia, de química, de física, de neurociência, de matemática. Por isso, a filosofia não se regula solitária.
E uma ciência que não consegue explicar NADA sozinha, tem sua verdade posta a prova.
2. Deixei de acreditar
Por não ter esse mapa desenhado, a filosofia, nela mesma, não ensina ninguém a ser feliz. Percebendo isso, desisti da então falsa ciência. Precisava encontrar algo que ensinasse o caminho da felicidade. Nem que fosse um guia de 10 passos numa revista qualquer.
Conheci o budismo - não vou falar sobre ele, tudo o que sei é muito raso. Só falarei de minhas experiências.
Meditando exercitei:
Desapego ao material
Desapego a mim mesmo
Desapego às minhas teorias
Desapego às teorias dos outros
Desapego às teorias em geral
Melhora na empatia com o mundo
Melhora na simpatia
Refino nas relações humanas
Preocupar-se com os problemas dos outros
Ajudar os outros a serem felizes
Perceber que tudo passa
Perceber que a felicidade que eu acreditava não existe
Perceber que o sofrimento é natural
Aprender a respirar (com todo respeito a quem está lendo, mas você não sabe respirar)
Aprender a ter calma
Aprender a fazer uma coisa de cada vez
Aprender a estar 100% focado
Não ser preconceituoso
Receber bem todos que me procuram
Não procurar ninguém
Evitar machucar qualquer tipo de ser vivo
Tudo isso, como parece, é fácil.
3. Ironicamente voltei a acreditar
Depois de exercitar isso, conheci Descartes - além de seu maldito plano cartesiano -, lendo O Discurso do Método.
Nele aprendi:
Tudo que é escrito não é real. Por mais fidedigno que uma transcrição seja, ela não contempla todo o conteúdo possível e acaba passando por filtros chamados de percepção. Tudo que passa pela percepção de alguém é distorcido, logo não é real. No máximo verossímil.
Qualquer coisa que tem um mínimo de chance de ser questionado, deve ser questionado. Não acredite em nada, desconstrua tudo.
E por fim:
A filosofia não existe sem a meditação.
4. (Bônus)
Meditando descobri o diagrama da felicidade. Imagine um plano cartesiano (adivinha?), onde o extremo negativo em "x" e "y" é o sofrimento mais puro e o extremo positivo em "x" e "y" é a euforia. No ponto zero (x=0 e y=0) do diagrama é onde você está, ou pelo menos deveria. É ali que está a felicidade de verdade. Esse é o ponto sem preconceito, afinal todo sofrimento e euforia são resultados de um preconceito. É no ponto zero que você tem discernimento das coisas, é lá que você pensa "isso me faz feliz, por quê?" ou "estou me sentindo um lixo, por quê?" e "que mecânicas fazem eu me sentir assim?".
Esse estado de consciência plena é a verdadeira felicidade.
Você pode derrubar minha teoria agora.
Diálogo no chat
Internauta 1: Perfil nas redes sociais?
Internauta 2: Ativo
Internauta 1: Perfil sexual?
Internauta 2: Inativo
Mais do mesmo: Considerações sobre meu amor e meu jogo
Não gosto, nem homem algum gosta de parecer fraco. Sei lá o porquê disso, parece ser uma velha regra imposta pela sociedade, mas preciso desabafar, mesmo que pareça fraco.
Duas coisas tiram meu sono recentemente: a paixão que sinto por uma mulher e o número excessivo de xícaras de café que tenho tomado durante o dia.
Sobre a paixão, quero dizer algumas coisas sobre esta paixão. Claro que não é correspondida. Caso fosse, dormiria bem, como dormem bem os anjos sobre os mantos macios das nuvens. Fico inquieto, pois aquela a quem me apaixonei, me trata com desdém. Se uma mulher quer quebrar um coração apaixonado, ela simplesmente ignora aquele ser. É dor demais.
