Minerva era uma pata destrambelhada, que vivia com a cabeça cheia de soberba. Passava as tardes na beira do lago admirando o porte altivo e sofisticado dos Cisnes. Achava a sua raça desengonçada e sem graça e queria possuir a altivez dos cisnes.
Em sua familia eram todos felizes e satisfeitos. A
alegria, as brincadeiras, a algazarra reinava entre seus irmãos no lago, onde todos os dias eles iam para nadar e se divertir. Menos Minerva que ficava á margem sonhando em ser uma
magestosa cisne de longo pescoço preto.
Seus manos e manas a convidavam para participar das brincadeiras, mas ela torcia o nariz e os ignorava.
Seu atrevimento foi tanto que resolveu se meter no meio dos Cisnes se achando um deles. Toda orgulhosa grasnava e nadava alegremente quando percebeu um grupo de três cisnes machos, muito bravos, expulsando-a do bando. Saiu corrida do lago tentando fugir das bicadas furiosa.
Muito triste e humilhada se embrenhou na floresta para esconder sua vergonha. Estava com raiva dos cisnes por não ter sido aceita entre eles e com raiva de si e da sua familia por pertencer a uma raça, que a seu ver, era mediocre e sem valor.
Já estava na parte proibida da floresta onde as sombras eram densas e o mal se fazia presente. Mas não havia percebido o perigo porque o frio em seu coração já se fazia presente e o despeito em sua alma a guiava mais e mais para o coração da floresta proibida, onde morava uma aranha gigante conhecida como a bruxa da floresta. Aracnídea atraía os invigilantes de corações pesados que se perdiam nas sombras da floresta.
Conta a lenda que Aracnídia era uma mulher muito má, uma feiticeira que por castigo Divino adquiriu a forma de uma assustadora aranha.
Minerva, logo que chegou diante de casebre tão horripilante e assustador quis voltar, mas uma voz a atraía para dentro.
Quando se deu por conta estava diante de sinistra criatura, tão assustadora que a paralisou de medo.
-Não tenha medo criança! Você veio até mim porquê precisa de ajuda. Eu posso ajudá-la.
-Creio que ninguem possa me ajudar. Nasci de uma família insignificante e morrerei insignificante como eles.
-E se eu disser que posso transformá-la no que você desejar, o que você faria?
-Eu daria tudo para ser respeitada, temida e admirada por todos! Seria a rainha do lago e todos que quisessem nadar deveriam me prestar reverência para obter a minha permissão.
– Posso torná-la a criatura mais temida e respeitada do lago e entre seus familiares e amigos. Mas pra isso terá que firmar comigo um pacto de sangue!
-Um pacto de sangue?! Mas como se faz isso? Vai doer? É muito sangue?
-Pouca coisa. Apenas o necessário para assinar seu nome no caderno das sombras! Não dói nada.
-Você me garante que eu vou ser poderosa e respeitada?
– Muito mais do que você imagina. Aracnídea falou essas ultimas palavras com um olhar malicioso e um sorriso discreto.
-Sim. Então eu aceito o pacto!
Num estralar de dedos apareceu em suas mãos um livro negro com uns símbolos enigmáticos na capa.
Aproximou-se de Minerva com um objeto pontiagudo e sem que a pata tivesse tempo de reagir fez um corte profundo em uma de suas asas onde jorrou um filete de sangue.
Minerva estava assustada e começou a grasnar. Aracnídia prendeu uma de suas asas obrigando-a a assinar o livro com a mão ensanguentada.
-Você esta me machucando! Porque me sangrou desse jeito? Não era só umas gotas que precisava?
-Cale-se! Quanto maior a oferta de sangue mais chance de dar certo o feitiço.
Minerva aterrorizada e ferida assinou o livro.
-Agora, o que acontece? Perguntou a pata.
-Você já fez a sua parte, e terá o que deseja. Só quero avisá-la que agora não tem como voltar atrás, o pacto foi selado e o livro voltou para o seu local sagrado. Depois de hoje não me procure mais, se o fizer se arrependerá amargamente.
-Não pretendo voltar a esse lugar horrendo mesmo. Assim que tiver o que eu quero partirei sem olhar pra trás.
Aracnídia afastou-se com uma gargalhada assustadoramente infernal e começou a proferir uma ladainha de invocação que tornou o ambiente pesado e sufocante e vultos aterrorizantes surgiam das sombras com rugidos e gritos horripilantes de congelar a alma de qualquer ser vivo.
Minerva começou a suar frio e seu corpo tremia incontrolavelmente. Achou que ia morrer tamanho era o mal estar que sofria e totalmente sem forças desmaiou.
Quando acordou estava num pantano fétido e solitário. Estava com a cabeça sonza e não sabia como tinha ido parar ali. Aos poucos foi lembrando da feiticeira, então forçou os olhos pra ver se avistava o casebre mas nem sinal dele. O que via era só um pantano pestilento e mal cheiroso. Tratou de sair logo daquele lugar horroroso e voltar para sua casa. Queria se ver nas águas límpidas do lago e saber como ia ser tratada de agora pra diante. Por certo seria reverenciada e convidada a nadar no meio dos cisnes e os seus irmãos e irmãs, assim como toda a comunidade a tratariam como uma rainha. Todos a invejariam.
