Usuário
Sou usuário há 22 anos.
Comecei com discada, era uma criança de 11 anos ainda. Era um bagulho caro e chamava atenção. Buscava um barato qualquer pelo cadê, ig e uol. Não dava pra chapar muito e tinha que usar na frente de todo mundo em casa sem pudor.
Em pouco tempo a droga alastrou. Aos 12 se espalharam as bocas, comércios chamados de Lan House. Era coisa de boy e tu pagava o uso por minuto. Quem tinha condição virava uma noite usando com outras pessoas no chamado corujão.
Dos 16 pros 17 já tava viciado no consumo de mega byte. Chapava via 4shared, orkut, the pirate bay, msn. Passei a me consumir por scraps, depoimentos, mensagens e emojis. Comecei a viciar na postagem de fotos com o fotolog. Experimentei o YouTube. Passei a upar vídeo. E a partir dessas redes vieram os efeitos colaterais de ansiedade e narcisismo.
Aos 22 minha adicção passou a andar no bolso. Passei a usar na rua, no banheiro, transporte público, sala de aula, biblioteca, trabalho, consultório, teatro, restaurante, shopping, museu e na cama antes de dormir. Sozinho e acompanhado. Era só pagar e uma empresa te fornecia na hora de onde tu tivesse, nas modalidades pré-pago ou pós-pago. Fali.
Junto disso chegaram dois produto no Brasil: facebook e twitter. Fissura total, mistura de texto, foto, vídeo, atenção e ego. Um ano depois lançaram o Instagram. Onda de fotos com filtro, mas usando com ou sem filtro, um bagulho altamente tóxico. Aumentava consideravelmente o número de pessoas que, como eu, consumiam juntas só no seu próprio grupo. Nos fechamos.
Depositei tempo para ganhar "reconhecimento", e não me reconhecia. Só aos 29 diminuí meu uso e entendi que a conexão que tanto buscava não era com o mundo, mas comigo. Compreendi meu uso como ferramenta de trabalho, tráfego de informação e amplificação de histórias. É como um programa de redução de danos. Em parte, o próprio uso contribui para minha sobrevivência e, sendo assim, tento converter para expandir e compartilhar interesses. Hoje, com internet fico atento e sem internet fico seguro. E o aprendizado é o caminho do meio, entre obeservar árvores e algoritmos. Vou parar por aqui que já estou emojionado.
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