Sobre o café, sem mais. Todos sabem da necessidade deste produto nos dias atuais.
Sou adepto de uma filosofia, a filosofia do diarinho. A filosofia é simples, consiste em ao final do dia, escrever em seu diário “fizemos progresso” cada vez que você realmente fez algum progresso - mesmo que mínimo. Até hoje tem me parecido de uma utilidade muito grande. Em meio às dificuldades, ler um “fizemos progresso” é algo que dá ânimo.
O problema é que nem sempre fazemos o tal progresso e, às vezes, passam-se dias sem progresso.
Estou passando por uma fase assim ultimamente. Tenho ido mal no campo do amor como o Grêmio tem ido mal no campo dos adversários, fora de casa. Nenhum progresso aconteceu nos últimos dias.
Para finalizar, só tenho a dizer: hoje a verei novamente. Ela vai estar lá, linda como sempre, me desdenhando como sempre, mas terei mais uma chance de mostrar meu amor. O Grêmio também jogará hoje, fora de casa, em São Paulo. E o Grêmio vai estar lá, jogando nos contra-ataques novamente e terá a chance de mudar sua imagem caseira no campeonato.
Amanhã escrevo se houve progresso em qualquer um dos dois campos.
Este texto foi originalmente postado em 30 de junho de 2009, aqui.
Aviso de urgência máxima
Estamos em meio à uma crise criativa. Por favor, volte mais tarde. Nossos colaboradores estão tomando muito café para ver se solucionam o imbróglio o mais breve possível.
Diálogo no mercado
Comprador 1: Qual a diferença entre a galinha normal e a galinha caipira?
Comprador 2: O sotaque?
A inovação está morta
É isso mesmo, podem ficar tristes. A inovação está morta e eu sei que essa frase deixará muitas viúvas. Esqueça tudo o que você leu ou acha que sabe sobre inovação.
Tudo o que passa por essa sua cabecinha quando você escuta a palavra mágica é besteira enlatada e vendida.
Simplesmente por que não existe nada de novo no mundo. Mais ou menos o papo blasé do "nada se cria, tudo se transforma" ou "nada se cria, tudo se copia". Mas sobre uma nova ótica.
Se pegarmos a raiz etimológica da palavra descobrir, percebemos que ela nada mais é do que um deixar de cobrir, tirar a coberta que tapa as coisas escusas. Enfim, o que você acha que é novo na verdade não é. É algo muito mais ancestral do que você pensa. Você apenas tirou a colcha que cobria uma verdade inevitável.
Pense em exemplos básicos: alguém descobriu o Brasil, alguém descobriu a eletricidade e alguém descobriu o átomo. São coisas novas a partir de uma mudança de olhar que se tinha sobre a realidade.
Inovar, inventar, criar. Isso não passa de demagogia.
Mais do mesmo: Voltaremos à escrita cuneiforme
Você está lendo agora estas palavras, que na verdade são misturas de letras, que formam sílabas e que vão formando regras gramaticais chatas e complexas, que no final de tudo isso, será nada mais que um texto. Você está lendo isto e deve agradecer aos sumérios por eles terem inventado a escrita cuneiforme.
Aquilo, àquela época, foi uma evolução.
Imaginemos a situação: um povo se sentava envolta do fogo na caverna enquanto os anciões contavam histórias interessantíssimas, cheias de mistérios e aventuras, de meninos que foram criados por animais e aquela coisa.
Enquanto o ancião contador de histórias o fazia, aproveitava e as ilustrava com os desenhos mais reais que haviam sido vistos nas paredes daquela caverna.
Com a chegada dos sumérios, povo pioneiro na escrita com ferramentas em forma de cunha, as coisas mudaram e hoje os livros de autoajuda que você lê tiveram a ajuda da sabedoria dos sumérios.
Foi tudo uma evolução, reitero.