E assim estava, toda alegre e faceira, com a cabeça erguida devido ao orgulho que sentia de si mesmo quando foi se aproximando do lindo bosque de exuberante natureza, com lindos lagos e riachos onde ela e sua familia moravam. Todos os animais que cruzavam o seu caminho saiam espavoridos de medo. Olhavam horrorizados e fugiam em desabalada correria. Ela tentou falar com um dos gansos mas todos levantaram vôo e sairam fugidos procurando nova morada. Era esquilo, guaxinin, coelhos, tartarugas, passaros e toda a fauna fugindo e se escondendo nas fazendas próximas. Ela não entendia o motivo de tanto medo e pavor nos olhos de todos aqueles que eram seus vizinhos, amigos e conhecidos. Muitos haviam crescido junto com ela e agora fugiam como se fosse ela um predador! Que injustiça! Será que era inveja por ela estar tão altiva e magestosa? Eles iriam pagar caro por isso. Foi mergulhada nesses pensamentos que finalmente chegou no lago onde, todas as tardes, a sua familia costumava se reunir para nadar. Foi correndo em direção a eles, louca para contar a novidade e se mostrar quando o mesmo aconteceu. Todos fugiram correndo, outros voando e até mesmo o sapo que estava tranquilo na folha de uma planta aquática pulou pra se esconder. Minerva estava aturdida, confusa! Não entendia o que estava acontecendo. Até mesmo sua familia fugiu dela! Porquê? Aos poucos foi se deixando tomar pela tristeza e indignação quando ouviu uma voz conhecida sugerindo que ela se olhasse através das águas do lago para ver no que ela tinha se transformado.
Foi o que ela fez e quando se deparou com a imagem grotesca e ameaçadora de um imenso jacaré teve um choque! Não queria acreditar que tinha se transformado numa predadora cruel e mostruosa!
-Você me enganou! Gritou Minerva furiosa. – Sua feiticeira dos demônios! Você me ludibriou! Isso é trapaça! Eu quero voltar a ser o que eu era! Não quero ser esse monstro no qual você me transformou.
-Ora, ora minha querida! Eu apenas transformei você no que você já era por dentro. Uma criatura perversa, orgulhosa e prepotente. Mesmo porque você mesma pediu que todos a respeitassem e temessem, eu fiz o que você pediu. Aracnídia se comprazia com o sofrimento e indignação de Minerva, a pata que se achava melhor que os outros e desprezava sua amorosa família.
– Do jeito que estou ninguem vai querer ficar perto de mim. Eu queria reinar absoluta no lago e humilhar aqueles Cisnes idiotas e atrevidos! Olha no que você me transformou! Fiquei pior do que eu ja era!
-Assim você aprende a dar valor ao que perdeu! Tinha uma familia amorosa e que apesar da sua arrogância e estupidez te amavam. Vivia rodeada de amigos queridos num lugar lindo e maravilhoso como esse. Mas se achava superior a todos e estava sempre insatisfeita com tudo e com todos. Foi o seu coração ingrato e frio que a guiou até os meus domínios para que tivesse o castigo que merece. Agora regale-se com o que tem, pois o feitiço só se quebrará quando você aprender a ter amor e humildade no coração.
-Sua bruxa velha! Eu te odeio! Eu exijo que retire esse feitiço agora. Minerva bufafa de ódio e revolta e quanto mais revoltada ela ficava, mais crescia as suas garras e presas. Mais grotesca e assustadora ela ficava.
-Acho bom você se conformar e fugir enquanto é tempo. Os caçadores já estão a caminho!
– Caçadores?! Que caçadores? Quem eles estão caçando?
-Você não sabe quem eles querem caçar? Pois eu vou te dizer: Quem foi o imenso Jacaré asqueroso que apareceu do nada aqui nesse lindo bosque aterrorizando e espantando os animais a ponto deles fugirem em debandada procurando abrigo nas fazendas mais próximas? O homem sabe que quando os animais fogem de seu habitat natural é por causa de alguma ameaça. Verificando que não foi incendio na floresta eles deduziram que é algum predador. Aracnídia destilou todo o seu veneno nesse aviso que ela teve prazer em dar. Sua risada era uma Gargalhada alta e atrevida, mostrando que se deliciava com a desgraça da pata que não era mais pata. Esperta como era sumiu numa fumaça preta e fedida para não ser vista pelos caçadores que já miravam ao longe o imenso Jacaré.
Minerva, desesperada, tentou fugir mas já era tarde demais. Os caçadores a alvejaram com dardos tranquilizantes e ela caiu inconsciente.
Acordou depois de algumas horas com um chip, uma espécie de rastreador pregado em seu couro. Depois de algum tempo, após a zonzeira passar é que percebeu onde estava. Tinha voltado para o
Pantano fétido e assustador onde tinha acordado pela primeira vez após o encontro com Aracnídia. Não podia acreditar que teria que viver naquele lugar obscuro, solitário e asqueroso pro resto de sua triste vida. Sabia que seria muito arriscado sair dali. Seria caçada novamente, talvez até por caçadores inescrupulosos que poderiam matá-la para vender seu couro para fabricação de bolsas e sapatos. Chorou, urrou, gritou de ódio, tristeza, mágoa e desesperança por ter sido lograda pela bruxa má. Era assim que se sentia, uma vítima nas mãos daquela bruxa má e trapaceira. Só o tempo faria Minerva perceber que somente ela foi a responsável pela sua própria desgraça. Naquele lugar desolado, triste e desabitado ela teria tempo suficiente para analisar a sua vida e aprender com seus próprios erros. O Tempo dobra os corações mais endurecidos.