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@alanaledoyen
Numbers, letters, learn to spell → Alana & Dimitri
Quinta, 16 de Novembro de 1972
Cher Alana,
Fui lendo a sua carta e percebi que você tem uma habilidade bem legal com as palavras. Não sei o que é. Acho que Madame Tissou já mencionou antes, isso de conseguir ligar bem as ideias pra que elas não fiquem soltas e confusas, como num mapa sem escala. Mas eu não devia estar prestando muita atenção porque não tenho nenhum adjetivo pra descrever isso. Bom, de todo jeito, interprete isso como uma tentativa de elogio à sua carta.
Essa sua Professora McGonagall parece ser incrível. Ela já se transformou no meio de uma aula? Já perguntou pra ela como é se transformar em um gato? Acho que deve ser do tipo de experiência que te faz uma pessoa nova. Quer dizer, desde que ela aprendeu a se transformar em um gato, ela pôde ver o mundo de uma outra perspectiva. Deve ser bom ter essa opção extra sempre que você se cansa da própria pele. Se você pudesse se transformar em qualquer animal, qual seria? Acho que se eu pudesse escolher, me transformaria em uma coruja. Parece uma escolha meio besta, eu sei, mas eu teria a liberdade de voar por aí e entregar mensagens em todo canto do mundo. Poderia fugir sempre que quisesse e, olha só, poderia até mesmo te levar essa carta e passar um dia com você.
Bom, venho aqui te dizer que o sentido de fertilização e de um bocado de outras palavras continua meio oculto pra mim. Você disse que leu muitos livros sobre muitas coisas. Foi daí que você aprendeu tanta coisa? Será que poderia me recomendar alguns? Nunca fui muito de ler, mas é que não existem muitos livros lá em casa, então nunca tive a chance de me apaixonar por palavras. Bom, na verdade, isso nunca tinha acontecido até dia 11 de Novembro de 1972, que foi quando eu recebi a sua carta. Paixão é uma palavra meio forte e me deixa encabulado, mas acho que ser apaixonado por um livro é isso, não é? Ler os capítulos cheio de expectativa, sorrir a cada palavra e querer sempre mais. Bom, sua primeira carta me disse que eu gosto de ler. Agora acho que eu só preciso… expandir meus horizontes ou coisa do tipo. E falando em expandir horizontes, eu experimentei o chá de maçã que você me recomendou! Mas tenho medo de admitir que eu gostei de verdade de tomar chá. Será que isso me faz um pouquinho menos Francês?
E você tem toda razão. Pra falar a verdade, me descrevem como ‘ansioso’. É uma outra palavra que eu não tenho costume de usar, mas essa eu acho que sei o que significa. Então te prometo aqui (tenho mania de fazer promessas, mas juro que 98.9% delas se cumprem, na verdade, só quebro minha palavra quando digo pra minha mãe que vou limpar meu quarto, ou que não tomei uma detenção, mas espero que você entenda porque eu faço isso), não vou mais perguntar de você para ninguém. Quer dizer, pra ninguém além de você mesma. Sobre o que você me disse:
Sei um pouco sobre as casas porque Madame Tissou nos falou um pouco de Hogwarts, mas eu não consigo lembrar direito qual é qual. Por que você acha que o Chapéu Seletor quis te colocar na Ravenclaw?
Bom, na minha humilde opinião, Alana é um nome mais bonito do que Julie. Se um dia quiser conversar sobre a Julie, sobre seus pais ou sobre qualquer coisa do tipo, saiba que pode falar comigo. Eu declaro (com a sua permissão, é claro) que essas cartas fazem parte de uma zona completamente sem julgamento, que tal? Isso quer dizer que não importa o que você disser (e espero que o mesmo valha pra mim), não vou te enxergar de maneira diferente. É uma promessa. Até mesmo porque, bom, eu não estou te vendo.
Acho que ser metamorphmagus deve ser, literalmente, a coisa mais legal do mundo. Você muda seu cabelo frequentemente? Sou alérgico a gatos. Se eu te visitar algum dia, provavelmente vou espirrar pra caramba caso você tenha uma companhia peluda, mas acho que consigo conviver com isso. Minha cor preferida é o vermelho e eu gostaria de viajar pelo mundo algum dia. Acho que viajar deve ser uma maneira legal de conhecer a história e a natureza, então se um dia quiser viajar comigo para conhecer o mundo, eu adoraria a companhia. Podemos alugar um balão vermelho e azul e dar uma volta ao mundo em 79 dias (bom, sabe como é, pra bater o recorde).
Acho que você acertou em cheio quando me imaginou. Consigo te imaginar como uma pessoa bem inteligente. Você lê bastante e eu acabei de lembrar que as pessoas da Ravenclaw são bem espertas. Se o Chapéu Seletor queria te colocar lá, deve ter um motivo. Tenho um sentimento lendo suas cartas que eu não consigo explicar muito bem (acho que tenho que ler um pouco mais pra achar os adjetivos certos), mas te imagino sendo bem especial, Alana. De todas as pessoas que eu conversei que também participam desse trabalho, nenhuma gostou do correspondente tanto quanto eu. Acho que isso só pode significar uma de duas coisas: a) as pessoas em Hogwarts são incrivelmente chatas ou b) você é incrivelmente especial. E gosto mais da segunda hipótese. Até a próxima coruja.
Dimi
Sexta, 24 de Novembro de 1972
Dimi,
Sinto muito, mas eu discordo. Não acho que eu tenha habilidade alguma com palavras, você sim tem. Gosto de como você escreve, e consigo imaginar você falando cada uma dessas frases. Mesmo não fazendo ideia de como sua voz seja. Madame Tissou parece muito mais próxima de você do que McGonagall é de mim. Pergunto-me se isso tem a ver com a dedicação dela aos alunos ou se isso é apenas com um segundanista em especial. Alguns professores costumam se aproximar de certos alunos por qualquer motivo. Bom, de todo jeito, agradeço o elogio. Sinta-se elogiado também.
Ela é mesmo incrível, parece saber um pouquinho sobre cada coisa que existe. Se transformou no meu primeiro dia. Dá para acreditar? Ela começou a falar sobre Transfiguração andando para lá e para cá, então pisquei e ela era um gato sobre a mesa. Foi demais. Eu nunca perguntei como ela se sente… Como te disse, não sou tão próxima dela assim. Mas por você, perguntarei. Então na próxima carta posso te escrever o que ela me disser. Eu também imagino que ela se sinta assim, veja o mundo por outra perspectiva. Acho que não é uma solução tão boa assim. Quero dizer, você já se cansou da sua pele? Eu não sei em que me transformaria, nunca parei para pensar. Por Mordred, eu só consigo pensar em gatos. A ideia de se transformar em uma coruja me parece interessante e até mesmo tentadora. Gostaria de poder voar sem usar uma vassoura ou feitiços de levitação. Voar porque isso é uma parte de mim. Se você fosse de fato um animago, te obrigaria a vir aqui agora mesmo!
Existem muitas palavras com significados ocultos para mim também, ainda temos muito a que aprender. Nós dois. A maioria das coisas veio sim, dos livros. Outras, através de outras culturas que conheci em viagens. A maioria foi com mamãe. Acho que você deveria ler The Chronicles of Narnia. É um livro trouxa que conta histórias fantasiosas na visão deles. Foi o primeiro livro que eu li, papai quem me deu. Ler é uma das coisas mais prazerosas que existe, você deveria tentar. É como… como se você viajasse por todo o mundo sem tirar os pés do salão comunal. Tenho essa sensação respondendo sua carta, a propósito. Sinto como se estivesse sentada em um dos bancos externos de Beauxbatons com você. Isso deve acontecer sempre que brincamos com as palavras, independente de como. Acho que “apaixonar” é a palavra perfeita para descrever o gosto pela leitura. É exatamente, detalhadamente, como você descreveu. Talvez o cupido tenha acertado uma flecha em seu peito e você nem sequer percebeu. Agora, está caindo de amores por tudo o que envolve junção de letras, palavras e frases. Mas não se sinta mal, com todo mundo deve ser assim.
E não, Dimi! Gostar de chá não te faz menos francês! Essa é minha bebida favorita e me sinto cem por cento francesa. Mesmo assim.
Você é um exemplo vivo de garoto ansioso. Não há dúvidas de que você saiba o que isso significa. Aliás, eu tive uma ideia que talvez anime nós dois: o que você acha de uma coleção de palavras? Palavras estranhas, difíceis de pronunciar e palavras que ainda não sabemos o significado. Hogwarts possui uma biblioteca enorme, com uma sessão todinha dedicada apenas à Dicionários de diversas línguas. Seria divertido. Voltando ao assunto, essa sua outra coruja fará companhia à primeira, e assim tenho duas promessas suas guardadas no fundo do meu malão. (Promessas, algumas delas são difíceis de se cumprir. Não precisa selar um compromisso tão sério assim. Confio em você, mesmo não limpando o quarto às vezes, e levando detenções às vezes.)
Em Beauxbatons não há divisões de alunos, não é? Vou te fazer um pequeno resumo sobre como são separadas as casas aqui. Se quiser, posso te contar a história dos fundadores também, caso você ainda não ouviu. A Gryffindor acolhe os alunos corajosos. A Hufflepuff, os leais. A Slytherin, os sagazes. E a Ravenclaw, os sábios. Não sei exatamente porque ele me quis colocar na Ravenclaw, mas acho a separação de casas uma grande bobagem.
Mamãe disse que Julie é o nome que meu verdadeiro pai mais gosta, então fico muito em dúvida sobre qual é o mais bonito. Eu acho que essa sua proposta se encaixa na lista de promessas que devem ser cumpridas obrigatoriamente. Mas como ainda não me sinto tão bem em falar sobre minha família, você poderia começar contando a sua história. O que acha?
Foi uma grande surpresa me descobrir sendo uma. E é, é mesmo muito legal ser metamorphamagus. Não mudo sempre, às vezes ele muda sozinho. Na maioria das vezes o deixo natural, loiros e compridos. É uma pena você ser alérgico a gatos, eu gosto muito deles. Mas não teria esse problema caso viesse aqui, o meu animal de estimação é uma coruja. Além delas, você pode levar algum outro para Beauxbatons? Eu adoraria te fazer companhia nas viagens, conhecendo mais sobre a natureza e história. Você acha que podemos viajar o mundo inteiro em tão pouco tempo? Mesmo lendo muito, nunca ouvi falar sobre isso.