Perceba você que, caso os sumérios não fossem um povo afrente do seu tempo, hoje você não poderia fazer várias coisas como: protestar a visita amistosa de Ahmadinejad, não poderia nunca, jamais, discutir sobre futebol com seus amigos, não poderia galantear a moça bonita que nunca deu bola para você e muito menos inventar desculpas esfarrapadas para sua mulher toda a vez que você chega tarde em casa.
Certamente o mundo seria outro.
Fato é que existe uma coisa que atrasa essa evolução que nossos queridos antepassados nos presentearam.
E essa coisa se chama hipocrisia. A hipocrisia dos adúlteros, dos fanáticos religiosos, dos lunáticos torcedores, dos extremistas raciais e dos políticos boçais.
A hipocrisia de todo mundo vai nos levar de volta à escrita cuneiforme.
Este texto foi originalmente postado em 25 de novembro de 2009, aqui.
Sobre ler livros
Das últimas coisas que tenho lido e ouvido, percebi que há um consenso sobre a quantidade de livros que uma pessoa deveria ler durante o período de um ano. Cheguei ao número vinte: a pessoa culta deveria ler vinte livros durante trezentos e sessenta e cinco dias. Faço uso de um cálculo básico e percebo que isso dá aproximadamente um livro e meio por mês.
*
Dois olhos atrás de um óculos. Lentes dentro de uma larga armação rosa. Dois olhos que fintavam com naturalidade o livro “Assim nasceu a república” - ou algo semelhante – dado por título. Sentada na grama da praça, em posição de semi-lótus, sujava seu short jeans que não cobria mais que meia coxa.
*
Falhei vergonhosamente na meta dos vinte livros ano passado. Devo ter lido uns três ou quatro, se muito. Neste novo ano, em algo mais que dois meses, comecei três livros. Não terminei nenhum.
*
Ela lia uma sequência de dez folhas e pausava. Delicadamente fechava o livro, ainda que zelasse pela ordem, colocando o dedo sobre a página que havia parado. A pausa, creio, significava o fim de um capítulo. Aproveitando-se do momento, ela olhava para o horizonte e o mantinha. Parecia que maturava a ideia, colocava cada detalhe num importante depósito mental que em breve seria acessado.
*
Não tenho biblioteca em casa. Os livros que tenho são como controles remotos, estão sempre se escondendo. Tentei rebuscar algum velho exemplar em algum velho canto. Encontrei O Príncipe de Maquiavel o qual, por sinal, iniciei e o esqueci. Havia deixado a minha Clio lá, sozinha, simplesmente para encontrar um livro. Leria próximo dela, ela se encantaria por meu intelecto e começaríamos a conversar. Afinal, ela me ensinou que ler é sexy. Mas, quando voltei fatigado da busca, ela havia ido.
*
Virei rato de biblioteca.
A maiêutica Socrática e os tempos modernos
"O que eu espero senhores, é que depois de um razoável período de discussão, todo mundo concorde comigo." Winston Churchill
A frase acima é a síntese de qualquer discussão.
E é um resumo - à grosso modo - de nosso comportamento mais primitivo: ninguém quer mudar e, sim, fazer mudar. Em uma discussão não há maiêutica e não há fim. Existe a necessidade de sobrepujar o pensamento do outro.
Por isso: Pense duas vezes antes de entrar numa discussão.
"Fanático é quem não pode mudar de idéia e não quer mudar de assunto. " Winston Churchill
Mais do mesmo: O salto alto de Silvinha
Existe em minha memória, talvez, poucas lembranças nítidas. Mas se há uma que não foge nunca de meus pensamentos é a imagem de Silvinha em seu salto alto.
Silvinha era uma morena linda. Não media mais que 1,62m e tinha os cabelos escorridos que lhe cobriam as costas. Suas coxas eram rijas e ao mesmo tempo suaves, lisas e com uma corzinha de bronzeado que causava frisson nas pessoas. Seu corpo inteiro era tão perfeitinho que alguns tinham medo de tocá-lo. Pobres deles. Mas o mais interessante é que sempre que via a garota, ela calçava seu salto alto.
