A chuva que, lá fora, a gravidade gera,
massaja-me as contraturas nos ouvidos
e relaxa a tensão que em mim impera.
Por momentos, escorro com as gotas,
sem terrores, nem assombros.
Sem os gritos dos inocentes
que jazem sob os escombros
que alguém decidiu necessários;
sem o sangue secando nos dentes
dos que não têm que comer
nem encontram o que beber;
sem a fria dor dos sem casa,
porque alguém assinou sem ler
ou a alguém não basta enriquecer.
Por momentos, neste estado,
a janela é metáfora de mim
e vejo o que me suja a ser lavado:
as árvores, que no seu impune tombar,
fazem o Tempo correr mais rápido
por se perder sua memória milenar;
os animais, que não podem escapar
da pele ou chifres que a evolução lhes deu,
ou das balas que, por isso, neles se vão cravar.
Por momentos, por instantes apenas,
o mar ainda explode limpo
nas areias infinitas e serenas;
o gelo derrete onde e quando é suposto;
é água só e não crude decomposto.
A chuva, quando cai, é para todos...
Porque é que continuamos sujos?