Não é como se você fosse um mistério. Pelo contrário, te acho bastante… Transparente. É possível te enxergar detalhadamente através das palavras que você escreve. Eu não me acho inteligente, tenho apenas uma boa memória. Guardo tudo o que vejo, leio ou escuto. Eu, sinceramente, não sei o porquê de o Chapéu querer me colocar na Ravenclaw. Talvez tenha algo a ver com o fato de eu priorizar os estudos acima de qualquer outra coisa. A seleção das casas é como um borrão cinza para mim. Tenho esse mesmo sentimento desconhecido, Dimitri. Acho que por nós dois termos nos dado bem. Eu te acho especial. Sobre os outros alunos, eu não posso te responder com certeza o que estão achando sobre o projeto. Digamos que eu não tenho muitos colegas por aqui. De todo modo, eu duvido que alguém tenha gostado mais do seu correspondente do que eu. Até a próxima carta.
Lana
P.s.: Experimente o chá de hortelã. É o meu favorito da semana.
[halloween] Stop complaining and enjoy the night — Nikolay & Alana
Era tão carecido de paciência quanto de tato. Ao menos quando o assunto em questão não lhe era agradável. E participar daquela forma de socialização estava longe de ser uma das suas atividades preferidas. Qualquer forma, na verdade. Aquele aglomerado de estudantes e hormônios, fantasias que beiravam ao desespero à procura de alguém para a noite. Não que aquilo não fosse uma atitude adolescente da parte dos demais, era apenas ele que não seguia aquela regra. Nikolay era ranzinza e não havia motivos para negar tal característica quase que cravada em sua alma. Ao menos que fosse Alana quem o dissesse, porque aí encaderia uma avalanche de acontecimentos que, em suma, terminariam com os dois discutindo por horas e relembrando momentos passados nos quais teriam mil e um motivos para culpar um ao outro. Nada que fosse muito fora do comum na rotina do russo e da francesa. Por mais incrível que parecesse, aquela era sua melhor amiga. Alguém com quem eram raras as vezes que conseguia conviver pacificamente e sem sentir o impulso de arrancar-lhe a cabeça fora querendo dominar seu corpo. Um impulso homicida que logo era controlado ao ver as feições delicadas ou ouvir o riso contagiante da outra. Por mais ranzinza que fosse, Alana também era quem o divertia.
A aproximação da mais nova apenas fazia com que seus lábios curvassem e se abrissem ainda mais em um sorriso triunfante de quem havia acabado de ganhar algo que valesse um cofre cheio de ouro em Gringotts. Havia algo na expressão contrariada da slytherin que o animava sinceramente. O primeiro sorriso daquele dia que continha animação verdadeira. Vê-la brava com ele era divertido, nunca negara. Vê-la brava era divertido, na verdade. Mesmo que o irritasse nos momentos inicias por seus assuntos que em nada o interessavam, conseguia superar aquele momento e alegrá-lo. Embora nunca contasse à garota, pois sabia que a reação dela seria xingá-lo. Outro algo que desencadearia uma nova avalanche de sentimentos. Desta vez com o russo tentando ajuizar a mais nova e reprimindo-a pelos seus palavrões e o fato de ser nova demais para usá-los. Ainda que a diferença de idade entre os dois não ultrapassasse mais do que um ano. Não deixou de sorrir quando ela postou-se ao seu lado, mantendo o semblante contrariado e que deixava claro seu descontentamento com a atual companhia. Divertido.
Uma risada sonora escapou da sua garganta, sendo liberta pelos mesmo lábios que há pouco mantinham o sorriso mesmo com os olhares de reprovação que recebia. O mau humor de Alana só o causava um acréscimo ao seu bom humor; um contraste em relação aos dois, visto que era sempre ele o mal humorado na maior parte dos dois. — Não se esqueça daquela vez que eu disse que você cheirava a livros empoeirados. Eu gosto deles. Além disso, qual a necessidade de falar algo que você já sabe desde o momento que se vestiu pela primeira vez? — Balançou os ombros de forma preocupada fronte à sua forma desajeitada de elogiar, sentido-se um tanto quanto desconfortável e exposto com aquela fantasia. Deveria ter usado algo com um pouco mais de pano. Outra risada. Desta vez sem realmente entender o por quê. Apesar por rir, pela sua companhia e como as atitudes ranzinzas comuns dele a caiam tão bem. Talvez fosse aquele o motivo pelo qual eram amigos: Alana era, de alguma forma, sua personificação feminina e mais nova, tão estranha àquele local quanto ele próprio. — Obrigado. — Respondeu de forma direta, dando por encerrado aquele tópico. Não havia por que esperar elogios dela pela sua fantasia. Não era nem um pouco criativa, apenas pegara o primeiro personagem histórico que havia visto no primeiro livro que abrira. Algo completamente aleatório. — Aproveitar da sua companhia. Tomar algo, comer um pouco. — Tentou enumerar mentalmente os motivos pelo qual fizera questão da companhia da mais nova, citando-os fora de ordem. — E talvez dançar. Por que não? — Novamente, os ombros foram balançados de forma despreocupada, como se aquela última sugestão fosse menos importante do que as duas primeiras. Não era muito bom dançando, mas valia a pena a tentativa. Mesmo que fosse só para animar a garota caracterizada de Morgana le Frey. Embora não houvesse chance alguma em dizer aquilo em voz alta.
Irritar-se com ele não era uma novidade. Em seus piores dias, era possível vê-la revirar os olhos e suspirar exasperada diante de qualquer movimento feito pelo rapaz. Até mesmo quando estava longe. Nikolay era chato, pensava aleatoriamente, em qualquer lugar, a todo instante, e esse era o adjetivo perfeito para descrevê-lo. Irritava-a como ninguém jamais conseguiu, e ele se divertia com isso. Tratavam-se desse modo desde a primeira conversa, e assim como ela previra nada mudou. Ele era estúpido, indelicado, o total oposto de um protótipo de cavalheiro. E apesar da consternação ao encontrá-lo em um canto do salão barulhento e movimentado demais, sentia como se algo muito mais forte do que as suas vontades a levava perante a ele. Alana era feita de diversas manias. Amassava as mangas e barras de suas roupas quando nervosa. Balançava a perna em uma velocidade anormal quando ansiosa. Brincava com os próprios dedos quando envergonhada. Se pudesse, interpretaria cada descrição em frente ao mais velho no instante que o viu. No entanto, mantinha os braços cruzados deixando claro que não estava totalmente aberta às ideias de seu acompanhante, e a expressão séria que mal a deixou apenas confirmava.
O problema naquela noite especial não era a festa, tampouco sua fantasia, mas sim a maneira como fora convidada para acompanha-lo na comemoração mais esperada entre os estudantes. Ele estava sorrindo para ela, sorrindo a ponto de perceber as laterais dos olhos enrugadas e pequenas covinhas em suas bochechas. Nikolay nunca sorria. A vontade de Alana era ofendê-lo, falar palavrões e virar-lhe as costas, mas concordara silenciosamente que aproveitaria aquela noite. E claro, outra hora procuraria um jeito de vingar-se do ravino. Enquanto isso se limitou em mostrar-lhe mais uma carranca desgostosa que contrariava a sua situação anterior e clima da festa. Parecia que ele jamais voltaria a ficar sério.
E como se não bastassem os sorrisos direcionados para si, a risada rouca solta através da garganta dele atingiu seus ouvidos fazendo-a franzir o cenho confusa. Estava mais mal humorado do que ficava em meses, e tentava com empenho mudar isso. Respirou fundo quando o rapaz parou de rir e tentou retribuir o sorriso. Tentou, porque as próximas palavras a fez enrugar o nariz. Não por ter se sentido ofendida ou porque não achava que tinha realmente cheiro de livros empoeirados. Soltou mais um suspiro encolhendo os ombros em dúvida do que deveria responder. — Não acho que dizer a uma garota que ela cheira a livros empoeirados seja um bom elogio — iniciou balançando os pés escondidos sob as camadas do vestido longo. — Além do mais, não pedi que você me elogiasse — imitou o mais alto, balançando os ombros da mesma maneira. Refletindo um pouco mais observando a outra fantasia, deu-se conta de que aquela era a primeira vez que o via com tão pouca roupa. Não conseguiu evitar o sangue correr para as maçãs de seu rosto, deixando ele em um tom rubro. — Hum. Não por isso — deu atenção ao restante dos estudantes espalhados pelo salão pela primeira vez desde que encontrara Nikolay. Queria apenas evitar seu olhar. Não foi sincera no elogio que aparentava ser um gesto apenas educado, mas ignorou a própria voz em sua mente repreendendo-a por estar se comportando daquela maneira. O fato é que nenhum dos dois parecia tão empolgado em ir até o fim com a ideia de fazer coisas de adolescentes normais, como aproveitar a festa dançando ou coisa parecida. Quando ouviu as propostas do rapaz, ergueu as sobrancelhas surpresa, deixando um sorriso escapar de seus lábios, enfim. — Você pretende mesmo me embebedar e dançar comigo? Sério? — questionou em tom descrente combinado com divertido. — Enfim, por que não? — segurou a mão de seu Dionysius com o sorriso ainda marcando seu rosto, deixando aparentes os dentes separados e as mesmas marcas que ele possuía nas laterais dos olhos.
I want to live life, and be good to you — Alana & Dimitri
Imagine um Dimitri de dez anos. Era um garoto franzino e magricela, de cabelos loiros demais, olhos azuis demais, ideias loucas demais e amigos de menos. E nesse mundo de abundância e falta, conheceu a solidão quando não conseguiu se encaixar em nenhum dos grupos sociais do collège public Jean-Rostand. Olhares tortos diziam que sua mão ansiosa no ar era interpretada como exibição, e não entusiasmo para aprender. Todo “pourquoi le ciel est-il bleu?” e “pourquoi la mer est-elle sallée?” que saíam da boca sorridente do jovem, com um tom de entusiasmo e curiosidade genuína eram respondidos com um revirar de olhos. Uma voz condescendente informava-lhe às pressas que aquelas perguntas não faziam parte do cronograma, e, portanto, não deveriam ser respondidas.
Foi a primeira vez que Dimitri sentiu-se inadequado no mundo. Sozinho. Vazio. Noir.
A carta de Beauxbatons veio como uma surpresa alegre. Dava um nome à sua inquietação, um motivo lógico por se sentir tão inadequado. Dizia que ele não era algum extraterrestre que sem querer caiu no lugar errado e acabou vagando sem rumo pela Terra. Não era tão diferente assim. Não, era Dimitri Depardieu, um bruxo de verdade. Tinha poderes de verdade e não estava mais sozinho. A sensação de inclusão era poderosa, do tipo que aquece o coração e faz esquecer de toda tristeza já vivida. O sentimento de pertencer cria cegos voluntários. Mas também foi em Beauxbatons que Dimitri descobriu (sem querer) a diferença de significado entre ‘amigos’ e ‘colegas’.
Os colegas gostavam de Dimitri em Beauxbatons. Talvez porque seu cabelo fosse loiro demais, seus olhos fossem azuis demais e seus atos fossem moderados de menos. Era um novo mundo de abundância e faltas, mas nesse, alguém se lembrara de lhe reservar um lugar. Dimitri era uma boa companhia para se tomar um copo de firewhiskey e, quando se é jovem, amizade parece ser só isso. Boas companhias e sorrisos fáceis.