Lembro-me de uma vez em que a galera foi até um barzinho próximo da minha casa. Eram exatos seis homens e cinco mulheres, entre elas a deusa morena que calçava um maravilhoso e sensual salto alto vermelho. Confesso ao leitor que era impossível não perder a linha de raciocínio durante uma trova de bar enquanto olhava aquelas curvas maravilhosas. As outras mulheres percebiam os olhares incessantes e, por Deus, como ficavam com ciúmes.
Muitos homens comentavam o nome de Silvinha em rodas de boteco com menções de levá-la para cama. Mas aquela beldade não se dava o luxo de sair com qualquer um. Ela era exigente, apesar de sempre manter contato com os machos para noites solitárias de frio e vinho. A diaba nunca, sequer, me ligou.
Acredito que nenhum homem na face da Terra ousaria dizer que não gosta de uma mulher que usa salto alto. Elas ficam lindas! E a musa das minhas memórias sabia que ficava. Contrariando o que muitos médicos renomados falam, aqui vai uma dica deste que vos fala: mulheres, usem salto alto, usem muito salto alto, POR DEUS. Talvez alguns caras vão lembrar de vocês como lembro de Silvinha.
É incrível como esse objeto embelezador de mulheres possua um sentido pejorativo quando usado no meio do futebol. Salto alto significa algo ruim? Que tipo de homens são esses, que sujam a imagem desta vestimenta tão sensacional? Poderia citar muitos times que ostentam salto alto, mas quero me abster a apenas um: o Internacional. Ouço por aí, papos tão mentirosos quanto os da época do barzinho com a galera, de que o time colorado é o maior candidato aos títulos que disputará neste ano. Ou de que o time colorado é de novo o “rolo compressor”.
Estão enchendo a bola do time. E como todos os homens que preferem olhar futebol a dar atenção a uma morenaça de salto alto sabem, esta não é uma opção muito segura.
Este texto foi originalmente postado em 05 de maio de 2009, aqui.
Diálogo na praia
Veranista 1: - Relaxa, é chuva de verão.
Veranista 2: - Sabe por que tem esse nome, né, chuva de verão?
Veranista 1: - Porque chove o verão inteiro.
O que o Mesmerismo e as pulseiras do equilíbrio têm a nos ensinar
Franz Anton Mesmer foi o criador de um dos procedimentos psicoterapêuticos mais bizarros que se tem notícia. Ainda assim, hoje em dia, enquanto as pessoas são vítimas de um sistema caótico - chamado vida - as reminiscências desta pseudociência são ainda visíveis. Ela consiste basicamente na crença de que o corpo humano é feito de fluídos magnetizados e que o desalinho dos mesmos poderia causar doenças físicas e psicológicas às pessoas. E que era possível curar tais sintomas clínicos através da polarização correta destes fluídos, com a ajuda de um imã.
Durante muito tempo, Mesmer tentou implantar sua técnica na comunidade científica. Tudo em vão. O médico austríaco foi rechaçado e expulso de vários países por não conseguir provar a eficácia de seu tratamento. Apesar disso, Franz conseguiu uma cartela grande de clientes, na verdade, pessoas com doenças psicossomáticas leves que eram curadas pelo efeito placebo de sua técnica.
Junto com a trepanação e a terapia por choque insulínico, invenção de outros estudiosos do ramo da psicologia, o mesmerismo faz parte das técnicas psiquiátricas que caíram em desuso através dos anos. No século XX, para ser mais exato, deu-se a morte da técnica.
Não muito tempo depois, surgem as pulseiras do equilíbrio, conhecidas como Power Balance. Vendem o mesmo milagre: hologramas que entram em equilíbrio com um suposto campo energético comum a qualquer pessoa, melhorando força, circulação e o próprio equilíbrio. Elas foram febre em 2010 ao valor médio de R$ 125,00 cada.
