The last life in the universe - Pensamentos
- Um filme para ser sentido.
Essa é uma das frases que se encontra quando se pesquisa sobre o filme. Cinema tailandês de 2003 do diretor Pen-Ek Ratanaruang.
Conheço apenas um filme romântico tailandês, alguma música, uma ou outra parte de sua história e quase nada sobre sua cultura. Mas, esse filme não só aborda temas universais como seu roteiro ultrapassa a ignorância e falta de conhecimento do espectador (Esse último comentário já cumpre uma autocrítica da minha desinformação e conhecimento).
Quando assisti ‘The last life in the universe’ tive uma mistura de sentimentos, indo de espanto, desamparo, nervosismo e, por incrível que pareça, aconchego. Minha cabeça ficou bem confusa por várias construções presentes no filme e elementos. Mesmo não conseguindo acompanhar o filme tanto racionalmente como também os sentimentos por ele oriundos, o filme é excelente.
- Das construções presentes (cenário, personagens, atuação, filmagem/fotografia, tempo e ritmo) -
A localização do filme é em Bangkok. Uma cidade grande, urbanizada e “conectada”. O ‘core’ do filme ocorre na periferia da cidade, talvez, até em uma cidade satélite (desculpe), na casa da personagem Noi (Sinitta Boonyask). Outros cenários decorrentes no filme são: A casa do Kenji (Tadanobu Asano), livraria da Japan foundation e a praia.
Importante notar que apesar de falarmos de uma cidade enorme com milhões de pessoas, a filmagem restringe bem o número de personagens e nos cenários presentes no filme, the last life in the universe, consegue focalizando nos pontos relevantes para a história, travar a atenção nesse trecho de vida contado e aumentando, assim, a sensação de solidão recorrente nos locais, contraditoriamente, muito populosos.
Outro ponto da ambientação do filme, como dito, the last life in the universe acerta nos pontos que aborda, ou seja, todos as cenas do filmes, cenários, não são desperdiçados, a casa de Noi sofre uma transformação concorrendo com o seu personagem e a presença de Kenji, a casa do Kenji um ambiente estéril, solitário e metódico se revela um ambiente inóspito e aumenta toda narrativa lá construída (vide manchas de sangue que mancham a casa ou os corpos escondidos, “revelando segredos”), a praia e vários locais simples do cotidiano para as pessoas tornando-se locais de redenção e paralelamente com o romance simples, verdadeiro, dos personagens, a livraria local que quase funciona como uma extensão da casa do Kenji amplificando cada atuação sutil dos personagens e história.
Personagens. Eles são uma bomba. Não são personagens super complexos de forma narrativa ou com um desenvolvimento espetacular, o que é incrível, nesse aspecto, é que os personagens antes caricaturados em estereótipos, projetam na verdade pensamentos e situações profundas abordadas. Começamos o filme com uma cena fortíssima do suicídio do Kenji, com a filmagem apenas aos pés dele, enquanto descobrem seu corpo, escutamos sua narrativa contando seu motivo e que essa cena aconteceria em tal horário se ele tivesse cometido o suicídio. Cortamos. Descobrimos que ele foi interrompido e, conforme o filme, mais de uma vez. Durante o filme descobrimos as costas do Kenji completamente tatuada, não esperada por esse personagem, dando a entender uma ligação com a Yakuza, um outro momento na vida dele ou, simplesmente, uma transformação. Vendo essas duas cenas, notamos o quanto não conhecemos a totalidade dos personagem que, na verdade, interpreta uma pessoa. O apartamento e a rotina sistemática e sufocante do Kenji é posta em “cheque” com uma costas, até então não revelada, mostrando “vida”. Os personagens são versáteis e extrapolam seus estereótipos e propósitos.
Atuações excelentes na medida do propósito do filme. Conseguiram misturar todas as construções do filme para o seu propósito. Cada ‘close’ em um cenário distinto amplificavam as expressões, falas e atuação dos personagens. O filme traz consigo uma carga que acompanha seu ritmo. Construções lentas e cheias de mensagens caminhando conforme o desenrolar da história. Conhecemos os personagens por pouco tempo.
A filmagem e a fotografia são ótimas. Encontram os ângulos certos para acompanhar a intensidade das cenas como revelam o suficiente de cada lugar. A iluminação e tudo mais é toda pensada focalizando não acompanhar o dia, mas o que é tratado em cada cena.
O tempo do filme. A primeira cena começamos com uma alusão a algo que não aconteceu. Em alguns momentos do filme nos é colocado certo delírio dos personagens conforme o desenvolvimento dele. Terminamos o filme, e somado a outras cenas confusos, com a realidade, e o imaginativo. Não conseguimos compreender o filme por completo e nem devemos. Foi uma história contada, aumentada ou diminuída. Em um cidade grande e em uma das milhões de vidas, aconteceu.
- Da minha experiência -
The last life in the universe traz consigo algo que sou apaixonado. Algo relacionado com melancolia e solidão. Uma cena deles no sofá, sentados cada um em um canto, distantes mundos, línguas distintas, traumas diferentes, ambos perdendo seus irmãos, e a mesma falta de conhecimento um do outro que nós espectadores temos com os personagens que vemos como de quem está ao nosso lado, todas as dificuldades do mundo e mais uma e, ainda assim, uma cena tão delicada que comunica o reconhecimento um do outro e a empatia. Se sentir confortável e pertencente em algum espaço com alguém, mesmo que em caos, definitivamente é muito humano e carinhoso.