E seguia sentindo-se inadequado. Sozinho. Vazio. Gris.
Havia apenas quatro anos, tinha descoberto as cores. Era engraçado como palavras escritas em preto e branco podiam reacender seu mundo. Uma carta era o bastante para pincelar traços de azul na sua visão. Duas, três. Verde, amarelo. Quatro, cinco, nove cartas e o preto e branco fora extinto definitivamente. Dimitri era como uma criança empolgada, que cercava o corujal toda semana com expectativa aparente. Já fazia quatro anos que um sentimento especial ia crescendo em seu peito, aos pouquinhos. E, naquele momento, todas as cores transbordavam.
Estava cara a cara com sua melhor amiga. Queria dizer para Alana que ela o tornara completo. Que havia feito com que ele visse as cores novamente. Ficou calado. Era desajeitado, tinha medo de materializar um sentimento tão bonito e acabar por destruí-lo com a força da realidade. Estava encarando olhos azuis tão perto, depois de tanto tempo, e acreditou que seu sorriso involuntário poderia substituir qualquer discurso sem jeito. Se expressava melhor com palavras escritas.
Sacudiu os ombros da direita para a esquerda, até que seu braço tocasse o de Alana, leve, como numa brincadeira infantil. - Acho que você subestima meus poderes, Alana Ledoyen. Tenho certeza absoluta que sou capaz de surrar todo e qualquer Slytherin babaca que encher seu saco por ser minha amiga. - Falando isso, girou o corpo até ficar de frente para a garota e flexionou o braço direito com empolgação. Continuava franzino. Levantou a sobrancelha como quem quer provar algo e acenou a cabeça em um gesto exagerado. - Tudo bem, estou só brincando. Talvez isso não seja tão verdade assim. Mas olha só… O que você quiser fazer, tudo bem? Até que eu aprecio o ar de mistério desses encontros escondidos em salas poeirentas. E você conhece seus colegas melhor do que eu pra saber como eles reagiriam. - Sorriu e deu de ombros. Tentava mostrar, através de seus gestos, que aquilo não tinha grande importância. - Pra ser sincero, estou só feliz de poder te encontrar. Sala empoeirada ou não.
- Olha, te trouxe uma coisa. Na verdade, esperei por esse momento minha vida inteira, só para poder te dizer o quanto você sempre esteve errada. - Segurou umas das mãos de Alana e a levou para perto de um espelho empoeirado, em um dos cantos da sala. Com cuidado, tirou do bolso da calça um pedaço de papel amarelado e entregou para a garota. Não foi capaz de conter o sorriso presunçoso nos lábios. - Não é bonita nem amável, Alana? O único jeito de explicar isso é que você viveu se encarando em espelhos embaçados sua vida inteira. Pensei que era hora de mudar isso. - Levantou a mão livre e tirou a poeira que impregnava a face do espelho, até que a imagem dos dois se tornasse nítida. Esperava que ela visse o que ele via. Uma garota de olhar triste, mas tão bonita e amável quanto se pode ser, sorrindo ao lado de um garoto completo.
Tinha cabelos negros, compridos e com uma franja reta ocultando grande parte do rosto. Os olhos azuis escuros ofuscados pelos fios que caíam displicentes sobre eles. A capa com detalhes em verde e prata, um brasão com desenho de uma serpente destacando-se na altura do peito cobrindo a camisa branca e a saia plissada que ia até pouco acima dos joelhos ossudos. Parecia muito com aquela Alana primeiranista que havia acabado de descobrir sua verdadeira origem e escolhera, por pura rebeldia, fazer parte da casa mal vista pela grande maioria de bruxos do mundo todo. Seus olhos seguiam o melhor amigo (Mordred, ele estava mesmo ali) que caminhava por aquela sala suja e bagunçada como se fosse um belo lugar. Como se fosse o dono de toda Hogwarts.
Ainda era uma criança quando recebeu a primeira coruja. Onze anos, uns bons centímetros a menos, cabelos coloridos e uma cabecinha totalmente confusa. No mesmo momento em que desceu as escadas que dava caminho às Masmorras, perguntou-se se havia tomado da decisão certa. “Meu lugar é aqui?” questionava-se a casa passo receoso enquanto seguia o Monitor Chefe de 1971. A resposta viera semanas depois, junto a um projeto em que fora escolhida para participar de uma interação com estudantes estrangeiros. Vai ser bom. Fará você se expressar melhor. Você ganhará um amigo. Ele é francês como você. Uhum. Ela balançava a cabeça para cima e para baixo, hora ou outra fazendo sons de entendimento com a garganta. Uma garota de seu ano a olhava de soslaio, e a menina alvo da estranha e do pequeno grupo de professores parava com os movimentos. O fato é que mesmo aceitando a oferta da professora de Transfiguração, Alana não sentia o mínimo de empolgação em contar fatos de sua vida para um desconhecido.
Até ter o primeiro contato com seu correspondente.
Quando primeiranista, ainda não conhecia Julie ou perdoara seus pais pela mentira que mudou tudo. Em seu sexto ano, recebia pergaminhos da meia irmã mais nova com bastante frequência. Eram desenhos que relatavam ou seus dias ou letras misturadas mostrando sua evolução no jardim de infância em Lille. Lana, por sua vez, enviava os próprios desenhos ou poucas palavras cuja a interpretação da criança se tornasse fácil e rápida. Coisas demais haviam mudado, e acompanhando essa mudança e amadurecimento, estava o garoto magricela que falava demais, que a compreendia demais e que a julgava de menos.
As corujas, inicialmente, respondidas apenas quando encontrava um tempo entre as aulas, tornaram-se prioridade. Durante o café da manhã, almoço, alguma aula cuja disciplina não despertasse tanto interesse ou nos jardins nos horários de folga. Deixou de se esforçar para se socializar com os colegas de casa, e perceber que o seu segredo-não-tão-mais-segredo estava se revelando aos poucos não a torturava como antes de ingressar na instituição. Nunca se sentiu sozinha, mesmo antes de conhecer o francês. A sua chegada foi apenas um acréscimo. Um soma que a fez concluir que era o suficiente. Quem pediria algo mais quando se tinha a vida e o mundo personificados em melhor amigo?
Não gostava de conversar, assim, ao vivo, mas mesmo tropeçando nas palavras tentando explicar o que a afligiu desde que a coruja com a notícia que Dimitri terminaria o ensino em Hogwarts, tentava convencê-lo de que não o prendia em uma sala empoeirada por vergonha. Mordred, poderia pegar sua mão e sair correndo pelos corredores se o medo de alguém errado presenciar a cena não a consumisse como um dementador. Sairia melhor se estivesse redigindo uma carta. Organizaria as frases, colocaria o receio no pergaminho de modo que o melhor amigo a entenderia e não questionaria.
O braço do gryffindor tocou o dela, fazendo-a imitar o gesto logo depois. Sorriu, um sorriso pequeno e envergonhado. Um sorriso que pedia desculpas por não ser como ele. Ou como era nas cartas. O sorriso cresceu minimamente quando obtivera a resposta do discurso. Chacoalhou os ombros encostando-se mais uma vez no braço de Dimitri. — Não teriam a menor chance com você — pronunciou com a voz baixa, ainda envergonhada com a reação do rapaz, com a própria ideia de esconder a única pessoa que o conhecia melhor do que ninguém em uma sala sem uso e empoeirada. Não foi assim que Alana vizualizou o primeiro encontro entre os dois. Os seus sapatos pareciam mais interessantes do que o rosto expressivo e recém-descoberto. Grande mentira. Não sentia mais confiante em olhá-lo nos olhos. A cabeça se balançou para a direita e esquerda involuntariamente quando obteve a conclusão de Dimitri, e o questionamento sobre ele ser real ou não voltou. Poderia ser apenas um sonho. — Não te mereço, Dimi, sou uma pessoa horrível — encolheu os ombros perguntando-se se havia realmente algum problema caso fossem visto juntos. — Essa sala também não merece você — enrugou o nariz sentindo-o coçar.
A preocupação anterior, no entanto, foi imediatamente substituída diante da informação que lhe fora direcionada. Nem sequer pensara em presentes. A preocupação a respeito do local que testemunharia o encontro além da ansiedade quase infantil de abraçá-lo por fim não permitiu que a menina separasse algo de especial para lhe dar. Merde. Sua mão foi apanhada antes que recusasse o tal presente, sendo levada até o outro extremo da sala sentindo-se completamente confusa. — Você não precisa me dar nada, Dimi, não trouxe nada para você e—… — piscou algumas vezes antes de encarar o espelho na sua frente, e o entendimento viera com o pergaminho amarelado e aparentemente dobrado diversas vezes. Era a sua carta. A carta que escrevera há anos atrás. A primeira de muitas.
Dimitri era exatamente o mesmo desde que o conheceu. Falava demais, brincava demais, fazia Alana rir demais. Alana mudou. Pouco, imperceptivelmente, mas mudou. O sorriso que havia sumido dos lábios minutos atrás voltou tímido. Via no reflexo os dois que, apesar de serem tão diferentes, se pareciam demasiadamente. Eram naturalmente loiros, tinham os olhos azuis, estavam no único lugar que deveriam (e queriam) estar. Empoeirado ou não. Não trouxera nenhum presente para o melhor amigo, e o presente que ele lhe deu era muito além do que um objeto para que ela guardasse como uma lembrança. Aquela felicidade não podia ser tocada, afinal. Encostou a cabeça no ombro do rapaz centímetros mais alto, e ainda encarando os olhos azuis de ambos no reflexo, concentrou-se no vermelho. Vermelho era a cor favorita de Dimi. Cor da Gryffindor, da paixão, cor que preencheu aqueles anos de amizade. Cor dos cabelos de Alana. Um vermelho vivo, exagerado, um vermelho que fez a menina enrugar o nariz numa careta. — Essa nunca foi a minha cor favorita — era a dele, porém, completou em pensamento. E esse era o seu presente.
[flashback] It all started here — Nikolay & Alana
À medida que o sol de punha no horizonte e a temperatura ia descendo, o rapaz acostumado com as temperaturas mais baixas do que o Reino Unido era disposto a prover ia sentindo-se mais confortável do que se sentira em todo aquele dia. Não apenas o dia, mas toda a sua semana. E com muitos dos estudantes entediando-se da vida ao ar livre e seguindo seus rumos para as estruturas do castelo, era possível acompanhar o canto dos pássaros tanto quanto os murmuros vindos das águas. Sereianos, talvez. Ou até mesmo a Lula Gigante, reclamando da solidão de ser a única de sua espécie ali. A mesma solidão que sentia, embora não fosse alguém que externasse seus sentimentos com tanta facilidade quanto muitos dos estudantes que ali residiam. Fossem eles se solidão, felicidade ou qualquer outro. Simplesmente não externava. Até mesmo porque era difícil ser encontrado na companhia de alguma outra pessoa. Na verdade, apenas Lucy era vista ao seu lado. Não era alguém sociável como um todo, afinal.