Assim como o método nada científico de Mesmer, as pulseiras no máximo têm efeito placebo. Mas, nessa história podemos tirar proveito de algumas coisas, grandes lições que aprendemos:
As pessoas acreditam em qualquer coisa.
O item é quase auto explicativo. Você pega uma coisa maluca, mexe com as crenças arcaicas das pessoas, investe em mídia e pronto, você vende qualquer coisa. O que nos leva ao segundo item.
Investimento absurdo em mídia funciona.
O marketing do Power Balance deve ter gasto milhões contratando peças fundamentais na disseminação do produto nas classes D e C brasileiras. Não raro, podíamos ver Luciano Huck, Faustão e Rubinho com as pulseiras.
Erramos uma vez, erramos duas e não aprendemos.
Tudo bem, quem investiu seus custosos cem reais na fantasia do produto, não precisa chorar. Você vai receber seu salário no mês que vem e já vai até esquecer no que gastou seu suado dinheiro. O problema é que como consumidores, somos manipuláveis como crianças, temos memória curta e não aprendemos com os próprios erros.
E, enquanto não mudamos isso, mentirosos vigaristas continuarão roubando nosso dinheiro.
Vide políticos.
Queria ser um parnasiano
Parnasiano: poeta ou escritor pertencente ao movimento literário conhecido como Parnasianismo.
Parnasianismo: movimento literário essencialmente poético, contemporâneo do Realismo-Naturalismo. Desenvolveu-se na poesia a partir de 1850, na França.
Durante a escola, em mais uma das várias oportunidades em que fui presunçoso, esbravejei contra uma pobre professora de literatura: "jamais usarei isso na minha vida". Hoje, ironicamente meu discurso é outro. Eu queria ser um parnasiano com todas as minhas forças.
Aristóteles, o famoso físico-filósofo-linguista-biólogo da Grécia antiga escreveu - dentre outras obras - Arte Retórica. Nele, o autor faz ensaios sobre os textos persuasivos, define as diferenças entre convencimento e persuasão e separa um bom texto argumentativo em quarto partes. Basicamente: exórdio, narração, provas e peroração.
Um homem. Grandioso por ser aluno de Platão e mestre de Alexandre, o Grande. Esse homem passou anos estudando para escrever Arte Retórica em três partes, chamadas de Livro I, Livro II e Livro III. Tudo isso para que, alguns séculos depois, viessem os parnasianos. Os parnasianos colocaram fora todos os estudos de nosso herói grego e diminuíram a palavra retórica ao sentido de floreio. Para eles, a mensagem argumentativa era menos importante do que a estética dos poemas.
Traduzindo: os parnasianos faziam o que queriam e o que gostavam.
Leia este poema de Olavo Bilac, um dos maiores representante do movimento:
Deixa o Olhar do Mundo (Olavo Bilac) Deixa que o olhar do mundo enfim devasse Teu grande amor que é teu maior segredo! Que terias perdido, se, mais cedo, Todo o afeto que sentes se mostrasse? Basta de enganos! Mostra-me sem medo Aos homens, afrontando-os face a face: Quero que os homens todos, quando eu passe, Invejosos, apontem-me com o dedo. Olha: não posso mais! Ando tão cheio Deste amor, que minh'alma se consome De te exaltar aos olhos do universo... Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio: E, fatigado de calar teu nome, Quase o revelo no final de um verso.
Não é difícil perceber como o texto não se esforça em persuadir o leitor. Muito pelo contrário, ele é arte por arte e não precisa de explicação. Fala de um amor, mas pode ser uma crítica oculta aos invejosos. O retórico, vindo do estudo da persuasão se transformou em retórico artigo de embelezamento de texto.
Por isso queria ser um parnasiano. Fazer coisas que só eu entendo e só minha própria experiência pode criticar, ser apaixonado pelo que faço e ainda ganhar a vida com isso.