Ganhei uma ampulheta de presente alguns dias atrás.
Mais de 150 dias, para ser mais exata.
Aguardando a areia escorrendo na ampulheta… como alguém suporta observar isso?
Quebrei a ampulheta pra contar grão por grão de areia;
Mas, ainda assim, se eu conseguir contar tudo, vai ser menos agoniante do que olhar a areia caindo sem controlar isso.
Alguns de nós apreciariam a areia escorrendo…
Queria ser o “algum de nós”. Acho nobre até, mas não nasci espectadora, e isso é horrível — mas até que gosto muito.
Penso que a sede, a fome e a saudade são assuntos pra ontem!
E a fome ainda tem como suportar um pouco mais: o corpo aguenta o jejum de alguns dias por instinto.
Mas a sede e a saudade são insuportáveis!
Acho que essa frase foi dita por alguém que resolveu enquanto o tempo passava.
Cronos não se importaria em resolver nada além de passar; tenho certeza disso.
Mesmo que eu esteja errada, é minha certeza.
Será que na Amazon tem cola para consertar essa ampulheta?
(Mesmo sabendo que eu prefiro segurar areia na mão a perder tempo juntando cacos.)
Se eu me perder na conta desses grãos de areia — enquanto tento chegar num resultado e confirmar que eu tenho razão (ficarei triste demais caso eu não tenha) —, mas, se eu me perder na contagem, irei para a praia mais próxima e devolverei esse amontoado de areia roubada pra lá como manifesto da minha frustração!
Mas eu queria tanto saber quantos são em quantidade…
150 dias esperando a areia acabar;
E eu acho que a ampulheta estava quebrada antes mesmo de eu a quebrar — pra resolver do meu jeito —, porque não é possível que eu já tenha feito tantas coisas enquanto o tempo — que só tinha a função de me gerar acontecimentos enquanto passava — só passou sem me entregar memórias novas.
A inércia da vida me dá agonia.
Já o movimento das coisas me sequestra facilmente a atenção e a vida.
Imagina que horror: ser areia dentro da ampulheta!
Além de refém de um espaço fechado, condenada a fazer sempre o mesmo movimento até o fim, e depois disso repetir tudo outra vez.
Eu, se fosse a areia, ia mesmo preferir que arrebentassem o espaço em que tentaram me conter e me devolvessem ao mar.
E, até agora, eu não faço ideia de quantos grãos de areia tinha ali.
Mas sei que aguentei esperar o meu máximo de espera:
150 dias olhando aquela areia repetindo movimento, reprimida.
Eu arrebentaria novamente a ampulheta pra trazer movimento à existência daquela areia.