Mesmo que aquela inércia praticada chegasse a ser maçante até mesmo para o russo quando ficava mais tempo do que julgasse o suficiente sem fazer nada, o primeiro grito de animação dado pelos outros alunos faziam com que lembrasse do seu motivo de isolamento. Não era como os outros. Não da forma mais filosófica e existencialista possível, mas simplesmente não o era. Ou talvez não quisesse ser. Assim como seu sotaque e a saudade de sua terra, sentia a necessidade de manter aquela apaticidade para com o Reino Unido e seus moradores. Uma forma de rebeldia daquele que julgava atos rebeldes estupidez, talvez. Caindo em contradição, da forma mais adolescente possível enquanto fazia de tudo para não o ser. Mesmo que julgasse infantil, demonstrar sua infelicidade diante daquela terra e daqueles que o acolheram melhor até do que merecia era seu único jeito de extravasar na única forma que lhe permitia.
Quando já não era possível enxergar mais do que alguns metros de distância, a quantidade restante de estudantes dirigiu-se ao castelo, e imaginava que pela provável necessidade fisiológica que parecia tão indiferente a ele quanto o contrário: comer. Não havia nada de errado com a culinária, mas tudo aquilo fazia com que ele lembrasse da mãe. Catarina nunca fora adepta da ideia de ter elfos domésticos, assim, era quem cuidava de tudo que se dizia respeito sobre a casa e a família. Tão improvável quanto, depois de seis anos, Londres ter sua aprovação, era os elfos cozinharem algo tão bem quanto sua mãe. Nenhuma Boscht, nenhum Blinis, assim como também nenhum bolo à Kiev, ou sequer Pirojki. Nada que lhe enchia os olhos quando criança, que fazia a saliva acumular-se eu sua boca enquanto a mãe o proibia de roubar a comida que ainda era preparada.
Tão precária quanto sua visão, era aquilo que os britânicos chamavam de frio. Sequer sentia necessidade de usar algum agasalho extra, enquanto imaginava que todos os outros não viam a hora de irem para as lareiras e lugares que os fornecessem calor. E com a escuridão tomando conta dos olhos que tentavam aos poucos ajustar-se, a figura da Casa de Salazar passara tão despercebida pelo descendente de Rowena. Foi somente ao ouvir a breve exclamação vinda do Lago que percebeu que não estava tão sozinho quanto imaginava, postando-se na defensiva, mesmo que assumindo leves sinais de irritação por ter seu momento de calmaria interrompido. — кто там? — Tão instintivo quanto apertar os olhos à procura do “invasor” que imaginava estar na água agora, não pôde conter a mudança de linguagem. Ainda assim, sequer havia percebido que o fizera.
Horas e mais horas sem saber o que fazer para preencher o período que decidiu batizar como “momento de observação”. Havia perdido grande parte de seu tempo livre apenas lendo a respeito de alguns renomados artistas trouxas. Depois disso, sem tanta paciência para as letras miúdas que preenchiam todos os livros que tinha levado naquela tarde específica, decidiu por se servir de alguns petiscos que jaziam em sua mochila. Logo após, folheou os cadernos recheados com cópias de obras famosas de pinturas renascentistas. Alana havia tentado de tudo, absolutamente tudo para se distrair. Todavia, uma inquietação tomava conta de todo o seu corpo, não permitindo que a francesa ficasse parada apenas observando o rapaz com nome complicado do outro lado do lago. Podendo ser comparado a uma estátua, os movimentos do Ravenclaw eram mínimos. Jazia deitado exatamente na mesma posição de quando chegara àquela parte do jardim. Alguém como ele não poderia ser normal, poderia?
Perguntar-se a respeito de normalidade naquelas circunstâncias, contudo, era uma grande ironia. Afinal, estava agindo como uma verdadeira stalker do rapaz cujo nome nem sequer se aventurava em pronunciar. A verdade é que não existia razão alguma para estar ali, tampouco para ficar tão curiosa sobre o russo que mal falava. O problema é que Alana costumava pensar demais quando fazia de menos. E por mais impressionante que aquilo pudesse ser, não pensava em si própria, e sim e inúmeras teorias que explicavam a ida de Bartrev até aquele lugar todos os dias, fielmente. Não era um hábito comum como ir até a biblioteca ler um livro qualquer ou se aquecer fronte a lareira. Fazia frio, e o loiro não usava mais do que um casaco fino para se proteger daquele início de inverno que prometia ser rigoroso. Não, realmente não poderia. Era qualquer coisa, menos alguém genuinamente normal.
Poderia usar aquele ponto do jardim como testemunha de suas reflexões, ou então só podia existir algo na grama onde ele deitava. Talvez, as águas escuras do Lago escondesse algo que ele buscava. E nenhuma divagação a convenceu ao ponto de tentar experimentá-la. O Sol havia se posto, e escurecia rapidamente. Ele não parecia sentir a menor vontade de ir embora, porém. A inquietação antes adormecida pela curiosidade a respeito do rapaz logo voltou a incomodar a menina impaciente. Isso fez com que ela se levantasse bruscamente, balançando uma porção de folhas secas e chamando a atenção de outrem para si. Merda. Manteve-se parada e em silêncio enquanto ele se levantava ficando em alerta. Uma pergunta no meio do silêncio que havia se acostumado, da última pessoa que deveria percebê-la ali. E ouvir a voz alta e surpresa de Nikolay assustou Alana.
E como se não houvesse outra saída se não aquela, pulou na água espalhando respingos à sua volta e sentindo o frio cortante da água submergindo-a. Frio, frio, frio, frio, frio, frio, frio, frio! Era a única coisa que a menina conseguia pensar e dizer parcamente devido os lábios trêmulos em reação ao sentido. O grande desespero com a ideia de estar dividindo espaço com a Lula Gigante e Sereianos fez com que uma exclamação escapasse de sua garganta. Estava totalmente ferrada. Além de molhar todas suas vestes, que agora pesavam em seu corpo e a puxavam para baixo, sentia que já não havia mais jeito nenhum de se esconder. Frustrada e um tanto quanto esbaforida, livrava-se da capa escolar e o casaco extra que utilizava sob o uniforme. Algo que Ledoyen nunca imaginaria, entretanto, era que as posições haviam sido trocadas. Era o objeto de observação naquele momento, e por algum descuido que ainda não conseguia compreender, estava nua da cintura para cima.
Tudo ficou quente e rubro, de repente.
[halloween] Stop complaining and enjoy the night — Nikolay & Alana
Nikolay estava longe de ser o garoto com o melhor tato daquela instituição. Até mesmo de todo o Reino Unido. Apesar de manter uma convivência agora tranquila com a ex-namorada, uma grande parte dele sabia que sua falta de senso era culpada de uma boa parcela dos motivos que levaram ao término. Sua falta de senso e sua atual companhia para a festa de Halloween de Hogwarts, na verdade. Mesmo que “companhia” não fosse o termo adequado para utilizar. Alana havia recusado nas duas vezes em que o rapaz a convidara, e mesmo assim Niko continuava a insistir naquilo. Se comparar àquela comemoração já era algo que não o interessava tanto assim, fazê-lo sozinho era ainda pior. E desde o seu sexto ano e o quinto da sonserina, na primeira vez que se encontraram de fato no Lago, a presença da mais nova era algo constante em sua vida. Então, por que não acompanhá-lo na festa?
— Ledoyen, eu preciso de companhia para aquela festa. Você vai comigo, já que eu imagino que não tenha companhia também.
O rapaz sequer pensou em usar um tom mais educado, ou perguntar se de fato a garota não havia companhia.
— Antes de tudo, Nikolay, você tem que usar da educação. Não é assim que se fala com as pessoas. Muito menos comigo. Agora, se quer saber, eu tenho, sim, companhia. Passar bem.
A garota o havia deixado ali, sem saber o que responder. Alana tinha tantos problemas de convivência quanto ele e era raro ter outras companhias se não o ravino.
Agora, encontrava-se em um dos cantos do Salão Principal observando enquanto a figura fantasiada de Morgana le Fay dirigia-se em sua direção, com a tão conhecida expressão de descontentamento de quando era obrigada a fazer as vontades do russo. Niko, trajado como Dionísio, tentava dar seu melhor sorriso à garota, embora não movesse qualquer outro músculo do seu corpo para diminuir a distância entre ambos. Esperava Alana chegar aonde estava, mesmo que aquilo demonstrasse uma tamanha falta de educação. Assim como o seu “Alana, eu desisto de ser educado com você. Já estou te suportando há um ano, então faça o favor de mover essa sua bunda preguiçosa e me acompanhar." dito no dia anterior à festa, recebendo, por fim, uma resposta positiva da garota que dava-se por vencida.
— Você está… — Bonita? Linda? Incrivelmente linda? Estonteante? Tão diferente e, ainda assim, tão linda quanto em qualquer outro dia? Todas aquelas opções de complemento pareciam certas para concluir sua frase, e, ao mesmo tempo, completamente erradas para o relacionamento dos dois. Embora Alana fosse o que de mais próximo de amizade que ele possuísse em sua vida, não tinha certeza de como tratá-la. Discussões eram frequentes e melhor administradas pelo russo, que sabia muito bem os xingamentos corretos para usar com a francesa que insistia em gritar com ele sempre que sentia-se aborrecida com o mundo. — Legal. — Concluiu, quando a morena postou-se ao seu lado sem dizer uma palavra sequer. Era visível que ainda estava irritada com Nikolay e sua falta de tato.
Ainda se perguntava o motivo pelo qual decidiu separar-se de Lisbeth para fazer o que adiara por quase toda aquela noite. Encontrar uma resposta, porém, estava fora de cogitação. Foi ela quem causou tudo aquilo, afinal. A segurança que sentia ao aproveitar a festa acompanhada da a melhor amiga dissipou-se no instante em que se vira obrigada a se despedir da morena fantasiada de Helena de Troia para que pudesse encontrar, por fim, seu acompanhante. O simples fato de ir atrás de Nikolay Bartrev denunciava uma vitória do Ravenclaw que a Slytherin não gostaria de admitir. Estúpido. Era assim que a metamorphmagus o descrevia para Lis quando dedicavam seu tempo para conversar bobagens. “Alana, eu desisto de ser educado com você. Já estou te suportando há um ano, então faça o favor de mover essa sua bunda preguiçosa e me acompanhar.” A voz rouca em sotaque carregado ainda era fresca em sua memória, como se ele tivesse acabado de proferir as palavras com certa grosseria.
