Era como se todos os seus ossos estivessem quebrando, um após o outro, enquanto ela tentava se levantar e sair do mar gelado. Seus cílios pareciam ter sido colados um ao outro, rachando ao se separarem novamente para que pudesse enxergar. Levantou-se devagar, ainda sentindo-me quase a ponto de desmaiar novamente, o corpo quase completamente mortificado grudado no gelo era de difícil locomoção. A vários e vários metros era possível avistar Marcos, impassível, com um olhar petrificante. Ele andava lentamente passando por cima da neve com a maior tranquilidade. Alaska imaginou o que viria a seguir, Marcos não era de se irritar com as bobagens da garota, mas, dessa vez ela havia passado dos limites imagináveis.
Eles haviam se conhecido quando Alaska chegou na Inglaterra há dois anos, um pouco depois da sua passagem pela América Central e do Sul. Quando chegou parecia apenas mais uma sobrevivente estranhamente confusa com vontade de aprender. Marcos de inicio não a levava a sério, e ela certamente o retribuía da mesma forma. Seus poderes eram semelhantes, ou ao menos, tão semelhantes quanto poderiam ser. Ela queria aprender a manipula-los melhor, a ter controle total sobre eles. Sabia que poderia fazer grandes coisas se tivesse a ajuda de Marcos, e depois de algum tempo, bebidas, cigarros e um acordo ele começou a ajudá-la.
O acordo de início foi bem simples, estavam em uma mesa tomando uma bebida quando Marcos lhe propôs "Quando você estiver pronta, treinada e tiver dominando seus poderes. Você vai embora, e vai parar de me encher", a garota aceitou, não questionando muita coisa. Ela certamente gostava da Inglaterra, principalmente porque fazia mais frio do que nos EUA, mas, ainda assim não questionaria Marcos, até porque não apreciava tanto a sua companhia.
Alaska não saberia dizer como começou a se interessar pelos seus poderes, provavelmente depois da guerra contra Drakalion. Ela havia aprendido no susto algumas coisas, mas, sentia-se muito vulnerável. "Das cinzas as cinzas..." esse era um de seus ditados, porém se arriscar sem ao menos nenhum recurso era claramente estupidez, até mesmo para a garota. Havia ganhado alguma responsabilidade com os anos, a se importar um pouco mais com as pessoas, e ás vezes até fazer mais amizades sem interesse ou prazer algum, a ajudar algum grupo ou fazer alguma coisa apenas porque era o certo. Havia conhecido muitas pessoas em um período de quase três anos, mas, havia ficado mais próxima apenas de algumas delas.
Tinha Jonathan que era seu melhor amigo na América do Sul, ele era inglês e eles começaram a se falar basicamente porque não entendiam praticamente nada do que os outros falavam em português. Anna, a garota que detestava seus cigarros. A primeira vez que sentou perto dela enquanto fumava, percebeu que a mesma virou o rosto e começou a perturbar-la com aquilo, até que um dia começaram a conversar e percebeu que então ela não era tão detestável assim. E então tinha finalmente Marcos, com a qual ela estava passando dois anos treinando seus poderes. E agora, depois de todo o estrago que ela havia feito, provavelmente a expulsaria de sua colônia, de sua vida e provavelmente também de toda a Inglaterra.
Seus passos eram duros e implacáveis, quando chegou a garota não teve coragem de dizer nada, ao menos olha-lo nos olhos, com a cabeça baixa ela esperava os sermões e a irritação. Ao invés disso, Marcos apesar despejou uma mochila no chão. Alaska analisou a bolsa e viu que era a mesma que havia trazido em sua vinda, havia ganho de um dos sobreviventes que morava na América Central, se ela não estava enganada. A bolsa verde parecia estufada e carregada com suprimentos "Ao menos ele não vai me mandar embora com as mãos vazias", pensou ela.
— Hora de ir embora, Clark. — disse Marcos firmemente, o eco começando a se espalhar.
— Não foi minha culpa, Marcos, eu não queria congelar... Você me pediu neve, mas, tudo começou a sair do controle... — Começou a se desculpar, um pouco aflita, Alaska não gostava de pedir desculpas com frequência, de certa maneira ela acreditava que seus atos tinham consequência e apenas acatava a elas. Mas dessa vez era praticamente injusto. Ela não tinha feito de proposito. Não sabia que tentar causar uma pequena tempestade de neve em maiores proporções de espaço acabaria por congelar tudo o que se via. Mesmo ainda irritada, preferiu apenas pegar a mochila e sair.
— Não estou expulsando você. Eu esperava que isso fosse acontecer alguma hora, por isso treinamos distante do resto da colônia, e também porque minha casa é aqui do lado. E apesar dela agora estar cheia de neve e de que se eu não começasse a parar você entraríamos em uma nova era glacial, não é por isso que chegou a hora de ir embora. Nós tínhamos um acordo, lembra? Você conseguiu, não tem mais o que fazer aqui, agora pegue suas coisas e volte pros EUA. — disse ele com um sotaque arrogante, mas, em seguida não suportou dar um meio sorriso.
— Vou sentir sua falta, Marcos. — disse ela abertamente, não resistindo aos impulsos de lhe abraçar. — Vá me visitar...
Em seguida segurou a mochila ainda com dificuldade e começou a andar cambaleante até o centro da colônia, para então seguir de volta a sua casa. Começou a se lembrar da primeira vez em que esteve lá, dentro do quarto com uma volta de cubos de gelo. Teve a plena consciência que realmente sentia falta de muita gente, de Claire, Josh, Finn, Julie, Sammy Danny e de várias outras pessoas de Yandell e de Draven. Por algum tempo percebeu que seu labirinto havia tomado novas proporções, outras dimensões, por enquanto estava tudo calmo, mas, ela sabia que não iria continuar daquela maneira. Estava em movimento.