Não foi muito difícil de achá-lo, visto que permanecia parado exatamente no local em que dissera que a esperaria. “Será que esse louco esteve aí desde o início da festa?” Indagou-se em voz alta, incrédula, sob o volume alto da música animada que ecoava por todo o Salão Principal. Por mais que quisesse caminhar até o russo e concluir o que havia lhe prometido, percebeu certa resistência do próprio corpo. O observava de longe. Não sabia dizer se era receio ou nervosismo, mas foram perdidos alguns minutos até que segurasse a parte superior da saia do vestido e caminhasse até o canto correspondente ao que ele estava. O sorriso triunfante estampava o rosto comumente sério, e a vontade da então morena era dar-lhe as costas e ir direto para seu dormitório. Contudo, seguiu o percurso em direção ao mais velho ignorando o fato de que ele nem se dera ao trabalho de se desencostar da parede de pedra. Seus olhos agora estavam estreitos e algo parecido com expectativa tomava conta de seu peito, quando se vira próxima o suficiente dele.
Ele começou a dizer algo, e as reticências no ar fizeram com que a francesa aguardasse pela conclusão da frase um tanto desconfiada. Legal. Certo. — Devo me impressionar. Essa é uma das coisas mais gentis que você já me disse — deu de ombros diante do quase elogio que recebera. No fundo, estava um tanto quanto chateada, esperava um pouco mais. Deu atenção aos bordados da manga do vestido comprido que usava, tentando a todo custo desviar os olhos do peito do mais alto, que exalava uma confiança que a irritava de algum modo. — Você está ok, também — disse colocando-se ao seu lado e pendendo as costas na parede de pedra fria. Os braços agora cruzados e uma expressão emburrada no rosto maquiado sem exageros. — Então? — chamou a atenção alheia encostando o cotovelo em uma de suas costelas desnudas. — O que você planejava me fazendo vir até aqui, huh? — Aquela era a pergunta que valia mil galeões. Que a sorte (ou Morgana, nesse caso) estivesse em seu favor.
We Move Lightly • Dustin O’Halloran
[flashback] It all started here — Nikolay & Alana
Havia lido em algum lugar que manter o sotaque mesmo depois de muitos anos de convivência com um novo idioma demonstrava resistência à nova cultura. Ou seu pai o havia dito aquilo? Não importante, em fato. O que realmente importava era o que Nikolay fazia: resistia. À cultura, às pessoas. A tudo. Morava no Reino Unido há tanto tempo que poderia facilmente ser confundido com um nativo. Mas ao abrir a boca e pronunciar as primeiras palavras com seu sotaque carregado e palavras russas em meio ao inglês, deixava claro que aquele ali não era o seu lugar. Não pertencia à Inglaterra de modo algum. Franz Bartrev até poderia ter apressado a mudança visando apenas o bem do único filho e o que lhe restava de Catarina, mas o rapaz nunca concordara com aquilo. Sair da Rússia era como abandonar sua mãe, que os restos jaziam enterrados a mais de três mil quilômetros de distância da sua atual moradia.
Embora estivesse em Hogwarts há seis anos, aquele lugar ainda lhe parecia um mundo estranho e inexplorado. Nunca passara dos primeiros dez metros que davam início à Floresta Proibida, assim como também nunca nadara no Lago Negro. Ao invés disso, gostava de passar as últimas horas livres do seu dia o mais afastado possível dos outros alunos, observando da margem mais distante as sutis movimentações nas águas que de negras não haviam nada. Divertia-se observando a Lula dançar sozinha com seus tentáculos e os estudantes que tentavam agarrá-los, sem sucesso. Observava as poucas criaturas que deixavam a curiosidade falar mais alto que o instinto de sobrevivência e apareciam na superfície para interagir com dezenas de estudantes maravilhados com o contato. Fazia tudo ao longe, como sempre.
Talvez devesse ter convidado Lucy para acompanhá-lo, seguir os conselhos do diretor e aproveitar um pouco mais de sua estada Hogwarts e as companhias. Mas aquilo não parecia certo, deixá-la invadir o único momento do dia em que sentia-se tão bem a ponto das lembranças de sua mãe lhe aquecerem o coração. Catarina cantava as mais doces canções de ninar com sua voz amorosa e Nikolay era posto para dormir antes mesmo do fim. Embora tentasse ouvi-la inteira, a mãe tinha o dom de fazê-lo adormecer até quando não havia sono em seu corpo e seu organismo gritasse com a energia do açúcar ingeriodo após o jantar. “Я люблю тебя, мой дорогой сын”, ela diria após dar um beijo na testa do filho. E o pequeno Nikolay que jazia embalado por seu sono tranquilo se sentiria amado. Tão amado quanto sentia-se ali, às margens mais distantes do Lago, sem realmente observar agora o mundo à sua volta.
Havia se tornado, de certo modo, algo rotineiro.
Não sabia dizer ao certo quando começou. Pura curiosidade, quem sabe, ou o prazer de correr o risco de poder ser pega em flagrante em qualquer momento. Ou os dois. Alana nem sequer sabia ou se arriscava em pronunciar seu nome, tampouco falar com o rapaz de expressão extremamente séria e orbes tempestuosos que olhavam longe por trás do aro fino dos óculos de grau. O fato é que ele ia todos os dias até a margem do Lago Negro fazer sabe-se lá o que, e isso a instigou. Era claro que os jardins e o Lago era preferência de todos os alunos que desejavam estudar fora da biblioteca ou simplesmente passar algum tempo de distração. O Ravenclaw estrangeiro, no entanto, estava sempre sozinho. Fazia todos os dias o mesmo percurso e parava no mesmo lugar. Sempre. E parecia que ninguém havia percebido, ou sequer se preocupado com o comportamento. Apenas ela.
E por ser somente ela a perceber o estranho hábito do rapaz, viu-se livre em acompanhá-lo na estranheza diária. Tomava o café da manhã, tinha todas as suas aulas normalmente, almoçava, passava algum tempo conversando com Lisbeth ou escrevendo algum bilhete para Dimitri, e no fim, acabava no lado oposto do lago observando o russo encarar o nada com um sorriso raro nos lábios. Era como se aquele lago fosse terapêutico. Acabou se tornando terapêutico para Alana também. E a terapia estranha da qual participava clandestinamente não era capaz de camuflar todo o interesse que havia surgido sobre saber o que o mais velho fazia ali. Todos os dias. Era o oitavo dia em que o seguia, e nenhuma novidade acontecera desde o primeiro. Estava começando a ficar entediante.
Exatamente por estar se tornando um hábito entediante, Lana tomou uma decisão que poderia lhe esclarecer muita coisa. Permaneceria ali até Nikolay Bartrev voltar para o castelo. E quando estivesse devidamente sozinha no local, descobriria o mistério, por fim. O plano era simples, e havia sido concluído ainda em seu dormitório naquela manhã especialmente fria. Mergulharia sob as águas escuras da margem do lago, porque não havia sentido nenhum em apenas observá-las. E enquanto aguardava o tempo suficiente para que o estudante cujas vestes eram enfeitadas com as cores azul e prata, Ledoyen deitou-se sobre a grama verde logo abaixo de uma árvore infrutífera. Pegou um livro qualquer sobre História da Arte de sua mochila que também continha roupas de inverno e pôs-se de barriga para baixo preparada para iniciar sua longa leitura. Sabia que levaria bastante tempo para que pudesse agir, afinal, o garoto do outro lado parecia não se entediar tão fácil quanto ela.
I want to live life, and be good to you — Alana & Dimitri
Olhos atentos rastreavam a página por qualquer palavra que mais chamasse atenção. Assim que encontrada, uma pronuncia torta caminhava pelo ar três ou quatro vezes. Livro aberto, palavra nova, pronúncia ruim, livro fechado, e o ciclo continuava. Não que Dimitri estivesse realmente aprendendo qualquer coisa. Havia repetido umas trinta palavras naquela manhã e tinha quase certeza que quando chegasse a hora de usá-las, lembraria de duas delas e seus significados provavelmente estariam trocados. Quer dizer, a não ser que amnesty fosse realmente algum tipo de anestesia ou nome árabe esquisito, seu progresso no inglês não estava lá muito formidável.
Anonymity. O termo surgiu, meio discreto, meio como quem não quer nada, escondido no cantinho da página quarenta e dois do exemplar surrado. Constava em uma dessas singelas inscrições de pé de página, acompanhado de uma curta explicação em letras diminutas. The quality or state of being unknown or unacknowledged. Dimitri era jovem e ás vezes realmente acreditava que podia achar as respostas para tudo nas páginas de um livro de literatura. Só achava meio esquisito que naquele momento, sem procurar por nada, foi em um dicionário de inglês que encontrou a palavra que descrevia sua situação.
Desde que chegara a Hogwarts, sentia como se tivesse invadido uma festa para qual não fora convidado. Por mais simpáticos que a maioria ali fosse – pessoas, pessoas, Slytherins a parte - às vezes Dimitri julgava que sua decisão de transferência fora um erro absurdo, uma tentativa de fuga tola de alguém que prefere correr a resolver situações complicadas. Mas toda vez que esses pensamentos decidiam lhe invadir a cabeça, eram estrategicamente chutados para um canto isolado, e caiam no esquecimento. Tinha essa ideia de que se evitasse o máximo seus problemas, eles sumiriam eventualmente.
Contentava-se com o sossego que a escola podia oferecer, e as inúmeras possibilidades de se reinventar em seu próprio anonimato. Ninguém ali o conhecia e, tecnicamente, poderia sair pelas aulas espalhando boatos sobre como era descendente direto de Napoleão Bonaparte e a única pessoa que teria credibilidade suficiente para desmenti-lo seria sua irmã – coisa que ele duvidava que ela fizesse só pela diversão de rir um pouco da cara de amantes de chá pretensiosos. E é claro, Alana também tinha esse poder. Alana que o conhecia melhor que ele mesmo, ainda que nunca tivessem tido uma conversa decente cara a cara. Alana que Dimitri podia jurar ter sido sua irmã em alguma vida passada, pois através das cartas que trocavam sentia que eles possuíam alguma espécie de conexão transcedental, dessas que nem Freud é capaz de explicar. E Alana, que por algum motivo esquisito que o garoto não podia imaginar, achava que o lugar mais apropriado para que eles se conhecessem - e conhecessem de verdade, pois olhares trocados no Salão Principal não contavam - era uma sala poeirenta no fim do mundo.
Merde. Estava atrasado. Nota mental número um: nunca mais se distrair tanto com palavras aleatórias em dicionários de bolso. Enrolou o livreto e o guardou em um dos bolsos do casaco, sem cuidado algum. Saiu então em uma frenética busca pelo local de encontro, o ritmo do coração disparado, talvez pela corrida, talvez pela importância iminente que esse encontro carregava. Parou bem diante a porta e tentou controlar a respiração esbaforida antes de tocar na maçaneta. Nota mental número dois: começar a fazer algum exercício para nunca mais beirar um ataque cardíaco em momentos críticos de atraso.
Entrou. Sentiu o tempo parar por alguns segundos, como se entrasse em uma espécie de realidade paralela onde existissem apenas os dois, onde todo o resto se dissolve e se transforma e simplesmente não importa. Estavam ali, Alana e Dimitri, melhores amigos, cara a cara pela primeira vez e isso era tudo que existia. O resto eram detalhes que sumiam com o ar. O sorriso e o abraço vieram naturalmente. - Ei, baixinha. Você esqueceu de retirar uns vinte centímetros quando me contou sua altura pelas cartas. - Bagunçou um pouco o cabelo de Alana num gesto amigável antes de se separar do abraço. Deu alguns passos ao redor da sala, deslizando o dedo por uma das mesas empoeiradas e fazendo uma careta automática. - Não que eu não aprecie salas sombrias e abandonadas onde Drácula provavelmente morou por uns tempos quando passou por Hogwarts, mas você não acha que os Jardins ou a Orla do Lago iam ser um pouco mais agradáveis do que aqui? - O tom era ingênuo, mas em sua pergunta morava outra. Por aqui e não lá fora?
Esperava por aquele momento desde a primeira carta que recebera há quase cinco anos. O conhecia mais do que a si mesma, e sabia que ele a conhecia tão bem quanto. Eram melhores amigos, irmãos, e apesar de imaginar aquele dia durante anos, não fazia ideia de como as coisas aconteceriam quando estivessem frente a frente. Foram anos de conversas, milhares de cartas trocadas, inúmeros segredos compartilhados e muita cumplicidade. Agora que ele a veria, que a conheceria como ela realmente era, tudo poderia mudar. Alana sentia medo de não alcançar as expectativas que Dimitri provavelmente havia depositado na amizade de ambos. Um medo que a fazia sentir uma vontade imensa de sair correndo daquela sala empoeirada e colocar a culpa em seu atraso, no nariz coçando ou qualquer outra coisa ridícula e sem sentido.
Apesar do estômago embrulhado e do pedaço de pergaminho irreconhecível por ter sido tão amassado em sua mão ante o crescente nervosismo, ela não foi embora. Não poderia ir embora. Ansiava por um abraço, por sentir os dedos alheios bagunçando seus cabelos, por um sorriso. E quando ele entrou naquela sala suja e completamente indigna de um encontro tão especial como o qual acontecia ali, tudo viera espontânea e genuinamente. Alana e Dimitri passaram dias e mais dias fantasiando o momento, mas o abraço que trocaram — um abraço breve, mas que significava muito para ela — dizia que nada daquilo poderia ser premeditado.
Nada além de boas lembranças e o cheiro de Dimi ocupava os pensamentos da sextoanista. Ele tinha cheiro de amizade, de lar. Um lar diferente de Hogwarts ou sua casa, ambos tinham data de validade. Tudo em Dimitri gritava duradouro, permanente. A Slytherin sentiu uma enorme vontade de chorar, de repente. Mas não faria aquilo na frente do melhor amigo, na primeira vez que estava encarando os seus olhos fora das fotografias que trocavam. A culpa tomou conta do seu peito tão abruptamente quanto a vontade de chorar viera e se fora.
O sotaque de Depardieu era carregado, como o seu era nos primeiros anos no instituto. Uma risada baixa, um dar de ombros, uma fungada e maçãs do rosto avermelhadas. — Não foi tanto assim, não exagere — rebateu antes de dar outra fungada ao perceber a poeira subir conforme o Gryffindor caminhava pela sala. O questionamento sobre o lugar que ela escolheu para testemunhar a primeira conversa deles viera muito mais cedo do que Alana havia imaginado. Apressado, como havia citado na primeira carta que enviara para ele, em resposta àquela que permanece escondida no fundo do malão. Não se chateie, por Merlin, não se chateie. Ficou alguns segundos em silêncio encarando os sapatos pretos e as meias que cobriam parte de suas pernas. — Não precisa me enrolar dessa vez, Dimi. Sei aonde você quer chegar — caminhou até onde o mais velho estava. Queria que ele compreendesse seu lado. Queria que ele encarasse seus olhos e acreditasse no que ela iria dizer.
Era dia oito de setembro, uma quinta feira. Quatro anos, nove meses e trinta dias, desde que ele havia escrito a primeira carta que os uniu. Uma amizade tão consolidada, tão bonita, que muitos teriam inveja se conhecesse. E exatamente por ser tão, simplesmente... Tão, que Ledoyen temia. Por mais que tivesse explicado absolutamente cada detalhe sobre a personalidade de seus colegas de casa, o loiro parecia não compreender em quais circunstâncias a amizade poderia chegar. Pensou em Evans e Snape novamente, e passou a língua entre os lábios por não conseguir colocar em palavras o que queria dizer ao garoto que ainda aguardava uma resposta.
— Você se lembra, Dimi, de quando te contei sobre alguns colegas aqui de Hogwarts? Naquela carta, quando eu estava no quarto ano? — iniciou após uma fungada que deveria ser um suspiro, mas estava difícil de puxar o ar para seus pulmões em meio a tanto pó. — Lily Evans e Severus Snape. Você lembra? Ela Gryffindor e ele Slytherin — o que sobrara do papel esquecido em sua mão obteve novamente a atenção da menina, que voltou a amassar suas pontas. — Parecia que ninguém apoiava a amizade deles, sabe? Era como se fosse errada. ... Ninguém deixava nenhum dos dois em paz, era horrível — maneou a cabeça em sinal de negação tentando não imaginar se o episódio se repetisse entre os dois. Pensar nos dois se tratando como os ex-melhores amigos agiam na presença do outro era perturbador. Talvez estivesse exagerando, mas a ideia de perdê-lo para uma briga ou insulto involuntário estava fora de cogitação. — Eu tenho medo de acontecer conosco, entende, o que aconteceu com eles — confessou. Alana já não se sentia tão confiante como estava no início do discurso, mas ele a compreenderia. E se não compreendesse, daria um jeito de fazer com que as coisas ficassem melhores. Era seu melhor amigo, afinal. E ele sempre fazia isso, mesmo longe.
[Halloween, 1977] Two shots of happy — Lisbeth & Alana
Parada diante do enorme espelho emoldurado em prata, Lisbeth Mulciber não se reconhecia: a morena que a encarava do outro lado da superfície refletora trazia em volta das pálpebras uma quantidade de maquiagem jamais utilizada em toda a vida da slytherin, destacando-lhe os olhos muito azuis; os cabelos negros, propositadamente desalinhados e adornados por uma delicada coroa de louros, cobriam as costas em quase toda sua extensão; o vestido acinturado e de apenas um ombro nascera do mais fino cetim, deixando em evidência as curvas femininas que acabavam passando despercebidas sob o uniforme da escola. Ela era Helena de Tróia. O nome soava forte, imponente, mas a caçula dos Mulciber nunca o havia escutado até Alana Ledoyen – sua companheira de quarto e única amiga – sugeri-la como inspiração para a fantasia da festa de Halloween. Tudo o que sabia a respeito de Helena resumia-se ao título de “mulher mais bonita do mundo”, segundo a deusa Afrodite, pequena informação que obtivera através de uma lida superficial sobre a figura histórica.
Ali, em frente à própria imagem, Lisbeth se viu na obrigação de admitir que, sim, estava bonita. Não bonita o suficiente para fazer jus ao posto da sua musa inspiradora, mas o bastante para levá-la a se sentir satisfeita consigo mesma. Ela não era dona de uma auto estima muito elevada, por assim dizer. – Preciso confessar, adorei a ideia. – Falou à Alana, que terminava de vestir-se como Morgana le Fay, a famigerada bruxa das trevas contemporânea de Merlin. Levando em conta que o evento começara há mais de uma hora, somente as duas encontravam-se no dormitório e, portanto, possuíam total liberdade para falar sobre o que bem entendessem. – Só imagino a cara do meu irmão se me visse com uma fantasia trouxa. E você está linda, aliás. – Elogiou com sinceridade enquanto dava aos lábios o formato de um sorriso, um pouco antes de sentar-se na cama da francesa para colocar o calçado, o último item da produção. Tão douradas quanto seus braceletes e coroa, as sandálias de Lisbeth subiam pelos tornozelos em diversas tiras até encontrarem fim já na altura dos joelhos. O salto era mínimo e, provavelmente, seria possível aguentá-lo durante toda a noite. – Shall we?
Observando Lisbeth terminar de arrumar os cabelos em frente ao espelho, já vestida com a fantasia que havia recomendado para a amiga há alguns dias, Alana se sentiu orgulhosa em sugerir Helena de Tróia. Sua própria fantasia, a propósito, havia lhe agradado bastante também. O vestido comprido, que provavelmente se mostraria raro na festa que estava prestes a ir, caía apropriadamente no corpo esguio e pequeno. Não usava nada além de um anel em sua mão esquerda e um par de brincos simples para completar o figurino. A intenção era não chamar atenção. Já bastava o episodio passado alguns dias atrás em que fora protagonista de algo constrangedor o bastante para que tomasse cuidado com tudo o que faria pelo restante do ano letivo. Terminava de ajeitar alguns detalhes do vestido cheio de bordados e camadas, enquanto observava a Mulciber mais nova, que não demonstrava qualquer preocupação com o tempo que haviam perdido apenas se arrumando para a festa que já havia se iniciado, terminar de se arrumar.
— Eu também — respondeu a colega de casa, referindo-se não apenas à fantasia alheia, mas também a sua, que fora ideia dela. Uma troca de favores. Um sorriso pequeno moldou-se em seus lábios enquanto sentava-se em uma cama que não era sua, para aguardar Lisbeth terminar de se arrumar. — Ele ficaria furioso. ... Se descobrisse de quem é. Espero que nunca descubra, de qualquer forma — encolheu os ombros segurando a barra mais curta de uma das camadas do vestido longo e se levantou desamassando algumas dobras e o lugar que havia mexido anteriormente. — Você está linda — pontuou, conhecendo a modéstia da morena há tempo suficiente para saber que ela precisava ouvir aquilo vezes o bastante para que se convencesse de que só não estava, mas era. Acenou a cabeça, por fim, concordando em subir para o Salão Principal. Calçou os sapatos simples e sem salto que havia separado, aproveitando que a saia os esconderia apressadamente. — Acho que perdemos metade da festa — franziu o cenho, dando conta daquilo apenas naquele momento. O fato é que não se importava com o atraso. Não esperava qualquer coisa da festa, a não ser o banquete diferente e as bebidas comumente proibidas pelos professores.
Numbers, letters, learn to spell → Alana & Dimitri
Quinta, 09 de Novembro de 1972
Alana Ledoyen,
Pra ser sincero, não sei muito bem o que escrever aqui. Achei até meio gozada essa ideia de trabalho, isso de escrever uma carta pra alguém que você não conhece. Acho que tem uma boa chance de você não estar o mínimo interessada no que a gente faz aqui na França, ou de achar que eu não estou interessado no que vocês fazem aí em Hogwarts, e nessa confusão de afazeres e países diferentes a gente acabar não conseguindo conversar direito. Então vou te fazer uma promessa aqui e agora, e dizer que estou verdadeira e completamente, sincera e legitimamente, franca e honestamente interessado em tudo que você tem a dizer. E te dou completa liberdade pra usar essa carta contra mim no futuro.
Fiquei pensando em um bom tempo no que falar escrever nessa carta. Não sei se você percebeu, mas eu tenho mania de enrolar as coisas e nunca falar o que eu devia falar e a maioria dos professores acha isso frustrante. Meus pais acham isso frustrante também. Acho que minha irmã não se importa, e acho que gosto um pouquinho mais dela por isso. Madame Tissou me deu uma lista de três coisas que eu tinha que te contar sobre a minha vida até o final desse pergaminho, mas acho que até agora só falei de uma. Nunca fui muito bom em seguir regras, muito menos listas com regras, então resolvi fazer uma lista própria (sem regras) pra responder essas perguntas. Madame Tissou disse que eu não vou poder mandar essa carta se não tiver respondido todas elas, então lá vai:
Meu nome é Dimitri Depardieu. Dimitri significa “aquele que pertence à deusa da fertilidade.” Perguntei pro meu pai o que isso significava e ele se enrolou todo com uma conversa sobre colheita e cegonhas, então caso você souber uma definição melhor, agradeceria muito se pudesse me mandar na próxima carta.
Gosto de saber o significado dos nomes das pessoas. Fui pesquisar o significado do seu nome e achei um bocado de coisas, mas acho que você ia gostar de saber que um monte deles envolve ‘bonita’ e ‘amável’. E acho que os nomes devem carregar algumas verdades. Ás vezes isso pode significar que todos os Dimitris que viveram até hoje foram férteis, e todas as Alanas foram bonitas e amáveis. Não sei se é possível confirmar uma coisa dessas, mas acho que seria bonito se houvesse um padrão. Gosto de acreditar nessas coisas.
Tenho doze anos, uma irmã mais nova e nunca vi graça nem em Quadribol, nem em Sapos de Chocolate, nem em chá. Se conseguir me explicar porque as pessoas gostam tanto dessas coisas, vou agradecer.
Perguntei pra Madame Tissou sobre você, mas ela disse que não podia falar nada. O que é outra coisa gozada, porque depois de insistir por uns bons trinta minutos ela me disse que eu tinha sorte porque você sabia falar francês e isso devia facilitar as coisas entre nós. Então acho que sei três coisas sobre você. Seu nome é Alana Ledoyen, você sabe falar francês, e, se nomes realmente dizem a verdade, deve ser bem bonita e amável. Eu sei que não é muito, mas acho que é um começo. E olha, já prometi lá em cima que estou interessado em tudo que você tiver pra me contar, então, como Madame Tissou me mandou dizer, aguardo ansiosamente pela sua resposta e espero conseguir descobrir outras três ou mais coisas.
Dimitri Depardieu
Sexta, 10 de Novembro de 1972
Dimitri Depardieu,
Para uma primeira carta, até que você tem bastante assunto. Vou te confessar que essa ideia que os diretores tiveram em fazer os estudantes trocarem correspondências me interessou bastante. Me interessou ainda mais quando soube que a Beauxbatons estaria envolvida. Ao contrário de seus inúmeros achismos, eu adoraria saber como é o ensino no país onde nasci e provavelmente estudaria se não fossem as inúmeras viagens que Maurice papai faz. E duvido muito que você não está interessado em saber como uma francesa se porta em uma escola repleta de Ingleses. A promessa, de todo modo, foi feita. E como todas as promessas que se prezem, ela deve ser cumprida. Vou guardar essa carta no fundo do meu malão. Só por via das dúvidas.
Eu não acho isso frustrante. Sabe, sobre você falar, enrolar e nunca dizer o que deve dizer realmente. Acho que estou soando tão confusa e enrolada quanto você, mas eu gostaria de poder fazer isso também. Eu sou muito direta, entende? Isso frustra muitas pessoas que convivem comigo também. Essa Madame Tissou parece ser uma mulher bastante rígida, e inteligente. Me lembra bastante a Professora McGonagall. Ela é uma animaga, e pode se transformar em um gato quando e onde quiser. Eu também recebi uma lista com itens que deveria dizer na carta. Ele vai ser bastante útil, porque ainda não disse nada de relevante aqui, não é? Me desculpe por isso.
Eu não sei se deveria dizer, mas acho que sei o que fertilização quer dizer. Deveria te falar? Se você diz que se pai te enrolou, talvez seja porque você não pode saber por enquanto. Acho que isso que ele te disse a respeito de cegonhas veio de uma crença trouxa. Li muitos livros sobre muitas coisas antes de vir para Hogwarts.
Sinto muito te desapontar, mas a sua teoria é um pouco falha. Não sou bonita, muito menos amável. Mamãe diz, a propósito, que eu deveria me portar mais como uma menina. Mas... Se isso te consola, ainda existem muitas Alanas no mundo que podem se encaixar no significado de seus nomes. Por favor, não dê muita importância para as coisas que escrevo aqui.
Eu tenho onze anos, e também nunca vi graça alguma em todas essas coisas que você citou. Salvo apenas o chá, que tomei gosto quando me mudei para a Inglaterra. Você deveria experimentar chá com sabor de morango ou maçã, são muito bons e cheirosos.
Em apenas uma carta, acho que descobri bastante coisa sobre você também, Dimitri Depardieu. A primeira delas, é que você é um garoto bastante apressado. Mas não faz mal. Isso pode fazer com que nós dois nos aproximemos mais rápido, também. Madame Tissou se mostrou muito sábia novamente. Você não deve pegar dicas a meu respeito sem que eu dê todas elas. Que graça teria conhecer e se corresponder com outra pessoa sabendo absolutamente tudo sobre ela? Farei questão de não perguntar nada sobre você para outras pessoas. Enfim, aqui vão algumas coisas sobre mim:
Aqui em Hogwarts existe uma divisão de alunos. São quatro casas, Slytherin, Hufflepuff, Gryffindor e Ravenclaw. Um chapéu muito, muito velho que fala, escolhe em qual casa nós vamos ficar em nosso primeiro dia de aula. Esse chapéu queria que eu fosse selecionada para a Ravenclaw, mas pedi para ele me colocar na Slytherin.
Eu também tenho uma irmã mais nova, mas ela não é filha dos meus pais. Ela se chama Julie e ainda é um bebê. Só soube que ela existe pouco antes de entrar em Hogwarts, e isso me chateou bastante. A história é longa e eu acho que ainda não estou preparada para falar sobre isso.
Gosto do seu nome, tenho 11 anos e sou metamorphmagus. Minha cor favorita é azul. Não gosto de doces, mas poderia viver de geleias de frutas. Quando estou em casa, ouço muita música clássica e leio livros de História. Todos os tipos de História. Tenho vontade de conhecer mais sobre a natureza e meu animal favorito é gato.
Eu gostei dessas coisas que você me disse sobre você. Passei a te imaginar como alguém bem animado e falante. Já consegue me imaginar? Espero que você continue mantendo a promessa do início da carta, e não desista de mim por não me portar como a menina que minha mãe gostaria que eu fosse. Vou tentar responder o mais rápido que puder todas as cartas, porque já aguardo a sua com um pouquinho de ansiedade também. Bom, agora eu preciso ir para o café da manhã. Até a próxima coruja.
Alana.
[Flashback] She found the lonely sound — Alana & Lorcan
No momento, aulas eram a última coisa na lista mental de preocupações de Lorcan, muito menos aulas de Poções, sendo essa a matéria que o híbrido obtinha as melhores notas. Slughorn começara a pronunciar nomes de alunos que precisariam ter tutoria especial até os NOMs e, como tinha certeza que não estava envolvido na lista, deixou a mente divagar sobre os assuntos que mais lhe preocupavam no momento. No entanto, teve pouco tempo para isso, pois, quando menos esperava, seu nome foi chamado em voz alta pelo mestre de Poções. Não conseguiu esconder a expressão confusa instalada em seu rosto – ele realmente precisava de um tutor? Só pensar em ter que estudar semanalmente com a mesma pessoa já lhe dava más sensações – o ravenclaw não era o maior fã de interações humanas e banais. Não quando podiam descobrir seu segredo.
Por respeito ao professor, levantou do lugar onde estava e foi até a mesa dele, já pensando em alguma desculpa que convencesse Slughorn que ele estava indo bem e não precisava de ninguém para ajudar. Antes que pudesse começar o discurso ensaiado em alguns segundos, abriu o pergaminho que lhe fora entregue. A situação era pior do que pensava.
“Sr d’Eath,
Devido seu bom desempenho nas aulas de Poções, o senhor está convocado a ajudar a senhorita Alana Ledoyen a melhorar seu aproveitamento. As reuniões de tutoria serão todas as sextas-feiras após sua última aula do dia na biblioteca.
Professor Horace Slughorn.”
Todas as sextas-feiras. Lá se vai sua privacidade, suas horas sozinho que tanto prezava. Não conhecia a garota citada por Slughorn, mas apenas um olhar pela sala já o fez encontrá-la, lendo um pergaminho semelhante ao dele. Era quase tão pálida quanto ele e consideravelmente mais baixa – ou ele era alto demais -, com cabelos negros e traços indiscutivelmente franceses, assim como a mãe de Lorcan, Aine. Discutia consigo mesmo se era melhor falar sobre isso já ou deixar que o assunto fosse esquecido por ambos. Considerando que era sua reputação com Slughorn que estava em jogo, achou melhor combinar já todos os encontros – franziu o cenho novamente em pensar nas suas próximas sextas-feiras – decidiu ir atrás de Alana para adiantar os assuntos. Não queria que ela o procurasse.
Apressou os passos em direção a ela, que já estava colocando a alça da mochila no ombro, e a alcançou antes que pudesse dar o primeiro passo à saída, bloqueando o caminho. Ela não parecia muito feliz com aquilo, talvez tivesse decidido esquecer, ao contrário de Lorcan. – Suponho que você seja… Alana Ledoyen, certo? – Olhou para o pergaminho, certificando-se do nome dela, enquanto o pronunciava com o sotaque levemente francês herdado pelo convívio com os pais. Mantinha a expressão séria, deixando claro que aquele contato só estava sendo feito a mando do professor, nada mais. Não precisava de mais amigos, não precisava de mais uma pessoa a quem mentir sobre as vezes que sumia ou por que ninguém podia passar alguns dias das férias em sua casa. – Achei melhor resolver isso logo, afinal, sexta-feira já é amanhã – pigarreou antes de continuar a falar o que planejara. Lorcan era assim, tudo que falava e fazia era friamente pensado e calculado com alguns segundos de antecedência, cuidado nunca era demais.
Ele estava, evidentemente, querendo chamar a atenção do professor.
Alana gostava de Poções, mas a mania ridícula do docente da disciplina e diretor de sua casa em classificar e separar seus alunos como bem ou mal sucedidos lhe causava apenas apatia. Não sabia se o garoto pálido de cabelos bagunçados e olhos fundos fazia parte do tal Slug Club, mas tinha certeza que existia algum interesse quando o viu caminhar em sua direção e interrompê-la quando tentava sair da sala o mais rápido possível. O revirar de olhos foi involuntário, não era como se controlasse esse tipo de coisa. Esperava que ele não tivesse notado, no entanto. Cruzou os braços fronte ao corpo e aguardou que o outro se aproximasse e dissesse enfim, o que queria dizer. O Ravenclaw, d’Eath, não parecia tão animado com a ideia de interagir, a sextoanista percebeu quando estava próximo o suficiente. Talvez ele não tivesse interesse algum em agradar o professor. Era apenas uma obrigação, no fim das contas.
Ergueu a cabeça para que pudesse olhar para o rosto do rapaz, que era alguns centímetros mais alto, sentindo as maçãs de seu rosto se aquecerem ao se lembrar do pretexto de o garoto iniciar a conversa. — Certo, sou eu — respondeu rápida e indiferente. Se havia se surpreendido com a pronúncia perfeita de seu nome, nem sequer demonstrou. O fato é que havia sim chamado sua atenção pelo sotaque, só não queria que ele soubesse. Já tinha se envergonhado o bastante para uma quinta-feira que ainda estava longe de terminar. E a sexta-feira ainda a esperava. — Tudo bem — contrapôs a oferta em tom baixo e um dar de ombros. — Mas que fique claro, eu não sou ruim em Poções — franziu o cenho erguendo o dedo indicador, descruzando os braços. — Esse professor é maluco — queixou-se, ainda insatisfeita com a ideia de ter aulas de tutoria. Alana verdadeiramente não carecia de ajuda, e ainda não compreendia a razão de ter seu nome entre os que precisavam.
Baixo aproveitamento. Tsc.
A sala estava ficando vazia. Em poucos minutos, o almoço seria posto para os estudantes. E com certa esperança, olhou para o lugar onde Lisbeth Mulciber, uma de suas únicas amigas esteve durante toda a aula. Ela, obviamente, não foi chamada pelo professor Slughorn. O gesto tornou-se vão quando verificou a carteira vazia. Encolheu os ombros arrumando mais uma vez a bolsa cheia de livros sobre um único ombro, sentindo-a pesar. Almoçaria sozinha. — Será que podemos conversar a caminho do Salão Principal? — indagou dirigindo-se até a porta. — Estou com muita fome — mentiu. Não tinha tanta fome, apenas achava muito desconfortável ficar na mesma sala com alguém que nem sequer era de sua casa quando já não tinha mais ninguém conhecido ali. Enquanto marchava para fora da sala agora com um ou dois alunos ravinos além deles próprios, não olhou uma vez sequer para trás, mas podia sentir alguém atrás de si, seguindo-a. Bom. — d’Eath. d’Eath, sim? O que você quer resolver, exatamente? — virou-se para constatar que o rapaz ainda estava ali, e o esperou até que a alcançasse.
Alana Ledoyen's costume for the Halloween Party: Morgana le Fay.
"Lux Aeterna" by Clint Mansell.
I want to live life, and be good to you — Alana & Dimitri
O silêncio na sala e em qualquer lugar próximo de onde estava era sepulcral. Buscar um local como aquele para ter um momento com seu melhor amigo não lhe parecia lá uma prova de amizade, ao contrário do que o outro fazia quando respeitava sua vontade e receio e aceitava as condições para tê-la por perto. O cômodo era amplo, mal iluminado e havia uma camada espessa de poeira sobre todas as mesas e cadeiras empilhadas em um canto mais distante da janela. Estava escurecendo, mas o horário posto para que os alunos de Hogwarts se resguardarem ainda custaria a chegar. Alana Ledoyen enrolava uma mecha dos cabelos escuros no dedo indicador tentando disfarçar a ansiedade e impaciência. Fazia semanas que não conversava decentemente com Dimitri, mesmo por cartas, e não teria sossego até se certificar de que o gryffindor estava bem. A última vez que falara com o recém-chegado em Hogwarts fora ainda na França, e ela sentia-se um pouco estranha com a ideia de vê-lo diariamente e não poder demonstrar o carinho que sentia por ele.
Medo. Era a única coisa que fazia com a sextanista mantivesse a maior distancia possível do loiro. Não medo do que aconteceria consigo, mas sim pelo que aquilo poderia acarretar ao seu amigo de infância. Seu melhor e talvez único amigo. Não fazia ideia de como as pessoas de sua casa reagiriam vendo o setimanista novato que fora selecionado para a Gryffindor caminhando com uma Slytherin. Afinal de contas, ainda se lembrava como a amizade entre Snape e Evans havia acabado. Em hipótese alguma permitiria que o mesmo ocorresse com eles. Àquela hora o salão comunal estaria repleto de estudantes famintos e mesas fartas com os mais variados tipos de refeições. Um momento perfeito para se ausentar e não chamar atenção para o fato. Além do mais, não era como se qualquer outra pessoa além de Emilia Greengrass fosse notar sua falta na mesa ocupada pelos estudantes da casa da serpente.
O pequeno bilhete dobrado cuidadosamente no bolso interno de sua capa possuía a assinatura de Dimitri. Alana vasculhou procurando-o sem o cuidado que tivera quando o colocou ali e abriu-o a fim de procurar alguma coisa que justificasse a causa de seu atraso. Uma troca de horários ou um aviso de que precisaria fazer alguma coisa antes de vê-la. Nada. Caminhou para longe das vidraças de onde provinha a luz no ambiente e buscou um apoio nas mesas empilhadas, encostando o quadril ali. Tinha o pedaço de pergaminho entre os dedos, e dobrava suas pontas com a intenção de distrair-se ou apenas aquietar sua hiperatividade. Quando Alana escutou o barulho de passos abafados vindo de algum corredor próximo e respirou fundo, estava cansada de esperar. Guardou o recado no mesmo local de onde havia tirado e quando ergueu a cabeça direcionando os orbes azuis escuros até a porta, permitiu que os dentes que pouco exibia aparecessem em um sorriso sincero e cheio de saudades.
O cabelo loiro despenteado caía sobre os olhos ora verdes ora azuis do rapaz e aquilo não parecia incomodá-lo. A expressão de curiosidade na face de Depardieu era tão familiar, e tão aconchegante que fazia com que o peito de Lana se aquecesse como se tivesse se aproximado de uma grande lareira após andar durante muito tempo em meio à neve sem qualquer proteção contra o frio. O sorriso cresceu, e a menina não se policiou quando os próprios pés caminharam na direção do mais velho. A poucos centímetros de um abraço forte ou um beijo em sua bochecha, o sorriso foi diminuindo aos poucos e a sensação de ansiedade que a envolvia há pouco se esvaíra quando percebera que ele estava inteiro. Concluiu, portanto, o que havia planejado desde que entrara na sala deserta que a fez coçar o nariz irritado com o cheiro e o pó; os pés ergueram-se até ficar nas pontas dos dedos e os braços finos circularam o pescoço alheio buscando o abraço que havia desejado desde o que o vira pela primeira vez no salão principal conversando com alguns membros da casa a qual pertencia.
[Flashback] She found the lonely sound — Alana & Lorcan
“Alana Ledoyen.”
Merda.
Professor Slugorn ainda aguardava aquela que havia chamado com um pergaminho onde lia os nomes dos alunos que precisariam de tutoria até os NOMs em mãos. Alana não precisava de tutor nenhum. O último “A” que recebera em seu dever, abaixo do “E” que recebera anterior a este não era um “T” para tanto alarde. Mas mesmo assim, seu nome estava na terceira posição da lista do diretor de sua casa, que estendeu um envelope pequeno quando por fim se aproximara da mesa. Embora o professor exibisse um pequeno sorriso compreensivo, a francesa limitou-se a abaixar a cabeça e virar-se a fim de voltar para seu lugar. Suas bochechas estavam quentes, assim como o pescoço e as pontas de suas orelhas. Sentara ao lado de uma menina de pele morena e fitas coloridas nos cabelos, mas não a conhecia. As aulas de poções do quinto ano da Slytherin eram divididas com os estudantes da Ravenclaw. Algo realmente bom, ela pensava, considerando que a casa azul era a mais próxima da sua.
“Srta Ledoyen,
Devido seu baixo aproveitamento nas aulas de Poções em relação às outras matérias, a senhorita está convocada a comparecer as reuniões de tutoria com o senhor Lorcan d’Eath todas as sextas-feiras após sua última aula do dia na biblioteca.
Professor Horace Slughorn.”
Era quinta feira e se Alana acreditasse em qualquer coisa, pediria para essa coisa que a semana terminasse logo. Pediria para que seu professor reconhecesse que aquilo era totalmente desnecessário. Olhou para o outro extremo da sala onde o supradito no pergaminho lia um pergaminho que provavelmente anunciava a mesma coisa que o seu. Ele tinha os cabelos negros e olhos fundos, como se nunca dormisse direito. Era pálido e nunca o vira sorrir. Respirou profundamente e deixou que o ar escapasse por entre os lábios sentindo a cabeça começar a pesar. Teria que falar com ele. Combinar onde se encontrariam, qual ponto seria estudado e mais um monte de besteiras que até então foram ignoradas pela garota.
A aula estava terminando, e não teriam mais nenhuma naquele dia. O professor tirava as dúvidas de alguns alunos que formavam um meio círculo em volta dele e a slytherin sabia que faziam aquilo apenas por causa da grande influência que poderiam ter no futuro caso o professor simpatizasse com eles. Lana já separava seus materiais guardando todos na mochila grande demais e pesada demais para alguém de seu tamanho, para que pudesse sair o mais rápido dali. Talvez fosse melhor deixar para falar com o ravenclaw pálido quando fosse realmente necessário. Sinceramente, ela não tinha vontade alguma de puxar qualquer conversa depois de saber que precisava de tutor para aumentar suas notas.
No entanto, quando colocou a bolsa pendurada em seu ombro direito pensando em alguma maneira de fazer com que aquilo ficasse mais leve, seu caminho fora bloqueado por alguém centímetros mais alto que ela. Levantou a cabeça para que pudesse mirar o rosto de Lorcan d’Eath que ao contrário de sua conclusão anterior, parecia querer conversar a respeito das tais aulas que se iniciariam no dia seguinte. Colocou uma mecha do cabelo comprido para trás da orelha ainda o encarando e encostou-se em sua carteira, esperando que ele começasse a falar o que quer que fosse.